quinta-feira, 16 de junho de 2011

O ofício do historiador e a construção da História

Cena de "2001 - Uma odisséia no espaço", filme dirigido por Stanley Kubrick, em 1968.

* Os significados da História. As cenas iniciais do filme 2001 - Uma odisséia no espaço trazem imagens sugestivas para se pensar a grande aventura humana chamada História - desde o momento em que o homem criou o primeiro instrumento até a conquista do espaço. O estudo da História é um recurso importante para a compreensão de como as relações sociais foram sendo construídas no decorrer dessa grande aventura, cheia de surpresas, de invenções e de descobertas, assim como de dificuldades e conflitos. Quando se afirma que o homem é um animal histórico, procura-se defini-lo como um ser que produz cultura, em um espaço definido e em uma determinada época.

Todos os homens fazem a História, mesmo sem perceber. A História é o resultado da ação de todos os homens.
Entretanto, seria impossível elaborar uma narrativa capaz de dar conta de todos os sujeitos do fazer histórico, por mais ampla que ela fosse. Assim, definir quem são os atores principais, dando-lhes lugar de destaque na narrativa histórica, é sempre uma escolha política do historiador. E por detrás dessa escolha, existe uma maneira de compreender a História, uma relação entre o fazer e o contar a História.

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[...] embora busque a verdade, o conhecimento científico é relativo, pois sofre as limitações da sua época. Quando comparamos o trabalho de pesquisadores do século XIX com alguns do século XX, verificamos que cada época tem suas próprias verdades e crenças, e que isso repercute na investigação do historiador. Vale lembrar também que os sujeitos investigados possuem seus próprios valores e crenças, fato da maior relevância para se proceder a uma análise histórica consistente, evitando, por exemplo, anacronismos.

Outro aspecto importante do conhecimento científico diz respeito a suas relações com os poderes existentes. O que se pensava, por exemplo, na Idade Média devia-se em grande parte à Igreja Católica, a instituição mais importante do período, assim como hoje os meios de comunicação são poderosos formadores de opinião. Desconsiderar variáveis como essas pode comprometer profundamente a análise histórica.

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* A interpretação do fato. Tomemos o bombardeio atômico sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial, como exemplo para entender melhor essas características do conhecimento histórico. O primeiro ponto é que ninguém pode negar que o bombardeio aconteceu. [...] Entretanto, os historiadores não fornecem uma interpretação única para o bombardeio norte-americano. Alguns chegam a justificá-lo, sob a alegação de que ocorreu durante uma guerra de destruição mútua e que o uso das bombas evitou o prolongamento do conflito e o sofrimento causado por ele. Para outros, entretanto, nada justifica o genocídio programado sob a orientação dos Estados Unidos.

Não faltam, nesse caso, documentos e registros do que aconteceu e das consequências desse episódio para a humanidade, embora haja divergências quanto à sua dimensão ética. Um historiador que queira investigá-lo deve compreender o ocorrido e considerar suas diversas interpretações. Em sua pesquisa, ele selecionará fontes históricas [...].

Se a Segunda Guerra Mundial tivesse sido vencida pelos alemães ou pelos japoneses, teríamos com certeza outras interpretações para os acontecimentos. A versão que se dá a um fato está estreitamente ligada ao grupo ao qual pertence o autor dessa versão: se é o dos vencidos ou o dos vencedores. [...] O historiador, em seu ofício, carrega as marcas das questões e das perplexidades da sua vida social; por isso a verdade histórica está constantemente aberta a questionamentos.
A descoberta de novas fontes pode alterar interpretações consagradas, demolir crenças, desmitificar personagens, reescrever a História. [...] As ideias de Charles Darwin causam hoje o mesmo impacto que causaram quando surgiram, no século XIX? Como seriam as pirâmides egípcias se naquele tempo já houvesse computador?

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* Historiografia e memória. Os homens vêm fazendo História desde o momento em que começaram a transformar a natureza e a criar símbolos para representá-la - ou seja, desde o momento em que inventaram a cultura e se distinguiram dos outros animais. [...] 

Desde os seus primórdios, as sociedades humanas sempre criaram narrativas que buscavam contar a origem dos homens e seus feitos. Inicialmente, tais narrativas eram carregadas de mitos e fantasias e privilegiavam as façanhas dos heróis. Embora essa perspectiva possa hoje nos parecer ingênua, essas histórias não devem ser desprezadas, pois por meio delas podemos conhecer o que marcava as primeiras sociedades humanas na sua luta para sobreviver às dificuldades naturais.

O historiador Charles-Olivier Carbonell, na obra Historiografia, considera que existiram muitas sociedades sem historiografia, "mas não se conhece nenhuma, por mais rudes que sejam a sua linguagem, a sua organização, as suas técnicas e os seus modos de pensar, que não possua um conhecimento do seu passado". [...]

A invenção da escrita foi de fundamental importância para sistematizar a memória, ajudar a preservar o que se sabe do passado e, portanto, transmitir os significados e as dimensões das ações humanas. Isso não quer dizer que os povos que não tiveram ou não têm escrita também não construíram sua História. A tradição oral deve ser respeitada, já que por ela muitos povos continuam se relacionando com seus feitos do passado, preservando sua cultura, mantendo regras e crenças que asseguram sua existência social.
História e memória andam juntas. A memória é feita de lembranças e esquecimentos, além de possuir uma dimensão coletiva, que não está dissociada das relações de poder, das disputas e dos interesses de cada época e de cada grupo social. Em História e memória, o estudioso Jacques Le Goff afirma que "a memória, onde cresce a História, que, por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro". O historiador faz porém um alerta: "Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para libertação e não para servidão dos homens".

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* Tempo e História. [...] O passado não está morto, ele interfere nas ações do presente. Há povos que não se projetam no futuro, que estão presos a tradições seculares, que na sua linguagem expressam uma forte ligação com as origens da sua História. Daí dizemos que a maneira de organizar o tempo é uma invenção cultural.

A relação que uma sociedade mantêm com a natureza influencia bastante a forma como ela constrói sua concepção de tempo. Uma sociedade dominada pela agricultura tem estreitas ligações com as mudanças que ocorrem na natureza: o dia e a noite, as estações do ano, a fecundação e tantos outros fenômenos naturais servem de medida para dimensionar a passagem do tempo. [...]
[...] O tempo objetivo é o tempo do calendário, com a mesma validade para toda a sociedade: os dias, os meses, o ano. Mas há um tempo mediado pelas emoções e ansiedades de cada um, capaz de causar a impressão de que um dia dura muito mais, ou menos, do que as 24 horas do relógio. [...]

A periodização da História é usada para facilitar o entendimento das diferenças entre as épocas [...].

Alguns estudiosos que criticam a periodização histórica mais conhecida - Idade Antiga, Média, Moderna, Contemporânea - apontam a Revolução Russa de 1917 como marco de um novo tempo; outros apontam a Segunda Guerra Mundial ou, mais adiante, a queda do Muro de Berlim e a fragmentação da União Soviética como o limiar de uma nova era, um quinto período. [...]
Outro aspecto relevante no tocante ao tempo histórico é que ele não é único nem uniforme. O índio que vive no Xingu, o executivo que trabalha em uma empresa financeira de uma grande metrópole, a criança que está sendo alfabetizada em uma cidade do interior no norte do Brasil e a artista que vive em uma comunidade de pescadores e procura pintar um grande mural sobre a velocidade na sociedade industrial existem simultaneamente. [...]

Santo Agostinho [...] é autor de uma frase sobre o presente que ainda hoje merece nossa reflexão. Disse ele: "Existe o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras". Sua frase sintetiza a complexidade da questão. [...]
A periodização, ao traçar fronteiras entre as épocas, talvez dê ao homem a grande ilusão de que é o senhor da sua História e de que o tempo é mais uma das suas incríveis invenções.

* Pensando a História. [...] A palavra história, de origem grega, significa "investigação". Quando, na segunda metade do século V a.C., o grego Heródoto fez um relato sobre as Guerras Médicas (490-479 a.C.) a fim de preservar sua memória e evitar que esses fatos caíssem no esquecimento, ele estava fundando o saber histórico [...]. Sua preocupação era a busca da verdade, ou seja, ele pretendia explicar as situações vividas pelos gregos, utilizando para tanto registros escritos e depoimentos orais.

A História não alcançou, entre os gregos, o mesmo destaque que o teatro e a filosofia. [...] Os romanos, que os sucederam, foram seguidores dessa mesma tradição e procuraram na História grega lições para sua vida, ainda que tenham sempre considerado Roma o centro de sua época.
No que diz respeito à Idade Média, a força do cristianismo mostra-se muito evidente na concepção de História dominante no período. A visão teocêntrica do Universo reduzia o homem a mero instrumento da divindade, fazendo da Igreja a grande instituição reguladora das ações humanas. [...] O controle exercido pela Igreja sobre a sociedade possibilitava a censura ao livre pensamento existente, dificultando o conhecimento e a difusão da cultura clássica, fundada em outras bases.

* História e Modernidade. O Renascimento, que marca o início da Idade Moderna, imprimiu mudanças significativas no pensamento ocidental ao recolocar o racionalismo e o antropocentrismo no centro da vida humana. A cultura clássica foi retomada como fonte de inspiração [...]. O fato é que, com a secularização e a gradual diminuição do poder político da Igreja Católica, outra concepção de mundo foi sendo construída.

Na análise desse processo, o avanço da burguesia não pode ser esquecido. No século XVIII, o Iluminismo difundiu a ideia de que a História tem um desenvolvimento linear e caminha em direção ao progresso, e que a burguesia ocupa um lugar privilegiado na construção dessa cultura centrada na Europa ocidental. Pouco depois, a Revolução Francesa exaltou a liberdade, a igualdade e a fraternidade entre os homens [...].
No século XIX, época do romantismo e de forte nacionalismo, desenvolveu-se um grande interesse pela História, o que propiciou muitos estudos do passado [...].

[...]
Na primeira metade do século XX, os historiadores franceses ligados à famosa Escola dos Anais promoveram mudanças significativas na maneira de pensar e escrever a História, as quais continuam ainda hoje em evidência [...]. Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel são considerados os maiores responsáveis por essas mudanças [...].

A Nova História, tributária da Escola dos Anais, ocupou, por sua vez, um espaço importante nas universidades e conseguiu também penetração expressiva no mercado editorial [...]. Historiadores como Jacques Le Goff, Georges Duby, Marc Ferro e tantos outros tornaram-se conhecidos da mídia. A Nova História, com sua linguagem próxima da literatura, sem o peso formal da linguagem acadêmica, conquistou um público amplo, constituído não apenas por historiadores. O campo das pesquisas foi ampliado, livrando-se de preconceitos, quebrando fronteiras. Atualmente costuma-se dizer que tudo é História, e não apenas os feitos dos heróis, as grandes batalhas, as tramas das elites. Defende-se hoje a ideia de que a História é uma tarefa coletiva, construída no cotidiano, e que, portanto, o ofício do historiador é dar conta da diversidade que resulta do pensar, sentir e agir de todos os homens.
REZENDE, Antonio Paulo e DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 8-16.

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