"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Arte rupestre do Brasil: Tradição Nordeste

Embora certas pinturas rupestres talvez tenham sido realizadas já no período anterior, a maioria dos grafismos encontrados em abrigos data provavelmente dos últimos seis milênios antes da Era Cristã. Com certeza não eram obras de "arte" no sentido que damos hoje à palavra. É claro que, durante todos esses milênios e em tantos lugares, algumas pessoas podem ter deixado simples graffitti, e outros desenhos talvez fossem feitos para fins decorativos. No entanto, o mais provável é que a maioria dos grafismos tenha sido feita como afirmação de etnicidade, expressão de uma crença, ato mágico, proclamação política de status, trato ou posse. O reconhecimento da existência de complexos temáticos estáveis ao longo de séculos e milênios levou os arqueólogos a definirem as "tradições" rupestres, nas quais variações menores de uma região para outra permitem reconhecer fácies, ou subtradições, enquanto modificações ocorridas ao longo do tempo permitem sucessivos estilos.

Não se encontram grafismos pré-históricos em todo o Brasil central ou nordestino. Em algumas regiões, faltavam suportes rochosos abrigados, e talvez as populações deixassem suas marcas em árvores, retirando as cascas para criar figuras em negativo - como faziam os índios Bakari no século XIX. Mas mesmo em locais onde existem paredes naturais protegidas, há regiões nas quais a "arte rupestre" é inexistente ou raríssima - como as de Arcos e de Pains, em Minas Gerais -, enquanto no vale do rio Peruaçu e na serra da Capivara é difícil andar ao longo dos paredões além de poucas centenas de metros sem encontrar um painel pintado.

[...]

Os sítios da região de São Raimundo Nonato (PI) serviram de referência para estabelecer a sequência de base do Nordeste brasileiro.

O conjunto de pinturas mais antigo é formado por representações humanas agrupadas em cenas, eventualmente acompanhadas por animais. Esses grafismos definem a Tradição Nordeste, que, segundo as pesquisadoras locais, se teria desenvolvido entre 12.000 e 6.000 anos atrás, no Piauí meridional. Nesse estado, o estilo mais antigo, denominado Serra da Capivara, apresenta figuras monocrômicas cuja cor contrasta com a do suporte natural. As representações humanas mostram cabeças por vezes ornadas com cocar, isoladas, e as figuras parecem assexuadas. Quando estão em grupo, o sexo é indicado de maneira convencional (um traço para o pênis, sempre erguido, e um círculo para a vulva). As personagens são geralmente muito dinâmicas. Formam cenas familiares (dois adultos e uma criança), relações sexuais (casais em várias posições, ou vários homens segurando uma mulher, homens segurando um pênis enorme); caça ao tatu (o animal é segurado pelo rabo) ou ao veado (com uma rede). Uma cena muito característica é conhecida como a "da árvore": várias pessoas, de braços erguidos, rodeiam uma árvore, ou uma delas segura um galho. Figuras antropomorfas também formam correntes, evocando acrobatas. As figuras zoomorfas são sobretudo de cervídeos e emas.

Tradição Nordeste: Toca da Extrema II, Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí

Por volta de 9.000 anos atrás, as cenas de violência se multiplicam: estupros, combates, execução de pessoas amarradas a um poste (complexo Serra Talhada). Finalmente, com o estilo Serra Branca, o movimento desaparece e as figuras tornam-se angulosas, com um grande corpo retangular preenchido por desenhos geométricos eventualmente bicrônicos dos quais se destacam pequenos membros filiformes.

Os dois primeiros estilos da Tradição Nordeste se propagaram fora do Piauí, para os estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais, o sul de Goiás e até o Mato Grosso. No Rio Grande do Norte desenvolveu-se uma versão original - chamada "Subtradição Seridó", onde os animais são muito raros (somente tucanos e emas), e as figuras humanas apresentam um bico parecido com o de pássaros. Sua influência alcançou as terras baixas da Bolívia e da Colômbia orientais.

A Tradição Agreste substitui aos poucos a tradição Nordeste e seria a única representada na arte rupestre do sul do Piauí entre 6.000 e 2.000 anos atrás. Trata-se de grandes figuras monocromas, toscamente executadas, representando seres humanos isolados ("bonecões") ou animais pouco naturalistas, por vezes acompanhadas por impressões de mãos. Essa Tradição é considerada intrusiva no sul do Piauí, e seria originária de Pernambuco, onde essas figuras são muito mais numerosas.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 73-77.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tradição Guarani

Os grupos da Tradição Guarani que habitavam o litoral catarinense também são conhecidos como Carijó (denominação dada pelos colonizadores portugueses, a partir do século XVI), cuja última leva migratória chegou à região durante o período pré-colonial. Apesar de autores apontarem que os dados sobre a sua origem são contraditórios e imprecisos, conta-se que eles partiram da Amazônia em direção ao Sul, utilizando para isso os rios Paraná e Uruguai.

Como os grupos da Tradição Itararé, os Guarani também se destacam pela cerâmica, de grande variedade de formas e tamanhos. No entanto, apresentam pelo menos duas diferenças fundamentais. A primeira é que as peças produzidas pelos Guarani, além do uso em afazeres do dia-a-dia, também eram utilizadas em rituais da tribo, como no caso das "urnas funerárias". E a segunda é o fato de que as peças mais elaboradas eram sempre decoradas, com fundo branco ou vermelho e superfície com linhas vermelhas e pretas. Os motivos apresentavam linhas em zigue-zague, onduladas e aspiradas e triângulos.

Além das peças em cerâmica, os Guarani também produziam objetos a partir de outras matérias-primas como madeira, ossos, dentes, conchas, pedras e fibras vegetais. Entre esses objetos, encontram-se lâminas e pontas de flechas, e objetos para adornos como colares.

Apesar de também praticarem a pesca e a caça, os Guarani eram prioritariamente agricultores e cultivaram produtos como mandioca, cará, abóbora, milho, algodão, pimenta, inhame e tabaco (este último deduzido pela presença, em muitos sítios arqueológicos, de pequenos "cachimbos" de cerâmica). Segundo pesquisas, os Guarani foram responsáveis pela dispersão, no Sul do continente, de várias plantas oriundas da região amazônica.

O declínio dos povos da Tradição Guarani não só na Ilha de Santa Catarina, mas em toda a região Sul, teve como ponto crucial a chegada dos colonizadores europeus, sobretudo por volta do século XVII, quando a ocupação passou a ocorrer com maior frequência. Além de indefesos diante da tecnologia bélica dos invasores, os Guarani sucumbiram também diante de doenças como gripe, varíola, sarampo, malária, tuberculose, tifo, entre outras, que foram responsáveis pela morte de muitos índios. Restou aos Guarani a tentativa de sobreviver em pequenos grupos, mudando frequentemente o local de seus assentamentos.

Passado presente: Índia guarani


Ainda hoje, descendentes dos índios Guarani, vivem na região da Grande Florianópolis. Eles estão em pequenas "áreas indígenas", localizadas às margens da rodovia BR-101, nos municípios de Palhoça e Biguaçu, onde produzem e comercializam peças de artesanatos (cestos de vime, arcos e animais talhados em madeira). Parte do que é produzido também é comercializada nas ruas do centro de Florianópolis.

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 12-14.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Tradição Itararé

Apontados como os primeiros habitantes da Ilha de Santa Catarina, os Pescadores, Caçadores e Coletores deixaram como testemunho de seus assentamentos os sambaquis, montes formados por conchas e que serviam para sua moradia e proteção. Para tanto, escolhiam locais próximos do mar, de onde provinha a maior parte de seus alimentos, e de fontes de água doce. Com uma economia baseada na pesca, caça e coleta, estima-se que esses grupos utilizavam instrumentos de pedra polida e/ou lascada, como machados, batedores de alimentos, além de confeccionarem zoólitos (representações de animais em pedra) e outros adereços.

* Tradição Itararé. Não há dados concretos em torno da chegada dos grupos da Tradição Itararé do planalto, sua região de origem, à Ilha de Santa Catarina. Estima-se, porém, que seus primeiros vestígios no litoral tenham surgido por volta de dois mil anos atrás. Nos locais habitados pelos grupos de Tradição Itararé, como a Praia da Tapera, um dos poucos sítios datados, de 1.140 anos atrás, foram detectados os primeiros vestígios de cerâmica, o que se tornou característica principal da presença desse povo.


Tradição Itararé: vasilhame cerâmico

As peças cerâmicas confeccionadas eram, em sua maioria, recipientes para o preparo e consumo de alimentos, com tamanho entre 20 centímetros de diâmetro e 30 centímetros de altura, e paredes de fina espessura com coloração variando do laranja ao cinza-escuro, raramente decoradas. Além disso, os grupos da Tradição Itararé produziram artefatos líticos (lâminas de machados, alisadores, percutores e tembetás), artefatos ósseos (pontas, furadores, anzóis e vértebras perfuradas) e restos faunísticos (ossos de peixes, mamíferos, aves e répteis e conchas marinhas).

O fato de a cerâmica ser uma forte característica do grupo da Tradição Itararé poderia significar que seus membros praticavam a agricultura como forma de subsistência. No entanto, essa hipótese é descartada por arqueólogos, diante do fato de que os esqueletos dessa tradição não apresentavam cáries, o que indica a ausência de carboidrato na dieta alimentar do grupo. Assim, a alimentação da Tradição Itararé baseava-se, principalmente, na exploração de peixes, complementada com mamíferos terrestres e marinhos, aves e répteis. Eles se alimentavam também, mas em menor escala, de moluscos e crustáceos e, por isso, acumulavam menos conchas em seus assentamentos, diferentemente dos Pescadores, Caçadores e Coletores, em cujo local de habitação havia a predominância desse rejeito, elemento marcante na formação dos sambaquis.

Alguns autores, segundo a arqueóloga Maria Madalena do Amaral, tendem a relacionar os grupos de Tradição Itararé aos Jês do Sul. "Os grupos de Tradição Itararé seriam os ascendentes pré-coloniais dos grupos historicamente conhecidos como Kaingang e Xokleng por causa da semelhança da produção cerâmica, tanto no que se refere ao processo de manufatura quanto às formas dos vasilhames", explica a arqueóloga.

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 10 e 12.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Cultura popular e vida cotidiana na Europa medieval

A quermesse de S. Jorge, Pieter Bruegel

O estudo da cultura popular e da vida cotidiana da Europa medieval enfrenta dois problemas. Primeiro, a imagem, criada sobretudo pela literatura e pelo cinema, de uma sociedade marcada por contrastes radicais, quase sem intermediários: heróis ou bandidos; nobres opulentos ou servos miseráveis; piedade religiosa ou heresias; homens dominantes ou mulheres submissas (ou ausentes); monges enclausurados em seus mosteiros ou cavaleiros errantes; Deus ou o diabo. Segundo, a existência de fontes, em particular escritas, quase exclusivamente produzidas pelas elites ou para elas, as quais expressam apenas um dos diversos grupos sociais.

Contudo, é possível montar quadros reveladores de alguns aspectos fundamentais da vida cotidiana e da cultura do povo.

A violência física, a flagelação do corpo, parece ter sido um dos traços marcantes e distintivos da vida na Europa medieval. Os castigos do corpo provinham basicamente de três fontes: as doenças, a fome e a guerra.

Havia, ainda, a violência contra o espírito, representada sobretudo pela vigilância e pela exigência do cumprimento dos preceitos religiosos. Mas, mesmo nesses casos, impunha-se o flagelo do corpo. Os penitentes, cheios de medo e sentimento de culpa, castigavam o corpo para aplacar ou punir os desejos da carne, a grande fonte dos pecados e, portanto, da condenação eterna. A tortura, praticada por todos os poderosos, era utilizada pelos inquisidores para forçar a confissão dos pecados e, por meio do padecimento, remir a alma dos pecadores.

A sociedade medieval tem sido definida como misógina, ou seja, que tem aversão às mulheres. A misoginia medieval foi, principalmente, decorrentes das concepções religiosas impostas pela Igreja católica, que criou dois tipos ideais de mulher: a virgem, casta e pura, segundo o modelo da mãe de Jesus; e a pecadora, segundo o modelo de Eva, que se deixou levar pela tentação do demônio, para a perdição dos homens.

Entre esses dois modelos, qual seria o lugar da mulher real, de carne e osso? Segundo o historiador Georges Duby:

“[...] O dever primeiro do chefe da casa era vigiar, corrigir, matar, se preciso, sua mulher, suas irmãs, suas filhas, as viúvas e as filhas órfãs de seus irmãos, de seus primos e de seus vassalos.

[...] O ideal [para as mulheres] era uma divisão equilibrada entre a oração e o trabalho [...] do tecido. No quarto, fiava-se, bordava-se, e quando os poetas do século XI fazem tentativas de dar a palavra às mulheres, compõem canções “de fiar”. [...] Contudo, as orações e essas obras, realizadas em equipe como o eram, [...] não livravam os homens, persuadidos da perversidade estrutural da natureza feminina, de uma inquietação obsedante, fantasmática: o que fazem as mulheres juntas, só entre elas, quando estão encerradas no quarto? Evidentemente, fazem o mal”.(Georges Duby (org.). História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 88 e 90. v. 2)

O casamento monogâmico, imposto pela Igreja católica por volta do ano 1000, era uma das maneiras de o homem impor sua dominação sobre a mulher. Transformando-a em dona de casa submissa, ele controlava o medo que o sexo feminino lhe inspirava.

A vida religiosa não livrava as mulheres da violência, nem contra o corpo nem contra o espírito. Nem de sofrer, nem de praticar a violência. Grande quantidade de documentos registra várias formas de violência sofrida e praticada pelas religiosas nos conventos, muitas delas ligadas a atividades sexuais.

Os prazeres, tanto quanto a morte, ocupavam o imaginário popular medieval.

A rua, onde se juntavam os corpos das vítimas da peste ou da guerra, era também o espaço das festas populares. Cantores e artistas apresentavam espetáculos nas ruas e praças. Principalmente por ocasião das feiras e das grandes celebrações, fossem elas promovidas pelos senhores poderosos ou, depois do século XII, pelos reis.

Em todo mundo católico, ocorria também a grande explosão do carnaval, que misturava antigas tradições pagãs com diferentes formas de compreender os preceitos cristãos. O carnaval, na Idade Média, tinha seu maior esplendor nas cidades italianas de Roma, Veneza, Florença e Turim.

A Igreja, mesmo tentando coibir os excessos, nunca se propôs a proibir o carnaval. Talvez por entender que uma sociedade tão reprimida precisava de uma válvula de escape...

NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 201-203.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Transmissão de tradições: a Grande Esfinge de Gizé


A Grande Esfinge e a Pirâmide de Gizé. Esculpida a partir de pedras calcárias locais, no terceiro milênio a,C., uma das mais antigas esculturas mundiais, retrata uma criatura meio humana, meio leão que se acredita ser um faraó.

O colossal monumento de pedra, conhecido como Esfinge, guarda as grandes pirâmides do antigo Egito na planície de Gizé. Possuindo mais de 10 vezes a altura de um ser humano, a Esfinge - uma escultura que é parte homem, parte deus e parte animal - foi construída por volta de 2600 a.C. Ela serve como uma poderosa lembrança do passado egípcio. Embora tendamos a considerar esses tesouros monumentais como memórias culturais imutáveis, esse não é o caso. No tempo do faraó Thutmose IV, na época de 1401 a.C., a Esfinge já era antiga, já havia sido alterada e necessitava de uma grande reforma. De acordo com as inscrições em uma placa de granito vermelho, erigida em frente à estátua, Thutmose removeu a areia do deserto e restaurou o corpo de leão danificado com grandes blocos de pedra-calcária, para a proteção contra a erosão do vento.

Após outros mil anos, os gregos e os romanos visitaram e novamente reformaram a Esfinge. O historiador grego Heródoto (século V a.C.) passeou pelo Vale e escreveu o guia turístico definitivo até antes do século XIX. Começando com os romanos, os visitantes também roubaram monumentos menores, mais fáceis de carregar, tentando se apropriar de seus poderes como ícones históricos. A apropriação da história, aparentemente, é tão antiga quanto os monumentos. No século XV, líderes islâmicos desfiguraram a grande escultura, temendo que os egípcios locais ainda prestassem homenagens à sua grandiosidade e durabilidade. Um provérbio árabe diz que "o homem teme o tempo, mas o tempo teme as pirâmides". Saqueadores modernos, na forma de caçadores de tesouros e cientistas, apareceram na época do imperador francês Napoleão, cujas tropas invadiram o Nilo, em 1789, e redescobriram a Esfinge, seguidos por exploradores e arqueólogos europeus que começaram a cavar centenas de tesouros antigos, que eventualmente foram encaminhados para museus e coleções ao redor do mundo.

Hoje, se a Grande Esfinge pudesse olhar para trás, ela contemplaria uma paisagem transformada, desfigurada por restaurantes de fast-food, poluição do ar e turistas. A vista à sua frente permanece como as areias do deserto do Saara; como as areias do tempo, elas estão sempre mudando. Que a Esfinge e outros monumentos do Vale do Nilo sobrevivessem aos milênios era precisamente a intenção dos egípcios, que os construíram e pintaram com cores vivas na antiguidade. Contudo, sua intenção também era a de que nunca mais alguém entrasse nesses monumentos. Enquanto as gerações posteriores trataram as grandes estruturas como monumentos humanos, para os antigos egípcios esses monumentos eram algo cósmico e eterno. Ainda assim, a deterioração das faces de pedra da Grande Esfinge continua em uma velocidade alarmante. Talvez seja apropriado que o símbolo do serviço de internet América Online seja uma pirâmide, pois as centenas de sites dedicados ao antigo Egito talvez logo sejam a única forma de visitar tais monumentos como a Grande Esfinge.

A memória não é nem tão durável nem tão monumental como uma pirâmide. Ideias sobre o passado podem ser inseridas nos relatos que os historiadores contam ou nas canções que as crianças cantam. Elas podem refletir nos objetos ou nas tecnologias que criam o mundo material. [...]

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 271-272.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O reino de Axum

O reino de Axum, onde atualmente se localiza a Etiópia, começou a se formar por volta do século V a.C., em uma área de solos férteis que estimularam a agricultura e a criação de animais. Entre os séculos II e III d.C., Axum dominou diversos reinos e cidades da África e cobrava-lhes tributos. O império estendeu-se também por grande parte do sul da península arábica, onde o controle axumita se manteve até o século VI.

Expedição egípcia ao Punt durante o reinado de Hatshepsut. Foto: Hans Bernhard

A facilidade de acesso ao mar Vermelho e ao rio Nilo colocou os axumitas em contato com egípcios, gregos, romanos, árabes, persas, sírios, indianos, judeus, com os quais mantiveram intenso comércio. As trocas comerciais possibilitaram também um intercâmbio cultural: a língua e a escrita de Axum assemelhavam-se às do sul da península arábica; seus costumes e tradições assemelhavam-se aos dos gregos e romanos.

Compravam e vendiam marfim, algodão, linho, seda, vidro, machados, adagas, vinho, azeite, pedras preciosas e objetos de luxo. No comércio popular circulavam mercadorias como sal, alimentos, cerâmica, tecidos rústicos e utensílios de ferro. Os pagamentos eram feitos com moedas de ouro, prata e bronze.

O desenvolvimento comercial estimulou as viagens pelo oceano Índico, pelo mar Vermelho e pelo mar Mediterrâneo e favoreceu a produção de conhecimentos técnicos sobre navegação. As embarcações eram feitas de pranchas de madeiras presas com cordas e resistiam a longas viagens.

A sociedade subdividia-se em nobres, mercadores, marinheiros, artesãos, soldados e numerosos escravos. Grande parte da riqueza axumita era produzida no comércio, na exploração do trabalho escravo e na criação de gado.

"Esse comércio - diz Alberto da Costa e Silva - era essencialmente de artigos de luxo, cujo alto valor compensava o transporte a distância. Em Axum, devia ser monopólio do rei, negócio de estado, apanágio da nobreza. O poder do soberano tinha nele um dos seus assentos, e outros nos seus incontáveis rebanhos e na numerosa escravaria. Certa atividade mercantil estava mais ao serviço do comum das gentes: a que se fazia em torno do sal, que vinha do deserto da Dancália, das barras e utensílios de ferro, dos tecidos rudes, da cerâmica, dos alimentos." 

A arquitetura caracterizou-se por amplos palácios, templos, monumentos, mercados, feitos com basalto, granito e mármore finamente trabalhados e esculpidos. Os templos eram erguidos com trabalho coletivo, por meio do qual blocos de pedra pesando centenas de toneladas eram retirados das pedreiras e levados até o local das construções.

"Em torno das comunidades agrícolas que se dedicavam à agricultura e ao pastoreio - diz José Rivair Macedo -, organizaram-se poderes centralizados para os quais foram edificados palácios, túmulos e altares com admiráveis registros iconográficos gravados em pedra, uma estatuária rica em motivos guerreiros e uma forma de escrita desenvolvida. Sinais evidentes de uma sociedade hierarquizada, diversificada e complexa, que estaria na origem da atual Etiópia." 

Os axumitas acreditavam na vida após a morte. Construíam monumentos como esse, chamados de estelas, em homenagem aos reis mortos. As paredes laterais continham entalhes de figuras divinas e na base ficava um altar com uma espécie de bacia para onde escorriam o sangue dos sacrifícios de animais e o vinho das oferendas.

No século IV teve início em Axum a divulgação da religião cristã. Ao que parece, ela chegou aos axumitas por influência de um conselheiro do reino que era cristão e viera da cidade de Roma [...], onde o cristianismo já havia sido difundido.

O rei Ezana, cujo governo ocorreu por volta dos anos 325 e 360, converteu-se ao cristianismo e o transformou na religião oficial de Axum. No entanto, a nova religião foi aceita aos poucos, convivendo por muito tempo com as crenças locais. Nos territórios do norte, por exemplo, o número de cristãos tornou-se significativo somente no início do século VI. Textos bíblicos foram traduzidos para o idioma falado pelos antigos etíopes; em numerosos mosteiros viviam monges que dedicavam sua vida às orações, à meditação e à caridade.

Rei etíope encontrando embaixadores da Pérsia. Franciszek Smuglewicz

Ainda no século VI, o Império de Axum foi se enfraquecendo devido a conflitos e disputas comerciais com outros impérios da época, sobretudo o Bizantino e o Persa.

MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 30.
PANAZZO, Silvia; VAZ, Maria Luísa. Navegando pela História. São Paulo: Quinteto Editorial, 2009. p. 81-83.
SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 204.

domingo, 29 de julho de 2012

O reino de Cuxe

Rainha Amanitore 

"A palavra Cuxe aparece, pela primeira vez, num texto egípcio, por volta de 2000 a.C. Refere-se a um reino que se entendia ao sul de Semna. Ali, terminava o "Ventre das Pedras" e abria-se a paisagem mais suave e mais propícia do Abri-Delgo, com suas planícies cultiváveis junto ao rio, a anteciparem as terras férteis de Dongola, mais ao sul [...]" ¹


Ao sul do Egito, localizava-se a Núbia. Embora fosse banhada pelo rio Nilo, essa região era bastante árida e seu povo precisou criar sistemas de irrigação que facilitaram a criação de gado e o cultivo da cevada, trigo, sorgo, lentilhas, pepino, melão, tâmaras. Por volta de 2000 a.C. lá se formou o reino de Cuxe, que manteve intensa atividade comercial: caravanas chegavam pelo deserto carregadas de mercadorias da Ásia e das regiões próximas ao mar Mediterrâneo; pelo rio Nilo, os comerciantes cuxitas levavam e traziam produtos do norte e do sul da África, como peles de animais, marfim, madeiras, ouro.


Faraós núbios. 25ª dinastia
"A presença núbia era constante ao longo dos milênios da história do Império Egípcio e é atestada nas pinturas das paredes das pirâmides, nas ilustrações dos papiros e na rica estatuária." [MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 25]

Nas pirâmides onde foram enterrados os soberanos cuxitas, eram feitas oferendas de artigos de luxo, o que demonstra o rico artesanato daquele povo.

As principais cidades do reino de Cuxe foram Querma, Napata e Méroe. Dentre elas, Méroe se destacou por ter se tornado um importante centro urbano e por atrair grande número de pessoas interessadas na agricultura, no comércio e na metalurgia. Foi uma das capitais do reino de Cuxe. Escavações arqueológicas revelam que em Méroe havia uma área cercada por muralha de pedra, onde viviam o rei e a nobreza e ficavam os palácios, os prédios públicos e alguns templos religiosos.

"Tinha essa gente enorme apreço pelos vasos de alabastro, pelas estátuas, estelas e outros objetos egípcios - encontrados em tal abundância nos seus túmulos, que o primeiro arqueólogo que trabalhou em Querma, G. A. Reisner, chegou a considerá-la uma feitoria dos faraós. [...]" ²


Príncipe Arikankharer matando seus inimigos.
Arte meroítica em arenito

Os contatos com diferentes povos favoreceram a criação de uma cultura material rica e diversificada. Confeccionavam peças de cerâmica, jóias e estatuetas de ouro, prata e bronze, faziam instrumentos musicais, criavam objetos de madeira, produziam adornos de vidro, de conchas e de pedras preciosas.


Cerâmica meroítica
"Da Núbia provinha uma série de produtos apreciados em Mênfis ou Tebas, como peles de animais e temperos, mas sobretudo minerais preciosos e cativos que seriam empregados como escravos em serviços domésticos e nos templos. O próprio termo "Núbia" deriva de noub, que significava 'ouro'". [MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 25]

As fontes históricas sobre os cuxitas indicam que a sociedade estava dividida da seguinte forma: rei e nobreza; altos funcionários públicos e chefes militares; sacerdotes, comerciantes, artesãos e soldados; camponeses (também chamados felás).

As pessoas ricas vestiam roupas brancas de linho e algodão com bordados coloridos e usavam jóias. Os mais pobres usavam roupas simples de couro e andavam descalços. Em todas as camadas sociais as pessoas usavam colares, pulseiras, braceletes e tornozeleiras.

"A riqueza de Cuxe permitiu que suas elites copiassem o modelo egípcio. Da mesma forma que o faziam os hicsos. Trabalhadores egípcios serviam em Querma e transmitiam suas técnicas aos artesãos cuxitas. Qualquer objeto egípcio era tido em alta estima e bem cuidado. E também - pode-se supor - os modos de vida, a etiqueta e o protocolo." ³


Estátua meroítica encontrada no “Santuário da Água”, Méroe, Núbia, Sudão

Geralmente as casas eram feitas de tijolos e nelas havia fogão, camas de madeira, potes de barro, cestos e diversos objetos, como enxadas, facas e tesouras de ferro, além de vasos, taças, tigelas, caixas de bronze, prata, vidro ou madeira. Quanto maior fosse a casa e maior a variedade de objetos que ela tivesse, mais alta era a posição social de seu proprietário.

Relevo cuxita

O povo de Cuxe era politeísta e adorava deuses antropozoomórficos, como Marduk e Apedemek. Na cidade de Napata foi construído um templo em homenagem a Amon, deus do sol, também cultuado no Egito.


Pirâmide de Khartoum
"Do esplendor e prosperidade da civilização de Meroé restaram diversos monumentos, entre os quais pirâmides de pequena proporção, templos em homenagens aos deuses, túmulos e sarcófagos de granito [...]" [MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 26]

Os túmulos dos reis e da nobreza tinham formas de pirâmides. Mulheres e escravos eram enterrados com o morto para servi-lo na vida após a morte. Além disso, eram colocados junto ao corpo jóias, objetos e oferendas variadas. Nas demais camadas sociais, os mortos eram mumificados e enterrados em cemitérios.


Esta lâmpada representa um prisioneiro nu cativo, as mãos amarradas aos tornozelos. 

Para facilitar as atividades comerciais, os cuxitas utilizaram a escrita hieroglífica egípcia e, posteriormente, a alfabética, por influência dos fenícios e dos gregos.


Escrita cursiva meroítica

Cuxe tinha uma monarquia teocrática. Os estudos revelam que essa forma de governo foi comum em grande parte dos antigos reinos africanos que praticavam a agricultura como uma das principais atividades.

O reino de Cuxe começou a se enfraquecer por volta do século IV, devido a uma série de razões: o empobrecimento do Egito, que passou a comprar menos mercadorias cuxitas, a insegurança nas rotas comerciais, que dificultava a travessia do deserto. Além disso, Méroe, principal cidade na época, foi por diversas vezes atacada por tribos nômades e também por outro reino africano, Axum. Nesses ataques, os invasores saqueavam os estoques de alimentos e mercadorias, empobrecendo a cidade e dificultando ainda mais a prática do comércio naquele reino.

MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 25-26.
PANAZZO, Silvia; VAZ, Maria Luísa. Navegando pela história. São Paulo: Quinteto Editorial, 2009. p. 78-81.
SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 109 (citações ¹ e ²) e p. 111 (citação ³)

terça-feira, 29 de maio de 2012

"A Aliança das Civilizações"


As correntes do Bósforo são conhecidas por sua força e por terem o sentido inverso na superfície e na profundidade. No entanto, há séculos o povo turco aprendeu a negociar entre estas correntes, na fronteira entre a Europa e a Ásia e entre o mundo islâmico e o Ocidente, o que contribuiu para a sua prosperidade. O relatório "A Aliança das Civilizações" ressalta justamente que a fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, foi desde sempre o motor do progresso humano. Na época em que a Europa atravessava a idade das trevas, a Península Ibérica construiu seu progresso sob a interação entre as tradições muçulmanas, cristãs e judaicas. Mais tarde o Império Otomano prosperaria graças, sem dúvida, ao seu exército, mas também porque, neste império de ideias, a arte e as técnicas muçulmanas foram enriquecidas pelas contribuições judaicas e cristãs.

Infelizmente, muitos séculos mais tarde, é o crescimento da intolerância, do extremismo e da violência que marca nossa era de mundialização. Longe de semear a compreensão e a amizade mútuas, o estreitamento das distâncias e a melhora nas comunicações têm frequentemente engendrado tensão e desconfiança. Muitos são os que chegam a temer, especialmente nos países em via de desenvolvimento, a existência da comunidade planetária - sinônimo, a seus olhos, de agressão cultural e de sangria econômica. A globalização ameaça tanto seus valores quanto seu bolso.

Os ataques terroristas do 11 de setembro, a guerra e os conflitos no Oriente Médio, as propostas e os projetos mal-inspirados só servem para reforçar este sentimento e provocar tensão entre os povos e as culturas. As relações entre os fiéis das três grandes religiões monoteístas foram fortemente postas a prova. [...] 

No momento em que as migrações internacionais levam um número sem precedentes de pessoas das mais diversas religiões e culturas a viver lado a lado, os radicalismos e estereótipos que sustentam a ideia de "choque das civilizações" são cada vez mais propagados. Alguns grupos parecem impacientes para fomentar uma nova guerra de religiões, desta vez em escala mundial. E indiferença ou até mesmo desprezo que os outros manifestam em relação a suas crenças ou símbolos apenas lhes facilita a tarefa.

Em suma, a ideia de uma aliança das civilizações não poderia chegar em melhor hora, visto que não vivemos em mundos diferentes, como acontecia com nossos ancestrais. As migrações, a integração e a técnica têm aproximado as diferentes comunidades, culturas e etnias, fazendo cair velhas barreiras e desvendando novas realidades. Nós vivemos como jamais seria possível antigamente, lado a lado, submetidos a várias influências e ideias diferentes.

A demonização do "outro" revelou-se o caminho mais fácil. Neste século 21, continuamos reféns de nossa própria percepção da injustiça e de nossos direitos. Nosso discurso tornou-se a nossa prisão. Para muitas pessoas ao redor do mundo, em particular os muçulmanos, o Ocidente é uma ameaça a suas crenças e valores, interesses econômicos e aspirações políticas. Qualquer prova em contrário está condenada ao desdém e ao descrédito. Do mesmo modo, muitos ocidentais consideram o Islã como uma religião de extremismo e violência, mesmo sabendo que os dois mundos mantêm há muito tempo relações nos quais o comércio, a cooperação e as trocas culturais têm ocupado no mínimo tão importante quanto o dos conflitos. [...]

Inspiremo-nos por uma inscrição que pode ser vista no museu de Arqueologia de Istambul. Ela contém o tratado de paz firmado entre os impérios hitita e egípcio, depois da sangrenta batalha de Kadesh, em 1229 a.C. Tendo colocado um ponto final em décadas de desconfiança e guerra, este acordo marcou uma etapa histórica: os dois campos comprometeram-se a trocar assistência mútua e a cooperar. Esta é, de fato, a representação literal de uma aliança entre duas grandes civilizações. [...]

[Parte do discurso do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em Istambul. In: Le Monde Diplomatique: Brasil, São Paulo, fev. 2007.]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cultura afro-brasileira

Dança de negros, Zacharias Wagener

Texto 1: Calundu

No Brasil dos séculos XVII e XVIII, calundu representava a prática de curandeirismo e uso de ervas com a ajuda dos métodos de adivinhação e possessão. O termo calundu era associado à palavra "quibundo", de origem quimbundo (língua banto), que designa a possessão de uma pessoa por um espírito. As pessoas que praticavam o calundu eram conhecidas como curandeiras. Possuíam grande influência sobre a comunidade, pois eram consideradas importantes líderes religiosos. Por isso, eram sempre perseguidos pelas autoridades locais. Na cidade de São Paulo, por exemplo, algumas africanas curandeiras eram famosas, como Maria D'Aruanda e Mãe Conga, procuradas por serem "desinquietadoras de escravos".

Os curandeiros detinham o conhecimento de certas "técnicas medicinais". Na realidade, elas eram uma mistura de costumes africanos, portugueses e indígenas, que consistiam, basicamente, no uso de ervas, frutos e produtos naturais fáceis de encontrar. Com isso, os curandeiros atendiam a doentes de todas as camadas sociais, sobretudo os escravos, que possuíam poucos recursos. Além de produtos naturais, também sabiam manipular substâncias químicas, como venenos, sendo procuradas pelos escravos maltratados desejosos por matar os seus proprietários ou apenas por deixá-los mais tranquilos. Nesse caso, era-lhes dado algum calmante, que os tornavam inofensivos, parecendo estar sob efeito de encanto ou feitiço. Por isso, os curandeiros eram conhecidos como feiticeiros ou bruxos.

Esses indivíduos, na sua maioria africanos, eram considerados verdadeiros líderes, na medida em que conseguiam amenizar as agruras causadas pelo sistema escravista ao "amansar" ou até mesmo matar os senhores mais cruéis, curar as doenças dos cativos, prever-lhes um futuro melhor e, enfim, propiciar apoio e solidariedade aos seus companheiros. Dessa forma, eram perseguidos e controlados pelas autoridades locais.

Por conta de suas características, pode-se afirmar que a prática do calundu ou do curandeirismo recebeu influências das tradições da África Centro-Ocidental, nas quais, além dos ancestrais, outros indivíduos são dotados de caráter sagrado. É o caso dos reis, chefes, pais e os ligados à religião, como aqueles que praticam a adivinhação e o curandeirismo.

Nessas sociedades centro-ocidentais africanas, os valores positivos, como a saúde, a harmonia, a fecundidade e a riqueza eram considerados importantes. Tudo aquilo que era contrário, isto é, a doença, a inferioridade e a escravidão, resultava de feitiçarias provocadas por pessoas mal-intencionadas, por espíritos malévolos ou esquecidos pela comunidade. Para conseguir se livrar dos aspectos negativos e retomar a harmonia, era necessário, em primeiro lugar, descobrir a causa dos infortúnios. Por ser oculta, a causa só seria descoberta pelo curandeiro, que, dotado de um poder especial, se comunicava com os ancestrais, que a revelavam. Em segundo lugar, era preciso realizar cerimônias com danças, músicas e rituais de possessão, bem como utilizar símbolos, como os objetos sagrados e mágicos em homenagem aos ancestrais.

Para muitos africanos que estavam no Brasil, o calundu ou curandeirismo, além de ser uma oportunidade de expressar suas visões de mundo e crenças religiosas, era uma forma de luta e de resistência ao sistema escravista, uma tentativa de retomarem o que consideravam importante e que haviam perdido com a escravidão e a diáspora.

No conjunto de crenças africanas sobre o universo, em especial na região Centro-Ocidental, era (e ainda é até hoje) atribuída uma grande importância aos espíritos dos ancestrais, pois são considerados os seres intermediários entre o homem e o Ser Supremo, criador de todo o universo. Para tanto, os ancestrais são dotados de muita energia, chamada de energia vital, adquirida e acumulada durante a sua existência na Terra. Os ancestrais foram grandes homens, que tiveram uma existência repleta de ações dignas e realizações importantes. Deixaram, assim, uma lição, uma herança a ser seguida pelos seus descendentes.

Por isso, para se conseguir os valores positivos e levar uma vida com harmonia, não se poderia deixar de cultuar os seus ancestrais mortos, agradando-os com oferendas, sobretudo, aqueles que deram origem às comunidades. Ainda mais quando se acreditava que, com a morte, a energia vital poderia se dissipar. E, para que isso não ocorresse, era necessário realizar oferendas, preces e rituais fúnebres, objetivando a manutenção da energia vital mesmo depois da morte.

As oferendas e homenagens aos ancestrais eram oferecidas em lugares sagrados, em geral, no meio da natureza, debaixo de árvores, num bosque, em rios, ou mesmo em suas tumbas, nos cemitérios e altares construídos nas aldeias e nas encruzilhadas. Era muito comum oferecer alimentos e bebidas.

Além de serem cultuados e reverenciados, os mortos tinham que receber um enterro digno. Como verdadeiro rito de passagem, no qual acontece a separação física do mundo profano e a chegada do morto ao mundo sagrado dos ancestrais, os enterros deveriam ser realizados conforme as tradições, com velório, preparação do morto, sepultamento e luto.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 156-159.

Texto 2: Ilê Aiyê

Mulheres africanas, Surama Caggiano


Se me perguntares de que origem 
eu sou
Eu sou de origem africana
Com muito orgulho, eu sou [...]

Pisando firme no chão, cantando alto, valorizando suas raízes, o bloco Ilê Aiyê enche de alegria as ruas de Salvador, na Bahia. E mostra o quanto o Brasil é preto. Mesmo tendo sido abafada durante quatro séculos, a cultura negra espalha-se pelo país. E explode com força nos terreiros religiosos, nas rodas de samba, nos afoxés baianos, como o Filhos de Gandhi e o Badauê, no sonho de Buziga, compositor do Ilê Aiyê:

O que será do Ilê Aiyê
Será integração negras raízes
Pisando firme no chão
Até que um dia haverá de alguém
Compreensão, meu povo
Nós somos todos irmãos [...]

Em diversas cidades, inúmeros grupos negros buscam afirmar o valor de sua gente e denunciar as injustiças que vieram da escravidão. Eles continuam a luta de Zumbi, Isidoro, Chico Dragão do Mar, Tonho Paciência, Nico Mulungu, João Cândido e muitos outros. [...]

Dom José Maria Pires, negro, arcebispo da Igreja Católica de João Pessoa, na Paraíba, resume num sermão os novos tempos:

- Pretos, meus irmãos! Como nossos antepassados, viemos de vários lugares. Diferentes deles, trazemos na pele colorações variadas. Na alma, crenças diferentes. Mas neles e em nós estão presentes as marcas da negritude. Somos negros e não nos envergonhamos, não queremos mais nos envergonhar de sê-lo!

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo 2: a República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 255.

sábado, 7 de abril de 2012

Reggae, o hino da resistência na Jamaica


Quando a lenda da música reggae, Bob Marley (1945-1981), cantou "Get up, Stand up", era um chamado para a guerra. O reggae tornou-se o hino da resistência na Jamaica, uma antiga colônia britânica onde a cor, a classe e o capitalismo se misturaram em uma encruzilhada urbana de pobreza e subdesenvolvimento. A letra da canção continua sendo uma verdade para muitos povos distantes do Caribe:

Levante, resista
Lute por seus direitos
Levante, resista
Não desista da luta

Em sua pátria jamaicana, o reggae estava ligado à religião Rastafari, uma filosofia de descendência africana que combinava ensinamentos bíblicos cristãos com crenças enraizadas no reinado histórico do último imperador etíope, Haile Selassie I (1930-1974), como o deus vivo do povo negro. Canções de liberdade eram "canções de redenção". Surgindo das tradições populares jamaicanas e abrangendo múltiplos estilos musicais, de fontes locais e importadas, a música reggae também estava enraizada na consciência histórica. A canção de Marley, "War", foi retirada quase que inteiramente de um discurso de Haile Selassie. Outras músicas cantaram histórias silenciadas por aqueles que detinham o poder; na letra da música "Buffalo Soldier", sobre os soldados afro-americanos esquecidos que lutaram pela liberdade dos Estados Unidos, Marley lembrava a seus ouvintes que "se você conhecesse sua história, você saberia de onde vem".

War

O talento artístico de Marley atraiu a atenção da ordem política jamaicana, que foi forçada a levar os pobres a sério, principalmente a subclasse negra da ilha. Mas a mensagem do reggae transcendia os limites políticos e religiosos. Bob Marley cantou para as esperanças e aspirações dos oprimidos e para uma nova geração de jovens e revolucionários que buscavam filosofias alternativas para desafiar o status quo. Ele clamou pela liberdade pessoal e pela revolução. Suas canções atingiam as paradas musicais em todas as partes do mundo e vieram a ser associadas com as lutas pela independência política dos negros. Em 1980, Bob Marley foi convidado a ir ao Zimbábue para se apresentar na cerimônia de independência da nação africana. Embora Marley tenha morrido no ano seguinte, a autenticidade política da música reggae forneceu um modelo para a revolução e para a resistência além da Jamaica nos anos que se seguiram. Além do mais, ela virou um hino para o reconhecimento da diferença e do papel que esta poderia desempenhar na solidariedade e na mudança.

Como sugerido pela música de resistência de Bob Marley, as ideias e circunstâncias que inspiraram a mudança revolucionária no século XX foram encontradas tanto na experiência dos povos oprimidos ao redor do globo quanto nos exemplos históricos de outros movimentos de resistência. A história contada a partir do ponto de vista daqueles no poder poderia ser uma ferramenta para silenciar outros passados; mas a memória histórica também poderia ser um meio de outorgar poder àqueles que buscavam mudanças sociais e políticas.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 237.

sábado, 17 de março de 2012

O fenômeno 2012

Tempestades solares, inversão dos pólos magnéticos da Terra, erupção de um supervulcão, cataclismo planetário... Entenda como o mercado da catástrofe transformou uma data ritual maia em sinônimo de fim dos tempos

por Bruno Fiuza

Descoberta em 1790 na Cidade do México, a Pedra do Sol é uma representação da doutrina das Eras do Mundo que os astecas herdaram dos maias.

Assim como aconteceu por volta do ano 1000, a chegada do terceiro milênio foi acompanhada pela proliferação de profecias escatológicas. Agora, porém, os supostos presságios de cataclismo não vêm da tradição cristã, mas de uma antiga civilização que surgiu em meio às florestas tropicais da América Central e viveu seu período de apogeu entre os séculos II e IX: os maias.

Para esse povo, o ano de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125,36 anos de seu calendário. Segundo a tradição maia, ao fim de cada ciclo a humanidade entra em uma nova era [...].

O sistema de Conta Longa do calendário maia foi utilizado por séculos, até desaparecer após a decadência dos centros de poder do Período Clássico, no século IX. No entanto, cerca de mil anos mais tarde os boatos da existência de uma civilização perdida nas florestas do sul do México despertaram o interesse de exploradores modernos como o mexicano Antonio del Rio, o francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, o americano John Lloyd Stephens e o inglês Frederick Catherwood. Entre as décadas de 1820 e 1840 eles localizaram as primeiras ruínas de cidades maias e, com elas, os vestígios dos sistemas de escrita e de calendário dessa civilização.

Inspirado por essas descobertas, na década de 1880 o pesquisador inglês Alfred Maudslay fotografou os glifos gravados nas ruínas localizadas até então. Ao analisar essas imagens, o americano Joseph Goodman identificou o funcionamento do calendário maia. Na mesma época, o alemão Ernst Förstemann chegava a conclusões semelhantes ao estudar textos maias reunidos no Códice de Dresden.

Em 1905, Goodman apresentou um modelo de correlação entre as datas da Conta Longa do calendário maia e as do calendário gregoriano. Sua teoria foi complementada pelo antropólogo mexicano Martinez Hernández e pelo arqueólogo inglês J. Eric S. Thompson na década de 1920. O trabalho combinado dos três deu origem à fórmula usada atualmente para converter as datas da Conta Longa do calendário maia para o calendário gregoriano.

As analisar essas datas à luz da cosmologia maia, os pesquisadores chegaram a uma constatação para esse povo, a história do mundo se dividia em eras de 5.125,36 anos, e cada vez que um desses ciclos terminava nosso planeta passava por um período de intensa renovação, quando começava uma nova etapa para a humanidade.

Como a Longa Data do calendário maia era extremamente precisa e informava que a era atual havia começado em 11 de agosto de 3114 a.C., o arqueólogo americano Michael Coe calculou que o atual ciclo terminaria em 24 de dezembro de 2011. Coe publicou essa data final em seu livro Os maias, de 1966, mas pesquisas posteriores demonstraram que a conta estava errada. O equívoco foi corrigido nas edições seguintes da obra, e hoje a data mais aceita para o fim do ciclo é 21 de dezembro de 2012.

Até esse momento, o calendário maia era um assunto restrito a pesquisadores especializados, mas no início da década de 1970 ocorreu uma mudança que transformaria 2012 em um fenômeno de massas, como explica o pesquisador americano John Major Jenkins em seu livro 2012 - A história. Nessa época, dois escritores americanos viram nas traduções místicas dos povos ancestrais do México um antídoto para os males da civilização industrial moderna.

O primeiro foi Tony Sheaner, jornalista de Denver que no fim da década de 1960 largou tudo para viver no México. No início dos anos 1970 ele publicou dois livros em que relacionou a cosmologia e os ciclos de calendário utilizados pelos astecas para formular uma teoria segundo a qual a humanidade estaria vivendo os últimos momentos de um ciclo que terminaria em 1987. Nessa data que se batizou de Convergência Harmônica, o planeta passaria por um renascimento espiritual que marcaria o início de uma nova era.

O segundo foi Frank Waters, que em 1975 publicou um livro no qual estudou o significado místico da Conta Longa do calendário maia. Segundo Waters, os ciclos de 5.125,36 anos se baseariam em cálculos astronômicos e astrológicos e estariam ligados a uma doutrina de Eras do Mundo. Por ter sido o primeiro autor a tratar o fim de um ciclo do calendário maia como um marco de transformação espiritual, Jenkins afirma que Waters "pode ser considerado o homem que desencadeou o fenômeno 2012".

Inspirado por essas descobertas, o escritor americano José Arguelles organizou um grande evento para celebrar a Convergência Harmônica que Sheaner havia previsto para 1987. Nesse mesmo ano, Arguelles publicou um livro chamado O fator maia, no qual apresentou sua própria interpretação espiritual dos ciclos de Conta Longa. Segundo ele, 2012 seria uma nova Convergência Harmônica, que provocaria uma grande transformação espiritual na Terra.

Graças ao sucesso do livro e da Convergência Harmônica de 1987, Arguelles se tornou o líder de movimento que se propunha a adotar o calendário maia e viver de acordo com seus princípios. Em 1991, o escritor desenvolveu um sistema de contagem de tempo batizado de Dreamspell, que ele inicialmente apresentou como uma versão moderna do próprio calendário maia, mas que tinha diferenças importantes em relação à contagem de dias tradicional desse povo.

* A invenção da catástrofe. O movimento criado por Arguelles transformou o calendário maia em um fenômeno pop, mas ele mesmo não via 2012 como o fim do mundo. As teorias que associavam o fim do atual ciclo a cenários catastróficos ganharam força a partir da década de 1990.

Em 1995, o engenheiro e cientista Maurice Cotterell e o escritor Adrian Gilbert publicaram o livro As profecias maias, que apresenta a teoria desenvolvida por Cotterell segundo a qual os ciclos de Conta Longa do calendário maia estariam relacionados a ciclos de atividade solar. Segundo o cientista, o fim da era atual em 2012 coincidiria com um enorme aumento das explosões no interior do Sol, quando o astro envia nuvens de prótons e elétrons em direção à Terra que poderiam inverter os pólos magnéticos do planeta.

Cotterell não apresenta nenhuma evidência concreta tirada da cultura maia que respalde sua tese, mas o sucesso comercial de As profecias maias popularizou essas ideias. Algumas foram retomadas pelo escritor americano Lawrence Joseph no livro Apocalipse 2012, publicado em 2004. Joseph se baseia na teoria do pico da atividade solar em 2012 e acrescenta alguns elementos à fórmula: segundo ele, o fenômeno poderia ser acompanhado por megarrajadas de radiação com potencial para acabar com a vida em nosso mundo, provocar a inversão dos pólos magnéticos da Terra e aquecer o núcleo do planeta a tal ponto que um supervulcão localizado sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, entraria em erupção.

Por causa dessas teorias absurdas, sem nenhuma ligação com o antigo pensamento maia, o estudo do significado de 2012 para essa civilização foi praticamente descartado pelos pesquisadores acadêmicos. Muitos especialistas afirmam que os maias nunca fizeram nenhuma menção a 2012 e que tudo não passaria  de uma grande invenção moderna.

[...]

Bruno Fiuza. O fenômeno 2012. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 46, 48-49.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A diversidade latino-americana

A diversidade de ingredientes da América Latina vem chamando a atenção de cozinheiros do mundo inteiro. [...] Para discutir a riqueza da gastronomia latino-americana, a Menu convidou para um bate-papo o historiador Henrique Carneiro [...] e o sociólogo Carlos Alberto Dória [...].

Astecas preparando refeição. Ilustração do Codex Florentine. Século XVI.

Como vocês veem o fato de a diversidade e a complexidade das cozinhas americanas estarem mais evidentes em alguns países, como México e Peru?
Henrique Carneiro Acho que as grandes civilizações pré-colombianas tiveram essa primazia por conta de serem mais cosmopolitas que os índios do Brasil. No Peru, há uma ascendência da civilização pela combinação dos produtos da floresta e do mar. É o mar mais viscoso do planeta, e há recursos, oriundos do que eles chamam de pisos ecológicos, que até hoje fazem a riqueza da região: batatas plantadas acima de três mil metros, amarantáceos (como as quinuas) plantados há mais de quatro mil metros de altitude. E há o cultivo do algodão, que permitiu a eles tecer redes e armadilhas para os peixes.

Carlos Alberto Dória Acho errada a visão de que aos povos da floresta, como os do Brasil, estaria reservado um lugar não tão marcante. Nos anos 1980, houve uma revisão disso: há indícios  de que no Alto Xingu já se tinha uma sociedade bastante complexa, com cidades muradas ligadas por estradas largas e, entre elas, pomares de frutas como pequi e grandes tanques de criação de tartarugas.

Carneiro Ainda assim, me parece que a diferença marcante entre as sociedades andinas pré-colombianas e os povos da floresta é a poderosa rede de intercâmbios entre diferentes regiões e altitudes. Essa homogeneidade da civilização tropical florestal, embora tenha sido desprezada, é de uma riqueza de produtos disponíveis menor do que a dos povos andinos.

Dória As culinárias andina e mexicana têm um viés popular duradouro. Nós, brasileiros, nos ocidentalizamos demais. Nos orgulhamos dos italianos, espanhóis e alemães que vieram para cá, mas não do índio. Na época da independência mexicana (1910), a burguesia deste país reivindicou para si a cultura popular. Houve, então, uma incorporação simbólica, principalmente da cultura pré-colombiana.

E quanto às bebidas tradicionais?
Carneiro O Brasil é o único país de tradição indígena que perdeu o hábito de suas bebidas fermentadas. A chicha (fermentado de milho), feita do Chile à Colômbia, e o pulque mexicano continuam vivos até hoje. Outro exemplo dessa perda das tradições é o cactus: essa planta só existe na América. Em todas as culturas do continente, o cactus faz parte dos pratos. No Nordeste brasileiro, ele só é comido quando a fome é extrema. Retomando a questão da maior complexidade ou diversidade deriva, também, do uso do sal, escasso no contexto indígena brasileiro, enquanto no Peru havia uma corrente de tráfego de sal que abastecia os povos com elementos nutricionais importantes.

Quais seriam os ingredientes fundamentais para a construção das cozinhas latino-americanas?
Carneiro No México, milho, feijão e chiles (pimentas). Depois, alimentos complementares, como as abóboras, o tomate e o abacate.

Dória No Brasil, as guerras entre tupis e tapuias é, no fundo, a guerra do milho e da mandioca. Acho que o milho e a mandioca são alimentos distintivos na América do Sul. É inegável que, entre os alimentos proteicos, a riqueza de peixes na Amazônia é grande, um sustentáculo da alimentação. E, combinada à mandioca, na medida em que o tucupi, além de alimento, é um conservante. E no plano dos pequenos ingredientes, o Brasil é muito rico.

E quanto às frutas?
Dória A variedade de frutas em São Paulo era imensa. Há frutas da minha infância que os jovens hoje desconhecem, como o cambucá. Essa destruição recente influi muito na visão que se tem da nossa culinária. Embora o valor culinário de São Paulo, por exemplo, seja a própria diversidade, por conta das migrações, ela nega a diversidade original nativa. Tanto é que a palavra exótica é aplicada pelo brasileiro às coisas do próprio país.

Carneiro Lembremos que o tomate, americano, é uma fruta. Mas uma fruta destacada nas Américas é a banana-da-terra. Em Cuba, no Equador e na Colômbia, é o acompanhamento geral das comidas. Vende-se banana como se vende batata chips.

É possível traçar diferenças entre a colonização espanhola e a portuguesa na culinária de suas colônias?
Dória O fundamental, quando se trata do período colonial, é perceber que a mesa europeia advém das colônias, quer sejam as especiarias do Oriente, quer sejam os vegetais das Américas.

Carneiro Há também a questão dos cozidos, como a olla podrida (ou puchero) espanhola, que nas Américas tem equivalentes como o ajiaco (colombiano), o sancocho (peruano e boliviano) e o locro (boliviano). No Brasil não temos um cozido dessa natureza, com vegetais. Na Espanha usa-se, sobretudo, grão-de-bico.

Dória Essa relação que se faz na América espanhola com o cozido, nós fazemos com o vatapá. E o que é o vatapá? É a açorda portuguesa. Em todas as colonizações portuguesa, há um equivalente: uma sopa que leva pão. Mas o que unifica a colonização ibérica é o porco, que chega à América e se torna um pilar da alimentação de vários países.

Propala-se hoje uma certa "superioridade" gastronômica do Peru...
Dória A Amazônia é anterior ao Peru e ao Brasil. Então, ela vai engolir o Peru e o Brasil!

Carneiro Na qualificação dos ingredientes e receitas, duvido que o Peru possa ser mais amplo do que as diferentes tradições do Brasil. Mas o País tem produtos muito peculiares, que originam combinações peculiares. E uma diversidade de ecossistemas num espaço pequeno.

Dória Essa "oposição" entre Peru e Brasil se baseia no equívoco de achar que as receitas é que fazem uma culinária. O que o Peru tem de marcante é um grande chef, Gastón Acurio, cujo discurso político é muito articulado, e onde a culinária é um fator de emancipação do trabalhador e está ligada à construção de um modo de vida, o que falta no Brasil. Nossos chefs ainda veem o Brasil pelos olhos europeus, não mais pelos dos franceses, mas, agora pelos dos espanhóis.

E quanto ao trabalho que se faz com relação à Amazônia?
Dória O que existe hoje em termos de atenção culinária na Amazônia está concentrada no Peru, exatamente por causa de Acurio. Nós sentimos falta disso, parece que a Amazônia não nos pertence. Mas se atentarmos a Belém, particularmente ao jovem cozinheiro Thiago Castanho, podemos ver com esperança um tratamento da cozinha amazônica a partir da própria Amazônia.

Carneiro Mas há aqui um intérprete nacional da culinária como Acurio? O próprio (Alex) Atala fez pesquisas na região, mas não se incorporaram. A própria coca peruana, não é só uma droga, pois tem vários usos culinários que foram recuperados, como torta de coca, farinha de coca, e são motivo de orgulho dos peruanos.

Cristiana Couto. Revista Menu. Outubro 2011. p. 57-59.