"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Os libertinos. A libertinagem dos costumes (Parte 5)

O acordo perfeito, Jean-Antoine Watteau

Mas o fato de seguir a natureza, de buscar a voluptuosidade, era facilmente interpretado, em muitos, pela sensibilidade barroca como desencadeamento dos instintos, como paixão de uma liberdade infrene, como rejeição de quaisquer limites. As menoridades, as regências, o tempo de Maria de Médicis, o de Ana d'Áustria, são épocas de galanterias escabrosas, de loucas aventuras, em que gentis-homens como o Conde Bellegarde junto de Henrique IV, os Duques de Guise, o Marechal de Roquelaure, dados às emboscadas, aos saques, às violações, aos incêndios, movidos por ásperas paixões, vivem em orgias furiosas, rixas, duelos, bebedeiras e blasfêmias. Jogam, renegam a Deus [...]. É da moda, entre certa juventude, considerar a religião uma trapaça. No sítio de La Rochelle, alguns oficiais zombaram tanto de um de seus companheiros que falara de Deus, que o obrigaram a solicitar licenciamento. O mesmo acontecia durante a Fronda. A irreligião tornava-se notória entre a nobreza que cercava Gastão de Orléans e Condé. Qual o seu número? Mersenne arquejava: "Só em Paris campeiam 50.000 ateus, no mínimo." Boucher, por volta de 1630, deplorava: "um milhão de espíritos perdidos". Gritos de dor, sem valor estatístico. De 1623 a 1625, houve uma verdadeira crise. Em dois anos apareceram o Romance de Francion, a Musa Amalucada, o Gabinete Satírico, o Parnaso dos Poetas Satíricos, a Quintessência Satírica. Os seus temas giravam em torno da equivalência da devoção e da hipocrisia, do direito do prazer triunfar sobre a regra. Estabeleceu-se o pânico. Os devotos acreditaram numa conjuração. "O ateísmo" tornava-se um fato reconhecido, catalogado, uma força a combater.

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 342. (História geral das civilizações, 9).

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os libertinos. A Antiguidade em lugar do Cristianismo (Parte 4)

A lição de amor, Jean-Antoine Watteau

Mais grave talvez do que todos esses ataques é o fato de a Antiguidade fornecer o meio de dispensar o cristianismo. Deseja alguém dirigir uma casa, educar filhos? Eis Xenofonte. Governar? Há Aristóteles, Platão, Tácito. Conhecer as leis do Universo? Que leia Plínio, Lucrécio. Instruir-se acerca dos limites entre a natureza e o milagre? Cícero escreveu o De divinatione. Refletir sobre a imortalidade da alma? Aí estão o Fédon e o Sonho de Cipião. Sobretudo os Antigos proporcionavam doutrinas que permitiam ao homem bastar-se a si próprio para enfrentar as dificuldades, as penas, as angústias da vida, doutrinas onde a razão soberana dita os atos que uma vontade livre executa. Para Epicuro, a felicidade constitui-se de dois estados: "Corpo sem dor, alma sem inquietação". Estes dois estados são a voluptuosidade, objetivo essencial de nossa natureza, primeiro bem do homem. A razão sã dita os objetos e as opiniões que é preciso evitar ou procurar a fim de atingir tais estados. A razão levar-nos-á a rejeitar grandes prazeres, se maiores penas devem segui-los, ou a aceitar grandes e prolongadas penas, se prazeres hão de acompanhá-las. A razão mostrar-nos-á que a frugalidade, a honestidade, a justiça nos conduzem aos estados de onde surge a voluptuosidade, que a felicidade e a virtude formam duas irmãs inseparáveis. A moral do prazer convertia-se, assim, num prudente cálculo utilitário. [...]

Outros preferiam os estóicos, Epicteto, Sêneca, cujo estoicismo se matiza de epicurismo. Existem coisas que dependem de nós, a opinião, o querer, o desejo, a aversão e, em geral, os nossos julgamentos e as nossas representações. Somos os seus amos. Nossa imaginação nos dá o poder de representar as coisas no espírito, de vê-las como boas ou más, de desejá-las ou rejeitá-las, de suportá-las ou repeli-las. A faculdade de julgar e querer é absolutamente livre.

Existem coisas, entretanto, que não dependem de nós, o corpo, os bens, a reputação, a dignidade. Elas nos são estranhas. Dependem dos outros.

Se desejamos aquilo que só depende de nós, isto é, bem julgar e conformar nossa vontade ao nosso julgamento, seremos felizes, pois a felicidade consiste em obter o que desejamos.

Os estóicos não eram raros entre os magistrados e os fidalgos. Até um religioso pediu que o amortalhassem com um volume de Sêneca do qual jamais se separara. Mais numerosos, contudo, eram os epicuristas. O epicurismo transformou-se facilmente num utilitarismo que comprazia ao espírito burguês. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 340-341. (História geral das civilizações, 9).

sábado, 26 de novembro de 2016

Os libertinos. Os povos exóticos e a religião natural (Parte 3)

O banquete do amor, Jean-Antoine Watteau

As descobertas geográficas forneciam novas armas. Os selvagens da América haviam permitido que Montaigne escarnecesse da razão, dos costumes da religião, dos povos cristãos. A China proporcionou os meios de uma operação idêntica aos libertinos do século XVII. La Mothe Le Vayer, em 1642, no seu tratado Da Virtude dos Pagãos, afirmava que se, de acordo com a Igreja, os filósofos pagãos que de fato viveram confortavelmente à lei natural, antes da lei de Moisés, puderam salvar-se, era mister admitir o mesmo em relação aos sábios das nações em cujo meio os apóstolos não pregaram o cristianismo. Ora, a pregação de Cristo não chegara à China. Entretanto, a religião chinesa é mais pura que a dos gregos, dos romanos ou dos egípcios, pois não recorre aos prodígios e, desde tempos imemoriais, os chineses adoraram um só Deus. Confúcio, o Sócrates da China, acreditava na existência de um Deus único e adotara como princípio o próprio princípio da lei natural: jamais fazer a outrem o que não gostaríamos que nos fizessem. Portanto, é possível a salvação de Confúcio e dos chineses. A ideia central era a da bondade da natureza que tende a destruir a crença no pecado original, na necessidade da Redenção através de Cristo, na necessidade da Graça, fundamentos do cristianismo.

Propagou-se também a ideia de que todos os povos da América, da Ásia, das terras austrais, não descendiam de Adão, que a Bíblia continha, pois, apenas a história de um povo, o povo judeu. A Bíblia não tinha o valor eminente que a Igreja lhe atribuía.

[...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 339-340. (História geral das civilizações, 9).

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Os libertinos. A libertinagem de espírito. O ceticismo dos libertinos (Parte 2)

A surpresa, Jean-Antoine Watteau

O movimento cético contribuía para distanciar do cristianismo baseado em razões. O cristianismo dos libertinos pretende de um lado que, remontando aos objetos criados ao Criador, é possível provar a existência de Deus, de outro, que uma crítica histórica racional estabelece os fatos históricos de onde podemos inferir a divindade de Cristo. Ora, os libertinos eram todos pirrônicos, céticos absolutos: La Mothe Le Vayer dizia, em 1630, no diálogo de Orasius Tubero:

Toda a nossa vida, pensando bem, não passa de uma fábula; nosso conhecimento, de uma asneira, nossas certezas, de contos; em suma, todo este mundo não passa de uma farsa e de uma comédia perpétua.

Movidos pela sensibilidade barroca, ampliaram e desenvolveram a lição dos grandes italianos da Renascença e de Montaigne. [...]

Desse materialismo resultavam inúmeras consequências. Primeiro, a impossibilidade de saber algo a respeito da essência das coisas. Nossos sentidos só nos permitem alcançar uma verdade relativa, o que nos basta para a prática. A natureza real das coisas escapa-nos. O que valem as especulações acerca da natureza do Ser e da natureza de Deus? O que valem mesmo as provas da existência de Deus? O que vale esta prova da existência de Deus pelo consentimento universal dos povos que possuiriam. todos, a ideia inata de Deus? Não possuímos ideia inata, tudo vem dos sentidos e a imaginação combina os dados dos sentidos de formas tão diversas que muita gente talvez não tenha ideia alguma de Deus. Para Gassendi, tal ideia de Deus, com suas noções de infinito, eternidade, perfeição, onipotência e bondade suprema, não é - porquanto todas as ideias gerais procedem dos sentidos - senão a extensão e o engrandecimento das perfeições constatadas na espécie humana. Deus é o Homem desenvolvido ao extremo.

Provinha daí a desconfiança no tocante ao testemunho histórico. Como fiar-se em testemunhas cujas ideias se formam de modo a permitir tais possibilidades de erro? [...] Em geral, os fundadores e os chefes de Império apresentam-se como órgãos de uma divindade a fim de formar sua autoridade. Os monges da Tebaida inventava, falsas histórias de combates com o Diabo para conquistar renome e subtrair dinheiro dos ingênuos. A conversão de Clóvis, a vocação de Joana d'Arc, a inspiração de Maomé por Gabriel e a de Moisés por Deus constituem subterfúgios políticos. Mas no que se transformam então os testemunhos evangélicos e o cristianismo?

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 337-339. (História geral das civilizações, 9).

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Os libertinos. Condições políticas da libertinagem (Parte 1)

Prazeres do amor, Jean-Antoine Watteau

Grupos de homens, unidos sob a mesma denominação de libertinos, apresentavam como característica comum a rejeição do cristianismo, na teoria e na prática, e a adoção de uma vida pagã ou de uma concepção pagã da vida. Continuavam os críticos racionalistas do Renascimento, Pomponazzi, Maquiavel e o príncipe dos céticos, Montaigne. Como eles, utilizavam os Antigos. A Antiguidade integral passara ao ensino. Um jovem encontrava nos autores latinos e gregos tudo o que era necessário à vida: moldava uma alma antiga e anticristã.

Tais homens afastavam-se do cristianismo em primeiro lugar devido aos maus costumes do clero, que os Estados recrutavam por motivos políticos: padres ignorantes que haviam esquecido até a fórmula da absolvição, freiras devassas, abadessas mundanas, prelados de vida pouco edificante, abades que eram crianças de peito, cônegos escolares, padres bêbados [...]. Um reformador dizia: "O que se faz de pior... passa-se entre os eclesiásticos". As controvérsias religiosas, as discussões de teólogos, ortodoxos e jansenistas, gomaristas e arminianos, trazidas a público e desprovidas amiúde de elementar caridade, enfastiavam. As guerras de religião desconsideravam e aviltavam a religião. Em nome de Cristo e do Evangelho, os homens injuriavam-se, caluniavam-se, semeavam a imundície em panfletos rancorosos, descomedidos, escandalosos, traíam, assassinavam. Acabava-se duvidando de que houvesse uma verdade religiosa e aos poucos insinuava-se a ideia de que a religião talvez fosse nefasta. As guerras civis e estrangeiras desbridavam a violência dos instintos e destruíam o respeito à religião. No curso das campanhas, as igrejas eram invadidas, os ornamentos roubados, os tabernáculos quebrados, os cibórios arrebatados, as hóstias profanadas. A vida dos acampamentos favorecia a vida dos sentidos, o abandono aos impulsos da carne, as pilhagens, as rapinas, os estupros. a galanteria, a bebida; afastava os homens de uma religião da pureza, que procurava derivar todos os poderes do indivíduo para o puro amor a Deus, para a santidade perfeita e imaculada.

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 336-337. (História geral das civilizações, 9).

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A sexualidade a bordo das naus lusitanas

Nu deitado, Amedeo Modigliani


Em meio a um ambiente conturbado, repleto de privações, a sexualidade a bordo das naus lusitanas era encarada como um tabu e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, com uma liberdade quase nunca observada no reino.

Enquanto em terra havia um tabu com relação à nudez do corpo, entre os homens do mar, habituados à nudez dos nativos das terras descobertas e à sua forma de encarar o sexo mais livremente, a sexualidade era quase libertina.

Nos navios. o ato sexual era quase sempre uma prática coletiva, com a ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Práticas consideradas mesmo em nossos dias promíscuas eram corriqueiras nas embarcações. Por vezes, as mulheres disponíveis eram duplamente penetradas, enquanto forçadas a praticar sexo oral e a manusearem, em cada uma das mãos, as genitálias de outros homens, servindo, sexualmente, cinco deles, ao mesmo tempo. Ao redor, outros se masturbavam ou praticavam sexo entre si, aguardando sua vez de participar da bacanal.

Quando não havia mulheres a bordo, os pobres grumetes terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. Se a Inquisição caçava os adeptos do homossexualismo em terra, no mar procurava ser mais branda, uma vez que a falta de mulheres a bordo justificava, a seus olhos, os atos de sodomia.

Em terra firme, a Inquisição em Portugal queimava os implicados em atos homossexuais, mas apenas quando reincidentes. Assim, estrangeiros diziam que a Inquisição em Portugal era muito branda se comparada com a atuante na França, na Suíça e na Alemanha, onde se queimavam sodomitas sem remissão.

De fato, muitos eclesiásticos portugueses defendiam a isenção de penas para os praticantes de sodomia, ou pelo menos, que eles não tivessem castigo tão severo. A motivação da defesa era conhecida de todos e tema de piada entre os estrangeiros: os religiosos lusitanos, mesmo os inquisidores, tinham fama de homossexuais ativos. Em certas casas eclesiásticas, onde os jovens aprendiam as ciências e a piedade, eram também iniciados em práticas sexuais homoeróticas, chamadas "relaxações", inspiradas pelo modelo grego que pregava que o verdadeiro amor só podia ser desenvolvido entre pessoas do mesmo sexo, com um homem mais velho conduzindo um jovem pelos prazeres da carne.

Parece que, atendendo aos apelos dos religiosos, sob o disfarce de benevolência que procurava ocultar a natureza homossexual da motivação da piedade, no além-mar os estatutos da Inquisição portuguesa eram mais brandos, embora não se possa negar que atendessem a uma necessidade social, ou seja, viabilizar a aventura marítima portuguesa num contexto de grande disparidade numérica entre homens e mulheres a bordo.

A Inquisição de Goa, por exemplo, recomendava que se evitasse a pena pública para a sodomia, imputando apenas uma penitência oculta, condenando secretamente os praticantes reincidentes, quando pegos em flagrante, ou degredo.

A raridade de mulheres nos navios levava a maioria dos embarcados a satisfazer seu desejo sexual com outros homens. Tais relações, muitas vezes, realizavam-se pela força bruta (posse forçada do corpo dos mais fracos) ou pelo peso das hierarquias, que obrigava os mais humildes a satisfazer as vontades dos seus superiores.

Dentro desse contexto, os grumetes, na hierarquia abaixo dos marinheiros, eram muito visados, a despeito de serem crianças entre 9 e 16 anos. Dada a fragilidade infantil, incapaz de conter os assédios, ou em troca de proteção de um adulto ou de um grupo de adultos, os grumetes eram obrigados a abandonar precocemente, a inocência infantil, entregando-se à sodomia. Quando tentavam resistir, eram estuprados com violência, e, por medo ou vergonha, dificilmente se queixavam aos oficiais, até porque, muitas vezes, eram os próprios oficiais que permitiam ou praticavam tal violência.

Em suma, imperava a lei e a moral do mais forte.

Os marujos eram gente de má fama, tidos como adúlteros, alcoviteiros, amantes de prostitutas e ladrões, capazes de acutilar e matar por dinheiro. A reputação dos soldados não era muito melhor, acrescida da impressão de que não guardavam grande respeito ou obediência com relação aos oficiais superiores. Já os passageiros eram em sua maioria miseráveis, descalços, famintos e desarmados, tendo, portanto, muito pouco a perder. Esse conjunto, nas condições precárias de vida das naus, era capaz de dar origem a criminosos da pior espécie, elementos responsáveis por inúmeras violências a bordo.

O próprio cotidiano, repetitivo, empurrava os tripulantes e passageiros de má índole para a caça de parceiros sexuais como um meio de ver o tempo passar rápido.

O mesmo tipo de sexualidade observada na Idade Média entre as corporações de ofício, quando dividir um parceiro sexual entre os companheiros simbolizava o estreitamento dos laços de amizade e camaradagem, terminou sendo adotado a bordo das embarcações portuguesas do início da Idade Moderna.

A prática sexual do estupro coletivo de uma mulher ou de um garoto por grupos de marinheiros ou soldados não era execrável na época sendo dificilmente punida pela autoridades de dentro e mesmo de fora dos navios.

[...] era comum os marinheiros embarcarem prostitutas clandestinas, enganando-as ou forçando-as a subir a bordo com ameaças e violência. A presença de meretrizes nos navios, muitas vezes, servia para acalmar os ânimos dos homens. Sabendo disso, alguns capitães optavam por fazer com que essas clandestinas pagassem sua passagem com trabalho sexual.

Entretanto, embora as prostitutas a bordo desviassem um pouco a atenção dos homens dos garotos, não impediam o assédio constante às escassas "mulheres de bem", pois, além de o número de mulheres para cada homem estar sempre longe do suficiente, o risco de contrair doenças venéreas, como em terra, criava uma certa aversão às profissionais do sexo. De fato, o contato com essas mulheres representava um grande perigo, já que raramente deixava de premiar os incautos com "lembranças de Vênus", suficientes para amargurar e causar forte arrependimento.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 104-106.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

As mulheres embarcadas nas naus lusitanas

Nu feminino, Amedeo Modigliani


Em meio a uma população quase que exclusivamente masculina, quando imperava uma proporção de mais de cinquenta homens para cada mulher, o gênero feminino se tornava um foco de tensão a bordo. A ideia de violentar as órfãs, esposas e noivas em viagem instigava a imaginação dos marujos, que sempre que possível chegavam às vias de fato.

Percebendo isso, a Coroa tentou não só desencorajar a ida de portuguesas para a Índia como também legislou especificamente contra o embarque de raparigas solteiras e de mulheres desacompanhadas de um membro masculino da família. No entanto, não conseguiu impedir a presença de mulheres a bordo, pois a lei era contornada com facilidade e muita frequência.

Além disso, nada obstava que um chefe de família e a esposa pudessem levar consigo não só filhas como também sobrinhas e primas. Havia ainda moças que, buscando marido nas colônias, faziam-se passar por familiar ou criada de um chefe de família complacente.

Apesar da preocupação da Coroa em "preservar a honra" das moças solteiras, não se criou qualquer legislação para proteger as mulheres casadas ou as celibatárias (viúvas ou freiras) das investidas masculinas. Tampouco existia qualquer tipo de proteção oficial à honra das órfãs do rei, originárias de Porto e Lisboa, enviadas para as colônias pela própria Coroa para casar-se com homens da baixa nobreza em além-mar.

As únicas proteções efetivas contra o assédio sexual eram a alta condição social da passageira ou sua faixa etária. Em concordância com o costume observado na Idade Média, a menos que a vítima fosse menor de 14 anos, o estupro de mulheres de baixa extração nunca era punido por lei. Além de os violadores não serem castigados, as vítimas acabavam depreciadas no mercado matrimonial e várias delas, entregues pelas autoridades a um bordel público, já que, acreditava-se, não encontrariam mais quem as quisesse como esposa. Quando as vítimas pertenciam a um estamento mais elevado, apesar de sujeitas a igual depreciação social, os violadores, quando identificados, recebiam punição exemplar. Portanto, o simples fato de uma mulher pertencer à nobreza inibia o assédio dos que temiam os castigos da justiça.

No pesadelo dos navios, as ciganas, por serem as mais indefesas, eram as vítimas preferenciais, embora, de fato, e conforme aumentavam as privações, os marinheiros iletrados não guardavam respeito por mulher alguma.

A cobiça pelo corpo feminino não poupava nem mesmo as religiosas embarcadas. Em certa ocasião. uma freira precisou ser vestida de rapaz para evitar atrair atenções indesejáveis. Mulheres acompanhadas pelo marido tampouco estavam isentas. Em 1601. mulher e filhos de Ventura da Mota, meirinho-geral da frota da Índia, foram confinados para sua própria segurança em uma câmara trancada a cadeado pelo capitão, que ordenou que ninguém se aproximasse mais de cinco palmos da porta.

As órfãs do rei eram vítimas constantes de violações coletivas nos navios. Eram garotas entre 14 e 17 anos. e atraíam a atenção dos homens do mar com o frescor de sua tenra idade. Grupos de marinheiros mal-intencionados espreitavam essas meninas por algum tempo, até que surgisse a oportunidade ideal de burlar a vigilância dos religiosos que as guardavam para, então, atacá-las. À vítima só restava calar. Queixando-se, a pobre coitada poderia ser repudiada pelo futuro marido assim que chegasse à colônia e enviada de volta ao reino para ser metida em um bordel.

O fato de os estupros serem comumente praticados não por indivíduos isolados, mas, sim, por grupos de homens tornava muito difícil a identificação dos responsáveis. Se isso era verdade em terra, mais ainda nos navios, onde o anonimato da violência somava-se à "lei do silêncio" ou à cumplicidade entre marujos e soldados, criando a certeza de impunidade, que, por sua vez, perpetuava a prática.

Os marinheiros pareciam ter uma libido insaciável. Os estupros tornaram-se tão habituais que alguns capitães chegaram a proibir a presença de mulheres a bordo. Em certa ocasião, após aprisionar uma embarcação pirata que carregava donzelas para serem vendidas como escravas, em vez de fazê-las passar ao seu navio e, em seguida, queimar o dos piratas, como era usual, o capitão optou por deixar as mulheres no barco inimigo. junto com dois padres e alguns soldados de confiança, forçando um pequeno grupo de marinheiros a conduzi-lo até um porto, onde pudesse fazê-las desembarcar.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 106-107.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Harém: a vida entre prazeres e intrigas (Parte 3)

A pérola do mercador, Alfredo Valenzuela Puelma 

Em uma sociedade na qual a origem étnica tinha pouco significado (a diversidade das origens das mulheres o comprovava), na qual o nascimento se desvanecia diante do mérito (os sultões preferiam as escravas às princesas), o harém funcionava como um instrumento de promoção social. Chamar a atenção do senhor, compartilhar seu leito e dar-lhe um herdeiro garantia à feliz eleita um destino excepcional. Assim, não era surpreendente que, por vezes, as famílias oferecessem suas filhas ao grão-turco, na esperança de que elas vivessem "entre diamantes e esplendores", como era a ideia corrente no Cáucaso. Apesar da abolição da escravatura, proclamada no Império Otomano na segunda metade do século XIX, caucasianas continuaram a ingressar por sua própria vontade no harém.

O ponto mais alto dessa pirâmide, apoiada sobre a multidão anônima de escravos do sexo feminino, era ocupado pela sultana valide, a mãe do sultão reinante, título ambicionado entre todos. Ela era a verdadeira senhora do harém. Ela administrava com a ajuda dos eunucos negros, cuidava de suas finanças, organizava festas e cerimônias, enfim, ordenava toda a vida social da instituição.


Kisler Aga, chefe dos eunucos negros e primeiro detentor do Serraglio, Francis Smith

Suntuosamente sustentada por seu filho, ela possuía um patrimônio considerável, que não parava de crescer graças aos presentes oferecidos pelo alto pessoal político do império e também pelos embaixadores estrangeiros. O primeiro ritual que acompanhava a ascensão ao poder do novo sultão consistia em acolher a sua mãe no pátio do palácio e em saudá-la respeitosamente. Tal cerimônia evidenciava a importância da sua posição. Mais ainda, enquanto durasse o reinado de seu filho, a sultana valide via-se tentada a fazer crescer sua autoridade ao se atribuir um importante papel político.

Lugar de prazeres e centro de uma vida cortesã refinada, o harém podia ser também, de acordo com a personalidade ou a idade do monarca, um ninho de intrigas e de tráfico de influência e até mesmo o cenário de dramas sangrentos. A concorrência era brutal entre as mulheres que disputavam os últimos favores do senhor. [...]

A pouca idade ou a mediocridade dos sultões autorizaram as sultanas mães a controlar os assuntos do Estado, à imagem de Kösen Valide, que exerceu o poder de fato durante 30 anos, sob os reinados de seus dois filhos e de seu neto, antes de, por sua vez, vitimada pelas intrigas palacianas, ser estrangulada em 1651 [...]. Clientelismo, luta de clãs, disputas entre os grão-vizires, traições e assassinatos foram algumas das ignomínias que apimentaram a vida no harém,

Por muito tempo esse foi um mundo fechado. Contudo. no início do século XIX, durante o reinado do sultão reformador Mahmud II (1784-1839), concubinas e favoritas obtiveram a autorização de passear pela cidade ou pelos campos próximos para se distrair, desde que devidamente cobertas e acompanhadas por eunucos vigilantes.

Enquanto a evolução dos costumes dificultava a poligamia entre as elites otomanas - apenas uma ínfima minoria dos homens casados de Istambul tinha mais de uma esposa - o harém imperial contava ainda com 370 mulheres reunidas em torno do último grande sultão, Abdulhamid II (1842-1909), em seu novo palácio de Yildiz, às margens do Bósforo.

A revolução dos Jovens Turcos, que eclodiu em 1909, assinalou o fim do harém e a dispersão de suas pensionistas. Algumas ficaram encantadas de imediato com a liberdade reencontrada, enquanto outras, aterrorizadas pelo mundo exterior, do qual haviam estado separadas por tanto tempo, guardaram a nostalgia de um universo protegido.

Jean-François Solnon. Harém, a vida entre prazeres e intrigas. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 123 / p. 49-51.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"E eram todos pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas"

Abril de 1500. Parte dos homens que estavam na esquadra de Cabral e desembarcaram nas terras avistadas surpreendeu-se com a natureza exuberante que se estendia por toda a parte. Tudo era diferente do que estavam acostumados e vários foram os estranhamentos relatados na carta feita por Pero Vaz de Caminha ao rei português. A contar pelo número de vezes em que o escrivão fez referências aos corpos indígenas, este parece ter sido um dos mais impactantes. Apesar do espanto pela nudez, acreditaram que seria um corpo sem pecado, porque tais seres não conheciam a maldade. Chegaram a essa rápida conclusão apenas observando seus corpos e comportamentos.

Marabá, João Batista da Costa

Logo no início da carta, após relatos de aspectos da viagem e do desembarque, há referência aos índios e a seus corpos. Foram descritos como pardos que viviam nus, não possuíam nada que cobrisse "suas vergonhas" e não se sentiam encabulados com isso, pelo contrário: eram de "grande inocência". Para eles, como não era importante cobrir seus rostos, não fazia a menor diferença tampar ou não seus corpos, situação constrangedora e aflitiva para os europeus, os quais, assim, trataram logo de entregar aos índios algumas peças de vestuário. A carta segue explicitando que havia sido oferecido a eles um barrete vermelho, uma carapaça de linho e um sombreiro preto, curiosos objetos que serviam tão somente para cobrir as cabeças. Apenas depois dos primeiros encontros foram ofertadas roupas propriamente.

Moema, Pedro Américo

As informações sobre aquelas pessoas "exóticas" eram sempre voltadas para seus corpos. Os navegantes tentavam, de formas diferentes, demonstrar para aquele grupo que deveriam cobrir suas "vergonhas", em vão. O cronista relata que, no momento da missa, deram um pano para que uma índia que estava por perto pudesse se cobrir. Todavia, parece que ela não viu sentido naquilo e, ao se sentar, não tomou os devidos cuidados em esconder partes de seu corpo. Ainda que a nudez feminina incomodasse os europeus, também lhes proporcionava momentos de satisfatórias comparações com as mulheres da Europa e elas, as índias, ganhavam na disputa. Comentando sobre uma jovem nativa em particular, Caminha afirmou que era

tão bem-feita e tão-redonda, e sua vergonha tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, envergonharia, por não terem as suas como as dela.

O relato também fazia referência a outros aspectos culturais ligados aos corpos indígenas, entre os quais os cabelos, descritos como corredios, cortados e enfeitiçados, a pintura e o uso de objetos identificados como adornos. Com relação à pintura corporal, informava que eles usavam preto e vermelho nos troncos e nas pernas e que variava de pessoa para pessoa ou conforme o gênero. Já sobre o uso de adornos, o cronista descreveu que enfeitavam os lábios inferiores dos índios, o que não os impedia de comer, beber ou falar.

Marcia Amantino. E eram todos pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. In: PRIORE, Mary Del; AMANTINO, Marcia. História do corpo no Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2011. p. 15-6.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

História da moda: o mundo moderno

Mexicanos,  Albert Kretschmer

Mouros e turcos, Albert Kretschmer

Costumes eclesiásticos, Albert Kretschmer

Holandeses, Albert Kretschmer

Ingleses e escoceses, Albert Kretschmer

Franceses e alemães, Albert Kretschmer

Franceses, Albert Kretschmer

Alemães, Albert Kretschmer

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Carlos II, o enfeitiçado

Retrato do rei Carlos II da Espanha com armadura, Juan Carreño de Miranda


▬╡ஐ 1699, Madrid ╞▬

Embora não tenha sido anunciada pelo heraldo trombeteiro, pelas ruas de Madrid voa a notícia. Os inquisidores descobriram o culpado do feitiço do rei Carlos. A feiticeira Isabel será queimada viva na praça Maior.

Toda a Espanha rezava pelo rei Carlos II. Ao despertar, o monarca bebia sua poção de pó de víbora, infalível para dar forças, mas em vão: o pênis seguia abobado, incapaz de fazer filhos, e pela boca do rei continuavam saindo babas e hálito imundo e nem uma palavra que valesse a pena.

O malefício não vinha de certa xícara de chocolate com pó de testículos de enforcado, como tinham dito as bruxas de Cangas, nem do próprio talismã que o rei usava pendurado no pescoço, como acreditou o exorcista frei Mauro. Houve quem dissesse que o monarca tinha sido enfeitiçado pela própria mãe, com tabaco da América ou pastilhas de benjuy, e inclusive se rumoreou que o mordomo-mor, o duque de Castellforit, tinha servido à mesa um presunto misturado com unhas de mulher moura ou judia queimada pela Inquisição.

Os inquisidores tinham encontrado, finalmente, o redemoinho de agulhas, grampos, caroços de cereja e louros cabelos de Sua Majestade, que a feiticeira Isabel tinha escondido pertinho da alcova real.

Balança o nariz, balança o lábio, balança o queixo; mas agora que o rei foi desembruxado, parece que os olhos dele se acenderam um pouquinho. Um anão ergue o círio, para que o Rei contemple seu retrato, que há anos pintou Carreño.

Enquanto isso, fora do palácio faltam pão e carne, peixe e vinho, como se Madrid fosse uma cidade sitiada.

▬╡ஐ 1700, Madrid ╞▬

Nunca pôde vestir-se sozinho, nem ler correntemente, nem ficar em pé por conta própria. Aos quarenta anos, é um velhinho sem herdeiros, que agoniza rodeado de confessores, exorcistas, cortesãos e embaixadores que disputam o trono.

Os médicos, vencidos, tiraram de cima dele as pombas recém-mortas e as entranhas de cordeiro. As sanguessugas já não cobrem seu corpo. Não lhe dão de beber aguardente nem a água da vida trazida de Málaga, porque só resta esperar a convulsão que o arrancará deste mundo. À luz das tochas, um Cristo ensanguentado assiste, da cabeceira da cama, à cerimônia final. O cardeal salpica água benta com o aspersório. A alcova fede a cera, incenso, sujeira. O vento golpeia os pórticos do palácio, mal amarrados com barbantes.

O levarão à morgue de El Escorial, onde o espera, há anos, a urna de mármore que leva seu nome. Essa era a sua viagem preferida, mas há tempos que não visita a própria tumba nem mostra o nariz nas ruas. Está Madrid cheia de buracos e lixo e vagabundos armados; e os soldados, que mal e mal vivem da sopa boba dos conventos, não se preocupam em defender o rei. Nas últimas vezes em que se atreveu a sair, as lavadeiras do rio Manzanares e os rapazes da rua perseguiram a carruagem e cobriram ele de insultos e pedradas.

Carlos II, com os vermelhos olhos arregalados, treme e delira. Ele é um pedacinho de carne amarela, que foge entre os lençóis, enquanto foge também o século e acaba, assim, a dinastia que fez a conquista da América.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 269-270 e 273.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Onde foi parar o Mar Tenebroso?

Mapa do Oceano Pacífico, 1589. Ortelius

Apesar das dificuldades, as expedições foram bem-sucedidas, tanto as que seguiram para o Oriente quanto as que foram para o Ocidente. Inúmeras descobertas: mares, terras, povos, animais, plantas... Retornos cheios de glória e com muitos relatos. Isso tudo causou grande impacto e fez com que muitas ideias sobre o universo e a Terra, aceitas como verdadeiras, sofressem alterações.

Um cronista espanhol, Francisco Lópes de Gómara, em 1522, escreveu que a descoberta da América "foi o maior acontecimento desde a criação do mundo". Hoje, passados 500 anos, é difícil imaginar como as pessoas da época receberam as notícias. O espanto e a surpresa seguramente não foram sem razão. Os relatos aguçaram a curiosidade e o desejo dos reis, dos comerciantes, dos navegadores e dos estudiosos.

Américo Vespúcio, que fez várias viagens à América, em uma de suas cartas a um amigo se mostrava deslumbrado com a natureza encontrada:

"[...] fomos à terra e descobrimo-la tão cheia de árvores que era coisa maravilhosa, não somente a grandeza delas, mas seu verdor e cheiro suave que delas saía e que dava tanto conforto ao olfato [...] E o que vi aqui foi uma feíssima coisa de pássaros de diversas formas e cores, e tantos papagaios que era deslumbrante [...] E a mata é de tanta beleza e suavidade que pensávamos estar no paraíso terrestre".

Em outra carta, Américo Vespúcio apresenta um aspecto em que a realidade era diferente das ideias que corriam:

"[...] parece-me que a maior parte dos filósofos nesta minha viagem seja reprovada, pois afirmam que dentro da tórrida zona não se pode habitar por causa do grande calor, e eu vi nessa minha viagem ser o contrário [...]". (VESPÚCIO, Américo. Novo Mundo, cartas de viagens e descobertas. p. 50, 51 e 55).

Os europeus tiveram que mudar muitas teorias. Por exemplo, aquelas que afirmavam ser o Oceano Atlântico um mar tenebroso e cheio de monstros. Ficou provado que as sereias e os ímãs que atraíam os navios para o fundo do mar não passavam de uma lenda, pois nenhum navegador sofreu qualquer dano dessa ordem. Também não se tem notícias de mortes provocadas pelo calor, na região do Equador.

Os habitantes encontrados na América, vivendo em diversos níveis de desenvolvimento as mais diferentes formas de vida, assustaram também os europeus¹, que tiveram de refazer muitas de suas ideias sobre a população da Terra. Encontraram pessoas, animais e plantas vivendo em regiões muito frias, temperadas ou de muito calor. Gente morando nos desertos, nas planícies, nas montanhas, nos alagados e ilhas. Gente muito diferente! Nos costumes diários, na forma de religião, nas concepções de riqueza, na alimentação, no vestuário, nas habitações...

¹ [O europeu diante dos índios americanos] "Andavam nus como a mãe lhes deu à luz [...] E todos os que vi eram jovens, nenhum com mais de trinta anos de idade: muito bem feitos, de corpos muito bonitos e cara muito boa; os cabelos grossos, quase como pêlos de cavalos, e curtos [...] Eles se pintam de preto e são da cor dos canários, nem negros nem brancos, e se pintam de branco, e de encarnado, e do que bem entendem, e pintam a cara, o corpo todo, e alguns, somente os olhos ou o nariz. Não andam com armas, que nem conhecem, pois lhes mostrei espadas, que pegaram pelo fio e se cortaram por ignorância. Não têm nenhum ferro: as suas lanças são varas sem ferro, sendo que algumas têm no cabo um dente de peixe e outras uma variedade de coisas". (COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América. 1492, p. 45.)

Em muitas cidades da Ásia e da África oriental, os europeus ficaram fascinados pelo luxo e riqueza encontrados. No entanto, era mais ou menos o que esperavam encontrar, de acordo com as descrições que já tinham chegado à Europa através dos mercadores e viajantes. Mas ficaram espantadíssimos com as cidades ricas da África, de população negra, e com as dos astecas e incas, na América.


Templo do Sol, Palenque


Também as populações mais simples, tanto da África quanto da América, assombraram os europeus. Quem são elas? Por que se comportam assim? Como chegaram a se organizar dessa forma? Por que não se interessam, como os europeus, pelas riquezas, por exemplo, o ouro e as pedras preciosas? Seguramente, essas questões estavam na cabeça dos descobridores e das pessoas que passaram a ter conhecimento do que existia no mundo, um mundo muito maior do que tinham imaginado.

Nos diários, nas cartas e relatos diversos que nos deixaram os navegadores, os escrivãos e outros estudiosos que faziam parte das expedições, as descrições são inúmeras e demonstram o espanto do primeiro encontro. Na África², encontraram populações que possuíam o ouro e a prata, mas esses metais de nada lhes serviam e, como moeda, usavam os búzios. Em certas regiões da América e em algumas ilhas da Oceania, encontravam povos vivendo de forma muito simples. Quase todos andavam nus, enfeitavam-se com penas coloridas e viviam do que coletavam na natureza. Um exemplo é o caso dos índios do Brasil e de várias outras partes do continente americano.

² [Os africanos diante do europeu] "Os negros, tanto homens como mulheres, acorriam todos para me ver [...] Alguns mexiam-me nas mãos e friccionavam-me os braços com saliva, para ver se minha brancura provinha de qualquer pintura ou se a carne era mesmo assim. Quando verificavam isso, ficavam muito espantados". (CADAMASTO, A. Relação da viagem à costa ocidental da África. 1457, p. 70).

Mas, por outro lado, a organização política, social, econômica e cultural, principalmente dos astecas e incas³, espantou os espanhóis. Tenochtitlán, capital dos astecas (onde hoje é a cidade do México), deixou Cortés, conquistador espanhol, absolutamente surpreso. Ele a descreveu em detalhes e chegou a compará-la com as grandes cidades da Espanha. Para alguns historiadores, Tenochtitlán, no século XVI, juntamente com Constantinopla, eram as duas maiores cidades do mundo, apesar de se ignorarem.

³a [Os incas diante dos espanhóis] "Atahualpa (cacique dos incas) viu chegar os primeiros soldados dos espanhóis, montados em briosos cavalos ornamentados com casquetes e penachos, que corriam provocando ruído e poeira com seus cascos velozes: tomado pelo pânico, o inca caiu de costas". (GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina).

³b [Os astecas diante dos espanhóis] "[...] rápido dispararam um canhão: tudo ficou confuso. Corriam sem rumo, as pessoas dispersaram-se sem que nem porque, debandavam, como se fossem perseguidos. Tudo era como se todos tivessem comido cogumelos estupefacientes, como se tivessem visto algo assombroso. O terror dominava a todos, como se todo mundo tivesse perdido o coração. E, quando anoitecia, era grande o espanto, o pavor se estendia a todos, o medo dominava todos, por temor perdiam o sono". (LEÓN-PORTILLA, Miguel. A tragédia da conquista narrada pelos astecas. p. 76).

As descrições dos contemporâneos são muitas e cheias de assombro. Era o espanto diante do diferente e do inacreditável, tanto do lado dos europeus quanto dos povos africanos e americanos. O Mar Tenebroso deixou de ser o lugar perigoso que separava os povos para tornar-se o mar que conduzia as embarcações, os homens e as ideias, ligando a Europa ao Oriente, África e América. Mundos diferentes! Pessoas diferentes! Ideias diferentes! Mas, no entanto, vivendo o mesmo tempo histórico e, a partir dos descobrimentos, não mais podendo se ignorar.

GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedade dos tempos modernos. Goiânia: UFG, 1998. p. 79-84.

sábado, 20 de abril de 2013

A preponderância holandesa no século XVII

A Holanda (denominação usualmente dada às Províncias Unidas dos Países Baixos), muito antes de se tornar independente, constituía uma das regiões mais florescentes da Europa.

The Y at Amsterdam, seen from the Mosselsteiger (mussel pier), Ludolf Bachuizen


Sua agricultura, apesar da escassez de terras, progredia. Suas indústrias desenvolviam-se, principalmente, na produção de tecidos de linho, estofos de lã, tapeçarias, construção naval, peixe salgado etc. O comércio, beneficiado com as vitórias sobre a Hansa Teutônica e pelos progressos da marinha, expandiu-se rapidamente, aproveitando-se das rotas fluviais (o Escalda, o Reno e o Mosa ligavam a região com a França e com o Sacro Império Romano-Germânico) e marítimas. Aspecto importante, na atividade mercantil, era sua intensidade com o porto de Lisboa, de onde transportavam produtos vindos do Brasil, da África e da Ásia. A propósito, a Hansa Teutônica foi uma associação de cidades alemãs; formada no século XIII sob a liderança de Lubeck, até o século XV dominou o comércio marítimo da Europa Setentrional; seu declínio deveu-se ao deslocamento do eixo econômico para o oceano Atlântico, consequência da Expansão Marítima e Comercial.

Com as rápidas transformações econômicas do século XVI, a sociedade assistiu ao fortalecimento de rica e ativa burguesia, sobretudo nos centros urbanos setentrionais dos Países Baixos, onde o calvinismo converteu-se na religião predominante.

Politicamente, os Países Baixos integravam-se ao Império Espanhol; cada uma das dezessete províncias dispunha de um conselho e de um governador (Estatúder) e enviava representantes aos Estados Gerais. As instituições comuns e a autonomia desfrutada, ao longo do governo de Carlos V, acabaram de forjar o sentimento nacional.

A ascensão de Felipe II ao trono espanhol marcou uma brusca mudança política em relação aos Países Baixos, ocorrendo crescentes choques contra a intolerância religiosa, manifestada pela introdução da Inquisição; a opressão fiscal, mediante a criação de novos impostos e elevação dos já existentes; regulamentação econômica promulgada em moldes mercantilistas e disposições administrativas suprimindo a autonomia existente.

A revolta conduziu à divisão dos Países Baixos: o Sul permaneceu unido à Espanha pela União de Arrás, enquanto os burgueses calvinistas do Norte formavam a União de Utrecht (1579), contando com a ajuda da Inglaterra de Elisabete I.

Apesar de a Espanha só haver reconhecido, diplomaticamente, a independência das Províncias Unidas mediante o Tratado de Vestfália (1648), estas já se haviam organizado em uma república federal, burguesa e calvinista.

"Os holandeses aproveitaram-se de várias circunstâncias favoráveis: sua localização em frente ao Mar do Norte; a ruína de Antuérpia; o declínio dos portos hanseáticos; e, sobretudo, a decadência de Portugal, que, então, estava anexado à Espanha." (ARONDEL, M.; LE GOFF, J. Du Moyen Âge aux Temps Moderns (1328-1715). Paris: Bordas, 1968. (Collection d'Histoire).

Ainda no decorrer da luta contra Felipe II, a Holanda procurou conquistar colônias aos luso-espanhóis )de 1580 a 1640 houve a União Ibérica), daí os ataques aos domínios ultramarinos daqueles países visando a efetuar pilhagens (foi, por exemplo, o caso das diversas incursões ao litoral brasileiro) e, principalmente, o estabelecimento definitivo. Na América, os holandeses se apoderaram da Guiana, da ilha de Curaçao, diversos pontos da América do Norte, tendo dominado o litoral norte e nordeste do Brasil durante algum tempo. Na África, estabeleceram-se na Colônia do Cabo e, temporariamente, em Angola, Benguela, São Tomé etc. No Oriente, criaram feitorias na Índia e dominaram Java, Ceilão, Málaca, Célebes, Molucas (as ilhas das especiarias), Nova Guiné, Sonda e Timor.

Para o processamento dessa intensa atividade, os holandeses construíram numerosas embarcações, formando a primeira frota naval do mundo.

Graças a tudo isso, Amsterdã, com suas feiras, sua Bolsa, seu banco, companhias de comércio (das Índias Ocidentais, das Índias Orientais), converteu-se no principal centro comercial e financeiro da Europa durante a primeira metade do século XVII.

Embora a ascensão hegemônica fosse rápida e se mantivesse na primeira metade do século XVII, o declínio se precipitou na segunda metade do mesmo século, quando guerras desastrosas, contra a Inglaterra (1652-1654 e 1655-1667) e contra a França (1672-1678), arruinaram o país e reduziram sua participação no comércio mundial.

Aos fatores externos somaram-se os de ordem interna, que apresentaram características distintas daquelas ocorridas nos Países Ibéricos. Com efeito, os holandeses foram incapazes de passar do capital comercial para o capital industrial: as excelentes possibilidades de lucro oferecidas pelas transações mercantis desviaram capitais de outras atividades, como a indústria, que estagnou e declinou; as perdas sofridas, externamente, acabaram dissipando a maior parte do capital de giro acumulado.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 39-42.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A dura vida dos navegantes

Fome, sede, doença e estupro eram apenas algumas das palavras incorporadas ao cotidiano dos navegantes nos séculos XV e XVI. Fugindo de uma vida dura na Europa, centenas de homens embarcaram nas caravelas dos descobrimentos. Alguns buscavam enriquecimento rápido e fama; outros, penitência pelos pecados e oportunidade de difundir a fé em Cristo. Eram atraídos pela brisa do mar e pela aventura, encontrando uma existência repleta de surpresas nem sempre agradáveis.


A partida de Vasco da Gama para a Índia em 1497, Alfredo Roque Gameiro


Dentre os obstáculos que precisaram ser vencidos para desbravar os mares, nenhum supera a dureza do cotidiano nas caravelas. Os tripulantes eram confinados a um ridículo espaço que impedia qualquer tipo de privacidade. Os hábitos de higiene eram precários. Proliferavam insetos parasitas: pulgas, percevejos e piolhos. O mau cheiro se acumulava, tornando-se insuportável em pouco tempo. Além disso, havia o perigo constante de naufrágio e a possibilidade de serem mal recebidos pelos nativos. Ainda assim, apesar de todas as mazelas, a vida no mar podia ser instigante: encontrar novas terras e gentes, escapar da rotina.

A rígida separação que existia na Europa entre nobres e plebeus, com leis distintas para cada categoria, era atenuada no universo marítimo. Só o mar podia proporcionar a quebra de hierarquia que dificilmente ocorreria em terra, num continente dominado pelos títulos de nobreza que separavam aqueles com sangue azul da imensa maioria da população. Os perigos e o limitado espaço para circular a bordo estimulavam a camaradagem, o que podia servir, inclusive, como meio de ascensão social.

Não foram poucos os escudeiros e simples marujos que, por mérito, acabaram agraciados com títulos de nobreza pelo rei de Portugal nos séculos XV e XVI. [...]

Mas o risco constante de motim fazia com que os marinheiros fossem submetidos a uma rígia disciplina militar. Para garantir a ordem, cada capitão era obrigado por lei a ter duas peças de artilharia em seu camarote e a portar duas armas de fogo e uma espada.

Amotinados eram presos a ferros no porão, onde permaneciam até o fim da viagem. Quando em terra, não eram julgados, mas perdiam direito ao soldo e tinham os nomes incluídos numa lista negra que impedia que fossem admitidos em outro navio. [...]

O ambiente de permanente tensão era gerado, em parte, pelo aperto a bordo. As caravelas tinham dimensões modestas. Desenvolvidas a partir de uma confluência de tradições, havia uma grande variedade de tipos, com dimensões entre sete e 18 metros de comprimento, tendo uma largura de um para três. Isto significa que a chamada "caravela latina", a mais utilizada nas viagens de exploração da costa africana, com 16 metros de comprimento, teria cerca de cinco metros de largura.

Além do convés, que ficava a céu aberto, qualquer tipo de caravela tinha no máximo mais dois pavimentos inferiores. Este espaço era lotado com canhões, pólvora, munição e, principalmente, água e alimentos necessários para enfrentar o alto-mar, deixando pouco espaço para os marujos.

O número de tripulantes variava entre 12 e 120, muitas vezes envolvendo, além de marinheiros, bombardeiros responsáveis pelo manuseio dos canhões e soldados que deveriam garantir a segurança no desembarque em praias lotadas de nativos potencialmente hostis.

Nos pavimentos inferiores, o ar e a luz eram extremamente escassos, fornecidos apenas por fendas entre os ripados de madeira, que também deixavam passar água, tornando os porões abafados, quentes e úmidos. Nesse ambiente insalubre, apinhado de carga, os marinheiros ficavam amontoados em um único cômodo.

Cada marujo possuía um baú para guardar seus pertences, alojando embaixo do catre inferior, uma espécie de beliche de três ou quatro pavimentos de madeira que servia de cama, sem o conforto dos modernos colchões. Ali os tripulantes se revezavam para descansar.

Devido aos apertos nos navios, o abastecimento e a alimentação constituíram um problema permanente. Os gêneros embarcados tinham sempre uma péssima qualidade. Estavam frequentemente deteriorados ainda no início da viagem e terminavam apodrecendo em pouco tempo.

O rol dos produtos oficialmente embarcados incluía carne vermelha defumada, peixe seco ou salgado, favas, lentilhas, cebolas, vinagre, banha, azeite, azeitonas, farinha de trigo, laranjas, biscoitos, açúcar, mel, uvas-passas, ameixas, conservas e queijos. Também eram transportados barris de vinho e água, embora, depois de algumas semanas, o vinho se transformasse em vinagre e a água, em fétido criadouro de larvas.

Para garantir a presença de alimento fresco, iam a bordo alguns animas vivos, principalmente galinhas, e, por vezes, bois, porcos, carneiros e cabras, brindando os embarcados com muito esterco e urina, que contribuíam para agravar o quadro de doenças entre os humanos.

Mesmo assim, raramente havia carne vermelha fresca [...]. O embarque de animais de grande porte não era recomendado, tomava muito espaço, consumia víveres e água, deixava o ambiente ainda mais insalubre. [...] Muitas vezes, na falta de lenha, peixe e carne eram consumidos crus.

Em viagens longas, passado um mês, o que sobrava para comer era uma espécie de biscoito duro e seco, então já todo roído por ratos e baratas. [...] Diante da iminência de fome, muitos traziam seu próprio estoque de comida, outros optavam por tentar pescar nos períodos de calmaria ou caçar os muitos ratos presentes a bordo.

A dieta pobre em vitaminas explica diversas doenças que se tornaram corriqueiras nos navios, com sintomas como disenteria, febre, fraqueza extrema e desnutrição. A principal era o escorbuto, chamado na época de "mal das gengivas" [...], provocado pela falta de vitamina C. Causava inchaço das gengivas e perda dos dentes, dilatações e dores nas pernas, conduzindo a uma lenta, horrível e dolorosa morte.

[...]

A ausência de hábitos de higiene piorava os estragos causados pelo alto grau de deterioração dos víveres. Não era costume, por exemplo, lavar as colheres, as gamelas e os pratos usados. Estes utensílios eram compartilhados, sendo de uso coletivo entre os tripulantes. [...]

Os tripulantes precisavam conter sua repugnância diante dos companheiros de viagem, que arrotavam, vomitavam, soltavam ventos e escarravam perto dos que comiam sua escassa refeição. Não havia instalações sanitárias a bordo. Eles faziam as necessidades se debruçando no costado da nau, na borda do navio, voltados para o mar. Alguns caíam enquanto buscavam alívio e nunca mais eram vistos. [...]

Tudo em meio ao convívio com gente que havia embarcado fugindo de desafetos ou da Justiça. Apesar de muitos buscarem redenção pelos pecados, outros estavam à procura de oportunidades de arranjar mais encrenca, cometer estupros ou atirar o companheiro ao mar para se apoderar de seus pertences.

[...]

Em meio a um ambiente conturbado e masculino, repleto de privações, a sexualidade a bordo das caravelas era encarada com uma liberdade quase nunca observada em terra. Usar pouca roupa era comum entre os homens do mar [...]. A sexualidade era quase libertina. Nos navios, o ato sexual era frequentemente uma prática coletiva, com ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Quando não havia mulher por perto, os pobres grumetes, crianças que eram aprendizes de marinheiro, terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. [...]

Fábio Pestana Ramos. A dura vida dos navegantes. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, Nº 84, p. 22-25.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Os pobres na Europa do século XVI

Os aleijados, Pieter Bruegel

[...] A causa da intensa carestia do custo de vida e das dificuldades encontradas na aquisição de trigo e pão na cidade e jurisdição de Provins era a grande quantidade de pessoas que havia nela, das cidades e dos povoados de Bray, de Sens, de Auxerre [...], de Borgonha, da Champagne, do Bourbonnais [...], pessoas que se lançaram em multidão através de toda a região de Provins, alguns para comprar trigo e pão, outros para encontrar trabalho, sem pedir outra remuneração que o pão e a sopa que lhes garantiam o sustento [...].

[...] É impossível descrever o infortúnio e a pobreza dessa época miserável, e creio que todo aquele que ler esta ou qualquer outra história escrita sobre essa carestia e esse período de fome não conseguirá crer. Dentro das muralhas da cidade de Troyes, na Champgne, apareceu um grande número de estrangeiros pobres que não pertenciam à cidade nem à referida região, e os habitantes da cidade não sabiam que medida tomar. Para se desfazer deles fizeram proclamar pelas ruas que tais estrangeiros não poderiam permanecer na cidade mais do que vinte e quatro horas, medida acatada pelos estrangeiros pobres.

Porém, além deles, havia na cidade uma quantidade ainda maior de pobres que pertenciam à própria cidade e aos povoados que a circundavam, até o ponto em que os ricos começaram a temer que se produzisse uma revolta ou uma sublevação dos pobres contra eles e, visando conseguir expulsá-los da cidade, os homens ricos e os governadores da cidade de Troyes se reuniram em assembléia, dispostos a encontrar uma solução para o problema. A resolução deste conselho foi a de que se tinha de expulsar os pobres da cidade e não admiti-los mais. Para tanto, mandaram assar pão em quantidade para distribuí-lo entre os pobres, os quais seriam reunidos numa das portas da cidade sem que soubessem o que se tramava e, distribuindo a cada um a parte correspondente de pão e uma moeda de prata, os fariam sair da cidade por aquela porta, que seria imediatamente fechada após passar o último dos pobres, e, por cima das muralhas, lhes diriam que fossem viver com Deus em outro lugar e que não mais voltassem à cidade de Troyes antes da colheita seguinte. E assim foi. Os pobres expulsos depois da distribuição se mostraram horrorizados e alguns deles, chorando, procuraram um caminho a tomar para chegar a algum lugar onde pudessem ganhar a vida, enquanto outros amaldiçoavam a cidade e seus habitantes que assim os expulsaram, olhavam o último naco de pão que lhes havia sido distribuído e desejavam sua própria morte, muitos ter-se-iam alegrado se a terra se abrisse sob seus pés e os tragasse.

Poucos dias depois que os habitantes de Troyes se fizeram valer dessa artimanha para se desfazer dos pobres da cidade, a doença e a morte caíram sobre eles tão violentamente que não houve maneira de escapar, e [...] há quem diga que esta morte lhes foi enviada por Deus como castigo por haverem expulsado os pobres.

Documents inédits de l’Histoire de France. In:  BRAUDEL, Fernand. Las civilizaciones actuales. Madri: Editorial Tecnos, 1969. p. 359-360.