"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os limites do totalitarismo: resistência na Alemanha nazista

A literatura produziu dois clássicos de ficção política na primeira metade do século XX: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1932), e 1984, de George Orwell (1949), ambos com várias edições em diversas línguas. O primeiro mostra um mundo onde a vida das pessoas é controlada por meio da ciência e da técnica. No segundo, a dominação política total é obtida pela repressão e pelo controle de toda e qualquer comunicação.

Mas, mesmo nessas histórias de ficção, existe uma falha do poder. Alguém, mesmo só por um momento, escapa do controle absoluto.

No caso do regime nazista, que não pertence ao mundo da ficção mas ao da realidade histórica, o controle da comunicação e do pensamento também não foi total e absoluto. Existem muitas evidências da capacidade de resistência a esse poder avassalador do Estado nazista. [...]

A juventude de classe média alta alemã tomou gosto pelo swing, música popular de raízes negras dos Estados Unidos. Essa juventude achava muito entediante a música volkish, ou seja, do povo, da raça alemã. Os nazistas defendiam esse tipo de música, ao mesmo tempo que condenavam as músicas estrangeiras, particularmente o swing e o jazz, ambos de origem negra e considerados imorais e destruidores da tradição alemã.

O Café Sing Sing, em Berlim, fotografado em 1934. Os garçons e a banda de jazz vestiam-se como prisioneiros, e mesmo o cenário lembrava a prisão de Sing Sing, nos Estados Unidos. Mesmo em meio à rígida disciplina nazista, as pessoas abriam espaços de crítica e resistência. 
[1934, Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Stock Photos]

Essa juventude desafiava as autoridades, promovendo reuniões para ouvir jazz e dançar swing e também organizando shows com grupos musicais alemães que imitavam as orquestras dos Estados Unidos.

Tais manifestações de inconformismo com a cultura oficial eram duramente reprimidas. Mesmo assim continuaram acontecendo clandestinamente. Um relatório da Juventude Hitlerista fala de um desses "festivais", ocorrido em fevereiro de 1940 em Hamburgo, com a presença de quinhentos a seiscentos jovens.

Outro exemplo de resistência foram as pichações. Os muros e paredes eram pichados com dizeres contra o nazismo e seus líderes. Isso era feito nas horas em que as cidades eram bombardeadas pelos aliados.

A queda na tiragem dos jornais logo depois que os nazistas submeteram todas as publicações de jornais e livros à censura do Estado também pode ser interpretada como uma reação à doutrinação nazista: muitos deixaram de ler jornais.

Outra forma de driblar a censura era escrevendo romances que se passavam em outras épocas, criando histórias e personagens medievais com características dos líderes nazistas, criticando-os indiretamente.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 36-7.

sábado, 19 de outubro de 2013

Estigmatizados e perseguidos pelos nazistas: ciganos, judeus, homossexuais, eslavos, comunistas...

Os condenados, Felix Nussbaum
 

Os ciganos, outro alvo do nazismo, por serem vistos como constituintes de uma raça bastarda, de marginais e parasitas, também foram estigmatizados, levando na roupa um triângulo negro com o objetivo de se fazerem reconhecidos. Em 1939 havia em torno de 750 mil ciganos na Europa; cerca de 260 mil deles foram exterminados durante a guerra. [...]

A implantação do processo de aborto e esterilização permitiu que os médicos ficassem mais acostumados a intervir no corpo humano, mas nem por isso as mortes eram menos comuns. Depois de experimentos químicos e com o uso de raios X, os métodos abortivos foram aprimorados; criou-se, por exemplo, a injeção uterina, que diminuía os riscos de hemorragia e evitava outras complicações. Experiências dessa natureza eram feitas em mulheres judias e ciganas até que fossem devidamente testados os mecanismos de contracepção e de eugenia. [...]

Fileiras de cadáveres no campo de concentração de Nordhausende, Alemanha, 1945

Para uma visão de mundo que considera o diferente uma anomalia, não era difícil classificar o homossexual como culpado e dispensar-lhe o mesmo tratamento dado aos outros grupos perseguidos. [...] Em 1940, Himmler radicalizaria seu discurso: "É preciso abater esta peste pela morte". Os homossexuais eram obrigados a usar um triângulo rosa que os distinguia, classificava, isolava, estigmatizava, tornando-os presa fácil do racismo que crescia a cada dia.

Os eslavos, por sua vez, também eram vistos como subumanos pelos nazistas. Entre eles, os poloneses sofreram particularmente. As elites foram neutralizadas; a população, subjugada. Na verdade, durante todo o século XIX, a Polônia permaneceu dividida entre as grandes potências da região (Áustria, Rússia e Prússia), o que muito deve ter colaborado para a formação de um conceito depreciativo desse povo por parte dos nazistas. Provavelmente a fragilidade tão à mostra desse país muito contribuiu para que os nazistas, cujo pensamento considera as mudanças e os acasos da história como incompetência de sujeitos sociais incapazes de serem vencedores, formassem um conceito extremamente negativo dos poloneses. Hitler e seus seguidores tinham uma repulsa doentia pelo que consideravam fraqueza nas pessoas, grupos ou povos - "fraqueza" que, na realidade, é apenas sinal de vida. [...]

Os soviéticos sofriam duplo preconceito, por serem eslavos e por serem comunistas. Em relação a eles também o objetivo era a destruição completa. A invasão da União Soviética pela Alemanha, em junho de 1941, reforçou a arrogância dos alemães, e o massacre impetrado a civis e militares deu-lhes a ilusão de que o objetivo seria atingido. Entre 1941 e 1945, 60% dos 5 milhões e 700 mil prisioneiros de guerra soviéticos foram mortos pelos alemães. [...]

Os campos de concentração e extermínio, locais onde se eliminavam os que eram considerados dissonantes do todo homogêneo e coerente imaginado pelos nazistas, foram a materialização perfeita da visão de mundo totalitária. Ali a humanidade seria depurada, e a produção da morte em massa possibilitaria a emergência de uma nova raça, idêntica a si mesma, ou seja, mais "pura" e pronta para o domínio universal. Nos campos estava condensada a essência do regime nazista.

CAPELATO, Maria Helena; D'ALESSIO, Márcia Mansor. Nazismo: política, cultura e holocausto. São Paulo: Atual, 2004. p. 32, 92-95. (Coleção Discutindo a história)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Era Vargas II: "Trabalhadores do Brasil"

Trabalhadores homenageiam Getúlio Vargas na Esplanada do Castelo, Rio de Janeiro, 1940

A permanência de Getúlio Vargas no poder dificilmente teria sido possível sem o extraordinário sucesso econômico alcançado durante seu primeiro governo. Para se ter noção do significado profundo dessa afirmação, basta mencionarmos que, por volta de 1945, nossa industrialização finalizava seu primeiro grande ciclo. Em outras palavras: pela primeira vez, a produção fabril brasileira ultrapassava a agrícola como a principal atividade da economia. Nesse mesmo período, também assistimos ao surgimento da indústria de base, ou seja, aquela dedicada à produção de máquinas e ferramentas pesadas, à siderurgia, à metalurgia e à indústria química.

[...]

A industrialização acelerada teve efeitos não só econômicos, mas também políticos e sociais. Como é sabido, a fábrica tem na cidade seu espaço privilegiado. Por isso mesmo, a Era Vargas - incluindo aí seu segundo governo, entre 1950 e 1954 - pode ser caracterizada como uma época de intensa urbanização. Em 1920, por exemplo, apenas dois em cada dez brasileiros residiam em cidades; vinte anos mais tarde essa mesma relação era de três para dez; nos anos 1940, tal proporção tornara-se equilibrada: quatro em cada dez brasileiros moravam em áreas urbanas. A formação de novas cidades e o crescimento das já existentes estimulavam, por sua vez, a multiplicação de trabalhadores, não vinculados às tradicionais atividades agrícolas e de industriais não-fazendeiros [...].

Getúlio Vargas, na esperança de se contrapor ao poder oligárquico, valorizou a aliança com os grupos urbanos e, paralelamente, manteve sua aproximação com o exército. Para cada segmento específico foi traçada uma estratégia política. No caso dos trabalhadores urbanos, em 1930 era criado o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Dois anos mais tarde, Vargas começa a implementar mudanças na legislação, favoráveis ao operariado: estabelece, por exemplo, a semana de oito horas. [...] no mesmo ano que era atendida uma reivindicação defendida pelo movimento operário desde fins do século XIX, estabeleciam-se os primeiros traços do sindicalismo corporativo. [...] 

Tal mudança foi acompanhada pela criação do imposto sindical, através do qual se descontava anualmente um dia de trabalho da folha de pagamento dos operários, com a finalidade de financiar a estrutura sindical. O ditador generalizava, dessa forma, o modelo corporativo para o conjunto das entidades representativas dos trabalhadores. De instrumentos de luta, os sindicatos dos anos 1940 passam à condição de agentes promotores da harmonia social e instituições prestadoras de serviços assistenciais.

Com certeza, os líderes sindicais formados na antiga tradição anarquista viam criticamente essas mudanças, encarando-as como uma maneira de cooptação e de manipulação dos interesses da classe trabalhadora. Porém, entre a massa operária, a postura parecia ser outra. Para muitos, familiarizados com as associações mutualistas, Getúlio Vargas atendia a certas expectativas, como no caso da generalização dos institutos de previdência, garantindo assim aos trabalhadores o direito à aposentadoria. [...] Vargas conseguiu sensibilizar inúmeros militantes oriundos das lutas socialistas. A Consolidação das Leis Trabalhistas, firmada em 1943, viabilizava isso. Nela determinava-se que, a partir de então, o trabalhador dispensado deveria ser indenizado, a mulher operária teria o direito de proteção à maternidade, assim como ao menor restringia-se a exploração através do trabalho. [...] Getúlio Vargas, dessa maneira, surgia aos olhos de muitos como um protetor [...].

Os empresários também viram parte de suas expectativas serem atendidas. [...]

Getúlio Vargas em muito se diferenciava dos presidentes da República Velha. [...] Em certas ocasiões, o ditador aproveitava-se da tensa situação internacional do período anterior à Segunda Guerra Mundial para conseguir vantagens. Oscilando entre apoiar ora os aliados, ora os países do eixo, o governo brasileiro conseguiu apoio norte-americano para instalação, em 1941, da Companhia Siderúrgica Nacional, cujos efeitos na área industrial foram extremamente benéficos. Getúlio foi hábil em descobrir e integrar a seu projeto político-econômico intelectuais descontentes e reformistas. [...]

Em relação à área econômica mais desenvolvida do país, a política getulista foi generosa. No início dos anos de 1930, era retomada a política de valorização do café [...]. Graças à manutenção do elevado nível de renda local, coube a São Paulo liderar o processo de formação do mercado nacional voltado para a substituição das importações. [...] A importância dos empresários paulistas cresce a olhos vistos: nos anos de 1940 eles passam a ser responsáveis por metade da produção fabril brasileira [...].

Não foi somente na economia que a intervenção estatal getulista se nobalilizou. Em certas áreas registraram-se, igualmente, mudanças profundas. Esse foi o caso da educação. Durante a gestão de Gustavo Capanema - Ministério da Educação e Saúde entre 1934 e 1945 [...] -, foram planejadas e implementadas importantes alterações, como a ampliação de vagas e a unificação dos conteúdos das disciplinas no ensino secundário e universitário. Isso para não mencionarmos ainda a criação do ensino profissional, consubstanciado em instituições como o Senai, o Sesi, o Senac e o Sesc.

A aproximação de Getúlio com o que havia de mais moderno na época [...] expressou-se através da criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Voltado para a propaganda política através dos novos meios de comunicação, como o rádio e o cinema, o DIP era responsável pela organização de rituais totalitários de culto à personalidade do ditador. Essa organização [...] tentou controlar até a produção cultural popular, conforme ficou registrado nas alterações impostas às letras de sambas. [...]

Como seria de esperar, Getúlio esteve longe de agradar a todos os segmentos da elite dominante. Os setores agrários acusavam a indústria de desviar braços do campo, ao mesmo tempo em que percebiam estarem financiando as importações de insumos fabris e investimentos do Estado na infra-estrutura industrial. Mesmo entre os empresários, o fundador do Estado Novo estava longe de ter unanimidade. A legislação trabalhista onerava a atividade industrial, reduzindo o ritmo de acumulação nesse setor. [...]

Não é de estranhar, portanto, que, ao longo do Estado Novo, ampliassem as vozes descontentes frente ao rumo tomado pelo governo. A própria legislação que acompanhou o golpe facultava à oposição uma alternativa de poder.A ditadura instalada em 1937, curiosamente, tinha data marcada para acabar. Segundo a constituição então outorgada, previa-se, para 1943, um plebiscito em que o regime seria posto à prova nas urnas. Um ano antes, a decretação do "estado de guerra" - ou seja, de preparação do Brasil para lutar na Europa contra o nazi-fascismo - permitiu que esse prazo fosse transferido para o período imediatamente posterior ao término dos conflitos.

Em 1941, já estavam sendo feitas as primeiras articulações para garantir a transição política. O próprio ditador tentava organizar um partido nacional. Dois anos mais tarde, o descontentamento das elites marginalizadas pelo Estado Novo veio a público através do Manifesto dos Mineiros. Nesse texto, amplamente divulgado de norte a sul do país, políticos de renome nacional [...] criticavam o caráter autoritário do governo, ao mesmo tempo que, manifestando uma nostalgia pelo regionalismo que tanto caracterizou o sistema de poder da República Velha, o acusavam de "espoliação do poder político de Minas Gerais". Em 1944, a estrutura partidária que comandaria a transição já estava praticamente constituída. [...] Entre as elites dissidentes, que desde a Revolução de Trinta haviam sido marginalizadas, agrupam-se na União Democrática Nacional (UDN). Paralelamente a essa oposição, Vargas promove a reunião dos interventores no Partido Social Democrático (PSD). Enquanto isso, a estrutura sindical e previdenciária por ele criada servem de base para a formação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Tais organização, que estavam se esboçando em 1944, são legalizadas no ano seguinte. A UDN lança candidato próprio às eleições  previstas para 1946, o mesmo ocorrendo com o PSD. A posição do PTB é outra. Não lança candidato, mas defende a convocação de uma assembléia constituinte ainda no governo de Getúlio, que seria por isso mesmo prolongado um pouco mais. Tal movimento ganhou as ruas - sendo popularmente denominado na época como "queremismo", ou seja, "queremos Getúlio" - e contou com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB); apoio esse, aparentemente, surpreendente. Como vimos, Vargas foi responsável por uma feroz repressão aos comunistas. No entanto, é necessário lembrar que foi no seu governo que o Brasil entrou em guerra contra o nazi-fascismo, em uma aliança na qual participou a antiga União Soviética. No final de sua gestão houve também a anistia e a legalização do PCB. Mais ainda: para os comunistas, os inimigos políticos de Vargas reunidos na UDN representavam o que havia de mais atrasado na sociedade brasileira.

Além de mobilizar as massas urbanas, o ditador começa a fazer modificações no comando da polícia do distrito federal. Crescem as suspeitas de que as eleições seriam manipuladas em prol da continuidade do governo. [...]

Em 1945, as forças armadas, embora tivessem enviado "apenas" 23.344 soldados para a Segunda Guerra Mundial, aproveitaram a justificativa do conflito internacional para formar um contingente interno de 171.300 homens. [...] Getúlio experimentava agora o sabor amargo de uma prática intervencionista feita por uma instituição que ele mesmo havia ajudado a crescer. Em 29 de outubro de 1945, sob pressão do exército, o criador do Estado Novo deixava o poder. [...]

PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 320-323, 325-331.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Os regimes totalitários: ataque à razão e à liberdade

Guerra, Lasar Segall

A GUERRA

Um avião que surge de repente
Carregado de mísseis assassinos
As cidades em chamas ardendo

Matando meninas e meninos.

Fogem os sobreviventes
Sobre os corpos caídos por terra
Fogem do horror da guerra.

Não há tempo para velórios
Outra bomba os enterra
Mutilados em seu próprio solo
As pobres vítimas da guerra.

A GUERRA É ESTÚPIDA E INÚTIL
Massacra quem não faz guerra
É o poder e a ganância fútil
Pela terra que nos enterra.

Se eu pudesse...
Eu mataria a guerra.

Roseli Passos, poetisa e artista plástica. In: http://roselipassospoemas.blogspot.com.br/


Detalhe do triângulo rosa usado para identificar os homossexuais na Alemanha nazista. 
[Milhões de judeus, ciganos, eslavos, homossexuais, testemunhas de Jeová, liberais, democratas, socialistas, artistas, intelectuais... foram barbaramente aprisionados e executados pelos nazi-fascistas nos campos de concentração espalhados pela Europa dominada pela barbárie.]

Auschwitz

"Demoraria muitos anos para que toda a história do custo moral da guerra aparecesse, mas um sinal vivo - e do que fora conquistado - se tornou imediatamente visível e aterrorizador quando os exércitos aliados avançaram na Alemanha e na Europa Central. Descobriram-se invadindo campos onde a brutalidade sádica e a negligência desumana foram muito além do que alguém algum dia concebera. Os prisioneiros ali durante anos sofreram tortura, fome e trabalho forçado. Passaram por isso às vezes por serem opositores políticos ao nazismo, às vezes porque eram reféns ou trabalhadores escravos, às vezes simplesmente como prisioneiros de guerra. Mas isto não era o pior. A maioria dos que sofreram eram judeus, condenados a um tratamento desumano e à morte simplesmente por sua raça. Os nazistas fizeram esforços especiais para eliminar os que eles supunham ser geneticamente indesejáveis. [...] cinco ou talvez seis milhões de judeus pereceram nas câmaras de gás dos campos de extermínio ou em fábricas e pedreiras onde morreram de exaustão e fome, ou no campo, onde eram cercados e fuzilados por destacamentos especiais de extermínio. Derrubar o sistema que fez isto acontecer foi uma conquista grande e nobre, uma vitória da civilização e da decência. [...] O único guerreiro ideológico da luta do início ao fim fora Hitler, e os objetivos que buscara  eram moralmente abomináveis." [J. M. Roberts. O livro de ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 727-728]


* A Europa depois da guerra. A Primeira Guerra deixou um rastro de desilusão entre as populações. Alguns valores de referência no mundo ocidental ficaram, ao seu final, profundamente abalados. Para muitos, a Europa esteve, durante o conflito, muito mais próxima de um barbarismo perverso do que dos valores propagados por sociedades civilizadas. À desilusão na capacidade humana de resolver problemas de modo racional somavam-se as dificuldades materiais. As instituições liberais sofreram fortes abalos. A reconstrução social, em seus aspectos espirituais e materiais, precisou de tempo para se realizar. A violência, experimentada nos campos de batalha e instigada pelas propagandas oficiais, colocando uma nação contra outra, tornou-se um componente habitual da vida dos jovens que voltaram da guerra.


Campo de concentração de Wobbelin. 
"Em sua luta para derrubar o Estado liberal, os líderes fascistas despertaram os impulsos primitivos, ressucitaram velhas fidelidades tribais e usaram mitos e rituais para mobilizar e manipular as massas. Organizando campanhas de propaganda com o rigor de uma operação militar, os fascistas inicitaram e dominaram as massas e confundiram e minaram a oposição democrática, desencorajando sua vontade de resistir." [MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 565-566]

Desesperados pelo difícil retorno, muitos desses jovens aderiram aos movimentos extremistas e nacionalistas, que, em vez de soluções políticas encaminhadas pela ação de instituições liberais, propunham um salvacionismo baseado na ação e no terror.

A crise iniciada nos Estados Unidos em 1929 com a queda da Bolsa de Nova Iorque estimulou ainda mais a tensão social e a adesão a movimentos radicais na Europa.

* O totalitarismo. No âmbito político, a crise do capitalismo foi acompanhada pelo enfraquecimento do Estado liberal. Os ideais democráticos burgueses passaram a ser questionados, as liberdades e os direitos individuais caíram em descrédito, e a livre manifestação do pensamento deu lugar à censura e à repressão.


Campo de concentração de Buchenwald. 
"Os instrumentos da moderna tecnologia - rádio, filmes cinematográficos, discursos públicos, telefone e teletipo - possibilitaram ao Estado doutrinar, manipular e dominar seus súditos numa escala até então inimaginável." [MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 566]

Essa inversão de valores caracterizou o totalitarismo, fenômeno bastante complexo e que ganhou matizes próprios em cada país. De modo geral, no entanto, as práticas totalitárias tiveram traços comuns em todos os lugares onde foram implantadas.

O pluripartidarismo foi substituído pelo sistema de partido único, e os órgãos legislativos, quando existiam, eram totalmente subjugados pelo poder Executivo. Os mecanismos de coerção ganharam enorme importância - o que equivale a dizer que a violência se tornou prática institucionalizada -, e a propaganda nacionalista intensiva foi o grande instrumento de mobilização das massas.


Prisioneiros do campo de Mauthausen, Áustria. 
"Universidades, escolas, restaurantes, farmácias, hospitais, teatros, museus e campos de atletismo foram gradualmente fechados aos judeus." [MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 581]

Nos regimes totalitários, a ação do Estado se deu sempre no sentido de anular a dimensão individual dos cidadãos e de procurar integrá-los em um corpo comum - a nação. Os conflitos de caráter ideológico locais, ou entre as classes, tendiam a ser totalmente diluídos por meio da pregação de um líder político carismático, que, a pretexto de conduzir a nação para o seu destino, exacerbava o sentimento nacionalista, estimulando o belicismo e, consequentemente, o confronto armado entre países.


Forno crematório do campo de Buchewald.
"Com a guerra, o genocídio tomou dimensões catastróficas. Na Alemanha e nos países ocupados, os campos de concentração, administrados pela SS, foram implementados, visando à escravização e ao extermínio daqueles que, aos olhos dos nazistas, deveriam ser eliminados do corpo social. Fábricas instaladas nas imediações das cidades exploravam o trabalho dos que ainda tinham vigor. Experimentos médicos de congelamento e a aplicação de vírus e bactérias eram realizados nos prisioneiros." [MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 196]

Sobrevivente de Auschwitz.  
"Desde a chegada, por meio de violência e ameaças, visava-se despojar todos de sua identidade. Os maus-tratos, o desnudamento total, a raspagem dos cabelos, os uniformes listrados e o número impresso na pele indicavam a tentativa de criação de uma subumanidade. Os prisioneiros recebiam identificações diferenciadas para se evitarem laços de solidariedade entre os grupos. A violência física e moral e a destruição cientificamente organizada faziam parte do cotidiano do sistema concentracionário nazista". [MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 196]

Esses regimes tiveram sucesso sobretudo em países onde a crise econômica, o atraso tecnológico e as tensões sociais eram particularmente graves. Sustentados e financiados pelos setores economicamente poderosos, contaram também com a importante colaboração dos setores empobrecidos, que buscavam uma saída para sua difícil situação.

MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.