"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 13 de março de 2017

O Extremo Oriente na Antiguidade: Religiões

Figuras pintadas em uma telha cerâmica de um túmulo da dinastia Han Oriental, Luoyang, província de Henan. Artista desconhecido. 

Nas sociedades extremo-orientais, a religião era profundamente ligada à filosofia. Dessa interligação, e a partir de elementos comuns originários das religiões primitivas - como o culto aos mortos e aos antepassados, culto e sacralização (às vezes divinização) de forças da natureza, principalmente as ligadas à fertilidade da terra, e deuses astrais ou celestiais -, surgiram importantes sistemas religiosos e filosóficos que perduram até hoje.

* Bramanismo-hinduísmo. Religião que se compôs pelo sincretismo entre as formas praticadas pelas populações indianas aborígenes e as que foram introduzidas pelos dominadores arianos. O bramanismo é a expressão e a fundamentação ideológica do sistema que divide a sociedade em castas.

* Budismo. Doutrina criada por um princípe do clã Sakya Muni, chamado Sidharta Gautama, que se tornou o Buda (o Desperto ou o Iluminado). Ele nasceu na segunda metade do século VI a.C. e viveu até quase o final do século V a.C. Sua doutrina expandiu-se na Índia a partir da época do rei Açoka (273-232 a.C.) e atingiu todo o Extremo Oriente, graças ao trabalho de missionários hindus e de peregrinos estrangeiros, sobretudo chineses que buscavam os ensinamentos do Mestre. O budismo prega a plena realização da natureza humana e a criação de uma sociedade perfeita e justa. Aberto a todos os grupos sociais e culturais e a diferentes nacionalidades, hoje se faz presente também no Ocidente.

* Taoísmo. Religião popular na China antiga, baseada em uma fusão de cultos aos espíritos da natureza e aos ancestrais e nas doutrinas de Lao-tsé (570-490 a.C.), sobre o qual as informações existentes são carregadas de componentes lendários. Sua doutrina pregava uma moral de salvação individual, sem preocupação social, como forma de cada um integrar-se ao Tao, concebido como o Elã Cósmico e a Energia Universal.

* Confucionismo. Confúcio (Kung-fu-tzu, Mestre Kung), que viveu entre 551 a.C. e 479 a.C., não foi um líder religioso, mas suas ideias exerceram profunda influência sobre a religião chinesa. Para ele, a realização de uma existência desenvolvida sob o signo de Tao só seria possível numa sociedade justa e civilizada.

* Xintoísmo. De xintó, palavra de origem chinesa, que significa caminho ou via dos deuses. Era a religião original do Japão, anterior à penetração do budismo. Preservou-se como crença popular nas divindades locais, em oposição à crença em Buda, de origem estrangeira. 

O pensamento religioso e filosófico produziu, no Extremo Oriente, uma vasta e rica literatura.

Uma das obras mais importantes é o conjunto de textos hindus, conhecido como Veda, que significa o saber. É o principal fundamento para o bramanismo e expressa a dominação ariana.

Na China, a literatura religiosa, tal como a religião propriamente dita, assumiu um acentuado teor filosófico.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. Sâo Paulo: Saraiva, 2002. p. 88-9.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os libertinos. A Antiguidade em lugar do Cristianismo (Parte 4)

A lição de amor, Jean-Antoine Watteau

Mais grave talvez do que todos esses ataques é o fato de a Antiguidade fornecer o meio de dispensar o cristianismo. Deseja alguém dirigir uma casa, educar filhos? Eis Xenofonte. Governar? Há Aristóteles, Platão, Tácito. Conhecer as leis do Universo? Que leia Plínio, Lucrécio. Instruir-se acerca dos limites entre a natureza e o milagre? Cícero escreveu o De divinatione. Refletir sobre a imortalidade da alma? Aí estão o Fédon e o Sonho de Cipião. Sobretudo os Antigos proporcionavam doutrinas que permitiam ao homem bastar-se a si próprio para enfrentar as dificuldades, as penas, as angústias da vida, doutrinas onde a razão soberana dita os atos que uma vontade livre executa. Para Epicuro, a felicidade constitui-se de dois estados: "Corpo sem dor, alma sem inquietação". Estes dois estados são a voluptuosidade, objetivo essencial de nossa natureza, primeiro bem do homem. A razão sã dita os objetos e as opiniões que é preciso evitar ou procurar a fim de atingir tais estados. A razão levar-nos-á a rejeitar grandes prazeres, se maiores penas devem segui-los, ou a aceitar grandes e prolongadas penas, se prazeres hão de acompanhá-las. A razão mostrar-nos-á que a frugalidade, a honestidade, a justiça nos conduzem aos estados de onde surge a voluptuosidade, que a felicidade e a virtude formam duas irmãs inseparáveis. A moral do prazer convertia-se, assim, num prudente cálculo utilitário. [...]

Outros preferiam os estóicos, Epicteto, Sêneca, cujo estoicismo se matiza de epicurismo. Existem coisas que dependem de nós, a opinião, o querer, o desejo, a aversão e, em geral, os nossos julgamentos e as nossas representações. Somos os seus amos. Nossa imaginação nos dá o poder de representar as coisas no espírito, de vê-las como boas ou más, de desejá-las ou rejeitá-las, de suportá-las ou repeli-las. A faculdade de julgar e querer é absolutamente livre.

Existem coisas, entretanto, que não dependem de nós, o corpo, os bens, a reputação, a dignidade. Elas nos são estranhas. Dependem dos outros.

Se desejamos aquilo que só depende de nós, isto é, bem julgar e conformar nossa vontade ao nosso julgamento, seremos felizes, pois a felicidade consiste em obter o que desejamos.

Os estóicos não eram raros entre os magistrados e os fidalgos. Até um religioso pediu que o amortalhassem com um volume de Sêneca do qual jamais se separara. Mais numerosos, contudo, eram os epicuristas. O epicurismo transformou-se facilmente num utilitarismo que comprazia ao espírito burguês. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 340-341. (História geral das civilizações, 9).

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O sexo das mulheres: a genitália (Parte 1)

O grande nu, Amedeo Modigliani


Como pano de fundo: a tela de Courbet, L'Origine du monde, hoje no Museu d'Orsay. Essa tela foi pintada para um colecionador de telas eróticas, Kalil Bey, ex-embaixador turco, que a guardava secretamente sob uma cortina, como um tesouro escandaloso; e escandalosa era ela, com efeito; nunca ninguém ousara representar a vulva entreaberta de uma mulher. O quadro, mais tarde, pertenceu ao psicanalista Jacques Lacan.


 A Origem do mundo, Gustave Courbet

O sexo é "a pequena diferença" anatômica que inscreve os recém-nascidos num ou noutro sexo, que faz com que sejam classificados como homem ou mulher. A indiferenciação é um drama. Michel Foucault publicou em 1978 as recordações de Herculine Barbin dite Alexia B., único título de uma coleção que ele havia lançado, intitulada "Les vies parallèles". Conta o drama de um hermafrodita, considerado mulher, que se sentia um homem, obteve o reconhecimento de que o era, mas acabou por se suicidar por causa da dificuldade em viver tal situação. A transexualidade é hoje reconhecida, sem que, no entanto, seja mais fácil conviver com ela.

Na maior parte das vezes, as pessoas se inscrevem na dualidade, no arranjo entre os sexos, para retomar a expressão de Erving Goffman, através do qual a sociedade organiza a diferença. Os trabalhos pioneiros vêm dos antropólogos: como Margaret Mead (1935), que inspirou Simone de Beauvoir, no Le Deuxième sexe (1949). "Não nascemos mulher. Tornamo-nos mulher": a fórmula famosa rompe com o naturalismo e convida à desconstrução das definições tradicionais. As relações do sexo (biológico) e do gênero (social, cultural) são o cerne da reflexão feminista contemporânea, que hesita a respeito desse recorte: o sexo é a determinação primeira? Ele não pertenceria ao gênero, num corpo cuja historicidade seria prioritária?

[...]

[...] De Aristóteles a Freud, o sexo feminino é visto como uma carência, um defeito, uma fraqueza da natureza. Para Aristóteles, a mulher é um homem mal-acabado, um ser incompleto, uma forma malcozida. Freud faz da "inveja do pênis" o núcleo obsedante da sexualidade feminina. A mulher é um ser em concavidade, esburacado, marcado para a possessão, para a passividade. Por sua anatomia. Mas também por sua biologia. Seus humores - a água, o sangue (o sangue impuro), o leite - não têm o mesmo poder criador que o esperma, elas são apenas nutrizes. Na geração, a mulher não é mais que um receptáculo, um vaso do qual se pode apenas esperar que seja calmo e quente. Só se descobrirá o mecanismo da ovulação no século XVIII e é somente em meados do século XIX que se reconhecerá sua importância. Inferior, a mulher o é, de início, por causa de seu seco, de sua genitália.

A importância atribuída ao sexo não é a mesma ao longo das épocas. Algumas a minimizam. Assim ocorre na Idade Média, quando se considera que os sexos são variedades de um mesmo gênero. O Renascimento [...] distingue o "alto" e o "baixo" do corpo, exalta o alto, nobre sede da beleza, e deprecia o "baixo", animal.

O século XVIII, das ciências naturais e médicas, descobre a parte de "baixo", como a do prazer e da vida. Ele "inventa" a sexualidade, com uma insaciável "vontade de saber" o sexo, fundamento da identidade e da história dos seres. Sexualiza os indivíduos, em especial as mulheres, como mostrou, seguindo a linha de Foucault, Thomas Laqueur. A mulher é identificada com o seu sexo, que a absorve e a impregna completamente. "Não há nenhuma paridade entre os dois sexos quanto à consequência do sexo, escreve Rousseau (Émile). O macho é macho apenas em certos momentos, a fêmea é mulher ao longo de sua vida ou, pelo menos, ao longo de toda a sua juventude; tudo a liga constantemente a seu sexo, e, para o bom cumprimento de suas funções, é-lhe necessário ter uma constituição que o propicie": cuidados, repouso, "vida suave e sedentária". Ela precisa da proteção da família, da sombra da casa, da paz do lar. A mulher se confunde com seu sexo e se reduz a ele, que marca sua função na família e seu lugar na sociedade.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 62-4.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Hipátia

Hipátia, Alfred Seifert


- Vai com qualquer um - diziam, querendo sujar sua liberdade.

- Nem parece mulher - diziam, querendo elogiar sua inteligência.

Mas numerosos professores, magistrados, filósofos e políticos acudiam de longe até a Escola de Alexandria, para escutar sua palavra.

Hipátia estudava os enigmas que tinham desafiado Euclides e Arquimedes e falava contra a fé cega, indigna do amor divino e do amor humano. Ela ensinava a duvidar e a perguntar. E aconselhava:

- Defende o teu direito de pensar. Pensar errado é melhor que não pensar.

O que fazia essa mulher herege ditando cátedra numa cidade de machos cristãos?

Era chamada de bruxa e feiticeira e a ameaçavam de morte.

E num meio-dia de março do ano de 415, a multidão se atirou em cima dela. E foi arrancada de sua carruagem e despida e arrastada pelas ruas e golpeada e apunhalada. E na praça pública a fogueira levou tudo o que restava dela.

- Haverá uma investigação rigorosa - prometeu o prefeito de Alexandria.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 69.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Bayle, um historiador imparcial

Retrato do escritor e filósofo francês Pierre Bayle, Louis Ferdinand Elle, o Jovem

Todos os que conhecem as leis da História estarão de acordo em que um historiador, se quiser cumprir fielmente as suas funções, deve despojar-se do espírito de adulação e do espírito de maledicência e colocar-se o mais possível na posição de um estóico, a quem nenhuma paixão agita. Insensível a todo o resto, só deve estar atento para os interesses da verdade, sacrificando a essa o ressentimento de uma injúria, a lembrança de um benefício e até mesmo o amor à pátria. Deve esquecer que está num certo país, que foi instruído numa certa comunhão, que é devedor de gratidão a este ou àquele, que tais e tais são seus progenitores ou seus amigos. Um historiador, no exercício de sua função, é como Melquisedeque, sem pai, sem mãe e sem genealogia. Se lhe perguntarem donde veio, deverá responder: não sou francês, nem inglês ou espanhol; sou habitante do mundo, não estou a serviço do imperador, nem do rei da França, mas somente a serviço da verdade; essa é a minha única rainha, só a ela prestei juramento de obediência.

BAYLE, Pierre. "Projeto de um dicionário crítico". In: CASSIRER, Ernest. A filosofia do Iluminismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1992. p. 281.

sábado, 15 de agosto de 2015

A Idade da Razão: a Ilustração ou Era das Luzes

O Renascimento trouxera a afirmação do homem, do seu espírito de iniciativa, de suas possibilidades intelectuais. No século XVII começou a ganhar força a ideia de que o homem poderia chegar à verdade e a dominar a natureza através da razão e da experiência. Razão e experiência passaram a ser aplicadas sistematicamente pelos estudiosos nos vários campos do saber humano.

Os primeiros estudiosos que investigaram e analisaram fenômenos naturais à luz da razão e buscaram definir um método científico ressaltando o valor da experiência, foram os filósofos Francis Bacon e René Descartes.

Coube aos cientistas aplicar esse método experimental dando origem à ciência moderna. O iniciador da pesquisa sistemática, baseada na formulação de uma hipótese cuja validade as experiências comprovam, foi Galileu. Segundo o mesmo método científico, Newton pôde estruturar a teoria correspondente às experiências realizadas em um período de 150 anos pelos físicos e astrônomos Copernico, Kepler e Galileu.

Neste século e no século seguinte sucederam-se importantes inovações e descobertas científicas que provaram ser o universo um eficiente mecanismo operando segundo leis exatas da natureza.

De acordo com este princípio, vários pensadores do século XVIII acreditaram ser também possível encontrar leis naturais aplicáveis ao homem e à sociedade. O movimento intelectual daí resultante chamou-se Ilustração ou Iluminismo, movimento de ideias inovadoras, propondo-se resolver, pela razão, problemas sociais, políticos, econômicos, culturais, sonhando-se com um mundo perfeito onde haveria paz, justiça e colaboração entre todos os homens.

Uma das figuras mais importantes do século XVIII foi o filósofo inglês John Locke que formulou a teoria dos direitos naturais do homem: vida, liberdade, propriedade, direitos que o governo escolhido pelo povo tinha o dever de assegurar-lhe. Se não o fizesse, o povo tinha o dever de escolher outro governo. As ideias de Locke, largamente difundidas e estudadas, desempenharam papel preponderante na revolução pela independência das treze colônias inglesas na América.

Os homens sendo, como tem sido dito, todos por Natureza livres, iguais e independentes, ninguém pode ser alijado deste Estado e submetido ao Poder Político de outrem, sem seu próprio consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa renuncia à Liberdade Natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela. Qualquer número de homens pode fazê-lo, porque não prejudica a liberdade dos demais; ficam como estavam na liberdade do estado de natureza. Quando qualquer número de homens consentiu desse modo em constituir uma comunidade ou governo, ficam, de fato, a ela incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos. (John Locke, Segundo tratado sobre o governo, cap. VIII)

Leitura no salão de madame Geoffrin, Anicet-Charles-Gabriel Lemonnier 

Mais um passo na conquista das liberdades individuais foi dado por Voltaire (François-Marie Arouet), filósofo e escritor francês que lutou contra toda limitação à liberdade de pensamento, reconhecendo a todos o direito de manifestar suas ideias: "Não concordo com nenhuma de tuas palavras, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las."

Denis Diderot, Louis-Michel van Loo

A ideia de que a cultura devia ser acessível a todos e não privilégio de poucos, conduziu alguns "filósofos" franceses (Diderot, D'Alembert), com a colaboração de outros escritores, a compilar uma obra em 35 volumes, a Enciclopédia, síntese do conhecimento humano. A Enciclopédia, circulando em toda a Europa, teve grande importância na difusão das novas ideias.

Enciclopédia ou Dicionário sistemático das Ciências, Artes e Ofícios, editado por Diderot e D'Alembert, ca. 1751-72. 

Tolerância: O homem, tão grande por sua inteligência, é ao mesmo tempo tão limitado por seus erros e suas paixões que dificilmente nele saberíamos inspirar a ter, para com os demais, essa tolerância, esse esteio de que ele próprio tanto necessita, e sem o qual somente teríamos sobre a terra lutas e dissensões. (Encyclopédie, verbete "Tolerância")

Os ideais dos ilustrados refletiram-se ainda no setor da política. Reconhecendo a crescente importância da burguesia na sociedade, reconheceram-lhe também o direito a uma participação efetiva na vida pública e administrativa de um país. Empenhados em cercear a exagerada influência dos nobres junto à monarquia, destacaram-se as obras de dois escritores franceses, Montesquieu e Rousseau.

Montesquieu, em seu livro O espírito das leis, bateu-se pela abolição de antigos privilégios da aristocracia e sublinhou a necessidade de o rei reconhecer, através de um documento oficial - a Constituição - o direito de os cidadãos participarem do governo por intermédio de representantes.

Rousseau, em seu livro O contrato social, negando que o poder do rei proviesse de Deus, afirmou que esse poder devia ser outorgado ao monarca pelo povo, a fim de representá-lo na direção do governo.

Evidentemente os ideais da Ilustração estenderam-se também à economia, setor no qual o dinamismo da classe burguesa esbarrava contra as tendências conservadoras, estáticas, da classe nobre. Teve grande repercussão a teoria do economista inglês Adam Smith, preconizando a necessidade de a economia poder desenvolver-se livremente sem quaisquer restrições ou controle da parte do Estado. Nasceu assim o liberalismo econômico vindo a favorecer a livre iniciativa de banqueiros, comerciantes e industriais.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 200-1.

domingo, 9 de agosto de 2015

O paganismo no Baixo Império Romano

Io (à esquerda, com chifres) e Ìsis (sentada, segurando uma serpente). Afresco romano no templo de Ísis, Pompéia. Artistas desconhecidos

* Cultos orientais e sincretismo. No que concerne ao paganismo, a influência do Oriente manifestou-se de maneira intensíssima desde o Alto Império [...]. Coube-lhes afirmarem-se no século III e com força ainda maior.

Foi esta a época, efetivamente, em que os cultos de divindades orientais conheceram maior êxito. Para nos limitar aos principais, os de Ísis, de Cibele e, principalmente, de Mitra atingiram o apogeu de sua difusão, facilitada doravante, não mais apenas pela tolerância, mas pela adesão pessoal dos imperadores. Em 197, Sétimo Severo celebrou em Lião, por um grande taurobólio, sua vitória sobre Clódio Albino. Em Roma, seu filho Caracala construiu um Serapeum e mandou adaptar um santuário de Mitra nos subterrâneos de suas grandes termas. O epíteto de Mitra, invictus (invicto), passou à lista de títulos imperiais, e uma inscrição oficial do tempo de Diocleciano mostra-nos que este deus se transformou então no patrono do Império.

Foi esta também a época em que com maior força se afirmou, contanto com o apoio do poder, a tendência ao sincretismo. Heliogábalo deu-lhe uma forma exagerada e ridícula pela pomposa celebração das núpcias do Baal de Emesa, de que era o sumo-sacerdote e cujo nome trazia, com Celestis, isto é, Tanit, vinda de Cartago por sua iniciativa. Da mesma forma, foi para o santuário por ele edificado ao seu deus que mandou transportar o fogo de Vesta, os escudos sagrados de Marte, a pedra negra da Grande Mãe, isto é, Cibele, originária de Pessinunte e introduzida em Roma pelo Senado no fim da segunda guerra púnica, etc. Mas, pondo-se de parte as extravagâncias, havia maior sensibilidade em relação ao que aproximava as divindades do que ao que as separava. Talvez se experimentasse também o desejo instintivo de levantar, frente ao Deus dos cristãos, um deus único, concentrando em si todas as energias cósmicas. Na ideia que dele se fazia, este ou aquele deus particular predominava: o Sol, fosse como Apolo, fosse diretamente sob o nome grego de Hélio ou  nome latino de Sol, Júpiter, Serápis, Mitra. Em todo caso, os atributos da luz, da dominação sobre todo o universo (cosmocrator), da invencibilidade, passavam indistintamente de um a outro, ao mesmo tempo que se ligavam ao próprio Imperador, transformado, assim, na encarnação terrestre dessa divindade toda-poderosa.

* O neoplatonismo de Plotino. Desde muito tempo [...] o movimento filosófico ajustava-se também a este movimento religioso e produziu, no século III, o que constitui a última grande criação do gênio grego no domínio em que se mostrava tão fecundo: o neoplatonismo que, esboçado em Alexandria por Amônio Sacas no começo do século III, foi completamente elaborado e ensinado em Roma, entre 244 e 270 aproximadamente, por um grego do Egito, Plotino. Encontramos aí as mesmas tendências da época, tanto o fervor exaltado e o apelo à sensibilidade, como a associação com fundo platônico de elementos provindos de doutrinas bastante diversas, em especial o pitagorismo, o aristotelismo e o estoicismo.

Plotino convidava o pensamento a conceber, por um ousadíssimo esforço de abstração, uma Unidade absoluta da qual procede, como por uma série de reflexos cada vez mais degredados, tudo o que existe, razão, alma, corpo. A realidade aparente interessava-lhe apenas pela ordem nela introduzida pelo Ser primeiro, em que se fundem e harmonizam todas as coisas. Um impulso interior impelia-o, pois, para a unidade divina. Mas seu monismo era também um panteísmo e acomodava-se mesmo com o politeísmo, pois todos os deuses são emanações do Ser; ademais, entre o mundo divino, ao qual pertencem os astros, e o mundo terrestre, existe uma multidão de demônios que o homem não pode negligenciar.

Na realidade, o sistema levava a recomendar um esforço de renúncia ascética da alma frente às realidades sensíveis. Se este malograsse, a alma imortal encarnar-se-ia em animais e até em categorias mais inferiores, isto é, em plantas. Se tivesse êxito, viveria à luz dos astros, chegando, finalmente, a absorver-se na fusão em Deus. Mas o êxito dependia do êxtase místico que, proporcionando a iluminação sobrenatural, a visão e a certeza da felicidade suprema, constituía a única possibilidade de estabelecer contato com esta. Assim sendo, o neoplatonismo desviava o espírito do raciocínio; este era empregado apenas para provar sua própria ineficácia.

* A teurgia. Plotino recusava-se a admitir uma religião que não fosse completamente interior. Mas, com a demonologia e a abdicação do racional, o neoplatonismo podia conduzir, e conduzia, longe. [...] Época alguma, pelo menos no mundo greco-romano, acreditou com tanta intensidade na ação imediata e quotidiana de forças superiores sobre o homem, por conseguinte, na adivinhação, na astrologia, magia e feitiçaria.

[...]

[...] Adotou-se o hábito de falar em teurgia, dada a insuficiência revelada pelo vocábulo teologia, pois, em lugar de se cingir a conhecer os deuses, a ambição agora era de agir juntamente com eles, por eles e como eles. Então, começaram a prosperar os mistagogos donos de lojas onde artificiosas e fantasmagóricas montagens cênicas, com música e ruídos insólitos, perfumes, vapores, sombras movediças, estátuas animadas, jogos de luz, impressionavam a imaginação dos neófitos. [...] Em Éfeso, Máximo, em meados do século IV, encarregava-se da iniciação nos mistérios de Hécate; o futuro Imperador Juliano, quando apostatou, mostrou-se sensível a estes mistérios, assim como às interpretações que lhe foram dadas acerca dos ritos e símbolos respectivos. [...]

Juliano praticou também o culto de Mitra; sofreu a aspersão de sangue num taurabólio; inicio-se nos mistérios de Ísis. O paganismo, pelo qual abandonou o Cristianismo, portanto, quase nada tinha [...] em comum com o dos grandes séculos clássicos, cujo patrocínio ele reivindicava. O seu era construído de efusões sentimentais perante o grande mistério da natureza, de inquietações sobre a salvação da alma, de impulsos em direção às beatitudes da imortalidade celeste. [...] Ora, o paganismo de Juliano era o de seu tempo; os campeões das virtudes racionais, os epicuristas, por exemplo, tornavam-se cada vez mais raros e eram considerados ateus.

* Helenismo e paganismo. Entretanto, mesmo cedendo a estas aspirações e recorrendo ao ocultismo, Juliano e os pagãos cultos ambicionavam defender o helenismo. Já na língua dos Evangelhos, heleno opunha-se a judeu: tratava-se , então, menos de politeísmo e monoteísmo do que de ignorância ou observação da Lei de Moisés. [...]

[...] O que os pagãos pretendiam afirmar era sua fidelidade à totalidade de um legado no qual os cristãos eram obrigados a escolher, separando a forma, que podiam admirar, do fundo, que teriam de abandonar. Isso porque a mitologia politeísta empregava as obras-primas literárias artísticas, honra do helenismo que, nascido na Grécia, fora adotado em Roma. [...]

E foi assim, de fato, que o pensamento pagão sobreviveu à morte de Juliano e, depois ao malogro da última tentativa política em torno do usurpador Eugênio. Por meio de interdição e perseguição - houve execuções capitais na época de Valente, uma das quais, pelo menos, na fogueira -, o governo imperial encarregou-se de desembaraçá-lo de suas turvas excrescências. Enquanto no Ocidente os últimos pagãos cultos promoviam ainda a filologia, no Oriente invocavam em seu favor o glorioso passado científico e filosófico da Grécia, principalmente Platão e, acessoriamente, Aristóteles. O neoplatonismo prosseguiu, abertamente, seu ensinamento nas duas escolas ainda acreditadas, em Alexandria e em Atenas. A primeira, continuadora do Museu dos Ptolomeus, parece que se afastou muito rapidamente dos desvios de Jâmblico e manteve o gosto pelas ciências, ao menos a Matemática. No início do século V, a bela e virtuosa Hipácia, filha do matemático Teon e autora de tratados matemáticos, servia de ilustração a esta afirmativa. Sinésio, que, embora se tornasse bispo, não deixou de se considerar filósofo, fora de seu discípulo. Mas sua fama irritava o chefe do cristianismo egípcio, o imperioso bispo Cirilo. Em 415, após os tumultos em que os pagãos não tiveram qualquer papel, alguns energúmenos atacaram-na em plena rua com tijolos, retalharam e queimaram seu cadáver. A escola de Alexandria não sobreviveu a este atentado. Quanto à de Atenas, viveu praticamente durante muito tempo ainda, limitando-se a comentar sem originalidade o pensamento dos grandes mestres; em 529, Justiniano ordenou seu fechamento, indo os derradeiros mestres buscar refúgio junto aos sassânidas.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu Império. As civilizações da Unidade Romana. A Ásia Oriental do início da Era Cristã ao fim do século II. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 64-9. (História geral das civilizações, v. 5)

domingo, 7 de dezembro de 2014

As perseguidas: as mulheres nos romances filosóficos no século XVIII

A refeição da tarde, François Boucher. As mulheres são retratadas como mães e figuras sacralizadas no ambiente familiar. Matrimônio e maternidade exigiam postura mais equilibrada das mulheres

Romance epistolar, com narrativa desenvolvida a partir de cartas trocadas entre os personagens, A Nova Heloísa marcou outro momento dos "romances filosóficos", com novas opiniões sobre o feminino. Nele, as mulheres não foram descritas apenas pelo ângulo das "paixões". O "belo sexo" passava a ser relacionado também a uma ideia de virtude, que estava estreitamente ligada a três pilares: à virgindade na juventude - afinal, "o amor nas moças é indecente e escandaloso e apenas um esposo autorizaria um amante" -, ao matrimônio e à maternidade. Segundo Rousseau, quando adulta, a mulher deveria saber qual é o seu lugar. A "mulher virtuosa" seria a esposa casta e submissa e a mãe que prepara os filhos para serem educados pelos homens: "Mas há um longo caminho dos seis anos aos 20; meu filho não será sempre criança e, à medida que sua razão comece a nascer, a intenção de seu pai é de realmente a deixar exercer. Quanto a mim, minha missão não vai até lá. Alimento crianças e não tenho a presunção de querer formar homens. Espero, disse olhando seu marido, que mãos mais dignas venham a se encarregar desse trabalho. Sou mulher e mãe, sei manter-me em meu lugar. Ainda uma vez, a função de que estou encarregada não é a de educar meus filhos, mas de prepará-los para serem educados".

Essas opiniões novamente se refletiram na caracterização das próprias personagens. Se nos romances anteriores à obra de Rousseau as heroínas não foram pensadas para viver a maternidade e o matrimônio, e sim para deixarem transparecer "os efeitos das paixões", na Nova Heloísa a situação se inverte. Neste romance, as personagens estão envolvidas com suas futuras obrigações de mãe e esposa durante quase toda a narrativa.

De Montesquieu a Rousseau, os "romances filosóficos" estiveram longe de propagandear uma emancipação feminina. Suas personagens bem demonstraram isso. Apaixonadas ou virtuosas, as mulheres foram sempre vistas nas obras como seres inferiores aos homens, tanto em sua capacidade psicológica quanto nos seus direitos perante a sociedade. A situação era bem difícil: se ousassem expor seus sentimentos, seriam encaradas como escravas de suas paixões. Se optassem  por não abraçar a maternidade e o matrimônio, estariam se afastando da virtude. Mas, apesar de tanta resistência, as mulheres, mesmo vivendo em tal contexto, conquistaram importantes avanços. E continuam conquistando. Apaixonados e virtuosas.

Renato Sena Marques. As perseguidas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7 / Nº 79 / Abril 2012. p. 48-51.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento

A arqueologia é uma disciplina que não pode ser desvencilhada de muitas outras com as quais está relacionada. O estudo da cultura material, de todo o imenso arsenal de artefatos que fazem parte do cotidiano do ser humano depende, em muitos casos, da interação da arqueologia com outras áreas.


Escavação em Pompeia, Lello Capaldo

A sua relação com a história é particularmente importante, quando mais não fosse porque, para alguns arqueólogos, a sua disciplina nada mais seria do que uma complementação da história [...]. Além disso, na tradição europeia, da qual somos também tributários, a arqueologia surgiu no seio da história. Assim, qualquer que seja o ponto de vista, a relação com a história constitui aspecto central da disciplina [...].

A cultura material estudada pelo arqueólogo insere-se, sempre, em um contexto histórico muito preciso e, portanto, o conhecimento da história constitui aspecto inelutável da pesquisa arqueológica. Assim, só se pode compreender a cerâmica grega se conhecermos a história da sociedade grega, as diferenças entre as cidades antigas, as transformações por que passaram. A história, contudo, não é tampouco uma descrição do passado tal qual aconteceu, é uma interpretação e, por isso, tanto mais será importante conhecer as controvérsias historiográficas sobre o período histórico tratado.

Não se trata, assim, de usar a história como fonte segura de informações, mas de conhecer as discussões dos historiadores e relacionar tais questões à cultura material estudada. As ciências não são apenas auxiliares umas das outras, elas mantém relações entre si. Os dados materiais, analisados pela arqueologia, podem tanto confirmar, como complementar e mesmo contradizer as informações das fontes históricas. Esses dois últimos aspectos são os mais importantes, pois permitem ao arqueólogo ir além daquilo que está nas fontes escritas.

[...]

No século XIX, quando surgiu a antropologia, o contato das potências imperialistas, como Inglaterra, França e Estados Unidos, com povos periféricos, a exemplo dos africanos, asiáticos e latino-americanos, fez com que essa disciplina se desenvolvesse, como uma maneira de conhecer de que modo viviam os chamados "primitivos". Nos Estados Unidos, a oposição entre "nós" (os americanos) e "eles" (os primitivos) dividiu as disciplinas história e antropologia, que se constitui de quatro áreas: etnologia, lingüística, antropologia física e arqueologia.

Todas essas disciplinas ligavam-se ao estudo dos indígenas, vivos ou mortos. Para o conhecimento dos índios mortos, por meio dos vestígios materiais, desenvolveu-se a arqueologia. Com o decorrer do tempo, contudo, a antropologia passou a tratar do conhecimento dos ritos, costumes e características de quaisquer sociedades, em qualquer época, inclusive as nossas contemporâneas. Se a história se preocupa com a transformação e a mudança, a antropologia procura explicar a transmissão de valores culturais, de normas de conduta.

[...]

Mas não é apenas no estudo dos artefatos que a antropologia é importante. A antropologia pode fornecer modelos de funcionamento da sociedade que permitem ao arqueólogo melhor entender o que ele estuda. [...]

[...] a antropologia física pode ser decisiva para o trabalho arqueológico. Para tanto, é necessária a preservação de vestígios esqueletais, algo que nem sempre é fácil, já que solos ácidos consomem os ossos em poucos anos. Quando preservados, sua análise permite que possamos estudar uma infinidade de aspectos da vida daqueles seres humanos. Assim, podemos saber quais as idades aproximadas em que as pessoas morriam e suas condições físicas no final da vida. Com isso, depreendemos que, em muitas sociedades antigas, a maioria das pessoas morria relativamente jovem.

Podemos, ainda, identificar algumas das doenças que afligiam populações antigas, assim como, pelo desgaste dos dentes, sabemos o que comiam ou mesmo se usavam os dentes para trabalhos de cestaria, como era o caso de tribos indígenas brasileiras. Em Herculano, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., encontraram-se corpos que mostram até mesmo as deficiências alimentares e os maus tratos sofridos pelos escravos romanos.

Mais recentemente, arqueólogos em colaboração com antropólogos físicos, escavaram e identificaram corpos de pessoas assassinadas pelas ditaduras latino-americanas, os chamados "desparecidos". Na medida em que não há registros das pessoas assassinadas pelas ditaduras, a identificação dos mortos assim como da maneira como morreram pode ser muito importante para os familiares das vítimas e para a sociedade como um todo.

[...]

Da antropologia física, passemos à biologia, seja em termos de teorias, seja das técnicas. O evolucionismo, surgido com as teorias de Charles Darwin para explicar as transformações da vida, tem sido aplicado ao estudo arqueológico, em especial o estudo das mudanças nas espécies de primatas e às plantas e animais ligados ao homem. [...]

O estudo do DNA dos animais e das plantas tem sido também muito difundido, trazendo relevantes informações para os arqueólogos. [...] O estudo genético dos indígenas americanos tem indicado, por sua parte, que todos têm origem asiática e que a sua migração nas Américas deu-se do Alaska para o sul.

Já a geografia, tanto física como humana, relaciona-se de maneira estreita com a arqueologia, pois os homens sempre viveram em interação com o meio ambiente. O conhecimento das condições fisiográficas e climáticas, em determinado momento do passado, é importante para se entender, por exemplo, o surgimento da civilização egípcia. [...]

[...]

As diversas histórias da arte e da arquitetura também são áreas importantes para o estudo arqueológico das sociedades históricas, nas quais os estilos artísticos e arquitetônicos marcam as diversas civilizações desde, ao menos, cinco mil anos. Todos vivemos tanto no espaço externo, geográfico, como no espaço construído dos edifícios. A arqueologia da arquitetura tem mostrado como as plantas dos edifícios podem nos dizer muito sobre a maneira como as pessoas viviam, fundamentado no princípio da facilidade ou dificuldade de acesso ao interior e aos aposentos.

[...]

O controle e a vigilância da sociedade capitalista foi incorporado na arquitetura, a partir de fins do século XVIII, tema que foi abordado por estudiosos de outra área do conhecimento: a filosofia. [...] Segundo Foulcaut, a sociedade, a partir do século XIX, tornou-se cada vez mais controladora e vigilante do comportamento das pessoas, o que afetou inclusive a cultura material e não apenas os edifícios [...].

[...]

O marxismo, por sua vez, é tão variado que se poderia citar uma pletora de influências na arqueologia, com destaque para o papel chave da filosofia marxista tal como entendida por Vere Gordon Childe, já no início do século XX, e para os marxismos da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica [...].

[...]

Segundo alguns estudiosos marxistas, a arqueologia voltada para o divertimento, à la Indiana Jones, seria mero entretenimento. Seria como se a arqueologia servisse apenas para as pessoas sonharem com as antigas civilizações, "viajarem" como o fazem ao folhear as belas imagens da revista National Geographic. [...]

A arqueologia liga-se a outra ciência humana: a lingüística. Em termos históricos, tanto a arqueologia europeia como americana surgiram no bojo do estudo das línguas. A filologia histórica europeia estabeleceu a existência de troncos lingüísticos e, por analogia, procurou-se identificar, na cultura material, tais transformações e origens. [...]

[...]

A arqueologia não pode ser pensada, ainda, sem a referência à museologia, aos estudos de gestão do patrimônio, ao seu aspecto público. [...]

[...]

A arqueologia cada vez mais deve voltar-se para as disciplinas que refletem sobre o destino da cultura material que ela estuda e o caminho que se tem proposto é a colaboração da população em geral de maneira que esta possa ajudar a definir os usos desse material e mesmo sua interpretação. Também mostra-se relevante a tendência de interação dos arqueólogos com grupos de interesse, como os movimentos de mulheres ou de minorias étnicas (como os indígenas, os afro-descendentes etc.), sempre objetivando uma arqueologia que não seja excludente, mas que propicie a participação das pessoas no acesso ao conhecimento.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 85-98.

NOTA: O texto "A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundos imaginados: utopias e distopias

Procurando na história mundial os mundos imaginados, encontraremos as previsões de sociedades ideais tão antigas quanto as primeiras expressões do pensamento humano em tradições escritas e orais e nas artes. Os desenhos mitológicos das origens dos mundos natural e humano eram explicações, provenientes da experiência do mundo e da imaginação. Incorporadas nesses mitos estavam ideias de família e vida comunitária: como as pessoas deveriam viver juntas, compartilhar recursos e escolher líderes entre si. A religião inspirou a imaginação de mundos além do reino da experiência humana, e esses mundos incorporaram a completa realização do que significava ser humano, bem como as mais terríveis provações que um ser humano podia sofrer. Seja no budismo, no cristianismo ou no islamismo, a percepção de um paraíso e de um inferno encorajou as pessoas a acreditar e praticar suas crenças como indivíduos e como membros de uma comunidade.


A idade de ouro, Lucas Cranach

Visões religiosas também inspiraram movimentos milenares que projetaram esperança em uma nova era – a chegada do milênio que conduziria a um novo mundo – e exortava os seguidores a agir para chamar a nova era. Os movimentos milenares são encontrados ao redor do mundo em muitos contextos religiosos diferentes, incluindo budistas e cristãos, assim como em numerosas tradições sincréticas. Eles surgem das diferentes condições históricas e frequentemente tornam-se violentos, como resposta à opressão social, política e econômica. Houve movimentos milenares cristãos na Europa medieval e alguns movimentos budistas na China medieval. A grande Rebelião de Taiping, na metade do século XIX, na China – resultou na morte de, talvez, 20 milhões de pessoas – aglutinou-se sob a liderança de Hong Xiuquan (1811-1854), que teve uma visão de que ele seria o irmão mais novo de Jesus Cristo, enviado por seu pai para trazer o povo chinês de volta à sua crença original em Deus e para criar um “Reino Divino da Grande Paz (Taiping)”. Índios Arawakan, do noroeste da Amazônia, seguiram um xamã indígena e líder milenar, Venancio Kamiko, durante os anos de 1850, para resistir contra o controle colonial sobre seu mundo. No Congo, um movimento milenar originou-se com as reivindicações de uma jovem garota congolesa de que ela seria Santo Antônio, na primeira década do século XVIII. Beatriz Kimpa Vita anunciou que ela veio para ensinar a verdadeira religião: os padres eram impostores, Deus e seus anjos eram negros, e o reino dos céus era próximo da pátria congolesa, onde Cristo realmente havia vivido e morrido. Sugerir uma alternativa tão radical em meio ao confronto de culturas era algo perigoso, e o fundador do movimento foi executado. Contudo, o movimento sobreviveu e tornou-se a primeira Igreja sionista africana; o nome “Sião” refere-se à cidade bíblica que era um símbolo de esperança.

Juntos, visionários religiosos, filósofos, artistas, historiadores e escritores de todo o mundo produziram visões seculares de sociedades perfeitas. Em sua obra República, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreveu o Estado ideal como uma nação governada por um rei-filósofo. O mundo material dos fenômenos, acreditava Platão, é um mundo de sombras vagamente refletidas a partir do mundo real das ideias. É esse mundo das ideias que os reis-filósofos compreendiam e no qual estavam qualificados para governar. Além do mundo das coisas e das experiências, compreendido pelos sentidos, há outro, um mundo fundamental das formas e tipos eternos. Para tudo que experimentamos por meio dos sentidos há uma essência dessa realidade imutável, independente dos “acidentes” materiais que as cercam. Os “acidentes” da vida cotidiana são transcendidos por essências e formas eternas, as quais são objetivos de conhecimento. O rei-filósofo é, por educação, senão por desejo, capaz de guiar o Estado para sair desse caos e das ilusões do mundo externo dos fenômenos sentidos para a ordem e os modelos eternos.

O filósofo chinês Confúcio, no sexto século a.C., ensinou que a sociedade ideal existiu no passado, sob o governo dos reis sábios da antiguidade. A noção do Mandato Divino, que se desenvolveu como a sansão para governar na China imperial, significava que a responsabilidade do governante era de manter a ordem do Paraíso na sociedade humana; se e quando um governante falhasse, então o Mandato era declinado para um novo imperador. O essencial para a harmonia da sociedade, para Confúcio e seus seguidores, era a realização adequada do ritual e das práticas cerimoniais elaboradas em uma compilação de textos do final do primeiro século a.C. e do século I d.C. Nesse texto, o Livro dos Ritos, a sociedade sob os reis sábios da antiguidade é retratada como uma era de “Grande Harmonia”, na qual todos tinham suas próprias tarefas e seu lugar, todos eram cuidados de acordo com suas necessidades. Esse ideal foi ressuscitado, no final do século XIX, pelo reformador chinês Kang Youwei (1858-1927), que promoveu a sociedade ideal da Grande Harmonia como algo central ao pensamento confucionista. Ele argumentou que Confúcio teria dado apoio às reformas modernas de Kang, defendendo que eles teriam vivido na mesma época.

O termo “utopia”, usado para descrever uma sociedade ideal, foi cunhado, a partir do grego, por Sir Thomas Morus, ao escrever sobre um mundo imaginário em uma ilha, Utopia (1516), onde a propriedade privada não existia e a tolerância religiosa reinava. Como muitas utopias, essa foi inspirada pelas observações do escritor sobre seu mundo contemporâneo, mas também por relatórios do “Novo Mundo”. Escrito quase um século depois da Utopia de Morus, a peça de William Shakespeare, A tempestade (1611), ocorreu em uma ilha, referida como o “bravo novo mundo”, onde “não havia necessidade de trabalho, de ricos ou de pobreza”. Para os europeus, esse Novo Mundo era um espaço virgem, um paraíso preenchido pela promessa da possibilidade humana; para os povos indígenas do Novo Mundo, a presença europeia trouxe a morte e a destruição.


Mapa: ilha de Utopia

Fazendo par com o conceito de utopia está o de distopia, o mundo imaginado oposto, de total privação e miséria. Durante muito tempo sob o domínio de escritores de ficção científica, uma das mais conhecidas distopias é a de George Orwell, em sua obra 1984 (1949), na qual o personagem principal é gradualmente privado de sua humanidade individual para ser absorvido pelo “grande irmão (Big Brother)” do Estado totalitário do século XX. O romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo (1932), retirou seu nome da frase utilizada por Shakespeare em A tempestade, e retratou um mundo onde todas as necessidades humanas são satisfeitas e não há guerra ou pobreza, mas também não há religião, filosofia, família ou diferença cultural para enriquecer a vida humana. Drogados em soma, as pessoas da obra de Huxley escapam de qualquer coisa desagradável, incluindo emoções e memórias dolorosas. Conforme o romance de Huxley Admirável mundo novo vai sendo esclarecido por meio da retração de um mundo utópico que, na verdade, é distópico, visões de sociedades ideais – libertação do desejo, da fome e do medo – nem sempre produzem resultados desejáveis. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis os mundos descritos por Orwell e Huxley foram um produto da Revolução Industrial, que gerou suas próprias visões paralelas de utopia e distopia.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 340-342.

NOTA: O texto "Mundos imaginados: utopias e distopias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Conservadorismo: o valor das tradições

Para os governantes tradicionais da Europa – reis, aristocratas, clérigos -, a Revolução Francesa foi um grande mal que abriu um ferimento quase fatal na civilização. Indignados e aterrorizados com a violência revolucionária, o terror e as guerras, os governantes tradicionais buscaram refutar a visão de mundo dos philosophes, que dera origem à Revolução. Para eles, os direitos naturais, a igualdade, a bondade do homem e o progresso permanente eram doutrinas perversas que haviam produzido os “assassinos” jacobinos. Encontraram, no conservadorismo, uma filosofia política capaz de combater a ideologia iluminista.


O Congresso se diverte, charge de Forceval, 1814. Enquanto os imperadores da Áustria e da Rússia e o rei da Prússia dançam de mãos dadas, o rei da Suécia segura firmemente sua coroa.

A obra de Edmund Burke, Reflexões sobre a revolução na França (1790), contribuiu para a formação do pensamento conservador. Burke (1729-1797), estadista e teórico político britânico, quis advertir seus conterrâneos dos perigos inerentes à ideologia dos revolucionários. Embora escrevendo em 1790, Burke vaticinou astuciosamente que a Revolução levaria ao terror e à ditadura militar. Para ele, fanáticos armados com princípios perniciosos – ideias abstratas divorciadas da experiência histórica – haviam arrastado a França ao atoleiro da Revolução. Burke desenvolveu uma filosofia política coerente que serviu de contrapeso à ideologia do Iluminismo e da Revolução.

- Hostilidade à Revolução Francesa. Os filósofos iluministas e os reformadores franceses, fascinados pelas descobertas na ciência, haviam acreditado que a mente humana podia também transformar as instituições sociais e as tradições antigas de acordo com modelos racionais. O progresso através da razão tornou-se sua fé. Dedicados a construir um novo futuro, os revolucionários romperam abruptamente com os velhos costumes, a autoridade tradicional e os modos familiares de pensamento.

Para os conservadores, que, como os românticos, veneraram o passado, essa era a arrogância e o mal supremos. Consideravam os revolucionários como homens presunçosos que irrefletidamente rompiam os elos da sociedade com as instituições e tradições antigas e tachavam de ignorância as veneráveis crenças religiosas e morais. Ao atacarem os costumes consagrados pelo tempo, os revolucionários haviam privado a sociedade francesa de liderança moral e aberto a porta à anarquia e ao terror. “Vocês tiveram um mau começo”, escreveu Burke a respeito dos revolucionários, “porque começaram por desprezar tudo o que lhes pertence. [...]. Quando as antigas opiniões e as velhas normas de vida são postas de lado, a perda talvez não possa ser estimada. A partir desse momento não temos nenhuma bússola para nos guiar; nem podemos saber claramente a que porto nos dirigir”.

Os philosophes e os reformadores franceses tinham manifestado uma confiança ilimitada no poder da razão humana de compreender e mudar a sociedade. Embora apreciassem as capacidades racionais do homem, os conservadores também reconheciam as limitações da razão. Consideravam a Revolução como um desenvolvimento natural de uma filosofia iluminista arrogante, que atribuía demasiado valor à razão e buscava reformar a sociedade de acordo com princípios abstratos.

Para os conservadores, os seres humanos não eram naturalmente bons. A maldade dos homens não se devia a um meio imperfeito, como haviam proclamado os filósofos, mas estava no íntimo da natureza humana, como ensinava o cristianismo. O mal era controlado não pela razão, mas por instituições, tradições e crenças experimentadas e testadas. Sem esses hábitos herdados dos ancestrais, afirmavam os conservadores, a ordem social era ameaçada pela pecaminosa natureza humana.

Em razão de terem durado séculos, afirmavam os conservadores, a monarquia, a aristocracia e a Igreja tinham seu valor. Ao desprezar e erradicar essas antigas instituições, os revolucionários tinham endurecido os corações das pessoas, pervertido sua moral e instigado-as a cometer terríveis afrontas umas contra as outras e contra a sociedade. Para os conservadores, os revolucionários haviam reduzido o povo e a sociedade a abstrações separadas de seus contextos históricos; haviam elaborado constituições baseadas no inaceitável princípio de que o poder do governo emana do consenso dos governados.

Para os conservadores, Deus e a história eram as únicas fontes legítimas de autoridade política. Os Estados não eram constituídos; eram apenas uma expressão da experiência moral, religiosa e histórica de uma nação. Nenhuma constituição legítima ou sólida podia ser elaborada por um grupo reunido com tal finalidade. Tiras de papel com terminologia legal e visões filosóficas não podiam produzir um governo efetivo; ao contrário, um sistema político sólido desenvolvia-se gradual e inexplicavelmente em resposta às circunstâncias.

- A busca da estabilidade social. A filosofia liberal do Iluminismo e a Revolução Francesa começaram com o indivíduo. Os filósofos e os revolucionários almejavam uma sociedade em que o indivíduo fosse livre e autônomo. Os conservadores acreditavam que a sociedade não era uma combinação de indivíduos desconexos, mas um organismo vivo que se mantinha unido por laços centenários. O individualismo colocaria em risco a estabilidade social, destruiria a obediência à lei e fragmentaria a sociedade em átomos isolados e egoístas.

Os conservadores consideravam a igualdade como outra abstração perniciosa que contradizia toda a experiência histórica. Para eles, a sociedade era naturalmente hierárquica, e acreditavam que alguns homens, em virtude de sua inteligência, educação, riqueza e nascimento, eram mais bem qualificados para governar e instruir os menos capazes. Afirmavam que, ao negar a existência de uma elite natural e erradicar uma classe governante há muito estabelecida, que aprendera sua arte através da experiência, os revolucionários haviam privado a sociedade de líderes efetivos, trazido a desordem interna e preparado o caminho para uma ditadura militar.

O conservadorismo apontou uma limitação do Iluminismo. Mostrou que os seres humanos e as relações sociais são muito mais complexos do que haviam imaginado os filósofos. As pessoas nem sempre aceitam a lógica rigorosa do filósofo e não estão prontas a romper com os costumes antigos, por mais ilógicos que possam parecer. Muitas vezes, as pessoas julgam que os costumes familiares e as religiões dos antepassados são guias mais satisfatórios do que os programas dos filósofos. O inflexível poder da tradição continua sendo um obstáculo para todas as visões de reformadores. Os teóricos conservadores advertiram que a violência revolucionária, quando se perseguem sonhos utópicos, transforma os políticos numa cruzada ideológica que termina em terror e despotismo. Essas advertências deram frutos amargos no século XX.


MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 383-385.

NOTA: O texto "Conservadorismo: o valor das tradições" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Moralidade, direitos humanos, genocídio e justiça

As duas guerras mundiais deram atenção aos extremos do comportamento humano e seus valores e às diferentes interpretações dos "direitos humanos" que as culturas e os governos construíram para promover interesses domésticos ou internacionais. Após a Segunda Guerra Mundial, as organizações dedicadas à paz e à ordem internacional começaram a discutir direitos humanos universais - as necessidades humanas básicas, a dignidade, os direitos de participação e as liberdades. Poderiam as pessoas de perspectivas culturais e políticas vastamente diferentes concordar em uma convenção básica de direitos humanos?

No campo, Felix Nussbaum 

Na onda de extermínio nazista dos judeus, homossexuais, dos ciganos e de outros, uma campanha foi lançada em prol da aceitação universal das leis internacionais que definiam e proibiam o genocídio. Isso foi alcançado em 1948, com a promulgação da Convenção sobre a prevenção e punição do crime de genocídio. Infelizmente, isso não evitou genocídios posteriores, definidos como uma variedade de crimes contra a humanidade, cometidos contra certo grupo alvo nacional, étnico, racial ou religioso. O antigo Estado da Iugoslávia, a Bósnia (local de limpeza étnica, estupros e massacres durante os tempos de guerra); o Camboja (onde o Khmer Vermelho assassinou mais de 1 milhão de compatriotas entre 1975 e 1979); Ruanda (onde pelo menos 1 milhão de tursis foram massacrados, de abril a julho de 1994), e Dafur (um conflito que se iniciou em 2003 e que matou ou ameaçou a sobrevivência de mais de 5 milhões de africanos), são vários dos locais mais recentes de genocídios modernos, desde 1948. Os historiadores também descobriram exemplos históricos dos campos de concentração e de massacres, como os ocorridos na colônia britânica do Quênia, no Congo Belga.


Trailer de corpos em Buchenwald

Guerras globais no século XX resultaram na morte de mais de 100 milhões de pessoas. Enquanto muitas dessas eram baixas de guerra, tanto militares como civis, algumas foram resultado das políticas deliberadas do genocídio. Do massacre de 2 milhões de armênios pelos turcos, em 1915, e dos 15 milhões de judeus, ciganos, eslavos e homossexuais assassinados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o genocídio foi praticado por governos e por pessoas que carregavam a responsabilidade de executar esses atos de assassinato institucionalizado. Embora o genocídio não tenha sido particular do século XX, a tecnologia o tornou mais eficiente, como podem testemunhar as câmaras de gás nos campos de concentração alemães. Em Auschwitz, até 12 mil vítimas eram mortas diariamente com os gases.

Os julgamentos dos crimes de guerra de Nuremberg e de Tóquio, no final da Segunda Guerra Mundial, tentaram culpar e punir aqueles que transgrediram os limites do comportamento humano civilizado na condução da guerra, como definido pela comunidade internacional em foros como o da Liga das Nações. A convenção de Genebra, por exemplo, estabeleceu regras para o tratamento humano de prisioneiros de guerra, embora ela tenha, mesmo assim, sido violada pelos beligerantes da Segunda Guerra Mundial.

O uso de duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, para causar ostensivamente uma rápida rendição do Japão, levantou questões morais pontuais. Ainda que os números de mortos no holocausto atômico ou no holocausto nazista tenham-se transformado rapidamente em estatísticas estéreis, da mesma forma que os registros fotográficos, por causa de sua própria clareza e objetividade, eles nos tornam familiarizados e confortáveis com as duras realidades da guerra e da crueldade humana. A americana, nascida na Alemanha, filósofa política, Hannah Arendt (1906-1975), escreveu sobre a "banalidade do mal", a ideia de que o mal é um lugar-comum e que tentar defini-lo como algo atípico do comportamento humano não é útil. Mesmo assim, no pós-Segunda Guerra Mundial, embora nem o genocídio nem a guerra tenham acabado em 1945, as pessoas continuaram a questionar a moralidade da guerra, a se opor a ela e a lutar para preveni-la.

[...]

No final do século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um dos muitos europeus que fizeram previsões sobre a era que se aproximava. Escrevendo em 1888, ele alertou que as vidas no novo século seriam caracterizadas pelo conjunto de guerras catastróficas além da imaginação; pela morte de Deus; e por sentimentos de autorrepugnância, ceticismo, cobiça, ganância e cinismo. Certamente alguns sobreviventes do século XX, veriam a realização das profecias de Nietzsche nas guerras mundiais; o período negro do fascismo; e nas contradições, desigualdades e injustiças exibidas no mundo do século XX. [...]

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 365-366.

domingo, 10 de novembro de 2013

O escândalo das Bacanais 2: abordagens [um escândalo religioso revelado]

O retumbante escândalo das Bacanais, que foi relatado por Tito Lívio com todos os detalhes, é confirmado no século XVII com a descoberta, na Calábria, de uma placa de bronze com o texto gravado do senátus-consulto, condenando a seita das bacantes em outubro de 186 a.C. É possível dar crédito a esse relato cujos personagens e peripécias se assemelham às intrigas dos melodramas tão apreciados pelos contemporâneos de Tito Lívio? O autor apresenta apenas as peças da acusação, que não procura relativizar. É, portanto, a versão oficial do escândalo que ele nos conta. Apesar de algumas improbabilidades, contudo, o relato de Tito Lívio tem o mérito de ser o único documento literário relativo aos mistérios dionisíacos em Roma.


"Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis [...]"

Triunfo de Baco. Mosaico romano, século II

O affaire das Bacanais revela claramente a propagação em Roma dos movimentos filosófico-místicos a partir do final do século III a.C. Durante os primeiros anos da segunda guerra púnica, os romanos sofreram uma série de derrotas espetaculares que permitem a Aníbal e aos exércitos púnicos ocupar a Campânia. Numerosos italianos do sul da península e da Sicília vão se refugiar em Roma e se misturam com a plebe da cidade. Trazem consigo novos deuses, novas superstições, novas técnicas para conjurar a sorte. Os romanos, desorientados por suas derrotas e temendo que Aníbal se apodere de sua cidade, encontram nessas crenças estrangeiras respostas a suas interrogações sobre o futuro que pode lhes conceder novamente esperança. "Não era mais somente em segredo, escreve Tito Lívio, e dentro das casas que os ritos romanos eram abolidos. Em público, no Fórum, no Capitólio, via-se uma multidão de mulheres não observar nem em seus sacrifícios nem em suas orações aos deuses os costumes de seus pais. Sacrificadores, adivinhos se haviam apoderado de seus espíritos. Seu número aumentou graças à afluência da plebe camponesa expulsa, pela pobreza e pelo medo, de seus campos, que se haviam tornado incultos e perigosos por causa de uma guerra prolongada. Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis e enriqueciam com essas práticas como pelo exercício de um ofício permitido."

Um capricho arquitetônico com uma procissão bacariana, Giovanni Benedetto Castiglioni

As autoridades romanas se inquietam com esses desvios religiosos que ameaçam a ordem. Mandam recolher todos os livros de profecias e as fórmulas de orações para queimá-los em público. Ao mesmo tempo, para restabelecer a confiança nos cultos oficiais, são adotados às pressas novos cultos ou, então, retorna-se aos ritos arcaicos: voto de uma "primavera sagrada" (velha prática do culto a Marte), anseios por santuários dedicados a Mens (deusa da inteligência) e a Vênus Encina (divindade greco-púnica), sacrifícios humanos de um casal de gauleses e de um casal de gregos enterrados vivos, dedicação de jogos a Apolo etc. Essa sequência heteróclita de medidas traduz o embaraço e a impotência das autoridades em dominar a efervescência religiosa dessa época. Além disso, essas intervenções oficiais não podem refrear o sucesso das crenças e dos cultos vindos de outros lugares, importados para Roma mais ou menos clandestinamente. Deuses estrangeiros (o grego Dioniso, o trácio Sabázio) e correntes místicas como o pitagorismo seduzem os romanos que duvidam da eficácia da religião oficial. Todos esses novos movimentos têm como objetivo dirigir-se a cada indivíduo em especial, e não mais à coletividade.

Bacanal, Lovis Corinth

Essas preocupações religiosas se incluem também na luta interna que se origina no seio da nobreza romana perante a expansão do helenismo. Durante a segunda guerra púnica, Aníbal, instalado na região de Cápua, assina tratados com as cidades da Campânia, da Sicília e com o rei da Macedônia. Favoráveis até então aos costumes e aos modos gregos, os romanos veem doravante no helenismo um perigo. Duas correntes antagônicas existem no seio da nobreza. Uns tratam com rigor tudo o que vem da Grécia e pregam o respeito absoluto da tradição nacional. Outros, abertos aos aportes externos, pedem mudança e abertura às influências gregas e orientais. Fabius Maximus Verruscosus, dito Cunctator, durante a segunda guerra púnica, depois Catão, o Velho, no início do século II, reúnem em torno deles os nacionalistas intransigentes opostos a qualquer modificação do mos maiorum (costume dos antepassados) e hostis ao imperialismo romano. Em contrapartida, os filo-helênicos, dentre os quais os mais ativos são os Cipiões e os Emílios, desejam a expansão romana para além das fronteiras da Itália. Muito influentes, no início do século II, levam a guerra contra a Macedônia e, após a vitória de Cinoscéfalos, o filo-helênico Flamínio declara a liberdade da Grécia em 196 a.C. Os conservadores retomam a vantagem a partir de 190 a.C. e não é surpreendente constatar que Catão, o Velho, obtém a censura - a mais alta magistratura romana - no ano que se segue ao escândalo das Bacanais.


Bacantes, Lovis Corinth

O culto de Dioniso é antigo, visto que foi trazido pelos gregos por ocasião da conquista do sul da península no século VII a.C. Depois, tiasos (confrarias mais ou menos secretas consagradas a um deus) se multiplicaram e se difundiram por toda a Itália. O sucesso da seita dionisíaca é garantido pela promessa de imortalidade a seus adeptos. Esses tiasos não conservaram os rituais arcaicos do culto, como as corridas desenfreadas dos bacantes brandindo seus tirsos, dardos encimados por uma pinha, ou o desmembramento com as próprias mãos das vítimas das quais consomem a carne crua. Essas práticas bárbaras não são mais observadas pelos fiéis do deus que se reúnem em pequeno número em santuários onde celebram os ritos de iniciação.

A bacanal, Peter Paul Rubens

Para as bacantes, o menino Zagreus, filho de Zeus e de Semela, foi criado por Hera, que ordena aos Titãs despedaçá-lo e comê-lo. Zeus consegue recuperar pedaços de Zagreus e o regenera, de onde provém o novo nome do deus, Dioniso, "duas vezes nascido". Os fiéis, pela iniciação aos mistérios, podem sair de seu "eu" corporal para se comunicar com o deus numa exaltação mística, o extasis (êxtase), que é obtido pela absorção de vinho e drogas. O futuro iniciado é posto nessas condições pelas danças das mulheres, pelos urros misturados aos sons lancinantes dos tamborins e címbalos. Máquinas de teatro permitem simular as descidas aos Infernos que precedem a descoberta da revelação do deus Baco a seus fiéis e que lhes promete a imortalidade.

A decadência dos romanos, Thomas Couture

Tito Lívio mostra-se pouco preciso sobre as condições de instalação do tiaso de Baco em Roma. Segundo ele, um homem miserável e inculto, "um mesquinho sacerdote grego, um contador de aventuras", vem da Etrúria para fundar uma seita clandestina. Mais adiante, evoca a sacerdotisa campana Pacula Ânia que introduz modificações no ritual. Essas duas origens do tiaso não são incompatíveis. Em 186 a.C., muitos etruscos e habitantes da Campânia se misturaram com a plebe romana. É necessário acrescentar a eles os prisioneiros gregos trazidos para Roma depois da primeira guerra da Macedônia e da expedição na Síria (200-197 a.C.).

O triunfo de Baco, Nicolas Poussin

Tito Lívio faz também uma análise interessante dos "danos" causados pelas cerimônias da casa do Aventino. A vizinhança começa a se queixar do barulho noturno dos adeptos de Dioniso. Na esteira dos comentários, os bacantes são acusados de liberar seus instintos perversos em uniões proibidas. Uma vez que os rumores crescem a respeito, eles são vistos como trapaceiros, falsificadores de testemunhos e de testamentos e, por fim, criminosos que encobrem, pela algazarra de seus gritos e de seus instrumentos de música, os urros de suas vítimas. Não é muito original, pois nisso se vislumbra o arsenal habitual das calúnias que cercam as sociedades secretas.

Dioniso segurando um cântaro. Cerâmica grega.

A rapidez da reação de Postúmio prova que ele já conhece há mais tempo a seita dos bacantes e refletia a respeito dos meios a utilizar para erradicar o culto dionisíaco. É mais que provável que ele faça parte dos conservadores e que tenha se aproveitado da aventura de Ebúcio e de Híspala para pôr, de maneira espetacular, um freio à penetração das crenças estrangeiras em Roma. É provável que o tiaso do Aventino não tivesse mais que uma dezena de fiéis, sem dúvida inofensivos. Ao demonizar os bacantes em seus discursos perante o Senado e o povo, consegue fazer com que todos os romanos aceitem a campanha de depuração desse grupo religioso acusado de tramar contra a ordem da cidade.

Dioniso. Mosaico romano

A repressão é terrível, primeiramente em Roma, depois em toda a Itália. Para evitar serem acusados, muitos denunciam seus parentes e seus vizinhos. Homens e mulheres se suicidam para escapar do castigo, Outros tentam fugir de Roma, mas são detidos pelas patrulhas que vigiam as portas da cidade. Todos os negócios em curso são interrompidos para dar lugar a tribunais de exceção. Mais de 7 mil pessoas, homens e mulheres de todas as condições sociais, são detidas em Roma e seria caso de se questionar quantas delas realmente pertenciam à seita dionisíaca. Aqueles que se contentaram em repetir as fórmulas sagradas são encarcerados, os culpados de libertinagem, de crimes e de trapaças são condenados à pena capital. As mulheres são devolvidas a seus pais ou a seus maridos para que sejam mortas na casa deles em virtude do arcaico direito do páter famílias. Na Itália, a investigação dura mais de cinco anos e se traduz também por milhares de condenações. Um senátus-consulto regulamenta com toda a severidade o culto de Baco para impedir a reconstituição dos tiasos: interdição das reuniões secretas e dos juramentos, limitação da assembleia a cinco pessoas: três mulheres e dois homens.

Mosaico romano: Baco, Arianna, Sileno e Sátiro. Século II d.C.

O escândalo das Bacanais assinala provisoriamente um duro golpe à penetração do helenismo em Roma. Por meio dele, a parte mais conservadora do Senado impôs de maneira sangrenta o retorno aos valores nacionais.

SALLES, Catherine. (Dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 238-239.