sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Cultura brasileira: uma contribuição de brancos, negros e índios?

Iracema, Antonio Parreiras

Cultura brasileira. Aventura dos homens, mulheres e crianças que aqui viveram; índios, negros e brancos; católicos, judeus e protestantes; população que simultaneamente forjou-se e ajudou a forjar o país.

Estudo de quatro cabeças, Arthur Timótheo

"Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português"
(Erro de Português, Oswald de Andrade)

O último tamoio, Rodolfo Amoedo

De acordo com o senso comum, a cultura brasileira resultou da contribuição de brancos, negros e índios. No entanto, essa questão é mais complexa, uma vez que se corre o risco de generalizações e simplificações.

Afinal, quando se fala de "brancos", é preciso considerar não apenas os portugueses (a chamada "matriz portuguesa") mas também os imigrantes italianos, espanhóis, alemães, poloneses, ucranianos, holandeses, sírios, libaneses, dentre outras nacionalidades). Muitos destes imigrantes chegaram ao Brasil a partir da segunda metade do século XIX e, já no princípio do século XX, mais precisamente a partir de 1908, esse fluxo imigratório ganhou uma dimensão ainda maior com a vinda dos japoneses. Mais tarde, outros grupos asiáticos, como coreanos e chineses, também emigraram para o Brasil.

Lenhador, Rafael Pinto Bandeira

O vocábulo "negro" também é uma generalização que camufla a enorme multiplicidade étnico-linguística e cultural dos africanos que foram trazidos e se estabeleceram em determinadas regiões do território brasileiro no contexto do tráfico atlântico.

Fósforos, Firmino Monteiro

Se há alguns anos era comum fazer referência à "contribuição dos africanos na formação sociocultural brasileira", destacando-se, quase sempre a capoeira, o samba e a culinária, na atualidade, tal "legado" é muito questionado, uma vez que simplifica e banaliza a complexidade da história da cultura, relegando à etnia negra apenas um papel secundário em torno do eixo eurocêntrico.

Cena de Candomblé, Wilson Tibério

Em algumas áreas, como no polo açucareiro de Salvador, por exemplo, a presença africana e dos afrodescendentes foi tão expressiva que alguns autores sugerem que houve "uma contribuição portuguesa", num processo de africanização sociocultural.


"Meu pai grande
Ainda me lembro e que saudade de você
Dizendo: eu já criei seu pai, hoje vou criar você
Ainda tenho muita vida pra viver!
Meu pai grande
Quisera eu ter sua raça pra contar
A história dos guerreiros
Trazidos lá do longe, sem sua paz..."
(Pai Grande, Milton Nascimento)

Retrato, Arthur Timótheo

O mesmo raciocínio também se aplica aos "índios" e às suas "contribuições" (hábito de dormir na rede, tomar banho de rio, culinária, etc.). É preciso considerar que, em 1500, eles eram aproximadamente cinco milhões de indivíduos e que, em termos linguísticos, podiam ser agrupados em dois grandes troncos, o macro-jê e o macro-tupi, que englobavam mais de 600 línguas, o que por si só sugere a enorme diversidade cultural dos povos indígenas.



Essa questão se torna mais complexa quando se considera que, em determinadas regiões, como na Amazônia, a cultura indígena foi hegemônica no contexto da formação sociocultural da região. (BERUTTI, Flávio. Caminhos do Homem. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 239-240.)

Feiticeira, Rafael Pinto Bandeira

"A cultura popular viceja sempre. Foi no período anterior à chegada dos europeus que os índios forjaram a tradição de lendas e costumes que ainda hoje estão por aí espalhados, modificados como a história do saci-pererê ou temperados pela mão africana como as canjicas e os munguzás. E os africanos nos trouxeram, de suas distantes pátrias, o ritmo e a força que sobrevivem nas danças e nas religiões populares. Os caboclos e mulatos brasileiros, herdeiros dessa cultura, com as influências da tradição lusitana, mesclaram tudo isso nas festas de São João, nos reisados, nos maracatus, nas capoeiras, nos sambas, na macumba, na poesia popular de cordel". (ALENCAR, Chico et all. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 45-46.)

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