"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 3 de dezembro de 2016

A destruição das antigas sociedades e o despovoamento na Oceania até a partilha colonial

Dançarino havaiano, Giulio Ferrario

A distribuição dos lotes insulares esperou menos pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, o estabelecimento de linhas comerciais regulares e a revelação de certas riquezas, do que pela depressão dos negócios que, entre 1880 e 1895, superexcitou a concorrência e os apetites. Em 1850, Taiti era a única a estar submetida a protetorado. Quando Paris decidiu anexar a Nova Caledônia, a Austrália lançou um protesto. Foi sem entusiasmo que os britânicos incorporaram as Fidji. Bismarck recusa ainda seu apoio à firma Hansemann, que lhe propõe um estabecimento na Nova Guiné. Entretanto, é a entrada em cena da Alemanha que, imediatamente após a falência dos Godeffroy nas Samoa, precipita a partilha dos territórios insulares entre a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e os Estados Unidos. A pena de ganso dos diplomatas é suficiente para levar a termo esta tarefa.

Da mesma forma que a África intertropical. a Oceania sofrera terrivelmente, sendo dizimados seus efetivos humanos. É certo que são suspeitas as avaliações dos primeiros viajantes: não atribuía Cook 200.000 habitantes a Taiti, 300.000 a 400.000 às Havaí? Em 1900 este último arquipélago conta apenas 125.000 habitantes, dos quais somente 20.000 naturais. Sem dúvida alguma, diversas terras perderam três quartos, se não a totalidade, de sua população. Quando o recuo se detém é porque a emigração fecha os claros. Assim como, dado o desaparecimento ou tendência à extinção de tasmanianos, australianos e maoris, a Australásia tornou-se anglo-saxônica; da mesma forma mestiços e asiáticos vieram repovoar a maior parte dos pequenos paraísos em situação desesperadora.

Na verdade a fraca natalidade não é um fato novo, pois as guerras, o canibalismo e as doenças contribuíam para quebrar, em grande parte, o impulso demográfico. Mas os recém-chegados agravaram o mal. Chacinaram, extenuaram pelos trabalhos forçados, deportaram em massa (para o guano, os peruanos e chilenos levam a metade dos indígenas da ilha de Páscoa e os três quartos dos de Nuculailai, nas Elice; a Melanésia despovoa-se em proveito da Austrália tropical). Venderam armas mais mortíferas e álcool. Se não introduzissem a sífilis, a tísica e a tuberculose, que seriam já antigas, difundiram, por outro lado, a varíola e o sarampo. Loti nos escreve a impressão de uma humanidade em agonia, pois o próprio contacto dos brancos, com suas "convenções", seus "hábitos" e seus "vícios", exerce uma influência dissolvente. Gauguin, por sua vez, na sua qualidade de "primitivo", vindo a Taiti para viver "de êxtase, de calma e de arte", deveria sofrer com as mesquinharias infligidas aos indígenas. Que acontecera ao mito taitiano a que Bougainville dera origem? Conviria mesmo ater-se à recomendação de Diderot: "Comerciai com eles, tomai seus produtos, levai-lhes os nossos, mas não os escravizeis?"

SCHNERB, Robert. O século XIX: as civilizações não-europeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 167-8. (História geral das civilizações, v. 14)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 6 - A alimentação na colônia / O mar e as "veredas"]

* A alimentação na colônia. No litoral, o peixe e os mariscos entravam na dieta dos moradores. A carne-seca também era um dos principais alimentos da dieta colonial. Mas o alimento básico da grande maioria da população colonial era a mandioca, o "pão da terra". Introduzida na dieta dos europeus pelos índios, ela era consumida em toda a colônia. No Sul, entretanto, o consumo de milho era maior: sua produção nessas regiões visava suprir também a alimentação dos animais de carga destinados às minas.


Engenho de mandioca, Modesto Brocos

Depois da mandioca e do milho. as principais culturas de subsistência da população colonial eram o arroz e o feijão. Já o trigo era cultivado no Sul. Outra fonte de sustento ingerida por grande parte da população colonial eram frutas, mas essas e as hortaliças, em geral, consistiam artigos de luxo na colônia, exceto as bananas (algumas, como a pacoba e uma espécie de "banana-prata", já existentes no Brasil antes do descobrimento) e as laranjas, de cultivo amplamente disseminado no litoral brasileiro na época colonial, iniciado com mudas ou sementes trazidas de outros continentes.

Por problemas alimentares ou, provavelmente, de higiene, brancos, negros e mestiços eram frequentemente vitimados pelas disenterias; aliás, as doenças faziam sofrer a população colonial de forma indiscriminada. O "mal do bicho" - cuja prevenção incluía uma dose de cachaça tomada logo de manhã - atacava em toda a extensão do território. Os vermes e as doenças venéreas acometiam ricos e pobres em igual proporção.

* O mar e as "veredas". O principal meio de comunicação da colônia era o mar. A via marítima articulava os principais centros comerciais do território. No Nordeste, as estradas seguiam as rotas traçadas pelas boiadas e pelos rios. No Centro-Sul, as comunicações com as minas faziam-se a partir de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia. As distâncias eram imensas e as comunicações por terra eram difíceis, lentas e perigosas. Bandidos, quilombolas e indígenas hostis atacavam com frequência os viajantes.

O desenvolvimento de alguma atividade lucrativa de exportação determinava a abertura de estradas. Não havia uma rede de conexões que integrasse a população das várias regiões. No período colonial, o que se poderia chamar de "rede" era muito fragmentado e favorecia a criação de sistemas de comunicação isolados e antônomos.

A lentidão nas comunicações ditava o ritmo do tempo na colônia. Às vezes um comunicado ou uma condenação demorava meses, se não anos, até chegar ao destinatário. Isso trazia prejuízos enormes para os colonos, que muitas vezes dependiam de ordens vindas de Portugal.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 237-8.

domingo, 10 de agosto de 2014

Idade Média: O mundo do medo

A fome trazia consigo sérias consequências. A ingestão de alimentos deteriorados ou impróprios para o consumo provocava doenças que se agravavam pelo estado de subnutrição. Há relatos de populações que, esfaimadas, chegavam a comer terra. Existem também registros de atos de canibalismo, praticados em meio a pragas de ratos e gafanhotos que frequentemente assolavam os campos. Em tempos de crise, os rebanhos eram dizimados por doenças ou pela falta de alimentos. Desesperadas, as pessoas consumiam também as rações reservadas aos animais como, por exemplo, a aveia armazenada. E os poucos animais que restavam eram abatidos para suprir a carência de alimentos.

Além disso, as populações subalimentadas e sem a mínima resistência física ainda sofriam o flagelo das epidemias, muito comum em toda a Idade Média. Os surtos mais freqüentes eram de cólera, peste bubônica e ergotismo (doença provocada pela ingestão de centeio contaminado por fungos). A célebre Peste Negra – epidemia de peste bubônica iniciada em 1347 – dizimou cerca de um terço da população européia. Na Toscana, a mortalidade atingiu 80% da população e, certas regiões da Inglaterra, chegou a 60%.


Miniatura da Bíblia de Toggenburg, Suíça, 1411, sobre a "Peste Negra".

Ao relatar uma dessas crises, ocorrida entre os anos de 1032 e 1034, o cronista francês Raoul Glaber, monge de Cluny, escreveu: “A fome estendeu de tal forma sua destruição, que se podia acreditar no desaparecimento de quase todo o gênero humano. As condições climáticas se fizeram tão desfavoráveis, que não se encontrava tempo propício para nenhuma sementeira, e as inundações impediam a realização de colheitas. As chuvas incessantes embeberam a terra de tal modo que, durante três anos, não foi possível abrir sulcos capazes de receber sementes. E, no tempo da colheita, toda a superfície dos campos fora recoberta por ervas daninhas. Durante esse período, depois de consumirem pássaros e animais selvagens, os homens passaram a recolher, transtornados pela fome, toda espécie de carniça e de coisas terríveis de se dizer. Para escapar à morte, alguns recorreram às raízes da floresta e às ervas dos rios. Coisa raramente ouvida no curso das épocas, uma fome raivosa fez com que os homens devorassem carne humana. Viajantes incautos eram assaltados por homens mais robustos, que lhes utilizavam os membros, coziam-nos e os devoravam. Muitas pessoas que migravam a fim de fugir do flagelo, ao encontrar hospitalidade, eram assassinadas e serviam de alimentos aos que as haviam acolhido”.

Num mundo tão terrível, a expectativa de vida não ultrapassava os 30 anos de idade. Até mesmo as camadas mais altas sofriam as consequências dos precários recursos da medicina da época, pois as doenças fatais e a mortalidade infantil não poupavam as famílias aristocráticas. Mas, sem dúvida, era entre os camponeses que as deficiências de vida se faziam sentir mais fortemente.

São numerosos os relatos e as miniaturas da época que testemunham o deplorável estado de saúde dos homens da Idade Média. Tuberculoses e dermatoses, especialmente a lepra, eram flagelos constantes, aos quais se somavam deformações de todo tipo (cegueira, paralisia, defeitos físicos) dramaticamente representados na obra de pintores como Peter Bruegel, o Velho e Hieronimus Bosch.

Para todos esses males, receitava-se um só remédio: a expiação. Em épocas de epidemia, organizavam-se procissões, romarias e atos públicos de penitência. E para cada dor ou moléstia recorria-se a um padroeiro específico: Santo Agapito para dor de dente; São Brás para dor de garganta; São Firmino para o raquitismo; São Ciro para cólicas; São Cornélio para convulsões, e assim por diante.

O mundo medieval era o mundo do medo. Temiam-se as más colheitas, a fome, as doenças. E, segundo as crenças populares, só a religião poderia oferecer a segurança almejada, fazendo milagres inimagináveis, e até mesmo ressuscitando os mortos. Bastava invocar o santo do dia para que o pedreiro, por exemplo, se mantivesse miraculosamente sustentado no ar, quando lhe despencasse o andaime. E, embora houvesse a esperança de uma vida eterna destituída de surpresas e de morte, havia ainda o pavor da condenação ao inferno, que dava a essa outra vida o mesmo cunho de insegurança e tornava ainda mais penosa a vida terrena.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 180-182. Volume 2.

NOTA: O texto "Idade Média: O mundo do medo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O homem do século XVI: o regime biológico do homem

A ação do homem sobre a natureza corresponde a que ele possui sobre o seu corpo. Evidentemente, a alimentação é o melhor meio de sustentar e de fortalecer os corpos. É quase o único que, então, se conhecia, dotado de algum valor. No começo do século XVI, o emprego de estimulantes é muito mal regrado. A medicina e a educação física, em absoluto, nada têm de racional.

- Alimentos e estimulantes. Os tipos de alimentação são menos mesclados do que em nossos dias. O meio geográfico comanda. Pão, cozidos de arroz e de milho reinam sobre domínios completamente isolados. Juntam-se a isso as prescrições religiosas (sem vinho, porco e álcool; a Índia bramânica, sem carne nem peixe de mar). Enfim, a tradição resiste à introdução de alimentos novos e de receitas novas.

Decorre disso, em cada região, uma grande monotonia do regime alimentar. Imaginemos a mesa do europeu desprovida de batatas, arroz, cozido de milho, perus, açúcar, álcool, chocolate, chá, café e a ausência do tabaco. Contudo, não se deveria encarecer tal monotonia uma vez que, a partir do século XVI, o europeu renunciou ao consumo de numerosos produtos naturais: bagas silvestres, “ervas”, caças diversas. Existem, além disso, segundo as estações, diferenças de regimes alimentares de que o europeu perdeu o hábito.

Esta monotonia é quebrada pela irregularidade das quantidades consumidas. Fome e penúria não poupam nenhuma região do globo. Todavia, seus efeitos se atenuaram momentaneamente, na Europa, em conseqüência da diminuição da população consecutiva à Peste Negra. Isso é também verdadeiro nos países onde é praticada a pesca marítima, pois a pesca não está submetida aos mesmos imperativos meteorológicos do cultivo. Acrescentemos ainda a importância dos jejuns e das abstinências (153 dias por ano na Europa anterior à Reforma). Se a alimentação cotidiana é modesta, as festas são acompanhadas de comezainas. Mesmo entre os poderosos, é-se mais sensível à quantidade e à consistência dos pratos do que à sua qualidade.

Por apegados que os homens sejam à sua alimentação tradicional, esta evolui. Vêm as inovações menos da necessidade que da ainda limitada curiosidade dos poderosos do momento (F. Braudel). Mas quando um alimento ou um condimento é difundido, perde seu valor. É este o caso das especiarias cuja busca constituiu um dos aguilhões das Grandes Descobertas e das quais se desviarão os gourmets do século XVIII.

A grande maioria da humanidade tem uma alimentação essencial ou exclusivamente vegetariana. O arroz não presta, então, os mesmos serviços de hoje em dia, pois a segunda colheita, parece, não é ainda praticada. O milho é uma planta “milagrosa”. Cresce em cinco meses, requer apenas cinqüenta dias de trabalho anuais e pode alcançar um rendimento da ordem de 100 por 1.

O pão apresenta inúmeras vantagens. Pode ser conservado. É também o alimento que se torna menos caro. Quase em toda parte, a moagem é um empreendimento industrial, mas os particulares, mui frequentemente, fazem o seu pão. Cozem-no quer em seus próprios fornos, quer num forno banal mediante compromissos. Do mesmo modo, há nas cidades padeiros estabelecidos que fabricam pães feitos de misturas de cereais, de diferentes qualidades: escuro, para os mais humildes; “entre branco e escuro”... O pão branco constitui um luxo, menos raro talvez no século XVI do que no XVIII.

A padaria de panqueca, Pieter Aertsen

A Europa distingue-se das demais regiões do mundo por uma alimentação de carne, por vezes exuberante, mesmo, ao que parece, entre os pobres, antes da metade do século XVI (F. Braudel). Em contrapartida, a carne é bem pouco difundida alhures.

O leite e os ovos são consumidos em toda parte. O queijo é a maneira mais propagada do laticínio. Em toda parte é consumido fresco. Porém, sob sua forma seca, é um meio de conservação dos produtos do leite. É a providência dos marujos.

A dança do ovo, Pieter Aertsen

O peixe das lagoas ou dos rios é pescado onde quer que o possa ser. A Europa cristã multiplica mesmo as lagoas de barragem a fim de a conseguir. O peixe do mar, contrariamente, é negligenciado por grande porção da humanidade. A Europa busca o peixe em todos os lugares, sobretudo nos mares setentrionais: Mancha, Mar do Norte, Báltico e, outra vez, Atlântico norte. Desde a Idade Média fora estabelecida a moda do harenque. O embarricamento começou a efetuar-se no século XV, pelo menos. Nos fins do mesmo século o harenque abandona as costas da Europa. Vai-se procurá-lo mais distante; de onde o aperfeiçoamento de diversos processos de conservação, da organização de transportes. Mas, atingida a Terra Nova, produz-se uma corrida dos marinheiros bascos, franceses, holandeses, ingleses aos bancos de bacalhau.

Os quatro elementos: água. Um mercado de peixes. Joachim Beuckelaer

Manteiga, banha e óleo desempenham ainda um papel limitado no preparo dos alimentos. Propaga-se o uso do sal para a conservação da carne e para relevar a insipidez dos cozidos e das sopas. Do mesmo modo, são como que o desfile na monotonia da nutrição e das receitas. Utilizam-se as mais variadas hortaliças. As especiarias constituem os únicos produtos exóticos utilizados na cozinha. Triunfam com as Grandes Descobertas. O mel não foi ainda destronado pelo açúcar.

Mulher vendendo vegetais, Joachim Beuckelaer

[...] assinalemos que, na Europa, mal começa a difundir-se entre as pessoas mais abastadas o prato, a colher, o garfo, o copo individuais, mais frequentemente a partir de Veneza.

A água não é apenas a bebida do pobre. O problema da água potável não está resolvido em toda parte de maneira satisfatória. Há que se contentar com a que se tem ao alcance nas fontes, nos poços, nas cisternas. Nas cidades os aguadeiros multiplicam-se. Se a Europa Central tem o privilégio de contar com boas fontes, em inúmeros países a água só pode ser consumida depois de fervida. Para a tornar aceitável, a China pratica a infusão do chá.

O vinho é conhecido na Europa inteira. Ele é tanto mais caro na Europa não vinícola quanto menos se sabe conservá-lo. E conquanto ainda não seja objeto de consumição de massa, a embriaguez aumenta. Ao lado da cerveja fraca, geralmente fabricada em casa, a Europa do Norte começa a conhecer cervejas de luxo. Mas esta bebida apresenta o inconveniente de, para a sua fabricação, concorre com o pão, uma vez que ambos os produtos são feitos de cereais. É esta concorrência que explica o êxito da sidra no fim do século XV e no princípio do XVI? É por esta época que, vindo da Biscaia, ela se instala na baixa Normandia. Há muitas outras bebidas fermentadas, mesmo na Europa, onde se utilizam frutos e folhas de árvores silvestres (freixo, seiva de bétula). É o caso, em especial, fora da Europa, das bebidas feitas de sumo de Acer (Canadá), do vinho de palma e do de arroz. A América conhece uma cerveja de milho geminado.

Em princípios do século XVI, a aguardente deixa de ser do domínio exclusivo dos médicos e dos boticários. Da França, ganha a Europa do Norte, depois a do Sul. Fora da Europa, ignora-se amiúde o álcool. Em compensação, a Europa ignora os estupefacientes, o haxixe da Ásia, a coca da América tropical e o tabaco antes de sua introdução em Lisboa, em 1558.

É na Europa que a alimentação parece menos precária e mais energética pois a carne dá a impressão de ser aí difundida, inclusive na mesa do pobre, até o advento da crise econômica da metade do século XVI. Teria isso dado uma superioridade física ao homem europeu? Explicaria seu dinamismo no início dos Tempos Modernos?


O dentista, Johann Liss, e/ou Lucas van Leyden

- Doenças e fraqueza da profilaxia. A saúde pública está frequentemente afetada pelas epidemias. Na verdade, esses flagelos golpeiam sobretudo os pobres devido à subalimentação e a promiscuidade em que vivem.


Pode-se distinguir as doenças de carência causadas pelas fomes e as demais doenças, notadamente infecciosas, encorajadas por aquelas. Mais que os gelos hibernais, que destroem os cereais de inverno nos deixam a esperança de uma colheita de cereais de primavera, os estios úmidos, que reduzem as colheitas, provocam irremediavelmente a penúria. Duas más colheitas, e eis a fome. A catástrofe, as mais das vezes, é local; a impossibilidade dos transportes em massa à grande distância fazem-na considerar como geral. Os pobres, então, não mais encontram pão, tornado demasiado caro, a não ser pelas distribuições feitas nas cidades. O trigo desaparece. O camponês tem, em geral, poucas reservas. Indubitavelmente, é possível incorporar às sopas e aos cozidos toda sorte de coisas. Os mais poderosos e os mais ricos sobrevivem, bem como os mais robustos. Não obstante, em tempos de fome, os ímpetos da mortalidade podem adquirir proporções cruéis, atingindo localmente o terço ou o quarto da população.

Na verdade, as doenças de carência caracterizadas grassam sobretudo quando a alimentação é demasiado rara ou baseada quase exclusivamente num só gênero. Em relação às demais doenças, não se sabe infelizmente o que elas são na realidade. As descrições fornecidas pelos contemporâneos parecem confundir entre elas numerosas espécies de febres e numerosas espécies de doenças que marcam a epiderme. Os médicos hesitam no tocante à interpretação dos sintomas que nos foram relatados. De resto, é possível que as doenças não sejam, hoje, mais as mesmas dos começos dos Tempos Modernos ou não apresentem mais as mesmas formas. Que pensar das febres terçá, quartá, das brotoejas? Difteria, tifóide, varíolas, sarampo talvez constituíssem o seu fundo. Deve-se ajuntar a isso as febres intermitentes. A malária castiga as regiões quentes e úmidas. A Europa não é mais atingida que as outras partes do mundo.

"Os vírus colonizam mais rápido que os homens as regiões novas para eles". A sífilis, que talvez já existisse no Antigo Mundo, sob uma outra forma, triunfa em Barcelona desde as festas que assinalam o regresso de Cristóvão Colombo. Em quatro ou cinco anos conquistou a Europa. Em 1506-1507, atinge a China. A lepra se mantém na Ásia, mas recua bem nitidamente na Europa onde, em princípios do século XVII, terá quase desaparecido. Por causa do uso de roupas brancas ou devido à concorrência de outros vírus?

A doença mais temível continua a ser a peste, então invencível. Ela é o símbolo de todas as doenças do mundo cristão. De fato, existem duas espécies de pestes: a peste pulmonar, pandemia que nada detém (Peste Negra de 1348), e a peste bubônica, transmitida pela pulga do rato. Esta segunda é endêmica no sul da China, na Índia, na África do Norte e durante quase dois séculos, ainda, na Europa onde ressurge sem cessar localmente sob uma forma mais ou menos violenta. Entre os mais atingidos estão os recém-nascidos e as mulheres grávidas.

Na luta contra a peste e outras doenças, a medicina é impotente, quando não prescreve remédios, vomitórios, sangrias que enfraquecem o doente. O empirismo popular é talvez mais eficaz. Mas, provavelmente, é ele que inspirará , com o fito de deter sífilis, a desaparição dos banhos públicos. Leva os doentes a recorrer aos curandeiros. Os reis da França e da Inglaterra tocam as escrófulas (= adenites tuberculosas).

A melhor salvaguarda contra a peste é o isolamento. As autoridades municipais começam a organizar, seriamente, quarentenas, cordões sanitários, redes de informação externa. Mas a luta não ultrapassa o plano local. Todos os que podem abandonam a cidade infectada e se retiram para as habitações rurais. A par de admiráveis devotamentos, a peste suscita abandonos de posto. Mais do que qualquer outro flagelo, ela age sobre os espíritos, exasperando não somente os egoísmos das pessoas, mas também os dos grupos e das classes da sociedade. Suscita verdadeiras loucuras coletivas. Os pobres, em geral, permanecem encerrados nas cidades infectadas. Aí saqueiam e aí morrem. Por onde passa, a peste inspira, igualmente, uma arte mórbida (danças macabras). Desarmado assim diante da morte, o homem pode oscilar do fatalismo à raiva de viver, da prostração à ação. É necessário ainda que suas capacidades físicas lhe permitam esta última.


Triunfo da morte em Clusone, Val Seriana, Itália. Giacomo Borlone de Buschis

- As capacidades físicas. O homem mudou no talhe e na estatura. Podemos compreendê-lo ao estudar as armaduras. Para algumas exceções, como a de Francisco I, quantas outras chocam pela pequenez do talhe, pela estreiteza das espáduas e pelo tórax dos guerreiros.

A uma aristocracia bem nutrida e afeita a um treinamento esportivo opõem-se as classes populares menos bem ou insuficientemente prematuro da musculatura ameaça frenar o crescimento do esqueleto.

Só possuímos características assaz precisas dos indivíduos relacionados com o fim do século XVII e, unicamente, relativas aos soldados da Europa. Essas características deixam adivinhar inúmeras malformações congênitas, deformações devidas a doenças. Todo ferimento deixa traços; o tronco e os membros amiúde ficam tortos. A humanidade do princípio dos Tempos Modernos não apresenta, provavelmente, um melhor espetáculo. Os quadros dos realistas flamengos não ilustram casos muito raros.

Inversamente, esses homens revelam, possivelmente, uma resistência que já não possuímos. Resistência à dor, não embotada pelo emprego de anestésicos; ao calor, ao frio, às mudanças de temperatura, à fadiga. Do mesmo modo, os corpos são rapidamente gastos. Muitos homens de quarenta anos mostram-se decrépitos e são considerados como anciãos. A diminuição da visão é irremediável. As pessoas abastadas se retiram da vida ativa bem mais cedo do que hoje. As mulheres já não podem dar à luz muito antes de atingir a menopausa.

Os indivíduos reagem diferentemente a tais provas impostas a seus corpos. Alguns homens desistem frente às provas, outros lutam. Prostração e displicência, às quais crenças fatalistas podem fornecer uma justificação a posteriori, parecem imperar sobre a grande maior parte do mundo e conservam a fraqueza física e fisiológica. Contrariamente, quase sob todos os climas e em quase todos os universos religiosos, encontram-se homens em maior ou menor número que exigem muito de seus corpos, não só porque podem fazê-lo, como porque são a isso constrangidos. O esforço cotidiano do coolie chinês adulto exige desde a tenra idade a mobilização de toda a energia do homem. Há, igualmente, inúmeras atividades especializadas. O tecelão adapta o corpo à sua profissão, como o cavaleiro ao seu cavalo. Adquirem atitudes bastante particularistas que fazem com que seus corpos então se diferenciem muito mais do que nas sociedades evoluídas atuais.

Para se libertar da natureza, deve o homem impor-se esforços físicos. Deve considerar seu corpo como um instrumento e como um motor. Deve moldá-lo em tal objetivo e aceitar em consequência a deterioração e o desgaste. Assim, para explicar a maneira de ser e as atitudes do homem, é necessário fazer com que intervenham fatores afetivos e morais.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 15-19.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o regime biológico do homem" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Um supermercado cruza o Atlântico

Os europeus estavam começando a dominar as Américas, mas a corrente de influências corria nas duas direções. Nunca antes, na história do mundo, haviam sido transferidas tantas plantas valiosas de um continente ao outro.

O milho era a mais notável das novas plantas, e Cristóvão Colombo, pessoalmente, transportou sementes de volta em seu navio. O milho tinha a impressionante capacidade de produzir, na época da colheita, muito mais grãos do que o trigo ou o centeio; [...] Em 1700, os pés altos e verdes de milho podiam ser vistos balançando ao vento na maior parte das zonas rurais da Espanha, Portugal e Itália.

A batata americana foi para o norte da Europa o que o milho representou para o sul. Os irlandeses acolheram bem a batata, pois em seus pequenos pedaços de terra, ela oferecia mais calorias do que qualquer outro produto. [...] a batata quente era o principal prato da população pobre da Irlanda. [...] Os alemães também se regozijaram com a batata, ao descobrirem que essa plantação, ao contrário de milho maduro, não era facilmente danificada ou destruída por exércitos violentos.

Nas plantações europeias, também podiam ser achadas outras novidades americanas: a batata doce, o tomate [...] e a alcachofra [...].

O peru, a única carne a ser trazida das Américas, também foi igualmente disfarçada por seu nome europeu. [...] Os perus, que mais rigorosamente falando deveriam ter sido chamados de "méxicos", já eram populares nas mesas da Espanha e Inglaterra, no Natal de 1573.

[...]

Das Américas vieram presentes como o abacaxi, a ser comido somente na mesa dos muito ricos, a pimenta de Caiena (ou cápsico), o cacau e o tabaco. Como quase todas as novidades transatlânticas, o tabaco se espalhou aos poucos pela Europa [...].

As monarquias da Europa não tinham certeza de como controlar essa nova moda de fumar tabaco em cachimbos ou de cheirá-lo na forma de rapé; alguns reis tentaram bani-lo. Na Rússia, um fumante podia ser punido com a amputação de seu nariz. Outros países, que tinham colônias tropicais, tentaram proibir a plantação de tabaco em solo nacional para que pudesse ser cultivado nas colônias e importado através de um porto onde pudessem ser recolhidos impostos sobre cada lote de tabaco desembarcado. A Inglaterra estabeleceu colônias na Virgínia e Maryland, principalmente para o cultivo desse produto. [...]

O tráfico de minerais, no curto prazo, foi o comércio mais dramático do Atlântico. O primeiro presente para os espanhóis na América Central e do Sul foram o ouro e a prata. Uma vez que haviam conseguido total controle de seus territórios americanos e enviado trabalho forçado para operar nas minas, os espanhóis despachavam para casa, em comboios altamente armados, uma quantidade anual tão grande de ouro e prata que a inflação monetária começou a mexer com a Espanha e, em seguida, com a Europa.  [...]

Nos primeiros navios que traziam metais preciosos, plantas e sementes valiosas pelo Atlântico, veio um outro turista: a doença da sífilis [...]. A sífilis tornou-se comum no século XVI [...].

As viagens europeias também abriram a Ásia para o mundo. Durante séculos, uma infinidade de produtos e plantas asiáticos atravessou toda a extensão da Ásia por terra, mas agora tudo fluía pelas rotas do mar. O chá da China encontrou seu caminho para a Europa, assim como a misteriosa porcelana e muitas outras manufaturas.

[...]

Da China, vinham novas flores de jardim para a Europa. O crisântemo era a favorita. [...]

O Novo Mundo também deu aos ávidos europeus um prazer que não era comum: deu-lhes as cores vivas. Ainda em 1500, a maioria das cidades e vilarejos era fria em suas cores. As cabanas podiam receber uma mão de cal, mas raramente eram pintadas. As casas de madeira tinham uma aparência pardacenta, embora, na Holanda, os tijolos chegassem a dar um tom vermelho aconchegante. [...] Em muitas cidades, a pedra era naturalmente escura e, com o passar dos anos, até as pedras claras eram aos poucos descoloradas pela fumaça de madeira [...]. Em algumas catedrais medievais, os vitrais ficavam realmente bonitos quando o sol estava brilhando, mas essas cores eram destacadas exatamente porque a maioria das ruas da cidade não tinha brilho algum.

As roupas dos europeus eram geralmente pardas, exceto as usadas pelos ricos. Os artigos não eram embrulhados em cores vivas porque qualquer forma de embrulho era muito cara. Os papéis para embrulho eram pura extravagância e nunca coloridos. Faixas e bandeiras eram atraentes porque eram muito mais ricas em cor do que as roupas usadas pela maior parte dos cidadãos.

Um dos milagres das recém descobertas Américas foram as novas cores. Os mexicanos, bem antes da chegada dos espanhóis, haviam observado como um inseto sem asas, alimentando-se da planta do cáctus, e estando prenhe, continha uma cor escarlate de grande intensidade. Eram necessários 70.000 insetos mortos para produzir somente meio quilo de pó de cochonila, que, podia ser usado para criar tinturas das mais vivas. [...]

A rota marítima ao redor da África abriu as portas para uma fonte barata da cor azul. O índigo, planta da qual o mais fino azul era extraído, era cultivado em Bengala. [...] Por muitos séculos, consignações pequenas e caras da tintura do índigo, provavelmente da Índia, ocasionalmente chegavam no Mediterrâneo pela rota terrestre, mas agora começava a chegar em milhares de baús de madeira acondicionados em navios holandeses e portugueses. [...] Em pouco tempo, nos recintos mais elegantes de Amsterdã e Veneza, homens e mulheres usando chapéus e casacos, capas e túnicas de azul índigo desfilavam como pavões. Até o exército francês abandonou o uniforme castanho-avermelhado e vestiu-se de azul.

[...]

Muitos pacotes pequenos, caixas e barris vinham nas novas cargas até os armazéns e eram considerados tão preciosos quanto ouro. Da China, vinham pequenos potes contendo aquele ingrediente precioso da medicina, do perfume e da arte de embalsamar, o almíscar. [...] Na era de pouquíssimos analgésicos, o almíscar induzia a sonolência. [...]

Em todos os lugares, o mercado de novos remédios era enorme. A Europa, na época, sofria muito com a malária e, nos pântanos da Itália, ela era extremamente mortal. Uma possível cura era oferecida pela casca de um arbusto peruano, a cinchona. Principalmente importada para a Europa pelos sacerdotes católicos, foi conhecida inicialmente como casca dos Jesuítas. O ingrediente fundamental presente na casca era a quinina, descoberta pelos franceses durante o período das Guerras Napoleônicas.

Na Europa, o cravo-da-índia, originário do arquipélago indonésio, era apreciado como remédio, principalmente para dor de dente, e como um tempero para comida e bebida. Aos olhos da maioria dos mercadores, a pimenta era o presente do sudeste da Ásia. Uma trepadeira que se enroscava nos galhos das árvores, seus frutos eram colhidos quando estavam vermelhos e brilhantes e, em seguida, eram espalhados em tapetes sob o sol quente, onde ficavam até murcharem e se tornarem escuros. Era tão cara que, em muitas cozinhas europeias, era salpicada em algumas carnes especiais de forma tão meticulosa como se fosse pó de ouro. [...]


Mapa da América do cartógrafo Sebastian Munster, 1561

Não só a mesa de refeições dos europeus mais abastados, mas também a própria agricultura em si estava se alterando. As viagens de Colombo, Vasco da Gama e outros navegadores europeus pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico promoveram uma revolução na agricultura do mundo. Junto com as cargas acondicionadas nos conveses ou trancadas no porão, havia pequenas consignações de sementes e mudas que eram eventualmente transportadas por uma série de acontecimentos premeditados e casuais para todos os continentes. O café, algodão, açúcar e o índigo foram para as Américas para serem cultivados em larga escala, com suas colheitas sendo exportadas para a Europa. Para a Argentina foi o gado e, mais tarde, para a Austrália foram as ovelhas. [...]

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Durante esse intercâmbio internacional de plantas e matérias-primas, aconteceram casualidades. Muitas aves, animais e plantas foram ameaçados pela chegada de novas pessoas, novos animais, novas armas e armadilhas.

Nas ilhas vulcânicas de Maurício e Reunião, há vários anos, havia vivido um pássaro que não podia voar, o dodó. Membro da família dos pombos, grande e dócil, com pernas grossas e calosas, penas brancas e cabeça pouco comum, o pássaro vivia em segurança, longe do ataque de qualquer predador. [...] Em seguida, os exploradores europeus chegaram, trazendo porcos e ratos; os ovos colocados pelo dodó em ninhos sobre o chão ficaram vulneráveis.


Dodó (Raphus cucullatus). Artista desconhecido. Gravura do século XVII

O último dodó de que se tem notícia, pego na ilha de Reunião [...] morreu num barco francês em algum momento antes de 1764. [...] Em todas as regiões do Novo Mundo, uma variedade de espécies, seja o pombo-passageiro da América do Norte ou o "tigre" marsupial listrado da Tasmânia, seguiram o mesmo caminho que o dodó.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 158-163.