segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Arqueologia e fontes históricas

Grafismo na Pedra do Pilão, Serra do Ererê (Pará)

[Arqueologia e fontes históricas] [...] A principal maneira de ter acesso ao passado pré-histórico é o estudo dos vestígios materiais que chegaram até nós. Os vestígios materiais associados aos homens são estudados pela Arqueologia, uma ciência voltada, precisamente, ao estudo do mundo material ligado à vida em sociedade. Por meio de prospecções e escavações arqueológicas, recuperam-se os vestígios que podem nos informar sobre os mais variados aspectos da vida no passado.

Os restos materiais são de diferentes tipos, dependendo, em especial, das condições de preservação que os solos oferecem. Em geral, o que melhor se preserva são os artefatos feitos de pedra (também chamados de líticos), ferramentas usadas para as mais variadas tarefas e que, por isso, podem nos informar muito sobre a caça, a pesca, a agricultura e a tecnologia para transformar materiais brutos em bens manufaturados [...].

Além dos líticos, outro material que se preserva muito bem e constitui uma das principais fontes de informação sobre o homem pré-histórico é a cerâmica, os artefatos feitos de barro cozido [...].

As pinturas e gravuras, feitas nas paredes de cavernas ou em outras pedras, conhecidas como rupestres, são também evidências materiais que muito podem nos dizer sobre o passado pré-histórico [...].

Muito menos frequentes nos achados arqueológicos - por não se preservarem facilmente -, mas de igual importância para os pesquisadores, são os artefatos feitos pelo homem com ossos de animais, madeira ou outros materiais mais perecíveis.

O conjunto dessas informações resultantes de artefatos produzidos ou simplesmente utilizados pelo homem, bem como os locais que transformaram para habitar, é considerado a sua "cultura material".

Além da cultura material, existem outras importantes fontes de informação para os pesquisadores, como é o caso dos restos de esqueletos humanos, que podem ser estudados por meio de diversas técnicas e abordagens [...].

Outras informações advêm do contexto arqueológico em que se encontraram os vestígios antigos. A planta de uma aldeia pré-histórica, por exemplo, com os indícios da localização das antigas habitações e das suas formas [...] e dimensões pode nos dizer muito sobre como era uma aldeia [...].

Vestígios de pequenos dimensões, muitas vezes visíveis apenas com o auxílio de lupas e microscópios, também são estudados, a exemplo dos restos alimentares. Certas evidências e manchas com colorações distintas da cor do solo do sítio arqueológico, percebidas somente com estudos químicos e geoquímicos, são igualmente analisadas para se definir quais materiais se decompuseram naqueles espaços e que tipo de atividades foram ali realizadas [...].

Todas essas fontes de informação mencionadas, contudo, não serviriam para nada se não dispuséssemos de teorias que nos permitissem apresentar hipóteses sobre sua articulação. Na verdade, a utilidade das próprias fontes de informações depende da maneira como nós as percebemos e "inventamos" [...]. FUNARI, Pedro Paulo; NOELI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2006. p. 15-22.

[Cultura marajoara: Eldorado de barro] A Amazônia hoje é um deserto verde - mas já foi o lugar mais desenvolvido do Brasil. Na época de sua descoberta pelos europeus, no meio do século XVI, ela pode ter chegado a reunir 7 milhões de habitantes - o equivalente à população atual dos estados do Pará e do Amazonas. O navegador português Bento da Costa, um dos primeiros brancos a percorrer o rio Amazonas de ponta a ponta, escreveu em 1637 que "se do ar deixassem cair uma agulha, há de dar em cabeça de índio e não no solo".

[...] Duas nações sobressaíram: a marajoara, na Ilha de Marajó, e a tapajônica, na região da atual cidade de Santarém. Quase nada sobrou desses povos, que começaram a se desenvolver mais de 1 000 anos antes do desembarque de Cabral. O vandalismo dos conquistadores e a umidade da selva apagaram quase todos os vestígios de sua existência. Só ficou a cerâmica, reveladora de uma cultura de alto grau de refinamento estético.

[Guerreiros temidos, artistas talentosos] Os tapajós viviam em guerra com outras tribos. Eles lançavam contra os inimigos flechas com a ponta embebida em curare, um veneno tirado de um cipó que mata em menos de 24 horas. Algumas aldeias eram tão populosas que seus caciques mobilizavam até 60000 homens para uma batalha. As mulheres também tomavam parte nos combates, o que pode ter alimentado a lenda das amazonas na imaginação fértil dos primeiros exploradores.

Mas foi pela arte, e não pela guerra, que os tapajós ficaram famosos. Suas cerâmicas decoradas, leves e resistentes atiçaram a cobiça de colecionadores do mundo inteiro. Essas peças são praticamente os únicos vestígios que restam daquele povo. "Elas são tão elaboradas que deve ter havido entre os tapajós uma classe especializada em produzir cerâmica", disse à Superinteressante a historiadora Denise Cavalcante Gomes, do MAE-USP, uma das poucas especialistas em arte santarém em atividade no Brasil. [...]

[Uma ilha de tesouros, deuses e mistérios] A arqueóloga americana Anna Roosevelt, maior especialista mundial em pré-história amazônica, incluiu entre as grandes civilizações do mundo antigo os marajoaras, que habitaram a Ilha de Marajó entre os anos 400 e 1500 da Era Cristã. As escavações feitas por ela indicam que a sociedade marajoara tinah quase tudo o que caracteriza as grandes civilizações. Havia classes sociais. A agricultura, com base na mandioca e no arroz-bravo, era desenvolvida, o que favoreceu a vida sedentária. E as aldeias eram populosas. Algumas chegavam a 10 000 moradores - verdadeiras cidades, tão grandes quanto muitas das que há hoje na Amazônia.

Os marajoaras podiam não construir pirâmides, como os maias do México e da América Central, mas suas proezas de engenharia iam muito além das malocas indígenas que os portugueses encontraram no litoral. Marajó está coalhada de tesos, aterros enormes sobre os quais as aldeias eram erguidas. Sua função primordial era proteger os moradores contra a água, já que a ilha fica alagada durante metade do ano. [...]

Os marajoaras sumiram misteriosamente por volta de 1300, por causa de brigas internas ou do ataque de outros povos. Quando os portugueses chegaram, Marajó era habitada por índios aruaques. Seus antecessores, até onde se sabe, não deixaam descendentes. Cláudio Ângelo. Superinteressante Especial, abr. 1999, p. 32, 35-36.

[Analisando controvérsias]
* A vida do professor Igor Chmyz se pauta pela urgência. Pioneiro da arqueologia paranaense, juntamente com Oldemar Blasi, ele muito cedo percebeu que não poderia bater ponto num único sítio. Um Paraná, cercado de hidrelétricas por todos os lados ("uma denominação de que a Geografia precisa se ocupar", diz) o empurrou desde cedo para área de "salvamento", especialidade com a qual segue abraçado já por quatro décadas. "Enquanto eu estava selecionando um sítio numa área ameaçada despareciam 50 outros", brinca. (...)

Ele levantou a voz todas as vezes em que o patrimônio se viu a perigo. Conseguiu, certa vez, trazer de volta ao museu de Foz do Iguaçu, sem muito alarde, uma urna funerária indígena dada de presente a um ministro de Estado. Também chamou atenção da opinião pública para o descaso com que são tratadas as ruínas das antigas cidades espanholas e as reduções jesuíticas plantadas no território do Paraná. São muitas batalhas.

Uma delas, saída do forno, diz respeito à chegada das montadoras de automóveis à grande Curitiba. Ano passado, enquanto fazia um serviço de prospecção (retirada de objetos arqueológico) na região da Rodovia Contorno Leste, deu um pulinho até onde se instalaria a Renault. Passada d'olhos e pronto. Havia ali um sítio. Boca no trombone. Mesmo com os tratores a postos, a palavra final ficou com Chmyz. "Fizemos a varredura nas futuras instalações da fábrica". Ponto final.

Folclore? Não. O que se esconde por detrás desse fato é que a região paranaense mais carente de estudos arqueológicos é a dos arrabaldes de Curitiba. A vinda das tais empresas estrangeiras trouxe o problema à baila. "É uma ponta de iceberg. As montadoras vão atrair de tal maneira a ocupação humana que nós não vamos ter tempo de salvar nada", protesta. Se nos três terrenos (Renault, Audi e Chrysler) tanta coisa foi achada, o mesmo tende a ocorrer nos entornos. Para avaliar estes locais, no entanto, ninguém financia uma pataca. E parte da História pode estar vendo seu último palmo de terra antes da betoneira chegar. FERNANDES, José C. Levantados do chão. Gazeta do Povo. Curitiba, 06 jul. 1997.

* No Brasil, a arqueologia é marcada pela ruptura irreversível na sua história, que foi o extermínio das populações indígenas e a construção de uma sociedade nacional branca, não indígena. (...)

É marcada não só pela falta de identificação étnica e cultural com o passado indígena, mas ainda sofre o agravante do caráter pouco monumental e modesto do patrimônio material, em grande parte perceptível e de difícil conservação, dificultando ainda mais a valorização e identificação cultural com este patrimônio por parte da sociedade em geral. BARRETO, Cristiana. A construção de um passado pré-colonial: uma breve história da arqueologia no Brasil. In: Revista USP. São Paulo, dez./fev. 1999-2000, n. 44, p. 34.


[Serra do Ererê: Grafiteiros da pedra lascada] Faz 11 200 anos, um homem se pendurou na beira de um abismo da Serra do Ererê, no Pará, para fazer rabiscos na rocha nua. O que teria levado a correr tal perigo, ali no cume da Pedra do Pilão, a 305 metros de altura? Passatempo é que não foi. Arte? "Os grafismos dos homens pré-históricos não tinham finalidades estéticas", explicou à Superinteressante o arqueólogo André Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais. Mesmo assim, ele ressalta, os paleoíndios brasileiros foram capazes de produzir verdadeiras obras-primas. "Existem no Brasil pinturas rupestres tão bonitas quanto as das famosas grutas de Altamira, na Espanha, e de Lascaux, na França."

Os estudiosos costumam atribuir objetivos mágicos às pinturas da Idade da Pedra. A figura de um veado atravessado por uma flecha é, provavelmente, um feitiço para que a caçada tenha êxito. "Mas nem todos os veados são flechados", observa Prous, "e nem todas as pinturas tinham funções rituais". Em vez de tentar decifrar os misteriosos desenhos, a Arqueologia moderna está mais interessada em extrair deles informações sobre os costumes dos seus autores. As pinturas brasileiras mais antigas enfatizavam os animais, o que combina com uma alimentação baseada na caça. Mais recentemente, de 2 mil anos para cá, aparecem desenhos de vegetais, como o milho e a mandioca - sinal de que quem os fez dominava a agricultura. Igor Fuser. Superinteressante Especial, abr. 1999. p. 26.

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