"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os pintores de Nassau

Paisagem brasileira com uma casa de trabalhadores, Frans Post

Não foi exatamente como se Rembrandt ou Rubens tivessem desembarcado nos trópicos. Mas foi quase. A chegada dos pintores Frans Post e Albert Eckhout a Pernambuco, em 1637, assinala, de certo modo, uma das datas mais fulgurantes da história da arte no Brasil. Trazidos para o Recife por Maurício de Nassau – pessoalmente responsável pelo pagamento de seus salários -, Eckhout e Post legaram à posteridade um extraordinário tesouro cultural: a mescla entre arte e ciência que eles concretizaram plenamente, das plantas, dos animais e dos indígenas do Brasil. Quase quatro séculos depois, seus trabalhos preservam o mesmo frescor e a mesma qualidade.

Índia Tapuia, Albert Eckhout

Post e Eckhout eram os mais brilhantes, mas não os únicos pintores integrantes da comitiva que Nassau fez desembarcar no Recife. Outros seis artistas os acompanhavam. Todos tinham casa e comida, salário fixo e muito trabalho pela frente: seriam os primeiros europeus a registrar, in loco, a exuberante natureza do Novo Mundo em possessões que, até então, haviam estado sob domínio português.

Mocambos, Frans Post

Albert Eckhout (nascido em Groningen, na Holanda, em 1612) viveu no Brasil durante sete anos, de 1637 a 1644 – dos 25 aos 33 anos de idade, portanto. Sentava-se à mesa do jovem conde (que havia desembarcado no Recife com 33 anos incompletos), geralmente em companhia de Frans Post, que também chegara aos trópicos no fulgor de seus 25 anos. Eckhout foi um pintor naturalista com excepcional domínio do desenho de modelos vivos, dono de um estilo altamente individual e detalhista, disposto a documentar tipos humanos, plantas e animais que os europeus jamais haviam retratado.

Mulher Banto, Albert Eckhout

Eckhout era fascinado pelo exótico. Seus retratos em tamanho natural de indígenas, mestiços e negros lhes concedem, além de rigor antropológico e etnográfico, uma grande dose de altivez e dignidade: Eckhout pintou indivíduos, não meros exotismos tropicais. Sua obra foi magnificamente complementada pela de seu colega Frans Jansz Post, cultor das paisagens brasileiras que se deixou fascinar pela luminosidade e pelo viço do Novo Mundo – elementos que tão bem soube capturar em suas telas. Ao retornar para a Europa, Nassau doou os quadros de Post ao rei Luís XIV, da França, e os de Eckhout para Frederico III, da Dinamarca.

Fazenda, Frans Post

Outro artista cuja obra celebra o chamado “período nassoviano” é Zacharias Wagener. Mero soldado raso a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, seu nome não constava da lista original de artistas trazidos para o Brasil. Mas, desde sua chegada ao Recife, em 1634, esse alemão de Dresden demonstrou muita habilidade e um interesse permanente pela natureza tropical. Promovido a “dispenseiro-escrevente” e a escrivão particular de Nassau, Wagener, simples “pintor de domingo”, acabou produzindo centenas de aquarelas e litogravuras dos animais brasileiros. Ao retornar para a Europa, em 1643, levava consigo os originais do Thierbuch, ou Livro dos Animais, uma espécie de versão popular da Historia Naturalis Brasiliae, de Marcgraf. Mais do que isso: a obra de Wagener teve grande influência sobre Albert Eckhout. E, junto com Frans Post, Eckhout foi, definitivamente, um gênio da arte vivendo no Brasil.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 94-95.

Galeria de imagens 1: Obras de Frans Post

Vista de Olinda

Muro com cavalos e escravos

Casas de trabalhadores

Uma paisagem brasileira

Vista das ruínas de Olinda

Engenho de açúcar

Vila de Ipojuca

Vista da Ilha de Itamaracá

Paisagem brasileira

Igreja de São Cosme e São Damião em Igarassu

Engenho de Pernambuco

Paisagem do rio Senhor de Engenho

Paisagem ribeirinha com aldeia

Galeria de imagens 2: Obras de Albert Eckhout

Abacaxi, mamão e outras frutas

Índia Tupi

Cocos

Mandioca

Mameluca

Castanhas-do-Pará

Dança dos Tapuias

Cabaças

Cabaças finas

Mulato

Melão, repolho e outros vegetais

Homem Tapuia

Cabaça, frutas cítricas e cacto

Homem africano

Bananas, goiaba e outras frutas

Índio Tapuia

Abacaxi, melância e outras frutas

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