sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A formação do mundo moderno

Para o homem medieval, toda sua existência, todas as ocorrências à sua volta giravam em torno de ideias religiosas, obedecendo a desígnios divinos. O mundo medieval [...] era um mundo fechado, estruturado em classes rigidamente distintas, dominado pela nobreza feudal, tendo poucos contatos com outros povos e escassos conhecimentos de outras terras.

Este mundo começou a modificar-se por volta do século XIV, com o despertar de novas ideias que, agindo nos setores políticos, culturais e econômicos, ajudaram a abrir o caminho para o início da assim chamada Idade Moderna.

A evolução política deu origem aos Estados Modernos; os senhores feudais foram substituídos por reis poderosos que, gradativamente, introduziram e aperfeiçoaram formas mais eficientes de governo.

No século XV o Renascimento trouxe às ciências e às artes um grande esplendor; enfatizando a liberdade do indivíduo, levou o homem a pensar e a agir por conta própria, independentemente dos interesses comuns da classe a que pertencia. O espírito de contínuas indagações individuais provocou o movimento que cindiu a Igreja universal, a Reforma.

Esse mesmo espírito impelia os homens a cruzar oceanos ainda inexplorados, em busca de riquezas e de aventuras em terras estranhas. Os descobrimentos ultramarinos desenvolveram o comércio, melhoraram as condições de vida, introduziram na Europa produtos até então raros ou desconhecidos. A vida urbana em expansão aumentou o bem-estar da classe média, vigorosa defensora do sistema da economia individualista, o chamado capitalismo, que transformaria a Europa no centro econômico do mundo.

O progresso que se afirmara na Europa durante o século XIII, trazido pelo florescimento das cidades, do comércio, da cultura, foi fortemente abalado, no século XIV, por uma série de crises das quais resultou o início da formação dos Estados Modernos.

* As crises do século XIV. O florescimento das cidades foi consequência do êxodo para os centros urbanos de populações rurais que levaram consigo a maioria de seus hábitos, como o de criar animais (vacas, porcos, galinhas, patos, gansos) à sua volta, para fins de abastecimento fácil. Esse hábito propiciou a proliferação de ratos e o alastrar de epidemias nas cidades, que cresciam desordenadamente sem dar atenção a condições de saúde e de higiene.

O florescimento do comércio foi sendo dificultado pela expansão dos turcos que, impondo-se como intermediários nas transações comerciais entre o Ocidente e o Oriente, prejudicaram todo o intercâmbio no Mediterrâneo. A burguesia, por sua vez, começou a sofrer os efeitos da incompatibilidade entre a economia feudal - fechada, auto-suficiente - e a nova economia em evolução - aberta, internacional -, o capitalismo.

A situação, cada vez mais tensa, tornou-se insustentável no início do século XIV, em consequência de colheitas arrasadas por um prolongado e rigoroso inverno. As populações europeias, em contínuo crescimento, agora subnutridas, depauperadas, foram presa fácil de epidemias que grassaram nas cidades medievais, causando a morte de milhares e milhares de pessoas. Fome e peste afligiram o povo; além disso, a produção agrícola, já bastante comprometida, diminuiu ainda mais após a deflagração da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre França e Inglaterra, por motivos sucessórios.

Nesse mesmo período o prestígio do papa foi profundamente abalado pelo Cisma do Ocidente (1378-1417), isto é, pela eleição de dois papas, um com sede em Roma, outro com sede em Avignon, cidade francesa que já fora sede única do papado (1309-1337) por influência política da França.

A grande insegurança nos vários setores da vida europeia gerou uma série de graves revoltas sociais (Flandres, França, Florença, Inglaterra, Portugal, Liège).

Jacquerie

A necessidade de encontrar-se um poder regularizador, pacificador, unificador levou a burguesia a dar seu apoio aos reis. Foi-se impondo, aos poucos, a tendência centralizadora do ponto de vista administrativo, geográfico, cultural, esboçando assim os Estados Modernos, a Europa Moderna.

Por outro lado, necessidades de ordem econômica forçaram a Europa a procurar soluções que reativassem o comércio. Uma das soluções foi dar início à expansão geográfica através do Atlântico.

* O Estado Moderno. Com o apoio da burguesia, os reis, partindo de seus próprios domínios territoriais, puderam  pouco a pouco constituir um Estado unitário, caracterizado em grande parte pela comunhão de origem e língua de seus habitantes.

Para poder constituir os Estados nacionais, os soberanos confiaram inicialmente a elementos da classe burguesa a administração do reino, antes encargo dos senhores feudais.

Esses funcionários foram pagos pelo Estado para administrar a justiça e controlar a atuação de autoridades locais. Tendo quase todos eles realizado estudos jurídicos, buscaram reviver o direito romano, que reconhecia ao Estado plenos poderes, contribuindo assim para reforçar a autoridade do rei e diminuir cada vez mais a influência dos senhores feudais.

A par dessas medidas administrativas, os monarcas providenciaram a organização de exércitos permanentes, sob seu comando direto, a fim de não mais dependerem, em caso de guerra, das tropas que os senhores feudais deviam fornecer-lhes.

Batalha de Aljubarrota

Para enfrentar as despesas necessárias à manutenção de funcionários e contingentes militares fixos, os reis organizaram sistemas tributários destinados a abranger o maior número de cidadãos e, assim, acelerarem a consolidação dos Estados nacionais. Na medida em que os poderes, político e administrativo. do Estado iam-se concentrando nas mãos da monarquia esta passou a simbolizar a unidade geográfica e cultural.

* Formação do Estado Moderno. Durante o século XV e início do século XVI, vencido o poderio dos senhores feudais, foram surgindo os Estados Modernos, através do fortalecimento da autoridade monárquica, da definição de fronteiras nacionais e da unidade linguística e cultural de cada povo.

Reino de Portugal
Foi o primeiro Estado Moderno da Europa, tendo fronteiras já delimitadas em 1383 com o advento da dinastia de Avis. A revolução que colocou no trono João I de Avis viu-se livre da nobreza feudal portuguesa e, depois da batalha de Aljubarrota (1385), firmou sua independência com relação às pretensões territoriais de Castela.

Reino da França
Reino da Inglaterra

Firmaram-se com o fim da Guerra dos Cem Anos (1453), cessando as pretensões inglesas sobre territórios franceses.
Reino da Espanha
Formado pela união dos reinos de Aragão e de Castela, que englobaram o território de Granada ocupado pelos árabes (1492) e o reino de Navarra (séc. XVI).

Reino da Polônia
Resultante da união entre os povos poloneses e lituanos, tendo como capital Cracóvia e porto principal Danzig.

Reino da Hungria
Constituído pelos povos húngaros e restaurado após derrota infligida aos turcos, tendo como capital Buda.

Reino da Boêmia
Constituído pela união dos povos checos, com capital Praga.

Reino da Rússia
Resultante da iniciativa dos príncipes de Moscou, que começaram a expansão geográfica, terminada (no séc. XVI) com a unificação de um vasto território.

Reino da Dinamarca
Reino da Suécia
Reino da Noruega

Formaram Estados, novamente separados no século XVI, após o rompimento da União de Kalmar, que os mantivera coesos desde o século XIV.
Confederação Suíça
Constituída inicialmente (séc. XIII) pela união de três cantões de povos germânicos, que no século XVI chegou quase às fronteiras atuais.

Alemanha
Itália
Irão surgir somente no século XIX. Até essa época os nomes da Alemanha e Itália referiam-se a regiões geográficas. Nesses territórios desenvolveram-se vários pequenos Estados, sem que nenhum conseguisse impor-se, resultando um equilíbrio de forças que impediu a formação do Estado alemão ou do Estado italiano. Entretanto, em cada um desses pequenos reinos ou principados, a evolução do conceito de Estado processou-se como nos demais países que se formaram na Europa.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 168-171.

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