domingo, 30 de outubro de 2011

Holandeses, franceses e ingleses na América

Nova Amsterdã. "Ouvi uma grande gritaria e corri às muralhas do forte. Nada vi senão o tiroteio e escutei os gritos dos selvagens assassinados durante o sono. [...] Quando se fez dia, os soldados retornaram ao forte, tendo massacrado oitenta índios. Bebês foram arrancados ao peito das mães e despedaçados a golpes de espada na presença dos pais. Alguns foram lançados ao rio, e quando os pais e as mães se empenhavam em salvá-los, os soldados não permitiam que retornassem à margem, mas faziam com que todos se afogassem." (Escrito em 1643 por David de Vries, colonizador holandês de Nova Amsterdã - depois Nova York. In: APTHEKER, Herbert. Uma Nova História dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 17.)

1. Os franceses na América. A França teve [...] uma posição secundária na expansão marítima europeia devido às dificuldades para consolidar sua monarquia e às consequências da Guerra dos Cem Anos, travada contra a Inglaterra. As iniciativas francesas nesse sentido foram tímidas, se comparadas com as espanholas e as portuguesas. Na época do rei Francisco I, o florentino Giovanni da Verrazzano, a serviço da França, chegou até a América do Norte e o Canadá, entre 1523 e 1524. Também se destacaram as viagens de Jacques Cartier (1533-1541), que descobriu o estuário do rio São Lourenço.

Outra experiência francesa conhecida consistiu na fracassada tentativa de fundar a França Antártica no Rio de Janeiro. O grande entusiasta dessa ideia foi Nicolau Durand de Villegaignon, que, com a ajuda do almirante Coligny, conseguiu do rei Henrique II apoio para o empreendimento. A finalidade era fundar no Brasil uma colônia de emigrantes franceses, sobretudo de huguenotes, que viviam perseguidos em sua terra. Havia também interesses mercantis, visando beneficiar a Coroa francesa por meio do comércio com o Novo Mundo. Seiscentas pessoas, entre elas condenados saídos de prisões, partiram com Villegaignon do porto de Havre, na França, com destino à baía de Guanabara, onde chegaram em novembro de 1555. Cinco anos mais tarde, os franceses foram expulsos pela expedição portuguesa comandada por Estácio de Sá. Desentendimentos anteriores entre os próprios colonos franceses já haviam, porém,  enfraquecido muito essa tentativa de colonização.

O século XVII foi mais auspicioso para a França em suas tentativas de se estabelecer no Novo Mundo. Por meio da atuação da Companhia das Ilhas da América, fundada por comerciantes e apoiada pelo governo, em 1635 os franceses conseguiram fixar-se nas Antilhas, conquistando as ilhas de Granada, Guadalupe, Tobago e Martinica, que pertenciam à Espanha. Com a criação da Companhia das Índias Ocidentais, em 1664, no reinado de Luís XIV, a política mercantilista da França ganhou mais impulso. A economia antilhana firmou-se com base no sistema de plantation, ou seja, grande propriedade monocultora voltada à produção, para o mercado externo, e no uso da mão-de-obra escrava. Cultivava-se a cana-de-açúcar, cuja produção deu às Antilhas posição de destaque no mercado internacional.

Envolvendo o tráfico de escravos, bebidas, armas de fogo e produtos tropicais, verificou-se nesse período o crescimento do comércio triangular nos portos antilhanos, franceses e africanos. O já lucrativo comércio de escravos cresceu então ainda mais. Verifica-se, assim, que o acúmulo de riquezas que favoreceu o surgimento da sociedade capitalista se fez com a mistura de práticas econômicas ditas modernas e práticas já declinantes no mundo medieval, como a escravidão.

À presença francesa na América do Norte deve-se a fundação de Quebec (1608), Montreal (1624) e Nova Orleans (1718). Nessa região de clima frio não existiam plantations, e o comércio de peles, para o qual os franceses contavam com a ajuda dos índios, tornou-se a principal atividade econômica ali desenvolvida.

Apesar de suas conquistas, a França não conseguiu se consolidar como grande império colonial. Disputas com a Inglaterra, entre elas a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), colaboraram para que o país perdesse boa parte de suas possessões americanas. Com o tratado de paz que resultou da Guerra dos Sete Anos, os franceses perderam todo o território do Canadá para a Inglaterra e foram obrigados a entregar a Lousiana à Espanha.


Casal de índios algonquinos em gravura do século XVIII

2. Os ingleses na América. As viagens inglesas de exploração resumiram-se ao reconhecimento do norte do continente americano. A Inglaterra estava interessada em descobrir um novo caminho para as Índias. No século XVI, os ingleses lucravam bastante com assaltos aos navios carregados de metais preciosos que vinham das colônias espanholas. Apoiados pela Coroa, piratas como Francis Drake e Hawkins fizeram fortunas com essas pilhagens. A Inglaterra começava, decididamente, a ameaçar a força armada espanhola.

As tentativas de conquista inglesas restringiam-se, inicialmente, às viagens do genovês Giovanni Caboto, ainda no século XV, e às de Humprey Gilbert e Walter Raleigh. A fundação da colônia de Virgínia, no final do século XVI, não deu resultados imediatos. Em 1607, com muita dificuldade, foi fundada a colônia de Jamestown. Cerca de 3 mil ingleses chegaram à colônia entre 1619 e 1622, mas nesse mesmo período a fome, a luta contra os índios e as doenças reduziram a população a apenas 1 200 habitantes.

A experiência colonial inglesa na América do Norte apresentou diferenças de uma região para outra. No Sul, as terras férteis, o clima temperado e as grandes planícies favoreceram a cultura extensiva de produtos tropicais, como o tabaco, o algodão, o índigo (anil) e o arroz, realizada com a técnica do plantation. Os sulistas mantinham uma forte ligação econômica com a metrópole. Procuravam reproduzir mesmo, conforme afirma o historiador J. T. Adams, "o modo de vida nas mansões, a caça à raposa, as danças, as visitas, o jogo de cricket - tudo como entre os tories da Inglaterra". Tendo  tido a Virgínia como ponto de partida, outros núcleos importantes se estabeleceram no Sul: as colônias de Maryland, Geórgia, Carolina do Norte e Carolina do Sul.

As colônias do Centro (Nova Iorque, Nova Jérsei, Delaware e Pensilvânia) situavam-se numa região considerada de transição, entre o Sul e a Nova Inglaterra, no Norte. Ali se estabeleceram colonos de vários países europeus - holandeses, suecos, irlandeses, escoceses -, embora os ingleses constituíssem a maioria. Os holandeses foram responsáveis pelo ativo comércio de peles com os índios. Fundaram, na ilha de Manhattan, a cidade de Nova Amsterdã, depois ocupada pelos ingleses, que a rebatizaram de Nova Iorque. A agricultura foi uma atividade importante nessa região, sendo os principais produtos cultivados o trigo, a cevada, o milho e o centeio. Predominava a pequena lavoura, e o número de escravos era bastante reduzido.

Embarque dos peregrinos, Robert Walter Weir

As colônias do Norte foram fundadas por um grupo de puritanos que fugiam às perseguições religiosas do governo inglês. Partindo de Plymouth, os famosos "peregrinos do navio Mayflower" desembarcaram, em pleno inverno, em Massachusetts. A região foi chamada de Nova Inglaterra. Nela, segundo o historiador Leo Huberman, "não havia fazendas enormes, nem braço negro, nem colheitas básicas: na Nova Inglaterra as plantações eram pequenas, lavradas pelos proprietários, e produziam grande variedade de colheitas, como milho, alfafa, centeio, cevada e frutas".

Desenvolveu-se ali um mercado interno significativo, que dava grande autonomia às colônias. Predominava a mão-de-obra assalariada, representada pelos servos de contrato, camponeses ingleses que, sem recursos para viajar à América, alugavam sua força de trabalho por um período de geralmente sete anos, em troca das despesas de viagem. Cerca de 70% dos imigrantes viajaram como servos de contrato.

As condições geográficas favoreceram a prática de atividades marítimas, como a pesca e a caça à baleia, cujos produtos eram até mesmo exportados para a Europa. Desenvolveu-se também a construção naval, com a produção de barcos que se tornaram conhecidos pela boa estrutura. As colônias do Norte diferenciaram-se das do Sul durante seu crescimento, caracterizando-se por apresentar maior mobilidade social, sem o forte estigma da relação escravista. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 205-209.

3.  Mecanismos da conquista. De maneira geral, a política inglesa em relação aos povos que habitavam originalmente as áreas coloniais foi a do genocídio.

O escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910) descreveu o resultado do 'encontro' entre índios e brancos numa frase: 'Os pioneiros intrusos primeiro se lançaram de joelhos e depois sobre os índios'.

Método algum era considerado demasiadamente horrível para a execução da política oficial de extermínio. Esses métodos estabeleciam inclusive uma recompensa em dinheiro por escalpo de índio - homem, mulher ou criança - até a guerra bacteriológica sob a forma de lençóis abertos infeccionados com germes de varíola.

Os colonizadores brancos trouxeram, portanto, morte e destruição, e encontraram uma resistência heróica. A história da resistência é trágica, pois os índios, divididos entre si, geralmente em inferioridade numérica, tremendamente inferiores em armamentos e sem resistência às novas doenças trazidas pelo invasor, caíram derrotados. APTHEKER, Herbert. Uma Nova História dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 14.

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