"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 1 de março de 2017

O fogo

Taos Pueblo - Luar, Eanger Irving Couse

As noites eram de gelo e os deuses tinham levado o fogo embora. O frio cortava a carne e as palavras dos homens. Eles suplicavam, tiritando, com a voz quebrada; e os deuses se faziam de surdos.

Uma vez lhes devolveram o fogo. Os homens dançaram de alegria e alçaram cânticos de gratidão. Mas de repente os deuses enviaram chuva e granizo e apagaram as fogueiras.

Os deuses falaram e exigiram: para merecer o fogo, os homens deveriam abrir peitos com um punhal de pedra e entregar corações.

Os índios quichés ofereceram o sangue de seus prisioneiros e se salvaram do frio.

Os cakchiqueles não aceitaram o preço. Os cakchiqueles, primos dos quichés e também dos maias, deslizaram com pés de pluma através da fumaça e roubaram o fogo e o esconderam nas covas de suas montanhas.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 21-2.

sábado, 17 de setembro de 2016

O épico de Gilgamesh

Tábua em escrita cuneiforme contendo trechos do épico de Gilgamesh

Gilgamesh é um herói lendário da literatura mesopotâmica. No século VII a.C., as suas aventuras foram registradas por um rei assírio, mas a sua origem é muito mais antiga. É possível que o personagem Gilgamesh se baseasse em um rei que governou Uruk entre 3000 e 2500 a.C. O épico fala de um rei semideus e semi-humano de Uruk que, consumido pelo desejo de aventuras, parte em busca da vida eterna. O épico pode preservar algo da história mesopotâmica antiga no personagem do selvagem Enkidu domado pelos deuses, que depois ajuda um grupo de pastores. Mais tarde, ele é levado a uma cidade agrícola onde luta com Gilgamesh e depois se torna seu amigo. O progresso de Enkidu pode ser interpretado como representação da evolução gradual dos mesopotâmios de caçadores-coletores selvagens a moradores civilizados da cidade.


WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M. Books do Brasil, 2014. p. 22.

sábado, 23 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: Entre o amor e a pátria

Virgílio, famoso poeta da época do imperador Otávio Augusto (27 a.C. - 19 d.C.), escreveu Eneida, obra épica que narra a história de Roma. No relato de Virgílio, a origem de Roma e os tempos primitivos de sua história estão baseados em antigos mitos, contados e reelaborados ao longo dos séculos.

Os mitos e as lendas têm um valor inestimável para os historiadores. Podemos dizer que eles revelam os mais profundos valores, sentimentos e anseios de um povo. Dessa forma, estão mais relacionados ao momento em que são narrados do que à época a que se referem. Isso significa que a história escrita por Virgílio traz informações sobre os tempos remotos de Roma, mas principalmente informa sobre os valores romanos do século I do Império.

As duas lendas [...] a seguir permitem identificar as ideias romanas sobre a paixão e os deveres do cidadão para com a pátria e o destino traçado pelos deuses.

A primeira dessas lendas leva o leitor até a guerra de Tróia, ocorrida por volta do século XII a.C. Afrodite, deusa grega do amor, se apaixonou por Anquises, parente do rei de Tróia. Do namoro entre a deusa e o mortal, nasceu Enéias, que, tempos depois, se casou com Creusa. Desse casamento nasceu Ascânio.

A cidade de Tróia, cercada pelos gregos, estava condenada à derrota e à destruição. Enéias conseguiu fugir, salvando seu pai e o pequeno Ascânio, mas abandonou Creusa, a esposa amada. Apesar da crueldade do ato, ele se justifica pelo dever maior de Enéias: foi designado pelos deuses para fundar uma nova civilização na Itália. Para não pôr em risco a sua missão de dar continuidade à sua raça, ele sacrificou a mulher. Em outras palavras, Enéias não se deixou levar pela paixão. O que era a morte de uma mulher diante da tarefa de fundar Roma? Em outros momentos do mito, o dilema se repete, pois Enéias e seus descendentes são obrigados a sacrificar seus amores e sentimentos pessoais para cumprir a missão determinada pelos deuses. O desfecho da história é positivo.

Uma outra lenda narra o drama de Tarpéia, uma moça romana. Uma versão dessa lenda foi escrita por Propércio, que, assim como Virgílio, viveu no século I de nossa era.

Segundo essa lenda, durante uma guerra contra os seus vizinhos sabinos, os romanos ficaram cercados no Capitólio, a colina onde ficava o templo de Júpiter, no centro da cidade. Tarpeio, um dos líderes romanos, tinha uma filha muito bonita chamada Tarpéia, que se apaixonou pelo formoso Tácio, rei dos sabinos. Não conseguindo controlar os seus desejos, Tarpéia traiu o seu povo, indicando uma passagem secreta para o inimigo invadir a cidade. Em troca, o rei sabino aceitaria o amor de Tarpéia. Todavia, depois de obter a informação, o rei mandou matar a traidora.

Namoro - A proposta, Sir. Lawrence Alma-Tadema

Dessa vez o desfecho foi negativo. Segundo o impulso da paixão e esquecendo os deveres para com o seu povo, a jovem romana provocou a sua própria desgraça e colocou em risco a existência da cidade.

As duas lendas têm o mesmo sentido: os sentimentos e as paixões devem estar submetidos aos interesses da pátria. Enéias, o herói, obedeceu essa regra cívica, moral e religiosa. Tarpéia, a traidora, não seguiu esses princípios e foi castigada com a morte.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 213-214.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os mitos dos povos primitivos

Pajé, E. Goodall

Os mitos, a religião, foram, em princípio, a forma que o homem encontrou para tentar explicar a origem da terra, sua própria origem. É através das crenças e mitos que o homem primitivo passa a sua cultura para seus descendentes, além de utilizá-los como uma forma de manter o grupo unido, fiel a suas tradições. [...] na medida em que todos os membros de uma sociedade se sentiam fiéis ao mesmo ancestral, entendiam que todos tinham uma origem comum, aumentava seu sentimento de unidade.

Além disso, o respeito às tradições deixadas pelos antepassados permitem que a tribo organize o comportamento do grupo, fazendo com que todos respeitem as regras básicas, para que a tribo possa sobreviver. Por exemplo: para o homem Tonga (tribo africana do sul de Moçambique), alguma coisa de ruim pode lhe acontecer, caso não tenha cumprido devidamente os ritos determinados pela tradição com relação aos seus antepassados. Se procurar um feiticeiro para aconselhá-lo, este certamente dirá: "Teu antepassado reclama o rito que não foi cumprido". Para este homem, a importância do seu antepassado é tão grande, é tão presente em sua mente, que muito provavelmente o rito cumprido solucionará o seu problema. Ele se sentirá melhor, pois seu antepassado o perdoou. Ele agora está integrado ao seu grupo novamente.

Os mitos dos povos primitivos estão cheios de sabedoria.

Alguns deles nos dão hoje a explicação correta sobre o tipo de plantas que podem ser usadas para a alimentação, quais podem ser usadas na medicina, além de nos relatar a origem de vários grupos, suas tradições e sua história.

Durante muito tempo, os homens modernos desprezaram os mitos e as religiões do povo primitivo. Achavam que todo homem que não vivesse dentro de uma sociedade moderna não devia ser levado "a sério".

Entendiam sua religião, seus ritos, apenas como uma maneira primitiva de "botar para fora" as suas angústias e medos diante de uma natureza desconhecida e, por isso, ameaçadora.

Demorou muito para que os historiadores e outros pesquisadores de nossa época percebessem que o homem primitivo, associando os seus conhecimentos práticos, culto aos antepassados e magia, exprimiam um conhecimento sobre a sua realidade, os homens e a natureza.

Foi muito difícil para o homem moderno entender que podia aprender muito com as crenças e mitos do homem primitivo. Foi difícil perceber que, para entender como viviam, era preciso entender a fundo sua religião. Esta tarefa foi muito dificultada pelos países que exploravam os povos que viviam em uma organização social igualitária, seja na América, seja na África. Estes justificavam sua dominação, dizendo que todas as manifestações destes grupos eram selvagens, primitivos, ignorantes, incapazes de construírem por si só o seu caminho. Por outro lado, os pesquisadores e outros cientistas, que não aceitavam a dominação e exploração exercida contra estes grupos, na tentativa de denunciar os "civilizados" e mostrar que estes não passavam de exploradores, e que seu único interesse em relação a estas comunidades era utilizá-las para se enriquecer cada vez mais, acabavam por cair em outro extremo: analisavam a vida social e política destes grupos como sendo um verdadeiro paraíso! Sem problemas, conflitos ou injustiças, e que tudo de errado, que quebrava a harmonia perfeita dos povos primitivos, tinha sido trazido pelo invasor.

Ora, jamais existiu uma sociedade assim, sem conflitos!

É importante lembrar que se, por um lado, as crenças representavam conhecimentos sobre a realidade que permitiam ao homem relacionar-se com a natureza e entre, por outro lado, algumas crenças e ritos, por estarem ligados a contradições sociais profundas, ou a alguns fenômenos naturais que atemorizavam aos homens, ao invés de permitir que o homem cada vez mais ultrapassasse os desafios que surgiam, o impediam, colocando regras respeitadas muitas vezes pelo medo, que o homem aceitava sem jamais questioná-las.

Os mitos e crenças de que falamos, são formas que o homem primitivo encontrou para explicar, regular e manter o seu mundo. O mundo do homem primitivo. Neste tipo de sociedade, onde não há a exploração do homem pelo homem, e a divisão do trabalho está pouco desenvolvida, as explicações que os homens fazem do seu mundo estão ligadas à sua vida. Não há separação entre o trabalho e a cultura, o trabalho e o prazer etc. Mas todos os homens procuram explicar o mundo em que vivem. E a maneira pela qual constroem esta explicação vai variar de época para época. As ideias que os homens produzem, as explicações do mundo que elaboram, estão ligadas à sua atividade material, à sua maneira pela qual o homem se organiza para sobreviver na sua relação com outros homens.

Com o surgimento da sociedade de classes, e a divisão entre os que produzem e os que não produzem, a unidade entre o pensar/saber e fazer vai aos poucos desaparecendo.

"A produção de ideias, de representações e da consciência está em primeiro lugar, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real".

"As ideias da classe dominante são ideias dominantes em cada época; em outros termos, a classe que exerce o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe com isso, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual".

A classe dominante tem de "representar" os seus interesses como os interesses de todos os membros da sociedade - tem de dar às suas ideias a forma de universalidade e representá-las como as únicas racionais e válidas.

Às ideias, à moral, à religião, aos costumes etc chamamos de ideologia.

A ideologia faz com que as ideias expliquem as relações sociais e políticas, tornando impossível perceber que tais ideias só são explicáveis pela própria forma de sociedade e da política.

BARBOSA, Leila Maria Alvarenga; MANGABEIRA, Wilma Colonia. A incrível história dos homens e suas relações sociais. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 52-5.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A maneira tupi-guarani de ver e explicar o mundo

O Tupi-Guarani é um grupo linguístico que inclui um grande número de povos indígenas, do passado e do presente. Dele fazem parte, por exemplo, os Tupinambá, que não existem mais, e os Araweté, que vivem na Amazônia. Temos comunidades indígenas pertencentes a esse grupo vivendo tanto em regiões afastadas, cobertas de florestas, como em áreas muito urbanizadas, próximas a grandes metrópoles. Neste último caso, estão, por exemplo, os Guarani Ñandeva, que vivem numa aldeia no morro do Jaraguá, em plena cidade de São Paulo.

Apesar das grandes diferenças nos costumes, mitos e rituais entre os vários povos, do passado e do presente, que pertencem ao grupo Tupi-Guarani, os estudiosos conseguiram perceber alguns aspectos comuns a todos eles. É possível, assim, falarmos de uma cosmologia tupi-guarani.


Índio tupi, 1643. Albert Eckhout

Para entender essa cosmologia, é fundamental sabermos a concepção de pessoa para os Tupi-Guarani. Para eles o homem vive uma situação de transição. A sociedade seria um ponto de passagem entre a condição animal e a divina. Entre todos os povos Tupi-Guarani, é possível observar nos mitos, rituais e costumes essa classificação, que estabelece uma série animal, outra humana e uma terceira divina. Elas podem ser simbolizadas, por exemplo, pelo podre (a natureza), o cru (a cultura) e o cozido (o sobrenatural). Em outros casos, é bem marcada a diferença entre natureza e cultura, formando-se pares de oposição: palavra/natureza animal; osso/ carne e sangue; alimentação vegetal/alimentação de carne.

A pessoa, então, vive essa tensão dada por uma identidade dividida em três. Ela não é mais o que foi (natureza), nem é ainda o que deverá ser (divina). A morte separa a dimensão divina da dimensão terrestre da pessoa.

A alma terrestre está ligada ao temperamento individual, à alimentação, ao corpo, e foi formada ao longo da vida do indivíduo. É uma espécie de resumo da sua história. Assim como o corpo físico, essa alma desaparece lentamente após a morte.

A alma divina, pelo contrário, não foi formada, mas dada pronta. Ela se juntará aos deuses e se tornará um deles.

Embora os mitos variem de povo para povo, eles normalmente falam de um cataclismo inicial que separou o mundo divino do terreno. Uns foram para o mundo divino e outros ficaram para trás.


Índia tupi, 1641. Albert Eckhout

Dessa forma, a religiosidade tupi-guarani está marcada pelo desejo de alcançar um mundo de eterna juventude, sem trabalho e sem morte, onde eles viveriam ao lado dos seus antepassados, tornando-se deuses como eles.

No passado muitos povos Tupi-Guarani empreenderam migrações religiosas à procura da Terra sem Mal, o lugar dos deuses, ora na direção oeste, ora na direção leste. Guiados pelos karai, líderes proféticos, eles abandonavam tudo movidos por essa crença.

Atualmente, os Guarani substituíram a prova da migração pelo sofrimento da vida social. A sociedade mais justa do passado deixou de existir, e é preciso passar pela prova da vida social atual para atingir a Terra sem Mal.

A vida em sociedade tanto pode ajudar como atrapalhar o indivíduo a passar para a condição de deus. Se ele reparte as suas coisas com o grupo, se é solidário, dificilmente ele voltará ao estado de animal. Mas se ele come a sua caça sozinho na mata, negando sua solidariedade ao grupo, pode cair novamente na animalidade.

Porém, ao procurar solitariamente a imortalidade, rompe os laços que o prendem ao seu grupo, à vida social, atingindo a condição de deus.

[...]

Um dos elementos essenciais da cosmologia tupi-guarani é a recusa da aliança e da troca e o desejo de superar a necessidade. Para isso é preciso abolir a diferença. É isso que explica a presença do canibalismo e do incesto na cosmologia tupi-guarani. [...]

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 165-6.

sábado, 11 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os polinésios

Um retrato de Heeni Hirini (também conhecido como Ana Rupene) e a criança, Gottfried Lindauer

[...] Ramo secundário dos europóides, com elementos mongolóides e negróides, eram de estatura elevada, com facies europeu, nariz fino, cabeleira lisa, tez morena, com a vista e o ouvido mais aguçados do que os europeus mas com olfato e gosto diferentes.

Navegadores incomparáveis, eram capazes de percorrer, sem escala, 2.500 quilômetros. Sabiam calcular a posição utilizando cabaças nas quais praticavam orifícios. Nas Samoas e no arquipélago Tonga, as pirogas duplas, com 30 metros de comprimento, chegavam a levar 140 remadores. Cada ilha possuía uma frota. Cook contou 220 unidades em Taiti, cuja população, segundo cálculos, atingia 200.000 habitantes.

Um retrato do Sr. Paramena, Gottfried Lindauer.

Os utensílios de que dispunham pertenciam à idade da pedra polida mas os seus objetos, principalmente os dos Maoris da Noza Zelândia, imitavam, segundo parece, os de metal. Seus antepassados haviam conhecido, ao que se julga, o metal e a cerâmica. Em todo o caso, estas artes haviam sido esquecidas, na Polinésia, quando os europeus chegaram, e é certo que os seus utensílios já haviam sido melhores, antes do século XVIII.

Seu vestuário era de Phormium tenax (linho) na Nova Zelândia. Entretanto, nas ilhas quentes haviam abandonado o tear de seus antepassados pelo trabalho com cascas de árvores, de que faziam saias enfeitadas com galões e triângulos. Usavam plumas brilhantes, folhas lanceoladas e finas tatuagens.

Um retrato da Sra. Paramena, Gottfried Landauer

Suas casas tinham como base plataformas de pedra, cobertas de esteiras. Nas Ilhas Marquesas atingiam um comprimento entre 20 a 100 metros, e tinham mosquiteiros e travesseiros de bambu. Os maoris possuíam fortes que podiam conter vários milhares de pessoas, com fossos, parapeito, paliçadas e plataformas mais elevadas para os defensores.

Estes povos encontravam-se no estágio da grande família de várias centenas de pessoas análogas à gens romana e aos genos gregos. A sociedade estava dividida em classes hierarquizadas, reis, nobres, homens livres e escravos. O rei, hereditário em linha masculina, por ordem de primogenitura, era uma encarnação da divindade e, por conseqüência, sagrada. Os nobres possuíam feudos e dominavam as assembléias deliberativas. Dispunham de toda a terra. Suas ossadas eram depositadas nos lugares sagrados e só eles tinham direito à sobrevivência. Escolhiam chefes locais que decidiam, com poder absoluto, sobre todas as empresas comuns e que eram substituídos se demonstravam indecisão ou má capacidade de julgamento. Os homens, teoricamente livres, eram, de fato, passíveis, segundo a vontade dos senhores, de talhas e corvéias.

Um retrato de Kewene Te Haho, Gottfried Landauer

A sua religião parecia conter elementos bramânicos, talvez persas ou babilônicos. Os maoris, por exemplo, acreditavam num Deus supremo, eterno, onipotente, justo, que habitava no duodécimo céu. Mas era tão sagrado que a maioria dos maoris morria sem saber que esta parte da sua religião existia. Tinham depois, todos, um panteão de grandes deuses do céu e de deuses locais, das florestas, das colheitas, da guerra, do mar, do mal, com toda uma mitologia explicativa do universo. Adoravam, além disso, uma multidão de espíritos espalhados por toda a natureza e os espíritos dos antepassados. A classe sacerdotal, recrutada entre os nobres, conservava as narrativas míticas e presidia às cerimônias, que compreendiam sacrifícios humanos. A Ilha Caiatia era a sede de sacrifícios comuns a toda a Polinésia. Empregava-se a magia. A religião provocara o aparecimento de uma poesia de grande beleza e de uma escultura de valor que muitas vezes visava apenas proporcionar prazer.

Um retrato de Taraia Ngakuti Te Tumuhia, Gottfried Lindauer

Havia continuamente guerras entre estes povos. As aldeias e as plantações eram incendiadas; comiam-se os vencidos, sendo o coração reservado aos chefes.

[...]

Nos séculos seguintes, em contato com os europeus, os oceaninos declinaram muito.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 377-379. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os polinésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A partilha do mundo entre deuses e homens

Encontro dos deuses nas nuvens, Cornelis van Poelenburch

De todo modo, a existência dos gregos não pode ser referida apenas a si mesma, pois estava entrelaçada aos antepassados, aos fundadores de dinastias, à memória dos heróis e também aos deuses. Para os gregos, as homenagens e os sacrifícios às divindades eram fundamentais, pois eles dependiam das divindades para o sucesso ou não de seus empreendimentos.

O que o divino representava para um grego e como é que o homem se posicionava em relação a ele é muito diferente da maneira como nós lidamos e organizamos o campo do religioso. Jean Pierre Vernant desenvolve a ideia de que para nós a palavra “deus” evoca um ser único, eterno, absoluto, perfeito, onisciente e onipotente. Esse conjunto se associa a outros conceitos como o sagrado, o sobrenatural, a fé, a igreja e o clero que, juntos, definem o campo do “religioso”. Neste sentido, o “religioso” possui um estatuto e uma função que se diferenciam de outros componentes da vida social. Na nossa compreensão do mundo estabelecemos separações entre o sagrado e o profano, entre o natural e o sobrenatural, entre fé e descrença, entre sacerdotes e leigos. Há a separação entre Deus e um universo que depende inteiramente dele porque foi Ele que os criou, e o criou do nada.

Para os gregos, diferentemente, as inúmeras divindades de seu politeísmo não possuíam as características que definem o divino. Não havia noção de eternidade, de perfeição, de onisciência ou onipotência. Os deuses gregos não criaram o mundo, nasceram nele e dele a partir dos poderes primordiais como o Caos (vazio) e Gaia (Terra). Assim, a transcendência dos deuses gregos só valia com relação à esfera humana. Tal como os homens, mas acima deles, os deuses gregos eram parte integrante do Cosmos. Nesse sentido não havia oposição entre natural e sobrenatural. A lua, o sol, uma montanha, um rio etc., podiam ser sentidos como potências divinas. Os deuses da epopéia eram exagerados e se diferenciavam dos homens apenas por sua imortalidade. Homero muitas vezes ridicularizava os deuses colocando-os em situações cômicas. Como personagens irracionais, eles amavam, odiavam e brigavam. Não eram poderes ou forças impessoais. Os gregos aceitavam e compreendiam os deuses de Homero.

Zeus não era o deus das religiões monoteístas; ele era caprichoso e sensual, era frívolo, indeciso e pouco confiável apesar de ser o rei dos outros deuses. Para os gregos, até os deuses estavam submetidos à moira (destino). Quando Zeus tentava dar a vitória aos troianos na Guerra de Troia, gerava confusão entre os deuses e não conseguia seu intento. O destino era mais forte e a vitória já estava destinada aos aqueus.

Os deuses e as potências divinas encarnavam os poderes, as virtudes e os favores de que os homens não podiam usufruir. Os homens, apesar de toda a dedicação ao desenvolvimento e manutenção da areté, não podiam jamais pretender ultrapassar os deuses. Por outro lado, pode-se pensar que o mundo dos deuses, apesar de estar sempre hierarquicamente superior, assemelha-se ao mundo dos homens. Segundo Jean Pierre Vernant, as perfeições de que os deuses são dotados são um prolongamento linear das perfeições que se manifestam na ordem e na beleza do mundo. [...] a harmonia de uma cidade governada segundo a justiça e a elegância de uma vida regida pela moderação e pelo autocontrole era uma conquista humana inspirada pela crença dos gregos em uma legalidade imanente ao cosmos.

A dependência da divindade, para os gregos, não significava servidão, pois o mundo dos deuses ficava a tal distância que não impedia a autonomia dos homens ou, por outro lado, não implicava seu aniquilamento perante a infinidade do divino. A religiosidade do homem grego não desembocava na via de renúncia ao mundo, e sim na sua estetização.

Ainda segundo Jean Vernant, no mundo grego não havia lugar para um setor religioso diferenciado em instituições, comportamentos codificados e convicções profundas que dessem forma a um conjunto organizado e nitidamente distinto de outras práticas sociais, como, por exemplo, a política ou a economia. Em todas as dimensões da vida grega havia sempre uma dimensão religiosa. Neste sentido o problema da fé e da descrença não podia ser pensado por eles. O “crer” nos deuses não se colocava em um plano propriamente intelectual, não pretendia desenvolver um conhecimento do divino ou um caráter doutrinal.

Na perspectiva de Werner Jaeger, em Paidéia, é preciso considerar que, de Homero até a crise das cidades, os gregos sempre intuíram a existência de um cosmos concebido como um todo ordenado em conexão viva no qual e pelo qual tudo – pensamento, linguagem, ação e todas as formas de arte – ganhava posição e sentido. Nesta ordenação os gregos colocaram a imagem do homem genérico, na sua validade universal e normativa, enraizado na vida comunitária. Ou seja, eles criaram uma imagem do humano capaz de se tornar uma obrigação e um dever. Esse ideal de homem integrado e integrante de sua comunidade era uma forma viva que se desenvolveu no solo grego e persistiu por meio das mudanças históricas.

Nada mais afastado da cultura grega do que o cogito (pensamento) cartesiano. O eu penso como condição e fundamento de todo o conhecimento do mundo, de si e de deus [...] Imaginar o mundo não consiste em torná-lo presente no nosso pensamento. É o nosso pensamento, de acordo com Vernant, que faz parte do mundo e é presença no mundo. [...] Todavia, para o homem grego, o mundo não é esse universo externo reificado, separado do homem pela barreira intransponível que divide a matéria do espírito, o físico do psíquico. A relação do homem com o universo dotado de alma, a que tudo o liga, é uma relação de comunhão íntima. Para os gregos, a visão só é possível se entre o que é visto e aquele que vê existir uma total reciprocidade, expressão se não de uma identidade, ao menos de uma estreita afinidade. O Sol que ilumina todas as coisas é também, no céu, um olho que vê tudo, e se nossos olhos vêem é porque irradiam uma espécie de luz comparável à luz do Sol. O objeto emissor e o sujeito receptor, os raios luminosos e os raios óticos pertencem a uma mesma categoria do real, acerca da qual se pode dizer que ignora a oposição físico-psíquico ou que é ao mesmo tempo de natureza física e psíquica. A luz é visão e a visão é luminosa. Quando alcança um objeto, o olhar transmite-lhe aquilo que o observador sente ao vê-lo.


EYLER, Flávia Maria Schlee. História antiga: Grécia e Roma: a formação do Ocidente. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. p. 45-49. (Série História Geral)


NOTA: O texto "A partilha do mundo entre deuses e homens" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Homero, o modelador do espírito grego

Safo canta para Homero, Charles Nicolas Rafael Lafond 

Durante o século VIII a.C., logo após a Idade das Trevas, viveu o poeta Homero. Suas grandes epopéias, a Ilíada e a Odisséia, ajudaram a moldar o espírito e a religião dos gregos. Homero foi quem primeiro modelou a mentalidade e o caráter dos gregos. Séculos a fio, a juventude grega cresceu recitando os poemas homéricos e admirando seus heróis, que lutavam pela honra e enfrentavam o sofrimento e a morte com coragem.

Homero foi um gênio poético, capaz de desvendar, em poucos e brilhantes versos, os mais profundos pensamentos, sentimentos e conflitos humanos. Os personagens criados por ele, complexos em seus motivos e manifestando emoções humanas poderosas – como ira, vingança, culpa, remorso, compaixão e amor -, iriam intrigar e inspirar os escritores ocidentais até o século XX.


Estatueta de Homero. Terracota. Necrópole de Contrada Diana, Lipari. Século III a.C. 
Foto: Jastrow

A Ilíada narra, de forma poética, um pequeno episódio do último ano da guerra de Tróia, ocorrida séculos antes da época de Homero, durante o período micênico. O tema de Homero é a ira de Aquiles. Ao despojar “o rápido e excelente” Aquiles do seu justo prêmio (a jovem prisioneira Briseida), o rei Agamenon ofendeu seriamente a honra de Aquiles e violou o preceito solene de que aos heróis de guerra deviriam tratar-se com respeito. Com o orgulho ferido, Aquiles recusa-se a lutar ao lado de Agamenon na batalha contra Tróia. Aquiles intenta preservar sua honra demonstrando que os gregos não podem prescindir do seu valor e da sua bravura militar. Somente depois que muitos bravos homens são assassinados, entre eles seu dileto amigo Pátroclo, Aquiles deixa de lado sua rixa com Agamenon e entra no combate.

Homero utiliza um acontecimento particular, a disputa entre um Agamenon arrogante e um Aquiles vingativo, para demonstrar uma lei universal – que a “perversa arrogância” e a “ruinosa cólera” serão causa de muito sofrimento e morte. Homero demonstra que há uma lógica interna na existência humana. Para Homero, afirma o classicista britânico H. D. F. Kitto, “a toda ação corresponde uma conseqüência; uma ação mal avaliada acarreta maus resultados”. As ações das pessoas, e mesmo dos deuses, obedecem a certo padrão fixo; seus feitos estão subordinados aos desígnios do destino ou da necessidade. Com a visão de um poeta, Homero compreendeu aquilo que se tornaria uma atitude fundamental da mente grega: a existência de uma ordem universal para as coisas. Os gregos mais tarde a formulariam em termos filosóficos e científicos.


Apoteose de Homero, Jean Auguste Dominique Ingres

Em Homero encontramos também a origem do ideal grego de areté, excelência. O guerreiro homérico expressa um desejo ardente de afirmar-se, de demonstrar seu valor, de alcançar a glória que os poetas imortalizariam em seus cantos. No mundo aristocrático e guerreiro de Homero, a excelência era interpretada principalmente como bravura e habilidade na batalha. Vemos também na descrição de Homero o germe de uma concepção mais ampla da excelência humana: a que une o pensamento à ação. Um homem de real valor, diz o sábio Fênix ao renitente Aquiles, é “hábil no falar e destro nas ações”. Nessa passagem encontramos a primeira afirmação do ideal grego de educação – a formação de um homem que, afirma o classicista Werner Jaeger, “uniu a nobreza da ação à nobreza da mente”, que compreendeu “todas as potencialidades humanas”. Desse modo, encontram-se em Homero as origens do humanismo grego – a preocupação com o homem e suas realizações.

As obras de Homero são essencialmente uma expressão da imaginação poética e do pensamento mítico. No entanto, na sua visão da ordem eterna da natureza e na sua concepção do indivíduo em luta pela existência, estão os fundamentos da maneira de ver grega.

Embora Homero não tenha atribuído qualquer significação teológica a sua poesia, o tratamento que conferiu aos deuses teve importantes implicações religiosas para os gregos. Com o correr do tempo, suas epopéias formaram a base da religião olímpica, aceita em toda a Grécia. Afirmava-se que os principais deuses moravam no monte Olimpo, em cujo cume se situava o palácio de Zeus, a divindade mais importante. A vida cotidiana dos gregos estava impregnada de religião. Com o correr do tempo, porém, a religião tradicional seria desafiada e enfraquecida por um crescente espírito secular e racional.


PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 45-47.


NOTA: O texto "Homero, o modelador do espírito grego" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundos imaginados: utopias e distopias

Procurando na história mundial os mundos imaginados, encontraremos as previsões de sociedades ideais tão antigas quanto as primeiras expressões do pensamento humano em tradições escritas e orais e nas artes. Os desenhos mitológicos das origens dos mundos natural e humano eram explicações, provenientes da experiência do mundo e da imaginação. Incorporadas nesses mitos estavam ideias de família e vida comunitária: como as pessoas deveriam viver juntas, compartilhar recursos e escolher líderes entre si. A religião inspirou a imaginação de mundos além do reino da experiência humana, e esses mundos incorporaram a completa realização do que significava ser humano, bem como as mais terríveis provações que um ser humano podia sofrer. Seja no budismo, no cristianismo ou no islamismo, a percepção de um paraíso e de um inferno encorajou as pessoas a acreditar e praticar suas crenças como indivíduos e como membros de uma comunidade.


A idade de ouro, Lucas Cranach

Visões religiosas também inspiraram movimentos milenares que projetaram esperança em uma nova era – a chegada do milênio que conduziria a um novo mundo – e exortava os seguidores a agir para chamar a nova era. Os movimentos milenares são encontrados ao redor do mundo em muitos contextos religiosos diferentes, incluindo budistas e cristãos, assim como em numerosas tradições sincréticas. Eles surgem das diferentes condições históricas e frequentemente tornam-se violentos, como resposta à opressão social, política e econômica. Houve movimentos milenares cristãos na Europa medieval e alguns movimentos budistas na China medieval. A grande Rebelião de Taiping, na metade do século XIX, na China – resultou na morte de, talvez, 20 milhões de pessoas – aglutinou-se sob a liderança de Hong Xiuquan (1811-1854), que teve uma visão de que ele seria o irmão mais novo de Jesus Cristo, enviado por seu pai para trazer o povo chinês de volta à sua crença original em Deus e para criar um “Reino Divino da Grande Paz (Taiping)”. Índios Arawakan, do noroeste da Amazônia, seguiram um xamã indígena e líder milenar, Venancio Kamiko, durante os anos de 1850, para resistir contra o controle colonial sobre seu mundo. No Congo, um movimento milenar originou-se com as reivindicações de uma jovem garota congolesa de que ela seria Santo Antônio, na primeira década do século XVIII. Beatriz Kimpa Vita anunciou que ela veio para ensinar a verdadeira religião: os padres eram impostores, Deus e seus anjos eram negros, e o reino dos céus era próximo da pátria congolesa, onde Cristo realmente havia vivido e morrido. Sugerir uma alternativa tão radical em meio ao confronto de culturas era algo perigoso, e o fundador do movimento foi executado. Contudo, o movimento sobreviveu e tornou-se a primeira Igreja sionista africana; o nome “Sião” refere-se à cidade bíblica que era um símbolo de esperança.

Juntos, visionários religiosos, filósofos, artistas, historiadores e escritores de todo o mundo produziram visões seculares de sociedades perfeitas. Em sua obra República, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreveu o Estado ideal como uma nação governada por um rei-filósofo. O mundo material dos fenômenos, acreditava Platão, é um mundo de sombras vagamente refletidas a partir do mundo real das ideias. É esse mundo das ideias que os reis-filósofos compreendiam e no qual estavam qualificados para governar. Além do mundo das coisas e das experiências, compreendido pelos sentidos, há outro, um mundo fundamental das formas e tipos eternos. Para tudo que experimentamos por meio dos sentidos há uma essência dessa realidade imutável, independente dos “acidentes” materiais que as cercam. Os “acidentes” da vida cotidiana são transcendidos por essências e formas eternas, as quais são objetivos de conhecimento. O rei-filósofo é, por educação, senão por desejo, capaz de guiar o Estado para sair desse caos e das ilusões do mundo externo dos fenômenos sentidos para a ordem e os modelos eternos.

O filósofo chinês Confúcio, no sexto século a.C., ensinou que a sociedade ideal existiu no passado, sob o governo dos reis sábios da antiguidade. A noção do Mandato Divino, que se desenvolveu como a sansão para governar na China imperial, significava que a responsabilidade do governante era de manter a ordem do Paraíso na sociedade humana; se e quando um governante falhasse, então o Mandato era declinado para um novo imperador. O essencial para a harmonia da sociedade, para Confúcio e seus seguidores, era a realização adequada do ritual e das práticas cerimoniais elaboradas em uma compilação de textos do final do primeiro século a.C. e do século I d.C. Nesse texto, o Livro dos Ritos, a sociedade sob os reis sábios da antiguidade é retratada como uma era de “Grande Harmonia”, na qual todos tinham suas próprias tarefas e seu lugar, todos eram cuidados de acordo com suas necessidades. Esse ideal foi ressuscitado, no final do século XIX, pelo reformador chinês Kang Youwei (1858-1927), que promoveu a sociedade ideal da Grande Harmonia como algo central ao pensamento confucionista. Ele argumentou que Confúcio teria dado apoio às reformas modernas de Kang, defendendo que eles teriam vivido na mesma época.

O termo “utopia”, usado para descrever uma sociedade ideal, foi cunhado, a partir do grego, por Sir Thomas Morus, ao escrever sobre um mundo imaginário em uma ilha, Utopia (1516), onde a propriedade privada não existia e a tolerância religiosa reinava. Como muitas utopias, essa foi inspirada pelas observações do escritor sobre seu mundo contemporâneo, mas também por relatórios do “Novo Mundo”. Escrito quase um século depois da Utopia de Morus, a peça de William Shakespeare, A tempestade (1611), ocorreu em uma ilha, referida como o “bravo novo mundo”, onde “não havia necessidade de trabalho, de ricos ou de pobreza”. Para os europeus, esse Novo Mundo era um espaço virgem, um paraíso preenchido pela promessa da possibilidade humana; para os povos indígenas do Novo Mundo, a presença europeia trouxe a morte e a destruição.


Mapa: ilha de Utopia

Fazendo par com o conceito de utopia está o de distopia, o mundo imaginado oposto, de total privação e miséria. Durante muito tempo sob o domínio de escritores de ficção científica, uma das mais conhecidas distopias é a de George Orwell, em sua obra 1984 (1949), na qual o personagem principal é gradualmente privado de sua humanidade individual para ser absorvido pelo “grande irmão (Big Brother)” do Estado totalitário do século XX. O romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo (1932), retirou seu nome da frase utilizada por Shakespeare em A tempestade, e retratou um mundo onde todas as necessidades humanas são satisfeitas e não há guerra ou pobreza, mas também não há religião, filosofia, família ou diferença cultural para enriquecer a vida humana. Drogados em soma, as pessoas da obra de Huxley escapam de qualquer coisa desagradável, incluindo emoções e memórias dolorosas. Conforme o romance de Huxley Admirável mundo novo vai sendo esclarecido por meio da retração de um mundo utópico que, na verdade, é distópico, visões de sociedades ideais – libertação do desejo, da fome e do medo – nem sempre produzem resultados desejáveis. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis os mundos descritos por Orwell e Huxley foram um produto da Revolução Industrial, que gerou suas próprias visões paralelas de utopia e distopia.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 340-342.

NOTA: O texto "Mundos imaginados: utopias e distopias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 2 de novembro de 2013

As religiões da Antiguidade Clássica

O poema de Hesíodo, Teogonia, nos proporciona a visão mais coerente da religião dos gregos. Nele, são identificadas duas idades distintas da história dos deuses: uma primeira, de desordem, em que reinava o Caos, pai da Obscuridade e a Noite, que, por sua vez, gerou filhos como o Destino, a Morte, o Sonho, ou como as Parcas, que tecem a sorte do ser humano. De Gaya, a Terra, nasceriam Urano (o céu), as montanhas e Pontos (o mar), e de suas relações entre si, surgiram os Titãs, os Ciclopes e os monstros de cem mãos. Com o Urano queria evitar que os filhos saíssem do ventre de Gaya, um dos titãs, Cronos (o tempo, conhecido pelos romanos como Saturno), cortou os testículos de seu pai com a foice que lhe deu a própria Gaya. Cronos, por sua vez, sabendo que um dos seus próprios filhos o derrotaria, como ele havia feito com seu pai, os devorava ao nascer, porém, a mãe, Rea, salvou um deles, Zeus, escondendo-o em Creta, onde cresceu e se tornou forte e, armado com o raio, derrotou a Cronos e aos titãs depois de uma longa luta, obrigando seu pai a vomitar, depois, todos os seus irmãos que havia devorado. Teria início, então, uma nova etapa da história dos deuses, com Zeus no Olimpo, regendo sem disputa a sorte do Universo e, consequentemente, a dos homens.

Ares e Afrodite. Afresco romano. Casa di Meleagro, Pompéia.

A primeira etapa da religião grega relaciona-se intimamente com os mitos do Oriente Próximo, com as cosmogonias dos babilônios e dos hititas. Os deuses destronados por Zeus não recebiam culto normalmente, exceto em períodos muito especiais (Cronos, por exemplo, o recebia no período “carnavalesco” entre o final de um ano e o começo de outro). Eram deuses do passado, excluídos da nova ordem religiosa que reinava no tempo de Hesíodo. Posteriormente, os filósofos gregos foram reinterpretando o cosmos, relacionando os mitos com as forças naturais e a princípio abstratos, enquanto que os historiadores veriam os mitos heróicos como um reflexo de fatos reais do passado, iniciando, com eles, seus relatos da história do mundo.

Os romanos souberam transformar sua religião num sincretismo em que os deuses dos diversos povos eram admitidos como variantes da religião romana, identificando-os com eles, ou os integravam ao Panteão, sem nenhum tipo de discriminação (parece que Alexandre Severo quis construir um templo a Jesus Cristo para incluí-lo na religião oficial). Este mosaico de religiões vinculadas à ordem estabelecida tinha um ritual que dava ao imperador uma dimensão religiosa, como herdeiro das funções sacerdotais dos senadores e como sacrificador. Muitos dos templos egípcios, que associamos à época faraônica, foram embelezados e reconstruídos pelos romanos (Trajano aparece representado como um faraó no templo de Khnum e, no de Luxor, há um altar com uma inscrição de Constantino). Os romanos não tinham Igreja organizada com uma casta sacerdotal: a religião era, para eles, parte de seu sistema político.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusc, 2000. p. 298-299.

sábado, 24 de agosto de 2013

O mundo dos gregos 2: os épicos homéricos e os Jogos Olímpicos

Talvez não tenha havido de fato um poeta chamado Homero, mas, mesmo que tenha existido, os dois magníficos poemas atribuídos a ele - a Ilíada e a Odisseia - são claramente obra de mais de um homem. Os acontecimentos míticos ou semimíticos aos quais se referem - o sítio de Troia e a jornada de volta para casa empenhada por Ulisses - estão situados no fim da Idade do Bronze, e as crianças gregas os vinham escutando sentadas no joelho de suas mães por séculos antes que chegassem à forma escrita pela primeira vez.


Atletas, ca. 470 a.C.
Foto: Marie-Lan Nguyen

Os Jogos Olímpicos eram o evento mais importante de uma série de festivais atléticos similares, em que jovens competiam pela glória de suas poleis. Eles aconteciam em Olympia, um abastado centro religioso perto da costa oeste do Peloponeso, a grande península que forma a parte meridional do território grego. Esse festival adquiriu proporções tão grandes na percepção dos gregos que se tornou a base de seu cálculo de tempo. No calendário grego, os anos eram contados a partir da suposta data dos primeiros jogos a terem sido realizados, fixada em 776 a.C. Os intervalos de quatro anos entre jogos sucessivos eram referidos como Primeira Olimpíada, Segunda Olimpíada e assim por diante. No início, a competição ocorreu em um dia e envolveu apenas um evento, uma corrida de 180 metros. Ao longo dos três ou quatro séculos seguintes a programação foi ampliada para incluir salto, arremesso, luta e corrida de carros, até acabar durando um total de cinco dias. Os vencedores recebiam apenas uma coroa feita de ramos de oliveira como prêmio, mas a fama que conquistavam, nas próprias cidades e por todo o mundo falante de grego, é evocativa da veneração heroica que em nossa época dedicamos a Pelé ou Maradona. Como seria de se esperar, com tanta coisa em jogo, o profissionalismo logo passou a dar o ar de sua graça. Como os clubes de futebol nos dias atuais, algumas das poleis passariam mais tarde a recrutar atletas profissionais de lugares distantes.

Próximo post: O mundo dos gregos 3: os pequenos Estados gregos

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 90.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os mistérios na Grécia antiga. Elêusis. Orfismo

Além da mitologia, existia o ritual. Nesse ritual dos antigos helenos, acham-se elementos de vetustas magias: ritos para a obtenção da fertilidade, sacrifícios aos espíritos, aos deuses ou aos demônios inimigos.

"Algumas dessas sobrevivências - diz Dampier - eram sem dúvida largamente espalhadas e, prolongadas aos tempos clássicos, constituíram provavelmente a substância dos mistérios elêusicos e órficos. Contra esse fundo sombrio e perigoso ergueran-se, a mitologia olímpica de um lado e, de outro, a filosofia e ciência primitivas". 

Os mistérios eram cerimônias secretas, vinculadas ao culto de alguns deuses, às quais só podiam assistir os fiéis que tivessem passado por uma iniciação. Sua revelação castigava-se com penas que chegavam até a morte.

O mais famoso desses cultos misteriosos era o de Elêusis, pequena localidade próxima de Atenas, à beira-mar. Nos mistérios de Elêusis venerava-se Deméter, deusa da terra fecunda, cuja filha Coré (Perséfone) tinha sido raptada por Hades, de quem se tornara esposa. Coré volta, por seis meses, à superfície da terra; e Deméter, novamente alegre, espalha seus dons por entre os homens (primavera e verão). Mas Coré deve retornar às entranhas da terra, e Deméter se entristece (outono e inverno). O ciclo da vegetação se repete anualmente: é o mito de Deméter. Do periódico alternar-se da morte e ressurreição dos frutos da terra devia surgir a noção da ressurreição da alma, não aniquilada com a morte. Os gregos tinham a esperança de que o homem pudesse tornar à vida - após a morte. E acreditavam que isso pudesse ser obtido mediante os ritos secretos, celebrados pelos iniciados.

Mistérios de Elêusis. Hydra, ca. 340 a.C.


As cerimônias constavam de banhos purificadores (no mar), jejuns rituais, a representação do drama sagrado (a história de Deméter: o rapto de sua filha Perséfone), jogos, procissões e cenas de caçoada e de regozijo. O iniciado (mystes) era considerado um privilegiado, não só neste mundo, mas também após a morte.

O culto de Orfeu entrelaça-se ao de Dionísio. A mitologia ensinava que Dionísio fora devorado pelos Titãs, filhos da Terra e do Céu, dos quais descende o homem. Assim, pois, há simultaneamente dois elementos opostos na criatura humana: um, que é material, rude, provindo dos Titãs; outro espiritual, divino, herdado de Dionísio. A fim de redimir-se do pecado dos Titãs, os homens tinham de sublimar a alma, aprisionada na mesquinha roupagem carnal. Deviam submeter o corpo a normas rígidas de ascetismo e amoldar o comportamento a princípios duma rigorosa ética. Desta forma, graças à vitória do elemento divino, haveria uma ressurreição - que seria eterna - e a morte seria derrotada definitivamente.

A partir do século VI a.C., o orfismo se espalhou por todo o mundo. Foi sempre um culto esotérico, como iniciados reunidos em confrarias secretas. O orfismo colaborou na difusão da crença na vida de além-túmulo, que seria a recompensa duma vida nobre na terra. Tais ideias infiltraram-se no culto a Deméter - e reaparecem, nitidamente, no cristianismo. Elas se encontram no Novo Testamento (que, lembremos, foi redigido em idioma grego).

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 103-104.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Conquista da América II: A rapidez da conquista

A espada, a cruz e a fome iam dizimando
a família selvagem.
(Pablo Neruda, poeta chileno)

A Conquista foi iniciada desde a segunda viagem de Colombo (1493) e, por volta de 1550, estava praticamente concluída em suas linhas gerais.

Essa rapidez explica-se, em parte, pelo fato de a América ter-se revelado uma barreira entre a Espanha e a Ásia Oriental, onde os europeus buscavam especiarias, produtos de luxo e riquezas minerais. No afã de ultrapassar esse obstáculo, os espanhóis descobriram, exploraram e conquistaram ilhas e terras litorâneas continentais, onde se apoderaram de riquezas diversas, penetraram pelas bacias fluviais, seja em busca de uma passagem transcontinental até o Pacífico, seja para atingir ricas regiões dos planaltos do interior.

Impulsionados ou não pela sede de ouro e outras riquezas minerais - não podemos esquecer que a Conquista se enquadra na época do Mercantilismo e que a busca de metais preciosos fora uma das razões da expansão espanhola -, os conquistadores rapidamente dominaram as Antilhas e terras continentais.

[...]

Essas riquezas por vezes eram ilusórias porque se baseavam em lendas europeias transferidas para a América ou então criadas em um Novo Mundo que começava a se conquistar. Das Antilhas partiram para a Flórida e Bacia do Mississipi muitos conquistadores em busca da fonte da juventude; do México outros avançaram por terras dos atuais EUA procurando Cíbola (a região das Sete Cidades de Ouro). "Na América do Sul os mitos se multiplicam. Anos e anos se sucedem enquanto homens e mais homens perseguem o Eldorado. Por vezes é um homem, ou uma cidade (Manoa), ou uma lagoa (Parime), ou uma região (Omágua). Para livrar-se do intruso, o indígena não vê inconveniência em mentir e esticar o braço apontando falsas direções. Espanhóis [...] e estrangeiros [...] se desgastaram procurando o príncipe dourado [...] A bela lenda das amazonas foi importada, como outras, do Mundo Clássico e talvez os livros de cavalaria reviveram o mito [...] Na realidade, o mito resultou das casas incaicas onde se guardavam as Virgens do Sol [...] Como um reflexo da riqueza incaica surgiram as ilusões da Terra Rica, do César Branco, da Serra da Prata, do País dos Mojos, do País dos Caracaraís e do Grande Paititi [...]" (MORALES PADRÓN, F. Manual de Historia Universal. Tomos V e VI. Historia General de América. Madri: Espasa-Calpe, 1962. p. 312-313)

Não há dúvida de que a rapidez também decorreu da superioridade do equipamento bélico dos espanhóis, que era infinitamente superior ao dos indígenas. Esta superioridade se evidencia em três pontos essenciais:

* pelas armas de fogo (mosquetes, arcabuzes, pistolas e canhões), cuja utilização proporcionava tríplice vantagem: permitia combater à distância, provocava a morte ou a inutilização por ferimento do adversário, e acarretava o terror psicológico do indígena, que acreditava serem eles instrumentos usados por deuses ou seus representantes;
* pelo uso de armamentos defensivos (armaduras, couraças, capacetes e escudos) e ofensivo (lanças, espadas, punhais etc) feitos de aço; isso tornava o espanhol praticamente invulnerável diante do indígena, que combatia quase desnudo, e contribuía bastante para neutralizar a desvantagem numérica das hostes espanholas diante dos numerosos exércitos nativos;
* pelo emprego do cavalo, que dava ao branco uma extraordinária mobilidade e despertava o terror entre os ameríndios porque o animal era desconhecido na América. Acreditando, a princípio, que cavaleiro e cavalo formavam um único ser, o pânico do nativo explodia, paralisando-o, quando, ao desmontar, o cavaleiro se movia independentemente do cavalo.


A chegada de Cortés e a recepção de Montezuma. Artista desconhecido.


Os conquistadores foram também beneficiados pelas lendas e superstições religiosas dos indígenas, as quais por vezes chegaram até a divinização dos espanhóis. "Com efeito, a chegada dos brancos foi precedida, tanto no México como no Peru, por toda uma série de sinais e de profecias que asseguravam a chegada iminente de deuses... ou de calamidades." (ROMANO, R. Os Mecanismos da Conquista Colonial: Os Conquistadores. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 17.) A destruição de templos e palácios, no México e no Peru, devido a raios e incêndios, foi encarada como sinal do descontentamento dos deuses e como prenúncio de novos tempos.

"Mas ainda mais. Todo o Mundo Americano, na base de sua esfera religiosa, conheceu o mito de deuses civilizadores que, após haver estendido seus benefícios aos homens, desapareceram prometendo voltar. Isto nos ajuda a compreender como e por que a chegada dos homens brancos é percebida pelos índios através da rede do mito." (ROMANO, R. op. cit. p. 18.) A própria cruz conduzida por muitos conquistadores reforçou ainda mais essas crenças: era o símbolo de Quetzalcoatl entre os astecas e de Bochica no Planalto de Bogotá.

"Mas resta assinalar que a falência das religiões indígenas ajudou a penetração da cruz. Essa falência foi facilitada, também, pelo fato de que a autoridade religiosa e autoridade política estavam frequentemente confundidas em uma mesma pessoa física, acarretando a queda do poder leigo, o desmoronamento do poder religioso e dos valores que representava. Assim, o poderoso cimento que a religião deveria ter representado [...] se dissolvia e deixava penetrar de maneira formal e superficial a nova religião. Penetração fácil: os batismos se sucederam e se multiplicaram. (ROMANO, R. op. cit. p. 18.)

"[...] Chegou pela primeira vez em Campeche, o barco dos Dzules, brancos [...] E, com eles, vem o tempo em que os homens maias ingressaram no Cristianismo [...] Começou a entrar água na cabeça dos homens." (Livro de Chilam Balam de Chumayel. ROMANO, R. op. cit. p. 69.)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1980. p. 65-67.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nas origens dos tabus


"O Tribunal da Inquisição", Pedro Berruguette. Destinada a julgar casos de heresia, a Inquisição foi ativada pelo movimento da Contrarreforma, resposta nos países de tradição católica (principalmente em Portugal e Espanha) às doutrinas expressas pela Reforma Protestante.


Está claro que na Política e na História muitos tabus incidem sobre a origem das instituições que exercem uma autoridade sobre a sociedade, em conveniência ou não com a própria sociedade.

Assim, emana da cristandade um certo número de tabus, e um dos mais antigos e mais duráveis, relativos à autoridade, que foi atribuído ao papado.

De uma parte, o papado auto-rotula sua origem como divina, tendo Jesus Cristo, depois de sua ressurreição, confirmado a Pedro seu encargo de vigário de Deus sobre a Terra, dando assim ao primeiro bispo de Roma uma proeminência sobre os outros papas, título este atribuído, à época, a todos os bispos.

A essa origem foi agregada uma primazia, apoiada na Doação de Constantino, segundo a qual este imperador, quando de sua conversão ao cristianismo, teria conferido ao papa de Roma, Silvestre I (314-335), a primazia sobre os metropolitanos de Jerusalém, Antioquia, Constantinopla e Alexandria, assim como a posse de Roma e da Itália. O papado inserirá esse texto nos Decretos - regulamentos eclesiásticos -, destinados a afirmar os direitos dos papas sobre os soberanos.

Ora, por volta de 1436, ao definir as regras e os métodos da crítica histórica, Lorenzo Valla demonstra que esta doação era falsa. O diagnóstico foi público e Lorenzo Valla viu-se obrigado a buscar refúgio em Nápoles, sob a proteção do rei de Aragão.

Desde essa data, denunciar a ilegitimidade dos poderes atribuídos aos papas é tabu, e o povo cristão não sabe disso; a historiografia laica, ela própria, só evoca esses fatos furtivamente, por ocasião de progressos feitos pelo conhecimento, e da crítica dos textos, na época do Humanismo e do Renascimento.

Por outro lado, esse povo ignora que, segundo pesquisas mais recentes, a famosa doação não foi uma maquinação desonesta comandada pelo papado - como vem acreditando, embora não o diga há cinco séculos -, e sim uma espécie de tratado ou de manifesto redigido em meados do século VIII, que enumerava as vantagens e os direitos já adquiridos pelo papado. O texto tinha certamente uma origem clerical romana, e constituía o relato hagiográfico da figura de Pedro, o magnificente, como o papa Silvestre I, e valorizava a basílica de Latran, dedicada a São Salvador. O todo estava apresentado sob forma jurídica - e sua origem era atribuída ao imperador Constantino, quando na verdade esse texto emanava de um clérigo de nível inferior que queria glorificar sua própria Igreja.

Hoje, o papado é uma força moral e política considerável, e seria levantar um tabu lembrar aos papas de nosso tempo que uma parte de seu poder, ou de sua autoridade, repousa sobre um erro grosseiro.

Uma espécie de tabu reina igualmente sobre as origens míticas do Estado e da realeza na França. Redigidas a partir do século XIII, as Grandes Croniques de France [Grandes crônicas de França] evocam as origens troianas e cristãs do povo francês, recorrendo a dois acontecimentos lendários: a queda de Tróia e a conversão de Clóvis. Por ter demonstrado que os reis de França não descendiam dos príncipes de Tróia, mas que eram herdeiros de simples guerreiros francos a que Roma dava o nome de bárbaros, Nicolas Freret, um erudito, foi encarcerado por Luís XIV na Bastilha: o que prova que este historiador não tinha o senso da História...

Sobre as origens do poder bolchevique, em outubro de 1917, reina igualmente um verdadeiro tabu, que não se refere, na verdade, à base de dados que relatam o levante, mas que não é menos revelador, simultaneamente, do comportamento de Lenin e do comportamento ulterior dos historiadores soviéticos, ou mesmo dos comunistas de outros países.

E onde se aninha esse silêncio opaco?

Ninguém duvida que, considerada globalmente, a insurreição de outubro de 1917 foi um movimento de massa insuflado pelas organizações revolucionárias e por outros soviéticos, majoritários em Petrogrado e na maior parte das grandes cidades russas. Em sua liderança estava, com frequência, o partido bolchevique que, desse modo, colocou fim a uma situação onde um governo sem Estado - Kerensky - deixava uma prova de força para um Estado sem governo - os comitês e os sovietes. Foi a ação de Lenin que levou o partido bolchevique a sustentar o princípio de uma insurreição, da qual aparentemente não tinha necessidade, visto que no II Congresso dos Sovietes seria majoritário; mas esse movimento permitiu prevenir uma ação que poderia impedir a reunião do congresso. Aí é que reside o primeiro silêncio da História tradicional, esse pequeno golpe de Estado cometido por Lenin, que escreveu de próprio punho, sem consultar ninguém, uma proclamação que anunciava, antes do Congresso, a derrubada do governo provisório pelo comitê revolucionário provisório, uma instituição controlada pelo partido que constituía o braço militar do soviete de Petrogrado. Esse comitê não fora minimamente legitimado para substituir o soviete de Petrogrado e, menos ainda, o Congresso dos Sovietes. Sua função era a de "proteger o Congresso", não a de tomar o poder, em seu lugar. Além disso, Lenin, em uma primeira versão manuscrita da proclamação que figura nos arquivos oficiais, havia escrito: "O comitê convoca nesse dia, para as doze horas, o soviete de Petrogrado. Medidas imediatas são necessárias para a constituição de um poder soviético". Em seguida, Lenin rasurou sua frase. Este ato falho é significativo: Lenin desconfia da legalidade revolucionária do soviete de Petrogrado - quer dizer, de Trotski - e do espírito democrático de alguns de seus amigos bolcheviques do soviete, tal como Kamenev [...]. Lenin [...] desautoriza o soviete de Petrogrado e o Congresso que não tem mais nada a homologar. [...]

[...] nenhum historiador soviético, de Trotski a Mints, as comentou. É bem compreensível o incômodo que teriam sentido os edis do regime soviético com o reconhecimento de que o poder atribuído ao partido repousava em parte sobre um erro.

No tempo da cristandade, o exemplo do cemitério de Auvezines, no Tarn, era edificante. Tal exemplo comprova que negar as crenças da fé é um tabu, e que o tabu, nesse caso, se junta ao mito.

Em Auvezines, então, há alguns anos, figurava na porta do cemitério uma placa onde estava escrito: "Em 1211, aqui, foram massacrados 600 cavaleiros teutônicos". Este grande fato, ligado à cruzada dos Albigenses, faz evidentemente alusão à batalha de Montgey, mas o cemitério em questão é minúsculo. Encontra-se ali a síndrome histórica do cerco de Alésia, cujas plantas mostram bem que a praça forte não podia certamente abrigar 80 mil gauleses. Em Auvezines, se o termo "teutônico" faz referência aos exércitos do rei Luís VIII, esta denominação representa bem o abismo que separa os occitânicos dos "bárbaros do norte"; assim o número de mortos revela um desses milagres que contam os relatos sobre as cruzadas: por exemplo, na estrada de Jerusalém, o corpo de Castelnau, morto por numerosos golpes de espada, é reencontrado intacto; na estrada daqueles que vão para Albi, o pão é semeado, também milagrosamente. Desse modo, apenas os homens de Deus não morrem!

Em um país comunista, os crentes também julgam sacrilégio todo questionamento sobre um deus. Uma crença quirguiz, curiosa e irônica, pergunta ao professor de fé inabalável que anunciava aos alunos que o capitalismo iria morrer logo:

- E Lenin, vai morrer também?

O mestre a fuzila com o olhar: a criança havia quebrado um tabu.

O tabu exerce muitas vezes uma função de autodefesa. Sempre, na tradição cristã, essa função aparece na ocasião das guerras religiosas. A História tradicional evocou essas guerras sob essa denominação, omitindo o fato de que na época não eram chamadas assim. [...] Porque a tradição quer fazer crer que os protestantes se sublevaram somente pela liberdade de sua fé, em nome de um princípio sagrado - o da livre leitura da Bíblia - e de uma melhor prática religiosa. Os católicos creditam ao rei a ordem de deflagração da noite de São Bartolomeu - até onde podem provar -, mas não acham que foi verdadeiramente sua responsabilidade e que ele agira sob a influência de sua mãe, uma "estrangeira", italiana, ou de um grupo de fanáticos [...]. Tentam deixar passar a ideia de que, certamente, o rei cometera o gesto que acelerou ou aprofundou o processo dos massacres, mas que, pessoalmente, ele era inocente. E sua defesa, assim, é assegurada.

Esses dois modos de apresentação são ilusórios. Na verdade, embora sem dizê-lo, os protestantes desejavam instaurar uma república à la Calvino: eles não podem admiti-lo porque supostamente se batem pela liberdade da fé. [...] Os protestantes esconderam suas aspirações por trás da exigência de uma pureza religiosa que não era necessariamente o caso deles. No século XVI, o corpo protestante se compõe em geral de pessoas instruídas ou de nobres e, mesmo nessa época, eles não representavam os grupos sociais mais inclinados a querer, de fato, ler a Bíblia textualmente. Até mesmo alguns se manifestaram sinceramente hostis à Igreja por múltiplas razões, entre elas a de que esta não merecia mais ser o guia dos cristãos. [...] E, quanto aos católicos, estes criticavam a monarquia, fingindo defender o rei. Na tradição histórica, eles dizem que o rei não era verdadeiramente culpado das violências cometidas durante essas guerras, mas, na realidade, eles censuravam sim, há algum tempo, a monarquia por não ser mais subordinada à Igreja e ao papado [...]. Existe ainda uma espécie de combinação involuntária entre católicos que glorificam  o rei, enquanto querem diminuir sua autoridade, e protestantes que, em nome de diversas liberdades, sonham com uma república à moda de  Genebra, quando não há regime mais autoritário do que aquele instaurado por Calvino. Eis aí o exemplo de um duplo tabu, sutil, do qual a tradição histórica não se deu conta. É verdade que a plebe, em sua maioria católica, luta em nome da religião.

Ao lado dos tabus de origem cristã ou monárquica, a república segrega igualmente os seus. [...]

A tradição histórica faz da Revolução de 1789 a mãe e a matriz do projeto republicano. Mas omite a existência dessas repúblicas "aristocráticas", como a de Veneza, ou "patrícias", como a de Genebra. E também relega a revolução americana, facilmente definida como uma guerra de independência.

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Na França, a tradição republicana faz do país a encarnação da revolução, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, dos direitos do homem e da civilização no quadro expansionista colonial. [...] Os diferentes países da Europa deveriam, por isso, olhar a França com inveja - e o regime republicano constituiria para os franceses uma espécie de modelo no qual deveriam necessariamente se inspirar os outros povos. [...]

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Diferente por sua formulação, mas exercendo igualmente uma função de exorcismo, também há o tabu da historiografia negra no Caribe anglófono. Não querem saber que o tráfico e a escravatura tiveram por vítimas essencialmente os negros. No livro Our Heritage [Nossa herança], destinado aos estudantes, é lembrado que, na cidade de Alger, no século XVIII, havia escravos brancos e negros, o que é verdade. E que, em algum momento de suas histórias, todos os povos tiveram de ser escravos, o que poderia ser verdade. Mas o que há de mais bonito, enunciado a seguir, é que os ingleses foram, evidentemente, escravos dos romanos, e que de lá vem seu nome: dos anges. E, além disso, a única ilustração do capítulo sobre escravidão mostra duas crianças inglesas sendo levadas por um centurião romano.

Dizer que os negros foram as principais vítimas do tráfico e da escravidão é humilhante, por isso o silêncio, e por isso também é que, na conferência de Durban (2001), que tratava da questão da indenização dos descendentes de africanos vítimas do tráfico nos séculos XVII e XVIII - como foi feito com os judeus no século XX -, houve delegações que se recusaram a comparecer e associar-se a tal reivindicação.

Entre os armênios, o tabu funciona de modo diverso. Sua tradição histórica é polarizada pela ideia de que são um povo mártir. Há trinta anos, eles tomaram o lugar dos judeus, antes que os curdos lhe fizessem concorrência, assim como os bósnios etc. Hoje, quando a ideologia dos direitos do homem tomou conta dos estados-nações, cada povo inventaria os crimes de que foi vítima. Assim, a memória armênia atual faz da história desse povo um longo martírio do qual o "genocídio" de 1915 foi o apogeu. Lembra, no entanto, que os armênios constituíram o primeiro estado cristão da História, antes do Império romano: desse modo, glorificação e martírio fazem dos armênios um povo maravilhoso.

Os historiadores armênios não insistem, entretanto, na surpreendente prosperidade das comunidades armênias nos séculos X e XVIII: Fernand Braudel descreveu-a em seu livro Méditerranée, mas os armênios se recusam a lembrá-la. Mártires, sim; ricos, não. Esses historiadores não gostam de lembrar tampouco que no final do século XIX, com os búlgaros, eles inauguraram a prática do terrorismo, sobretudo contra as instituições do Estado otomano, como o Banco de Istambul. [...]

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Outro tabu dentro do mundo dos comunistas [...], dos anticomunistas do Ocidente e dos anti-semitas é a importância do número de não-russos e de judeus - todos agnósticos, apesar de reconhecidos como judeus - no movimento revolucionário: dos 264 bolcheviques mais notórios, recenseados por Granat em 1920-1924, 119 são alógenos, e perto de um sexto deles é originário do gueto. Mas Zinoniev, Radek, Kamenev ou mesmo o menchevique Martov não são tidos como judeus. [...]

Quanto a Lenin, um tabu reinava sobre as origens de sua família, mas havia uma anedota no fim do regime comunista: "Seus ancestrais? Alemães, judeus, tártaros...". Os três inimigos da Rússia.

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FERRO, Marc. Os tabus da história. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 25-40.