"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pompeia: uma cidade congelada no tempo

Vila dos Mistérios, Pompeia

[Texto 1] À uma hora da tarde de um dia de verão, segundo o testemunho de Plínio, o Jovem, o Monte Vesúvio entrou em erupção, vomitando lava e cinzas sobre as cidades de Pompeia e Herculano. Um cogumelo de nuvem negra se elevou a vinte quilômetros de altura. Ao fim do dia seguinte, uma camada de seis metros de cinza e pedra-pomes cobria os habitantes da cidade. Ficaram cobertos - esquecidos - por 1.700 anos, preservando uma incrível quantidade de artefatos, mosaicos e murais praticamente intactos.

Venda de pão, Pompeia

Pompeia era uma cidade luxuosa, com uma população de 25 mil habitantes. As escavações científicas, iniciadas em meados do século XIX, revelaram não só objetos triviais como fatias de pão, peixe, ovos e nozes (do almoço abandonado por um sacerdote), mas também residências inteiras com pinturas de naturezas-mortas e paisagens realistas em todas as paredes. Como as casas não tinham janelas, mas se abriam para um pátio central, os romanos antigos pintavam janelas de faz-de-conta "se abrindo" para cenas requintadas. Esse estilo de pintura em paredes abrangia desde simples imitações de mármore colorido até cenas trompe l'oeil de complexos panoramas urbanos, como se fossem vistos através das janelas imaginárias emolduradas por colunas imaginárias. Os artistas dominavam as técnicas da perspectiva e dos efeitos de luz e sombra, desconhecidos no mundo da arte. As paredes resplandeciam com vívidos painéis em vermelho, ocre e verde.

Templo de Ísis, Pompeia

Mosaicos montados com pedacinhos de pedras coloridas, vidro ou conchas (chamadas tésseras) revestiam paredes, tetos e chão. Muitos eram figuras bastante confusas. Num deles, um olho medindo quatro centímetros foi composto com cinquenta cubinhos minúsculos. Era comum ver-se o mosaico de um cachorro nas entradas das casas, com a inscrição Cave Canem (Cuidado com o Cão). STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 19.

Cave Canem, mosaico, Pompeia

[Texto 2] Surpreendida pela erupção do Vesúvio, um vulcão considerado extinto, a cidade de Pompeia, próspero centro comercial no golfo de Nápoles, ao sul da península itálica, foi afogada por torrentes de lava, fragmentos sólidos e gases tóxicos no dia 24 de agosto de 79 d.C. Era de manhã, a população começava a trabalhar e os fornos das padarias assavam o pão. Em dois dias, mais de 2 mil pessoas, cerca de 10% dos habitantes locais, morreram naquele mar de fogo. Ruas e casas ficaram cobertas por um extrato de cinza e depósitos vulcânicos que mediam aproximadamente 6 metros de altura. A mesma tragédia fulminou as vizinhas cidades de Herculano e Stabia.


Cena de jardim, Pompeia

Por muito tempo os vestígios de Pompeia continuaram soterrados. No século XVI, os operários que abriam um túnel na montanha La Civita, para a construção de um aqueduto, encontraram as ruínas da cidade. Mas as escavações ainda demoraram 150 anos para começar. Iniciaram em Herculano, achando um grupo de estátuas de mármore e outras preciosidades históricas. A seguir, aconteceram em Pompeia, onde localizaram relíquias petrificadas: os cadáveres de uma mãe e do filho amamentado por ela; um cão preso na corrente; três jovens que fugiam desesperados da Vila dos Mistérios. As descobertas emocionaram o mundo e influíram a arte neoclássica do século XVIII.


Músico com harpa e cítara, Pompeia

Veio à tona uma cidade inanimada, dramaticamente parada no tempo. Emergiram ruas, praças, templos, termas públicas, tavernas, quitandas, residências de ricos e pobres, estátuas e afrescos, objetos variados ligados ao vinho e à cozinha. Os estudiosos passaram a dispor de subsídios não só para a reconstituição da vida numa comunidade antiga, mas na própria Roma imperial.


Cena erótica, Casa del Centenario, Pompeia

Conseguiram imaginar até o que seus 20 mil habitantes comiam. Um dos trabalhos mais interessantes foi feito pela italiana Eugenia Salza Prina Ricotti.


Jogadores de dados, Osteria della Via di Mercurio, Pompeia

Segundo ela, a população da cidade levantava muito cedo, pois orientava a vida pelo relógio solar. O café da manhã era à base de pão, carne e queijo. Ao meio-dia havia uma refeição leve. Às três ou quatro da tarde, após eventuais escalas nas termas públicas, aliás bastante frequentadas, os habitantes se entregavam à ceia, sempre com pratos substanciosos. Era a refeição principal do dia, como sucedia em todo o Império Romano. Comia-se de tudo, especialmente azeitonas, avelãs, nozes, tâmaras e frutas secas, lentilha, grão-de-bico, cevadinha e trigo - com o qual se preparava uma primitiva polenta. Faziam sucesso sopas, ensopados, cozidos, grelhados e assados, do mar ou da terra. Havia gelados com neve do jardim ou das montanhas. Bebia-se muito vinho, produto crucial no comércio de Pompeia, geralmente diluído em água fria ou quente, algo costumeiro na época. Adaptado de: "A cozinha que o Vesúvio destruiu". Estadão. 08/09/2002.


Natureza morta, Pompeia

[Texto 3] Em Pompeia e Herculano, os afrescos e os mosaicos decoram a maioria das casas particulares e das lojas. Refinadas ou populares, as pinturas têm inúmeras fontes de inspiração. Os temas ligados à cozinha - alimentos, artesãos (padeiros) e mercadores, preparação das refeições, como também tabernas e banquetes - são abundantemente representados.


Natureza morta, Casa de Julia Felix, Pompeia

Os romanos atribuem, com efeito, grande importância à escolha de alimentos de qualidade e à sua preparação. Do levantar ao meio-dia, eles se contentam com uma alimentação frugal, pão, queijo, azeitonas e uma fruta. Sua única verdadeira refeição é o jantar (a ceia), tomada no final da tarde. Para os habitantes de Pompeia, que vivem em alojamentos coletivos desprovidos de fogões, as tabernas abertas na rua oferecem alimentos quentes para levar, salsichas, caldo de ervilhas e variedades de salgados. Nas famílias mais abastadas, a cena é tomada no triclinium (sala de jantar): a mesa (ou as mesas) sobre o qual os criados põem os pratos é cercada por sofás-camas em que se recostam os convivas. Os cozinheiros, muitas vezes comprados a preço de ouro, têm a arte de temperar carnes e peixes com especiarias de origem italiana (funcho, cominho, hortelã) ou exótica (pimenta, gengibre), e com condimentos, dentre os quais o mais requisitado é o garum, à base de intestinos de peixes. Eles se esmeram também para encontrar mercadorias excepcionais como ostras, certos peixes, crustáceos ou carne de caça proveniente de regiões remotas. SALLES, Catherine (dir.). Larousse das Civilizações Antigas: das Bacanais a Ravena (o Império Romano do Ocidente. São Paulo: Larousse, 2008. p. 266.

6 comentários:

  1. Muito obrigada por este artigo. Citei-o em: http://www.portugalromano.com/2013/02/filomena-barata-a-alimentacao-em-roma-ainda-em-construcao/

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    1. Obrigado Filomena. Sinta-se à vontade para compartilhar os posts. E parabéns pelo excelente site. Adorei.

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  2. Ótimo resumo, sobre a história de Pompéia !
    Vai ser melhor ainda, para meu trabalho de curso em grupo !
    Valeuuu...

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    1. É Stênio Augusto, meu nome...mas ta valendo...kkkkk
      Abração ! Obrigado !

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