"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 29 de outubro de 2016

O sexo das mulheres: mistério e prazer (Parte 3)

A banhista, Ingres 

A sexualidade das mulheres: um mistério, e considerado como tal.

Misteriosa, a sexualidade feminina atemoriza. Desconhecida, ignorada, sua representação oscila entre dois polos contrários: a avidez e a frigidez. No limite da histeria.

Avidez: o sexo das mulheres é um poço sem fundo, onde o homem se esgota, perde suas forças e sua vida beira a impotência. É por isso que para o soldado, o atleta, que precisam de todas as suas forças para vencer, há a necessidade de se afastarem das mulheres. Segundo Kierkegaard, "a mulher inspira o homem enquanto ele não a possui". Essa posse o aniquila. Esse medo da sexualidade da mulher que não se pode jamais satisfazer é a origem do fiasco, temor constante de Stendhal.

Frigidez: a ideia segundo a qual as mulheres não sentem prazer, não desejam o ato sexual, uma canseira para elas, é bastante difundida. Balzac, em La Physiologie du mariage, texto alusivo e preciso ao mesmo tempo, mostra mulheres que alegam estar com enxaqueca para furtar-se ao dever conjugal, o qual, no entanto, é prescrito por seus confessores.

Daí surge, para os homens, a necessidade, a justificativa de procurar o prazer em outro lugar: amantes, prostitutas, mulheres sedutoras das casas de má fama, em plena expansão no século XIX, são encarregadas de remediar essa "miséria sexual".

Os homens sonham, cobiçam, imaginam o sexo das mulheres. É a fonte do erotismo, da pornografia, do sadomasoquismo. E provavelmente da excisão das meninas, prática largamente difundida ainda hoje na África muçulmana, e mesmo na Europa, em consequência das migrações. O prazer feminino é tolerável?

As mulheres cuja sexualidade não tem freios são perigosas. Maléficas, assemelham-se a feiticeiras, dotadas de "vulvas insaciáveis". Mesmo quando ficam velhas, fora da idade permitida para o amor, as feiticeiras têm a reputação de cavalgar os homens, de tomá-los por trás, o que, na cristandade, é contrário à posição dita natural: em suma, têm a reputação de fazer amor como não se deve fazer. Diana figura a sexualidade liberada. A feiticeira alimenta a escuridão das noites de sabá.

A histérica é a mulher doente de seu sexo, sujeita a furores uterinos que a tornam quase louca, objeto da clínica dos psiquiatras. Charcot, nas segundas-feiras do hospital de Salpêtrière, perscruta seus movimentos convulsivos, que explodem, por vezes, em manifestações coletivas de internatos ou de fábricas no século XIX. Novas feiticeiras, as convulsionárias assemelham-se às possuídas de Loudun que Urbain Grandier tentava exorcizar. Mas é o seu útero, e não o diabo que é incriminado. A histeria abre o caminho para o caminho para as "doenças das mulheres" e para a psiquiatrização e psicanálise dessas doenças.

A toalete matutina, Christoffer Wilhelm Eckersberg

No século XIX, a histérica sofre uma metamorfose, produzindo-se um duplo movimento, identificado por Nicole Edelman: 1) a histeria "remonta" do útero ao cérebro; ela atinge os nervos, doentes. A mulher torna-se "nervosa"; 2) com isso, nota-se uma extensão ao outro sexo. A histeria atinge os homens. "Estou histérico", escreve Flaubert a Sand. Charcot confirma. A guerra acentuará o diagnóstico da bissexualidade da histeria.

A sexualidade consentida, e mesmo exigida, é conjugal. Mas não sabemos muita coisa sobre ela. Altar da sexualidade, o leito conjugal escapa aos olhares. Até a Igreja recomenda discrição aos confessores, apesar de sua reprovação ao pecado de Onan. Não há, entretanto, outro meio de evitar a concepção, e o coito interrompido, numa França que restringe seus nascimentos desde o século XVII, é bastante praticado. "Engana-se a natureza até mesmo nas aldeias", escreve Moheau em Recherches et considérations sur la population de la France (1778). Cada vez mais preocupadas em limitar a dimensão de sua família e prevenir a gravidez não desejada, as mulheres apreciavam os maridos "atentos" e elas próprias sabiam se furtar. Não era sempre que repudiavam as carícias conjugais, longe disso, e queixavam-se da negligência e mesmo da impotência de seus companheiros.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 65-7.

domingo, 12 de junho de 2016

Heresias

Jan Huss sendo queimado na fogueira por heresia, Diebold Schilling, o Velho, 1485.

No ano de 325, na cidade de Nicéia, foi celebrado o primeiro concílio ecumênico da cristandade, convocado pelo imperador Constantino.

Durante os três meses que o concílio durou, trezentos bispos aprovaram alguns dogmas necessários na luta contra as heresias, e decidiram que a palavra "heresia", do grego "hairesis", que significa escolha, passava a significar "erro".


Ou seja: comete erro quem escolhe livremente e desobedece os donos da fé.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 171.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Novo mundo, novos termos

1492 mudou o mundo. Diferentes interpretações e conceitos tentam explicar as origens e os motivos dessa mudança. Mas cada um deles corresponde a diferentes posições ideológicas e pontos de vista dos estudiosos que se debruçam sobre a questão. O que parecia claro a todos é que tamanha transformação não podia ser atribuída apenas ao avanço da técnica ou ser mero reflexo da expansão comercial e marítima e da conquista de mercados, próprias da revolução comercial que se instalou na Europa no final da Idade Média.


Assim, após a constatação da existência de um mundo novo, repleto de surpresas, diferenças e similitudes, era preciso entender historicamente aquele fato. Como classificar esse acontecimento que abalou as formas de pensar do homem quinhentista?

Os conceitos de "descobrimento" e "achamento" têm o mesmo significado e se referem a algo previamente conhecido. Assim, o descobrimento do Novo Mundo, em 1492, não consistiu num fato absolutamente novo, pois já se sabia que havia terras ao ocidente da Europa e que em qualquer momento poderiam ser encontradas. Esse conceito difere de "descoberta", que significa descobrir algo desconhecido anteriormente, que não se conhecia ou se imaginava conhecer.

De fato, informações sobre ilhas ou regiões situadas no oceano ocidental eram de conhecimento dos homens da Idade Média, por meio de mitos e relatos dos povos antigos, como o de Estrabão (64 a.C.), de Plínio, o Velho (23 d.C.) e de Platão (428 a.C.), além da mítica Atlântida, retomada pelo Pseudo-Aristóteles (Livro das Maravilhas) e por Diodoro da Sicília (século I). Arqueólogos e outros pesquisadores procuram evidências da presença na América de cartagineses, fenícios e gregos, entre outros povos. Expedições marítimas relatavam a existência de terras a oeste da Europa, mas foi a expedição de 1492 que confirmou a existência de um Novo Mundo.

Para alguns historiadores, considerar o encontro como um fenômeno de conquista e dominação é subestimar a cultura do "outro". No entanto, considerar um encontro de civilizações também suscita dúvidas, já que o "outro" foi pego de surpresa, vítima da complexidade tecnológica trazida pelos europeus e dos deuses que o abandonaram diante do estrangeiro branco e barbudo, vítima também das discórdias e fragmentações internas, dos ódios e disputas de seus pares.

Por outro lado, considerar o acaso e aceitar que as terras foram achadas é uma forma de pensar mecanicista e simplista. Isso porque houve muito empenho em encontrar riquezas, mapas foram traçados, astrolábios, bússolas e toda a cartografia foram utilizados para descobrir riquezas e engrandecer os países europeus, a Espanha e Portugal.

O conceito de "encontro" é encobridor porque se estabelece ocultando a dominação do mundo europeu sobre o mundo do índio americano. Também não pode ser um encontro de duas culturas, em que o mundo do outro é subjugado e excluído, onde predomina o etnocentrismo, a superioridade da cristandade sobre as religiões indígenas e total desprezo pelos ritos, deuses, mitos e crenças dos nativos.


O massacre de Cholula, Félix Parra

No México, desde 1984, historiadores debatem o conceito de encontro e apresentaram o conceito de "encobrimento", por um lado, e a necessidade de desagravo ao índio, por outro. Durante a comemoração do V Centenário do Encontro de Dois Mundos, em 1992, o historiador Miguel Leon Portilla lançou o conceito "Encontro de Duas Culturas", e Felipe Gonzalez, durante as festividades dos 500 anos da América, falou em festejar o descobrimento como um encontro. Era mais uma posição política, em função da integração europeia e da abertura da Espanha à América Latina.

Já o conceito "invenção" foi proposto por Edmundo O' Gorman, que considerou que Cristóvão Colombo estava convencido de ter chegado à Ásia e constatado naquelas terras algo conhecido anteriormente, mas ainda não explorado. Por isso, chamou os habitantes de "seres asiáticos". Colombo morreu desconhecendo que havia encontrado um novo continente. Para o autor, "invenção" indicava que a América não foi descoberta ou achada, mas inventada à imagem e semelhança da Europa. Também o reconhecimento dos habitantes como seres asiáticos é uma invenção que só existiu na imaginação dos grandes navegantes e contribuiu para o desaparecimento do outro. O "índio" americano apenas deu vida a este ser inventado.

O conceito de conquista é adotado como prática de dominação. Trata-se de uma concepção jurídico-militar. O conquistador é o primeiro homem moderno ativo, prático, que impõe sua individualidade violenta a outras pessoas, ao outro.

Assim, as ideias de descobrimento, achamento, invenção e conquista dominam a historiografia sobre as formas como o Velho e o Novo Mundo se complementaram no sistema planeta-mundo.

Maria Teresa Toribio Brittes Lemos. Novo mundo, novos termos. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, nº 84, setembro 2012. p. 36-37.

NOTA: O texto "Novo mundo, novos termos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristianismo

O cristianismo antigo tem duas etapas históricas claramente distintas. Houve uma primeira fase em que se difundiu pelas comunidades judaicas da Ásia Menor e do Egito e que “incluía uma grande variedade de vozes, um extraordinário leque de pontos de vista”. Na Síria e no Egito, convivia com seitas judias diversas, antes da fase de predomínio do gnosticismo, em que a doutrina se impregnou de traços do pensamento oriental e do paganismo greco-romano. Era lógico que as diferenças doutrinais não fossem vistas como decisivas a grupos que compartiam a crença de que o fim do mundo estava próximo. Este componente escatológico, herdado da tradição apocalíptica que florescia na Palestina nos tempos de Cristo, foi um elemento fundamental do cristianismo ao redor do ano 200 quando, não tendo chegado o fim do mundo, os cristãos voltaram à vida normal. Desde este momento, as posturas extremas sobre o ascetismo conservaram-se apenas entre os grupos mais extremados do cristianismo oriental. Na cristandade ortodoxa, a norma da castidade absoluta ficou para os “pais do deserto” – os ascetas egípcios ou os eremitas da Síria ou Capadócia -, de quem os monges a tomaram e, só gradualmente e muito mais tarde, generalizou-se no clero secular.

Folio Papiro 46 contendo 2 Corintians, 11:33-12:9 (uma das primeiras coleções do século III das epístolas paulinas)

ενσαργανηεχαλασθηνδιατουτειχουσ
καιεξεφυγοντασχειρασαυτουκαυχασ
θαιδειουσυμφερονμ[ε]νελευσομαιδε
εισοπτασιασκαιαποκαλυψεισκυοιδα
ανθρωπονενχωπροετωνδεκατεσσαρων
θιτεενσωματιουκοιδαειτεεκτοστουσω
ματοσουκοιδαοθσοιδεναρπαγεντατον
τοιουτονεωστριτουουρανουκαιοιδατον
τοιουτονανθρωπονειτεενσωματιειτε
χωριστουσωματοσουκοιδαοθσοιδενοτι
ηρπαγηεισυονπαραδεισονκαιηκουσεν
αρρηταρηματααουκεξονανθρωπωλα
λησαιυπερτουτοιουτουκαυχησομαιυπερ
δεεμαυτουουδενκαυχησομαιειμηενταις
ασθενειαισεανγαρθελωκαυχησομαι
ουκεσομαιαφρωναληθειανγαρερω
φειδομαιδεμητισεμελογισηταιυπερ
οβλεπειμεηακουειτιεξεμουκαιτη
υπερβολητωναποκαλυψεωνιναμη
υπεραιρωμαιεδοθημοισκολοψτησαρκι
αγγελοσσαταναιναμεκολαφιζηινα[μη]
υπεραιρωμαιυπερτουτουτρις[τονκυριον]
παρεκαλεσαινααποστηα[πεμουκαιει]
ρηκενμοιαρκεισοιηχα[ρισμουηγαρ]
δυναμισ[ενασθενειατελειταιηδισταουν]

A segunda etapa da história do cristianismo antigo é a de sua associação com o poder político do Império Romano, que o transformou em um “governo eclesiástico paralelo ao secular”, que com ele colaborava no cumprimento dos decretos imperiais. Seu caráter plural e comunitário desapareceu. O cristianismo transformou-se na Cristandade, que via a si mesmo como uma comunidade unitária e hierarquizada aspirava incluir todos os homens, estendendo seu controle a todas suas atividades.

Desde o primeiro momento, o imperador Constantino deu um sentido político a sua aliança com o cristianismo. A Igreja seria um dos apoios essenciais do império cristão que sobreviveria no Oriente até o século XV. No Ocidente, onde a estrutura imperial ruiu muito antes, a Igreja tentou restabelecê-la com a coroação de Carlos Magno em Roma ou com o papado imperial, que levaria os pontífices romanos a reunir o poder político e a função sacerdotal na sua pessoa, como herdeiros do império.

Nesta nova situação, criada pelo reconhecimento político do cristianismo, não podia permanecer a convivência pacífica das diversas correntes; era necessário eliminar os dissidentes: hereges e cismáticos. Os primeiros dissidentes perseguidos, os donatistas do norte da África, não discordavam na doutrina, mas se opunham à aliança do cristianismo com o poder político; consideravam-se os autênticos herdeiros da Igreja dos mártires e condenavam os que se aliavam ao império, valendo-se da força deste para impor-se nas divergências entre os cristãos. Alguns fiéis optaram por soluções pessoais que não ameaçavam a Igreja hierárquica e eram aceitos por esta, como os amacoretas, que se retiraram para o deserto, ou os monges, que se encerravam em mosteiros para levar vida em comum.

A “oficialização” do cristianismo não deve ser confundida com a cristianização do império, que se produziu a longo prazo e em uma série de etapas. O século IV foi um período de convivência pacífica em que a velha religião continuou a abrir templos, receber subsídios e regular a passagem do tempo com suas festas. Após a fugaz restauração do paganismo por Juliano, a situação começou a ser modificar com Teodósio I, que apoiou o estabelecimento da unidade religiosa através da força: fechou os templos pagãos e condenou os sacrifícios de animais como atos de alta traição.

Apesar das mediadas repressivas, entretanto, os sacrifícios continuariam a ser feitos de forma clandestina. Seriam necessárias perseguições e campanhas militares para acabar com as últimas comunidades pagãs, o que parece não ter acontecido até o século IX (os pagãos tinham, agora, mártires como Hypatia, uma professora de filosofia que foi apedrejada em Alexandria pelos seguidores do bispo). Frente a esta situação, os últimos filósofos pagãos começaram a fugir para a Mesopotâmia, onde estabeleceram uma comunidade que conservou a cultura grega e a transmitiu ao mundo islâmico.

A igreja cristã de Roma não era única. Havia, para começar, a do Oriente, quer dizer, a que seguiu associada ao império (que chamamos de bizantino) e que, depois, esteve associada aos novos poderes que os substituíram: o sultão turco ou os soberanos de cada país nas diversas igrejas nacionais. Houve também uma cristandade asiática muito importante que, no século XIII, se estendia desde o Egito até o mar da China, com núcleos relevantes na Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso e Síria, e com conventos na Ásia Central, entre os turcos e mongóis.

A maior das igrejas cristãs asiáticas foi a nestoriana. Sua origem remonta à Igreja persa, que se tornou independente do Ocidente em 424, rompendo seus laços com Bizâncio. Seu chefe, o catholicos, residia em Ctesifonte, porém a atividade missioneira pela rota das caravanas criou comunidades cristãs desde Java até Azerbaijão. Em 1009, os kerait, o maior e mais culto dos povos mongóis da Ásia central, converteram-se ao cristianismo nestoriano. Mais tarde, seriam dominados por Genghis Khan, que respeitava as religiões dos povos que integravam seu império, não faltando, entre seus sucessores, quem mostrasse simpatia pelos cristãos.

Os mongóis foram, durante muito tempo, a grande esperança do cristianismo do Ocidente. Em 1258, organizaram uma cruzada que reconquistou Alepo e Damasco, onde as tropas vencedoras entraram em 1260 com um general nestoriano mongol na liderança, acompanhado de um príncipe armênio e de um cruzado ocidental. Porém, não encontraram apoio nem nos cruzados de Jerusalém nem no papa de Roma, que preferia a aniquilação dos hereges ao triunfo de um cristianismo plural (de forma semelhante, os cristãos do Ocidente permaneceram, mais tarde, indiferentes à tomada de Constantinopla pelos turcos).

Enquanto que se produzia o grande movimento de fechamento e de intolerância que, de 950 a 1250, converteu a Europa numa sociedade repressora (a perseguição aos judeus, a segregação dos grupos minoritários, o estabelecimento da Inquisição e o uso da tortura judicial), iniciava-se uma grande etapa de florescimento das heresias, que culminou nos séculos XII e XIII, durando até o XV. Era uma conseqüência da crise da igreja e da vontade de reforma que haviam surgido entre o clero e entre os fiéis.

Um dos pontos centrais de oposição à hierarquia da Igreja era a pretensão de impor, ao conjunto da sociedade, o monopólio da interpretação religiosa por parte dos clérigos ordenados, reduzindo o fiel à posição de receptor passivo de uma religião que lhe era transmitida exclusivamente pela via oral. Em seu afã por recuperar a pureza do cristianismo primitivo, os críticos da Igreja retomariam diretamente os textos, especialmente o das escrituras. Por mais limitada que fosse a alfabetização, parece claro que a heresia a havia estimulado com as traduções de textos bíblicos às línguas “vulgares”, como as que sabemos que foram feitas em Languedoc, na França ou na Catalunha, no século XIII.

A história destes movimentos chegou-nos na versão dos seus repressores, que ressaltaram os aspectos doutrinais e os ritos que divergiam dos “ortodoxos”, acrescentando-lhes uma carga de maldade diabólica, ao mesmo tempo que omitiam as queixas dos dissidentes contra a Igreja oficial.

Este é, por exemplo, o caso dos cátaros, que têm sua origem no movimento dos bogomilos da Bulgária, onde se podem encontrar elementos do dualismo oriental – a crença de que o mundo está dominado, ao mesmo tempo, por um princípio do bem e um princípio do mal -, mas que foram perseguidos, principalmente, porque propugnavam um retorno da Igreja à pureza e à pobreza evangélicas e porque davam apoio à resistência dos camponeses contra o feudalismo. O catarismo do Languedoc, que influiu fortemente na Catalunha, defendia uma vida simples de trabalho e abrigava crenças mais próximas do patrimônio da cultura popular do que da teologia romana. Oferecia, aos fiéis, sermões e orações na língua vulgar e, o que era mais importante, o exemplo de uma Igreja que não exigia dízimos, nem excomungava, nem matava como fazia a de Roma e que não estava comprometida com os senhores feudais que oprimiam os camponeses. Representava, por tudo isso, uma ameaça à ordem estabelecida, justificando uma cruzada e repressão feroz.

Todos estes movimentos religiosos, que se relacionaram e se entrelaçaram sutilmente até chegar a guerra dos camponeses alemães do começo do século XVI, estão estreitamente associados a levantes sociais que torna-se difícil separá-los. O movimento inglês dos lolardos de Wycliffe coincide no tempo, e em alguns de seus protagonistas, com a grande rebelião de Wat Tyler (a revolta de 1381 que propunha liquidar com o feudalismo). Apesar das perseguições que sofreram, grupos de clérigos lolardos continuaram mantendo sua fé em segredo, sobrevivendo por mais de um século até acabar fundindo-se com o protestantismo. Eram, na sua maioria, manifestações de uma religião de artesãos, pregada diretamente nos círculos que liam a Bíblia traduzida em língua vulgar, como ocorria na Itália e na França com a dos valdenses, um movimento que pode ser qualificado de religião dos laicos.

Os escritos de Wycliffe tiveram relação com o aparecimento, na Boêmia, do movimento dos hussitas, de cujas ramificações, uma, a dos taboritas, fazia propostas radicais de transformação social. Enquanto organizavam-se seis cruzadas contra os hussitas, começavam, na Alemanha, movimentos que tinham um duplo componente religioso e social e que culminaram, em 1524, com o início da guerra dos camponeses e o movimento, duplo e paralelo, da Reforma e da Contrarreforma, que não apenas tendiam à renovação do cristianismo, mas à consolidação da ordem social.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 302-306.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte II)

Divergências entre muçulmanos e cristãos


Símbolo do Islã, produtor  

As concepções do islamismo e do cristianismo haviam se modificado. Seus modos de pensar eram semelhantes em 1900. Nessa época, as nações cristãs zelavam pela instituição da família, eram mais atentas ao uso excessivo do álcool e consideravam o domingo um dia sagrado. Sua atitude em relação às mulheres era mais parecida com a atitude dos islâmicos do que é hoje. Os crimes mais graves eram vistos com mais severidade e frequentemente punidos com a morte. O domingo em Iowa tinha muito em comum com a sexta-feira no Cairo.

Nos cem anos que se seguiram, as nações cristãs se tornaram mais seculares. O modo de vida norte-americano fazia propaganda do álcool e das drogas, além de tolerar aventuras sexuais e a rebeldia dos jovens. Os muçulmanos mais devotos rejeitavam o espírito mercantilista, o consumismo e a moral frouxa que o Ocidente ostentava através da televisão, dos filmes de Hollywood e do estilo de vida das estrelas pop internacionais. O Islã deplorava as rápidas mudanças do Ocidente, e o Ocidente deplorava a lentidão das mudanças no Islã. O Ocidente lamentava a falta de liberdades pessoais do Islã, e o Islã lamentava o que o Ocidente havia feito com a própria liberdade.

Nas décadas seguintes, o Islã vicejou, Hábil em conservar seus fiéis, empenhava-se em atrair mais partidários. As crianças muçulmanas abraçavam a religião dos pais - e as famílias costumavam ser numerosas. Em 1893, os muçulmanos representavam cerca de 12% da população global; exatamente um século mais tarde, esse índice havia chegado aos 18%. Era a segunda religião em número de fiéis, maior que o número de hinduístas e budistas somados. Os cristãos ainda eram mais numerosos, com um terço da população do planeta, mas sua liderança estava sob ameaça.

A resistência do Islã em seus países tradicionais foi ajudada pelo êxito alcançado em outras terras. Os muçulmanos espalharam sua fé por meio de movimentos migratórios. Em 1900, os viajantes que visitavam as cidades em efervescência - Paris, Chicago, Buenos Aires ou Dunedin - encontravam sinagogas com facilidade, mas nenhuma mesquita. Nos Estados Unidos, os muçulmanos eram raros, mas, no final do século, sua população crescia mais rapidamente que a dos judeus. Ao mesmo tempo, em várias cidades inglesas, as mesquitas atraíam tantos fiéis quanto as igrejas cristãs. Em Paris, enquanto as igrejas católicas permaneciam em silêncio, as mesquitas estavam lotadas.

A grande maioria dos muçulmanos vivia de maneira virtuosa e convivia pacificamente com outros credos. Mas em algumas regiões do Islã o zelo religioso excessivo voltava-se para a militância política. No Irã, milhões de muçulmanos rejeitavam o próprio xá e esperavam sua queda. Seu ansioso oponente era Ruhollah Khomeini, o barbudo que ficou conhecido como aiatolá, palavra cujo significado é sinal de Deus. Khomeini fez todas as suas pregações em segurança - durante a década de 1960, no Iraque e, no final da década de 1970, na França. Depois da deposição do xá, em janeiro de 1979, e de sua ida para o exílio, o aiatolá retornou ao país, criando uma república teocrática na qual a pena de morte era largamente empregada em vários casos de dissidência política e religiosa, bem como de crimes comuns.

Com seu fervor e eloquência, ele reunia grandes multidões a céu aberto. Denunciou os Estados Unidos como "o grande satã". Reagindo ao estímulo de seu líder, fanáticos iranianos sequestraram 66 norte-americanos que viviam no país, mantendo quase todos como reféns por mais de um ano. Aproveitando os distúrbios, o vizinho Saddam Hussein, do Iraque, invadiu o Irã. Essa guerra entre as duas potências islâmicas, uma sunita e outra xiita, foi considerada uma das cinco mais mortais de todos os tempos.

Próximo post: O Islã no século XX (Parte III): Fervor e petróleo no deserto

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 294-295 e 297.

domingo, 21 de julho de 2013

Dissidentes na Idade Média: valdenses e cátaros

A liberdade de religião é um conceito moderno, totalmente estranho à visão medieval. Considerando-se possuidora e guardiã da verdade divina, a Igreja julgava-se obrigada a expurgar a cristandade da heresia - crenças que questionavam a ortodoxia cristã. Para a Igreja, os hereges eram culpados de traição contra Deus e portadores de uma infecção moral. A heresia era obra de Satã; atraídas por falsas ideias, as pessoas podiam abandonar a verdadeira fé e negar a si mesmas a salvação. Aos olhos da Igreja, os hereges não só obstruíam a salvação individual, como também enfraqueciam os alicerces da sociedade.

Para impor obediência, a Igreja usava seu poder de excomunhão. A pessoa excomungada não podia receber os sacramentos ou frequentar os serviços religiosos - punição terrível, numa época de fé. Ao tratar com um governante recalcitrante, a Igreja poderia declarar o interdito sobre seu território, o que na prática negava aos súditos desse governante os sacramentos (embora se pudessem fazer exceções). A Igreja tinha esperança de que a pressão exercida por uma população irritada obrigasse o governante ofensor a mudar de comportamento.

A Igreja também julgava os casos de heresia. Antes do século XIII os bispos locais eram responsáveis pela descoberta e julgamento dos hereges. Em 1233, o papado criou a Inquisição, tribunal especialmente destinado a combater a heresia. Os acusados eram considerados culpados até que fosse provada sua inocência; não tinham direito de saber o nome de seus acusadores nem de ter defesa legal. Para arrancar-lhes uma confissão, era permitida a tortura. Se persistissem em suas crenças podiam ser entregues às autoridades civis para serem queimados na fogueira.

* Os valdenses. Na Idade Média, a dissensão tinha, com frequência, um caráter reformista. Inspirados nos Evangelhos, os reformadores criticavam a Igreja por sua riqueza e participação nas questões mundanas; queriam um retorno à vida mais simples e pura de Jesus e seus apóstolos.

Em seu zelo de copiar a pureza moral e a pobreza material dos primeiros seguidores de Jesus, esses dissidentes reformadores atacaram a autoridade eclesiástica. Os valdenses, seguidores de Pedro, rico comerciante de Lyon, constituíam um desses movimentos. Na década de 1170, Pedro distribuiu suas propriedades aos pobres e atraiu partidários de ambos os sexos. Eles também se comprometiam a ser pobres e a pregar o Evangelho no vernáculo, e não no latim da Igreja, que não era entendido por muitos cristãos.

Os valdenses consideravam-se verdadeiros cristãos, fiéis ao espírito da Igreja apostólica. Irritada com os ataques dos valdenses à imoralidade do clero e pelo fato de que esses leigos pregavam o Evangelho sem a permissão das autoridades eclesiásticas, a Igreja condenou o movimento como herege. Apesar da perseguição, os valdenses sobreviveram como grupo no norte da Itália.


O papa Inocêncio III excomunga os albigenses (esquerda). Massacre contra os albigenses pelos cruzados (direita). Crônicas de Saint-Denis, século XIV

* Os cátaros ou albigenses. O catarismo foi a heresia mais radical enfrentada pela Igreja medieval. Essa crença representava uma curiosa mistura de movimentos religiosos orientais que haviam competido com o cristianismo nos dias do Império Romano. Os postulados dos cátaros diferiam consideravelmente dos ensinamentos da Igreja. os cátaros acreditavam num conflito eterno entre as forças do deus do bem e as do deus mal. Como este, a quem identificavam com o Deus do Velho Testamento, criara o mundo, a morada terrena era má. A alma espiritual por natureza, era boa mas estava presa à carne iníqua.

Os cátaros ensinavam que, como a carne é um mal, Cristo não teria tomado forma humana e, portanto, não poderia ter sofrido na cruz, nem ter ressuscitado. Nem poderia Deus ter nascido da carne má da Virgem. De acordo com o catarismo, Jesus não era Deus, mas um anjo. Para escravizar o homem, o deus mau criou a Igreja, que demonstrava sua maldade buscando poder e riqueza. Repudiando a Igreja, os cátaros organizaram sua própria hierarquia eclesiástica.


Cátaros sendo expulsos de Carcassone em 1229

O centro da heresia catarista era o sul da França, onde já existia uma forte tradição de protesto contra o relaxamento moral e o materialismo do clero. Como os cátaros não se sujeitaram à persuasão pacífica, Inocêncio III pediu a reis e senhores o seu extermínio pela espada. Tendo durado de 1208 a 1229, a guerra contra o catarismo foi marcada pela brutalidade e pelo fanatismo. Sob o sucessor de Inocêncio, os inquisidores dominicanos e franciscanos concluíram a tarefa de dizimá-los.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 178-179.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Legenda Áurea: Anatomia do Diabo

Se a Idade Média se caracteriza pela influência da Igreja sobre toda a sociedade, não parece estranho afirmar que a grande batalha que o mundo medieval presenciou foi a luta de Deus e seu exército celeste contra o Diabo e suas tropas demoníacas. Satã era o grande tentador, aquele que, por meio de suas artimanhas, colocava toda a humanidade perto da perdição. A luta contra o Maligno era ativa e sem descanso: o homem medieval se via obrigado a evitar a tentação do demônio e o pecado continuamente, em todas as horas. O demônio não cessava de atacar o gênero humano, e quando não o fazia de modo astuto (por meio da tentação), utilizava a força (por meio da possessão) para enganar o homem, ou, simplesmente, tratava de aterrorizá-lo para que cedesse ao seu poder.

Não à toa, os demônios são personagens muito presentes na Legenda Áurea (c. 1260), a coletânea de hagiografias - vidas de santos - de maior sucesso na Idade Média. Escrita pelo frade dominicano Jacopo de Varazze (1228-1298), a obra dá exemplos de conduta moral utilizando como parâmetros as vidas dos santos. Pertence ao gênero das legendae novae, compilações preparadas entre os séculos XIII e XIV, a maior parte feita pelos representantes da Ordem Dominicana. A Legenda Áurea, com narrativas de inúmeras batalhas entre santos e demônios, atenderia também ao empenho da Igreja em reordenar e unificar a memória cristã.


Martírio de São Saturnino, Jacopo de Varazze. Legenda Áurea


A sociedade cristã latina havia aumentado seus contatos comerciais e culturais com outros povos e crenças, por isso a Igreja sentiu a necessidade de levantar todos os detalhes teológicos sobre a questão do mal e suas criaturas, defendendo os ensinamentos ortodoxos contra uma variedade de oponentes, dentro e fora da cristandade.

Se externamente o inimigo era associado aos pagãos, judeus e muçulmanos, internamente o perigo eram os heréticos, ou seja, aqueles que interpretavam o cristianismo de forma diferente dos preceitos de Roma. O grande problema estava na expansão da heresia cátara, cuja preocupação teológica principal girava em torno da questão do mal. O catarismo foi um movimento religioso cristão que ocorreu na França e na Itália entre os séculos XI e XIV. Os cátaros acreditavam que existiam dois princípios criadores opostos, o do Bem e o do Mal, sendo Satanás o príncipe do mundo material, seu criador e regulador. A resposta católica para o dualismo cátaro foi resumida no Quarto Concílio de Latrão, de 1215. Os bispos se preocuparam em afirmar que existia um só Deus, criador de todas as coisas a partir do nada. Entre as criaturas divinas estavam também o Diabo e os outros demônios - bons em sua natureza, mas que fizeram mau uso de seu livre-arbítrio. Para a doutrina cristã, Satã é apenas um agente de Deus, este sim a única fonte e o único senhor de todas as coisas. O Diabo, um anjo decaído, submete-se a Deus e não pode agir sem sua permissão. Cabe a ele aplicar as penas do inferno.

Nos primeiros séculos da Idade Média, do V ao XI, Satã ainda era definido de forma pouco concreta. Foi a partir do século XII que ideias esparsas, e muitas vezes contraditórias, sobre sua figura começam a ser reunidas em uma sistematização dogmática. As manifestações heréticas em voga no período conduziram a Igreja a um processo de reestruturação e renovação da espiritualidade que influenciou a forma como o Diabo aparece na doutrina e consequentemente, nas representações em imagens.

Na Legenda Áurea, a luta dos santos contra os demônios aparece o tempo todo, mostrando que os inimigos da cristandade se encontravam em todos os lugares e que os fiéis deveriam estar preparados para enfrentar o mal, concretizado na figura dos demônios. Dividida em cerca de 180 capítulos, a Legenda foi inicialmente concebida como um instrumento doutrinário para ser utilizado na pregação dos membros da Ordem Dominicana, que participou ativamente da renovação da Igreja no século XIII, junto com a Ordem Franciscana. Com o passar do tempo, a Legenda obteve popularidade, sendo traduzida do latim para as línguas locais. Uma das versões de maior destaque foi a francesa, feita por Jean de Vignay (1282/1285-?), membro da congregação dos frades hospitaleiros da Ordem de Saint Jacques du Haut-Pas e tradutor de várias obras para a família real francesa. Sua tradução da Legenda Áurea teria sido realizada entre 1333 e 1348, por encomenda da rainha da França, Joana de Borgonha (1293-1349), esposa do rei Filipe VI de Valois (1293-1350).

O manuscrito mais antigo dessa tradução que chegou até nós pode ser encontrado na Biblioteca Nacional da França. Datado de 1348, contém 345 fólios, com 132 miniaturas no total. Suas iluminuras foram produzidas na oficina de Richard de Montbaston, e algumas dão destaque às cenas de enfrentamento entre os santos e os diabos descritas no texto. Cabe destacar que, na maioria das vezes, as imagens nos manuscritos da Legenda Áurea têm a função de identificar o santo e nem sempre a de ilustrar a sua história narrada no texto. Assim, é importante constatar que o(s) iluminador(es) tivesse (m) se preocupado em retratar estas cenas de embate em algumas imagens, reconhecendo sua importância no texto.

Os corpos dos demônios retratados realçam sua origem: o reino dos mortos. São quase sempre magros e estão nus, cobertos de pelos, sempre repugnantes. Tem um rabo e duas asas (de morcego) que lembram sua condição de anjos caídos. Seus pés bifurcados parecem os de um bode. Suas cabeças são enormes e escuras, dotadas de chifres pontudos e cabelos eriçados, que evocam as chamas do inferno.

A imagem de Santo Antão apresenta dois demônios cruéis atormentando-o, com suas asas de morcego vermelhas, seus corpos peludos negros e rostos com expressões de maldade. A cena mostra o santo em visita a um túmulo, sendo agredido pelos demônios, que tentam retirar sua auréola, marca de santidade. Na imagem aparecem também três javalis, animais frequentemente associados ao diabólico.

Os demônios têm aparência sempre cruel. Fazem caretas de escárnio, com a boca fendida até as orelhas. Na imagem referente a São Macário, os diabos também tentam retirar sua auréola. Na cena, o santo dorme em um lugar onde estão sepultados pagãos e usa um corpo como travesseiro. Os demônios surgem para atormentá-lo, mas o santo mantém o semblante calmo.

A cor preta aparece constantemente nos textos e nas imagens para descrever ou representar os demônios. No Ocidente, a partir do século XI, essa é a cor diabólica por excelência. As trevas do inferno se opõem à luz celeste, assim como Satanás se opõe a Deus. São frequentes também os diabos pretos e vermelhos, duas cores que vêm diretamente do inferno, caracterizando as trevas e as chamas. O Diabo as carrega sobre si, contribuindo para torná-las ainda mais maléficas.

Os demônios podem apresentar sobre uma parte do corpo - em geral, a mais obscena, o baixo-ventre ou o traseiro - um segundo ou até mesmo um terceiro rosto, em forma de máscara, igualmente com caretas de escárnio. É o caso da imagem de Santa Teodora, em que um demônio a agride verbalmente. Ele apresenta asas vermelhas, chifres, pelos, o dedo em riste, uma expressão raivosa e um rosto no traseiro. A mesma cena ilustra a vida de São Francisco, só que, neste caso, os chifres e as asas do demônio não aparecem.

O paganismo, assim como todas as manifestações religiosas que fogem ao cristianismo, é considerado demoníaco. Os demônios, de acordo com a Legenda Áurea, habitam dentro dos ídolos, portanto, o templo pagão é seu território. Os santos procuravam convencer as pessoas disso. Assim o faz São Filipe, que se recusa a sacrificar diante de uma estátua de Marte. É nesse momento que um dragão imenso, figura relacionada ao Diabo, sai da base do ídolo e mata o filho do sacerdote que comandava o sacrifício.

As formas e as ações do Diabo e dos demônios na Legenda Áurea têm como objetivo introduzir na mente dos fiéis a convicção de que a presença do mal é real. Informado sobre a aparência, os meios e os lugares pelos quais os demônios se manifestam, o cristão poderia aprender a evitar o pecado. Para isso, suas armas seriam os exemplos de vida dos santos. Por meio dessa pedagogia sobre o mal, a Igreja reforçava suas normas de conduta moral.

Tereza Renata Silva Rocha. Anatomia do Diabo. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8, nº 88, janeiro 2013. p. 66-71.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Os domingos, o sal e as escrituras


O mais antigo painel do Cristo: Saint Catherine's Monastery (Sinai), século VI.

A atual forma do cristianismo, as observâncias e os dias santos, aparecem aos poucos. O domingo, inicialmente, não era necessariamente o dia do Senhor. Os judeus haviam reverenciado o sábado como seu dia e, de início, os cristãos tendiam a reverenciar esse dia como o coração da semana. São Paulo começou a conferir ao domingo o dia de reverência, uma vez que era o dia da ressurreição de Cristo. Quando o imperador Constantino tornou-se cristão e fez com que o Império Romano entrasse em conformidade com sua nova fé, sua lei de 321 declarou o domingo como sendo o dia de adoração na cidade, mas, não, no interior. Lá, as vacas e cabras tinham de ser ordenhadas, a colheita feita e a terra arada, independente do dia.

A Páscoa logo tornou-se a época especial do calendário dos cristãos, mas sua data exata não foi escolhida facilmente. Ao longo das costas da Ásia Menor, o coração inicial da Cristandade, o dia de Páscoa não era primeiramente no domingo. Durante anos, os teólogos cristãos discutiram sobre o dia ideal em que a Páscoa deveria cair. Seu desacordo foi mais estridente em 387; naquele ano, na Gália, o Domingo de Páscoa foi celebrado em 18 de março. Na Itália, aconteceu exatamente um mês depois e, em Alexandria, foi ainda mais tarde, sendo celebrado em 25 de abril. No sétimo século, uma região da Inglaterra celebrava o Domingo de Ramos no mesmo dia em que outra parte celebrava a Páscoa. A unidade da Cristandade era frequentemente muito precária.

Muitos dos dias especiais do ano cristão vinham muito tarde. Durante três séculos, as primeiras igrejas ao redor das margens do Mediterrâneo não celebravam o nascimento de Cristo. Com o tempo, os cristãos, com bastante sensatez, aproveitaram da oportunidade dos festivais populares que tinham há muito tempo sido reservados para marcar o dia mais curto do ano no Hemisfério Norte. Assim, em Roma, o dia 17 de dezembro tinha sido celebrado como o dia pagão das festividades, conhecido como Saturnália, mas esse dia de regozijo acabou sendo tomado à força pelos cristãos e mudado para 25 de dezembro, quando foi proclamado ser o dia do nascimento de Cristo. Mesmo quando Roma decidiu de uma vez por todas celebrar o atual dia de Natal, os cristãos em Jerusalém aderiram, ao contrário, ao dia 6 de janeiro.

Como o dia do nascimento de Cristo, o dia especial reservado a Maria, a mãe de Cristo, demorou a achar um lugar no calendário cristão. Em 431, o Conselho de Éfeso deu a Maria um papel de honra; e o seu dia, 25 de março, cada vez mais tornou-se conhecido como o Dia da Anunciação. À medida que crescia o culto a Maria, um culto de menos vulto se desenvolveu em torno de sua própria mãe, Ana: e um dia chamado de "a concepção de Santa Ana" acabou sendo reverenciado na cidade italiana de Nápoles. Por centenas de anos, Maria recebeu mais veneração nas igrejas do oriente do que nas do Ocidente.

O cristianismo lentamente adaptou alguns de seus rituais vindos da vida cotidiana dos romanos. Por exemplo, quando um bebê romano chegava ao seu oitavo dia, alguns grãos de sal eram colocados em seus pequeninos lábios, na fé de que o sal afastaria os demônios que poderiam, do contrário, prejudicar a criança. Quando a igreja cristã, em seu início, batizava seus novos seguidores, ela benzia um bocado de sal e, imitando o costume romano, dava-o aos batizados. Isso era para manter o ensinamento de Jesus que, sabendo como os pobres desperdiçavam no uso do sal, escolheu o sal como símbolo para o que era precioso e raro. Quando foi às montanhas, disse a seus discípulos: "Vós sois o sal da terra".

Em muitos dos lugares em que grandes quantidades de cristãos se reuniam, eles se envolviam em debates animados entre si. Discutiam porque vinham de vários partes do Império Romano, discutiam porque Cristo às vezes falava em parábolas e não deixava muito claro seu significado para aqueles que ouviam sua mensagem em segunda mão, discutiam porque confiavam naqueles que, depois da morte de Cristo, escreveram seus ensinamentos e ofereceram visões conflitantes do mesmo sermão ou milagres. E, às vezes, os cristãos discutiam entre si porque cada um lia nas palavras de Cristo o que eles próprios queriam ler. Ainda assim, um sinal de unidade era inegável; os viajantes geralmente se sentiam em casa, pelo menos em espírito, quando entravam numa igreja cristã longe de casa.

Por pelo menos quatro séculos, o cristianismo era como um metal quente despejado de fornos em moldes de formatos variados. Às vezes, um forno quase explodia ou o fogo era apagado. Frequentemente, os fornos eram remodelados e, muitas vezes, eram ampliados. Os moldes eram mudados repetidas vezes, de forma que se os primeiros seguidores de Cristo tivessem voltado a viver novamente, não teriam reconhecido muito bem muitas das crenças e rituais da igreja que eles tinham ajudado a fundar. Teriam ficado mistificados por outro fato: o fim do mundo, tão iminente em seus olhos e um estímulo tão insistente em suas profundas crenças, ainda esperava no futuro.

Enquanto isso, a cidade de Roma estava deixando de ser o coração do vasto império. Os exércitos do império e sua procissão de generais famosos começaram a substituir as velhas instituições de Roma como centro do poder. Além disso, a cidade era sitiada muito longe em direção à extremidade ocidental de um império cuja verdadeira riqueza e equilíbrio da população ficava na extremidade oposta do Mar Mediterrâneo. Consequentemente, no ano 285, o império foi dividido, por facilidade administrativa, em dois: o Império do Ocidente, governado a partir de Milão, e o Império do Oriente, governado a partir da cidade de Nicomédia, localizada no Mar de Mármara, a cerca de 100 quilômetros a leste da atual cidade de Istambul, florescendo, em pouco tempo, com majestosos prédios.

Na história, muitos acontecimentos fundamentais são moldados por forças, movimentos e fatores escondidos, mas, ocasionalmente, uma pessoa quase sozinha muda a direção do mundo. Um menino que vivia na cidade de Nicomédia em seus anos de maior orgulho, quando batalhões de pedreiros praticamente se atropelavam, veio a ser um desses moldadores de grandes acontecimentos. Constantino era o filho de um oficial de exército que subiu de cargo rapidamente e tornou-se o imperador da metade ocidental do império. Quando o imperador Constantino foi morto em batalha em York, na Inglaterra, em 306, o filho, com um pouco mais de 20 anos, foi aclamado pelo exército como sucessor de seu pai. Constantino provou ser um grande general. Para a surpresa de muitos, ele era extremamente solidário com o cristianismo. Na França, seis anos depois, ele se converteu. Em suas campanhas militares, daí em diante, trazia consigo uma capela portátil que seus serventes podiam rapidamente instalar dentro de uma barraca, possibilitando, assim, que os serviços religiosos fossem realizados para ele e seus companheiros em questão de poucos minutos.

Constantino acreditava que o cristianismo era intrinsecamente adequado a ser seu aliado. Não desejava dominar o Estado, por já estar há muito tempo acostumado a um papel mais humilde. Com a tendência de ser internacionalista, não mostrava o fervoroso sinal nacionalista às vezes visível no judaísmo. Podia se encaixar perfeitamente num império multirracial. Por tratar todos de forma igual, o cristianismo parecia bastante adequado a um império que consistia de gregos, judeus, persas, eslavos, germanos, ibéricos, romanos, egípcios e muitos outros. Seu único defeito era que nem sempre demonstrava respeito ao imperador e sua pretensão à divindade; mas, uma vez que Constantino se tornou cristão, esse defeito foi automaticamente eliminado.

Na história do cristianismo, nenhum acontecimento sequer, desde a crucificação de seu fundador, foi tão influente quanto a mudança de atitude do jovem imperador Constantino no ano 312 d.C. Ele oferecia tolerância cívica aos cristãos, e restaurou propriedades que tinham sido confiscadas deles. Com sua mãe, começou a construir grandiosas igrejas, uma das quais tão distante quanto Jerusalém.

Até então, os cristãos provavelmente não constituíam mais do que um em cada 12 habitantes do vasto Império Romano, mas agora, de repente sentados numa posição privilegiada ao lado do imperador, seus adeptos rapidamente se multiplicaram. Pela primeira vez, havia mais pessoas dentro do império frequentando os cultos de adoração cristãos aos domingos do que as sinagogas aos sábados. Os residentes das cidades que um dia podem ter escarnecido dos cristãos achavam-se perguntando se, no novo clima religioso, eles poderiam ganhar promoção ou favores seculares se fossem vistos frequentando um local de adoração cristão.

Em comparação, as sinagogas, que às vezes tinham estado a favor dos governadores romanos, eram agora desprezados. Em menos de um século, os judeus perderam seu direito de casar-se com cristãos, a não ser que mudassem de religião, e perderam seu direito de servir ao exército. Não podiam tentar converter outras pessoas a sua religião; em vários lugares, as multidões destruíam sinagogas. Os padrinhos do cristianismo foram, na verdade, declarados ilegítimos. Na era anterior, alguns judeus em algumas cidades tinham tentado prejudicar os cristãos, voltando as autoridades romanas contra eles. Mas, agora a banda tocava do outro lado, e tocava mais alto e cada vez mais.

Constantino não era bem um cristão ortodoxo (ele colaborou para que seu filho fosse morto) mas não se desviou de sua crença de que Deus estava a seu lado. Havia só uma religião para seus olhos e aqueles que não aderissem a ela eram uma ameaça ao império. Tornou-se ainda mais fervoroso em sua fé.

Constantino morreu em 337 e foi enterrado na cidade ainda pequena de Constantinopla, que ele havia planejado. O auge de Roma havia nitidamente passado e havia perdido sua supremacia para essa nova cidade do Oriente.

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BLAINEY,  Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 82-85.