domingo, 28 de agosto de 2011

A travessia do Atlântico e a chegada dos africanos no Brasil

Navio negreiro "Amistad"

Nos séculos XVIII e XIX, as embarcações que transportavam escravos da África para o Brasil, os chamados tumbeiros, tinham diferentes tamanhos. Contudo, as mais comuns eram do tipo bergantim, galeão ou corveta, e conseguiam embarcar em média quinhentos africanos por viagem.

Apesar de, no início do século XIX, as condições das embarcações terem melhorado um pouco, comparando-se com os séculos anteriores, pois passaram a contar com a presença de ao menos um cirurgião-barbeiro, de capelães, de uma botica, além da separação entre homens e mulheres, as viagens continuavam sendo muito penosas, com porões superlotados de africanos, que se apertavam para conseguir dormir durante meses sobre o chão duro. Eles passavam quase todo o tempo acorrentados e, no momento do embarque, ou ainda nos barracões, costumavam ter o corpo marcado a ferro quente com as iniciais ou símbolos dos proprietários.

No século XIX, a viagem de Moçambique até o Rio de Janeiro, por exemplo, durava aproximadamente três meses. Já um navio que saía da região ocidental africana, ou de Angola, levava cerca de 35 dias para chegar ao mesmo destino. No século XVII, a mesma viagem (Angola-Rio de Janeiro) poderia durar até dois meses. Essa mudança foi ocasionada, em grande medida, pelos avanços da tecnologia empregados na construção das embarcações, tornando-as mais resistentes às intempéries, possibilitando a diminuição do tempo das viagens e, consequentemente, a queda da mortalidade.

Por outro lado, o declínio do número de mortes nas viagens é creditado também às melhorias nas condições de higiene, ao cuidado com a saúde e alimentação. Esta consistia em feijão, farinha de mandioca, arroz e carne-seca. Frutas, por exemplo, eram raras, ocasionando a deficiência de vitaminas que provocavam o escorbuto, doença  muito comum nos navios. Além disso, procurou-se diminuir o tempo de espera para o embarque, evitando a exposição dos cativos mais vulneráveis às doenças.

Mesmo assim, muitos africanos morriam, alguns sucumbiam  à espera do embarque que podia durar meses nos barracões, outros a bordo dos navios, sem mencionar as mortes dos africanos capturados durante a viagem do interior ao litoral da África. Os que morriam durante a longa travessia do Atlântico tinham seus corpos jogados ao mar.

Quando os navios aportavam em terras brasileiras, os escravos eram levados em pequenas embarcações até a alfândega para ser feita uma listagem com os dados sobre o carregamento. Daí eram levados para os estabelecimentos comerciais, nos quais eram vendidos.

Na região Nordeste, os fazendeiros e senhores de engenho faziam encomendas de escravos africanos aos traficantes baianos. Estes estavam acostumados a buscá-los na região ocidental da África, em especial na Costa da Mina, por conta da preferência dos mercadores africanos pelo tabaco produzido na Bahia. Os traficantes baianos sempre traziam uma quantidade maior de escravos para ser vendida em lojas próximas ao porto ou em leilões e reexportada para outras localidades do Nordeste, como Pernambuco e Maranhão, e durante os séculos XVII e XVIII para as áreas mineradoras.

No Rio de Janeiro, foi criado, na segunda metade do século XVIII, um local específico, na Freguesia de Santa Rita, conhecido como Valongo, para a venda dos chamados "negros novos".

Mercado da Rua Valongo,  J. B. Debret

Depois da proibição do tráfico de escravos africanos, em 1830, dificilmente eles passavam pela alfândega e ficavam expostos nos estabelecimentos do Valongo, sendo vendidos de forma clandestina, sobretudo durante a noite. Desembarcavam quase nus, com apenas um pano na parte inferior do corpo. Muitos chegavam doentes, com varíola, sarnas e feridas.

A varíola, mais conhecida como bexigas, era uma das moléstias mais frequentes entre os africanos, sobretudo naqueles embarcados em Angola, onde, no século XIX, houve uma epidemia da doença. Nessa época, para evitar o aumento de contágio no Brasil, os escravos africanos recebiam uma vacina. Além disso, foi adotada no Rio de Janeiro uma medida de isolamento dos escravos recém-chegados, por oito dias, dentro dos navios.

Assim que chegavam, eram-lhes cortado o cabelo e a barba, tomavam banho e vestiam-se minimamente, tudo para melhorar a aparência para a venda. Aqueles que estavam muito debilitados por conta de doenças eram isolados e recebiam cuidados médicos e alimentação adequada para que se restabelecessem e, mais tarde, serem oferecidos ao mercado.

A descrição deixada pelo viajante Charles Brand, na década de 1820, dá-nos uma boa noção da situação desses africanos novos no Valongo:

A primeira loja de carne em que entramos continha cerca de trezentas crianças, de ambos os sexos; o mais velho poderia ter doze ou treze anos e o mais novo, não mais de seis ou sete anos. Os coitadinhos estavam todos agachados em um imenso armazém, meninas de um lado, meninos de outro, para melhor inspeção dos compradores; tudo o que vestiam era um avental xadrez azul e branco amarrado na cintura; [...] O cheiro e o calor da sala eram muito opressivos e repugnantes. Tendo meu termômetro de bolso comigo, observei que atingia 33º C. Era então inverno [junho]; como eles passam a noite no verão, quando ficam fechados, não sei, pois nessa sala vivem e dormem, no chão, como gado em todos os aspectos.

Alguns africanos mal chegavam e eram levados em comboios, em barcos ou a pé, em direção às cidades do interior ou comprados por tropeiros de São Paulo e Minas Gerais, configurando-se assim o tráfico interno de escravos. Outras localidades, como Buenos Aires e Montevidéu, e a região Sul do Brasil (Santa Catarina e Porto Alegre), também eram abastecidas pelos comerciantes de escravos cariocas.

Depois da proibição definitiva do tráfico de escravos africanos, em 1850, o comércio interno seguia a rota nordeste-sudeste. Era a época em que as fazendas de café necessitavam de um grande número de trabalhadores e os senhores de engenho estavam se desfazendo da sua escravaria, por causa da queda das exportações de açúcar. Os escravos vendidos no comércio interno, chamados de ladinos - pois já estavam há algum tempo no Brasil e haviam se adaptado ao trabalho, aos costumes e à língua local - eram oferecidos à venda em casas de leilão, estabelecimentos comerciais e por meio de anúncios em jornais.



MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 100-103.

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