"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As migrações bárbaras

O encontro entre Átila e o Papa Leão I, Rafael Sanzio

Desde a República, os contatos entre as populações germânicas e o Mundo Romano são mencionados pelos escritores romanos. Esses contatos por vezes eram violentos: em fins do século II a.C., címbrios e teutões invadiram e pilharam a Itália até serem vencidos pelas legiões de Mário em Aix-en-Provence (102 a.C.) e Vercelli (101 a.C.); no século I a.C., o Imperador Augusto enviou expedições para subjugar a Germânia, mas a destruição das legiões de Varo (9 d.C.) resultou no abandono da política de conquistas além do Rio Reno. Os contatos, entretanto, em sua maioria foram pacíficos: Augusto, fundador do Principado, foi quem iniciou a prática de recrutar germanos para integrar as legiões romanas. Desde os Antonino, o recrutamento não era mais de indivíduos, mas de tribos inteiras, que eram alojadas dentro das fronteiras romanas na condição de federados.

À medida que o relacionamento entre o Mundo Germânico e o Mundo Romano se intensificou, modificações processaram-se nas duas sociedades.

Nos séculos IV e V, entretanto, povos inteiros, envolvendo milhares de indivíduos, entraram em massa no Império Romano, levando o pânico e a destruição aonde chegavam. A instalação dessas populações germânicas em territórios romanos acabou precipitando a desintegração do Império Romano: no Ocidente, a antiga unidade imperial fragmentou-se em Reinos independentes, dominados por aristocracias romano-germânicas.

A invasão dos bárbaros, Ulpiano Checa

Essa movimentação de povos germânicos é comumente denominada invasões bárbaras. Essa expressão não é correta, pois "estes movimentos de povos antes são migrações que verdadeiras invasões. Se não foram pacíficas, não se inspiraram na hostilidade que pressupõe o termo invasão [...]. Constituem parte de um conjunto amplo de deslocamentos de populações, que prosseguiram até o século XV e que afetaram não só a parte ocidental do Império Romano mas toda a Europa, a Ásia até a China, e a África do Norte." (GENICOT, L.; HOUSSIAU, P. Le Moyen Âge. Tournai: Casterman, 1959. p. 17.)

Que razões determinariam essa imigração em massa nos séculos IV e V? Entre outras, a busca de novas terras para cultivo e sobretudo para criação do gado, uma vez que a tendência ao resfriamento das frias estepes (tundra) da Europa Setentrional vinha acarretando um progressivo deslocamento de povos para a Europa Meridional. Não se pode deixar de considerar também que as riquezas existentes no Império Romano funcionaram como fator preponderante para os germanos atravessarem fronteiras desguarnecidas ou precariamente defendidas: o saque ainda era uma prática bastante usual entre eles.

É inegável, porém, que foi a chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental o fator preponderante para a grande movimentação de povos germânicos: o avanço dos hunos para o Ocidente levou os germanos a recuar, buscando segurança contra esses temíveis invasores.

Os hunos eram povos tártaro-mongóis e procediam de regiões asiáticas fronteiriças à China. Não se conhecem com exatidão as razões que as teriam levado a migrar para as planícies europeias. Bastante primitivos, levaram uma existência nômade, criando seus cavalos, vivendo em carroças e tendas. Eram exímios cavaleiros e arqueiros, e seguiam um chefe que lhes garantisse vitórias capazes de possibilitar pilhagens compensadoras.

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos, a fim de destruir aí todo o germe de barba [...] Não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece, carne esta que esquentam, por algum tempo, sobre o dorso de seu cavalo entre suas próprias pernas. Não possuem abrigo. Entre eles não se usam casas, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana. Passam a vida percorrendo as montanhas e as florestas, enrijados desde o berço contra o frio, a fome, a sede [...] A cavalo dia e noite [...] dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura." (Descrição dos hunos feita pelo historiador romano Amiano Marcelino (320-390). Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 151-152.)

A chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental provocou intensa movimentação de povos germânicos: ao se deslocarem, recuando diante dos hunos, empurravam-se uns aos outros, terminando por se espalharem pelo Império Romano.

Os primeiros a sofrer o impacto dos hunos foram os godos: incapazes de enfrentarem as velozes e ferozes hordas húnicas, os ostrogodos recuaram, obrigando os visigodos a atravessarem o Rio Danúbio (talvez em número de 200 mil) e a buscarem uma ilusória segurança no interior do Império Romano. Acolhidos como federados pelo Imperador Valente (376), a impossibilidade de alimentar tão numerosa massa humana logo transformou os visigodos em saqueadores, que, em seu avanço pelos Bálcãs, a tudo destruíam. A tentativa romana de submetê-los resultou em fragorosa derrota em Andrinopla, onde o próprio Imperador Valente foi morto (378). Era o sinal de novos tempos: a superioridade da cavalaria germânica sobre as tropas imperiais romanas.

Em fins do século IV, os visigodos, sob a chefia de Alarico, abandonaram a Trácia, onde novamente haviam se tornado federados, e recomeçaram suas andanças: pilharam os Bálcãs e se dirigiram para a Itália; tomaram e saquearam Roma (410), marcharam para o sul da Península, destruindo Cápua e Nola. A morte de Alarico paralisou-os momentaneamente.

O saque de Roma pelos vândalos, Heinrich Leutemann

Nesse meio tempo, os vândalos, suevos e alanos (406), aproveitando-se do desguarnecimento das fronteiras do Rio Reno - as legiões haviam sido deslocadas para a Itália a fim de lutarem contra os visigodos - entraram aos milhares pela Gália. Fugiam dos hunos, mas atrás de si deixavam o incêndio, a destruição. a morte... Prosseguiram até a Península Ibérica, onde foram reconhecidos como federados (411): os suevos e uma parte dos vândalos estabeleceram-se na Bética (a futura Andaluzia), enquanto os alanos ocuparam o Vale do Ebro, espalhando-se até a Lusitânia (o futuro Portugal).

"Os bárbaros arremetem pelas Espanhas. O flagelo da peste causa igualmente grande desordem. A tirania dos cobradores pilha as rendas e fortunas, escondidas nas cidades. A soldadesca as esgota. A fome campeia tão atroz que, sob o império dela, os homens devoram carne humana [...] Os animais, acostumados aos cadáveres dos que haviam perecido pela fome, pelo ferro, pela peste, matam mesmo os homens em plena força [...] Assim, os quatro flagelos do ferro, da fome, da peste, dos animais campeiam em toda a parte [...]" (Depoimento do cronista romano Idaco, que viveu no século V. Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 83-84.)

Aproveitando a brecha aberta e o caos reinante na Gália, novos invasores atravessaram o Rio Reno: os alamanos apoderaram-se da Alsácia, e os burgúndios ocuparam regiões entre Spira e Worms.

No mesmo ano, anglos, saxões e jutos assaltaram a Bretanha.

Mas a paz ainda não voltara à Gália, pois nova invasão ocorreu: os visigodos, agora chefiados por Ataulfo (410-415), abandonaram a arruinada Península Italiana e se lançaram sobre a Gália Narbonesa, onde se tornaram federados (413), o que não os impediu de ocupar a Aquitânia. O assassinato de Ataulfo, que chegara a reivindicar o cargo de Imperador, provocou novas mudanças:

- os visigodos receberam a incumbência de reconquistar a Península Ibérica;
- os vândalos, expulsos da região que ocupavam, passaram ao Norte da África, onde o Reino dos Vândalos foi organizado na época de Genserico (428-477);
- os alanos, submetidos aos visigodos, fixaram-se a noroeste da Península Ibérica;
- os suevos formaram seu Reino em terras da Galícia e atual Portugal;
- os visigodos, por sua vez, criaram seu Reino que englobava a Península Ibérica e a Aquitânia (na atual França).

Parecia, enfim, que a paz retornara ao Ocidente. A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha dos Campos Mauríacos, às vezes erradamente chamada de Campos Catalúnicos. Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea, composta de legiões romanas e contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos.


Apesar de vencidos, os hunos, sempre sob a chefia de Átila, o chamado "Flagelo de Deus", lançaram-se, no ano seguinte, sobre a Itália. Cidades foram saqueadas, sendo a destruição e a ruína a marca da passagem da horda huna no caminho para nova pilhagem de Roma. Atingidos pela fome e pela peste, os hunos renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península, recedendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram, voltando ao nomadismo pastoril.

Genserico saqueando Roma, Karl Briullov

Ao longo do século V, novos Reinos foram-se organizando em meio à deposição do último Imperador do Ocidente (476) e à chegada de novos invasores, como os ostrogodos que se estabeleceram na Itália, onde o Reino dos Ostrogodos foi organizado no governo de Teodorico.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 418-422.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Império Carolíngio

Nos séculos IV e V, muitos povos bárbaros movimentaram-se através da Europa em vastas migrações. Os francos eram um dos menos numerosos. No entanto, foram dos poucos que, logo após a onda migratória, fixaram-se definitivamente  numa região. E é dos francos que deriva a realização política mais duradoura: a criação de duas grandes nações modernas - a França e a Alemanha.

Já numa canção de soldados romanos, do século III, há referências aos francos e à sua bravura militar. O imperador Juliano (século IV) concedeu-lhes terras no vale do Reno, pondo-as a serviço do Império, com o título de "auxiliares perpétuos". Colaboravam por isso, na defesa do Império. Sob o comando de Meroveu - e lado a lado com os gauleses e visigodos - lutaram na célebre batalha dos Campos Cataláunicos, contra os hunos de Átila.

Os merovíngios. Meroveu dá o nome à primeira dinastia dos soberanos francos: merovíngia. O neto de Meroveu, Clóvis, é o criador do Estado franco. Vence os romanos (que ainda ocupavam parte da Gália), os alamanos e os burgúndios (ou burguinhões). E conquista a Aquitânia (sul da Gália) aos visigodos.

Pagão, mas casado com uma princesa católica (Clotilde, sobrinha do rei dos burgúndios), Clóvis se converte ao cristianismo (para cumprir uma promessa), após a batalha de Tolbiac (496), contra os alamanos. Batizou-o São Remígio, bispo de Reims; na mesma ocasião foram batizados três mil dos seus guerreiros.

A conversão de Clóvis trouxe-lhe o apoio do clero católico e da população galo-romana, que já era quase toda ela cristã. À sua morte, a Gália achava-se quase inteiramente unificada, sob o poder dos francos.

Após a morte de Clóvis (511), seus quatro filhos dividiram entre si o reino. Os francos seguiam o costume germânico de partilha da herança paterna entre os filhos varões (lei sálica). Isto ocasionou rivalidades constantes e acirradas lutas internas, até que Dagoberto subiu ao trono (628) e estabeleceu que, daí por diante, os reis da França só teriam um único sucessor.

Como reis francos, os merovíngios continuaram a ter pouca notoriedade sobre os chefes militares; mas, como reis de romanos e gauleses, procuraram imitar a organização imperial romana. As instituições merovíngias continuaram, em geral, as tradições bárbaras.

Os reis indolentes. Carlos Martel. Após Dagoberto, inicia-se a época dos "reis indolentes". As funções governamentais ficam nas mãos do prefeito (ou mordomo) do paço (espécie de primeiro-ministro), que foi aumentando suas atribuições até chegar a ser o verdadeiro rei.

No século VII, um destes prefeitos do paço, Pepino  d'Heristal, torna o cargo hereditário; e exclusivo, portanto, da família Heristal. Seu filho Carlos Martel vence os árabes, em 732, na famosa batalha de Poitiers (também chamada de Tours), na qual salva a Europa e a civilização cristã da invasão e da hegemonia muçulmana.

Os carolíngios. O filho de Carlos Martel - Pepino o Breve - estimulado pelo Papa, depõe o último rei merovíngio (Childerico III) e se faz aclamar rei, em Soissons, por uma assembléia de nobres (751). Inicia-se, assim, a dinastia carolíngia.

Poucos anos depois, o rei franco pode demonstrar sua gratidão ao Papado. Atravessa os Alpes, derrota os lombardos, apodera-se do exarcado de Ravena e o doa ao Papa. Esta foi a origem do poder temporal (territorial) dos Papas: os Estados Pontifícios (ou Patrimônio de São Pedro).

Carlos Magno. Após a morte de Pepino o Breve (768), sobem ao trono seus dois filhos, Carlos e Carlomano. Falecido este em 771, Carlos torna-se o único rei.

Carlos Magno foi o maior guerreiro e conquistador da Idade Média. Suas realizações militares, políticas, sociais e culturais consagram-no como a figura mais importante da época medieval.

Campanhas militares de Carlos Magno. Em seus 46 anos de reinado (768-814), Carlos Magno realizou umas 56 expedições guerreiras. Os êxitos militares transformaram o pequeno reino franco num grande império. Campanhas mais importantes:

1) bate os lombardos, na Itália (em Pavia, na região do Pó), e cinge a tradicional "coroa de ferro" (774);
2) vence os sarracenos na península ibérica, após várias campanhas e estabelece a "Marca de Espanha"; na primeira tentativa foi derrotado e sua retaguarda foi aniquilada na famosa batalha de Roncesvales (onde teria morrido o lendário Rolando);
3) incorpora a Baviera (788);
4) derrota os ávaros e incorpora seus territórios (atual Hungria);
5) contém os eslavos;
6) conquista a Saxônia, após 32 anos de luta (772-804), e faz com que os saxões se convertam ao cristianismo.

Após todas as suas conquistas, o império de Carlos Magno abrangia os atuais países da França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça, Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Itália (norte e centro) e parte da Espanha.

Restabelecimento do Império Romano do Ocidente. No ano 800, em Roma, na noite de Natal, quando se achava ajoelhado, rezando, na basílica de São Pedro, Carlos Magno foi repentinamente coroado "Imperador dos romanos" pelo papa Leão III, sob as aclamações da multidão.

A restauração do Império Romano do Ocidente não dava, a Carlos Magno, vantagens materiais, mas significava um notável aumento de prestígio. O Império Bizantino - ainda chamado Império Romano - com a capital em Constantinopla, continuava a arrolar a Itália e regiões vizinhas nos seus domínios (embora não passasse duma soberania nominal, teórica). A criação dum Império Romano no Ocidente liquidava as pretensões de Bizâncio e cavava um abismo entre o seu cristianismo e o latino. Por isso é que os imperadores bizantinos se negaram, durante vários anos, a reconhecer a condição imperial de Carlos Magno, julgando que só eles eram os legítimos continuadores dos césares romanos.

[...] Carlos Magno simboliza as profundas modificações que se processavam na Idade Média da Europa ocidental: um rei franco, de ascendência germânica, lutava contra bárbaros germanos, tentava civilizá-los, impunha-lhes o cristianismo - e, finalmente, acabava sendo coroado imperador, em Roma, a velha capital do Império.

Organização e administração do Império. O Império foi dividido em condados (correspondentes às antigas cidades), administrados por condes, nomeados pelo Imperador. Nas fronteiras havia ducados (governados por duques) e marcas (governados por "margraves" ou marqueses).

Os governadores eram fiscalizados por inspetores, os missi dominici ("emissários do soberano", "enviados do senhor", "mensageiros do rei"), homens de confiança do imperador. Os "missi" eram sempre dois: um eclesiástico e um laico: e percorriam as províncias 4 vezes ao ano.

As capitulares. Duas vezes ao ano realizavam-se assembléias na residência imperial: uma de guerreiros e outra dos principais senhores do reino. A atividade destas assembléias facilitou o conhecimento dos problemas e dificuldades do Império, e permitiu a feitura de numerosas leis e ordenanças - as capitulares - que regulavam todas as atividades dos súditos, unificando leis e costumes, e melhorando a administração.

A corte. O título imperial de Carlos Magno não lhe alterou os costumes singelos de guerreiro germânico. A corte não tinha o fausto da antiga Roma imperial ou do Império Bizantino.

Carlos Magno não tinha corte fixa. Morava, alternadamente, nos seus diversos domínios rurais. Mas residia, de preferência, na cidade de Aquisgrã, considerada, por isso, a capital do Império.

A cidade de Aquisgrã, em francês chama-se Aix-la-chapelle; em alemão: Aachen.

Atividades culturais no período carolíngio. Carlos Magno, rude guerreiro, tinha escassa instrução (ao que parece, era quase analfabeto), mas aprendeu a falar latim, entendia o grego e tinha estudado cálculo e astronomia. Era bem intencionado e soube rodear-se de homens cultos e capazes:

Alcuíno (anglo-saxão; um dos grandes sábios da época);
Leidrade (o bibliotecário da corte);
Eguinardo (de origem franca; historiador e conselheiro íntimo);
Paulo Diácono (lombardo; historiador).

Carlos Magno construiu estradas, estabeleceu guarnições militares, fundou cidades (Magdeburgo, Bremen, Hamburgo), abriu igrejas e mosteiros. E protegeu especialmente a instrução, fundando muitas escolas - para os sacerdotes (nos mosteiros) e para o povo, gratuitas, ao lado de cada igreja. No próprio palácio abriu uma escola, denominada "palatina", que era frequentada, sem distinção de tratamento, por meninos pobres, do povo, e por filhos de nobres.

Arquitetura carolíngia: Igreja de Cravant-les-Côteaux en Indre-et-Loire, França


Nas obras literárias da época, assim como no ensino, só se empregava o latim, "considerado pelos homens cultos daquela época como o idioma por excelência; único propício à expressão intelectual".

Estudaram-se e copiaram-se minuciosamente manuscritos antigos; redigiram-se crônicas históricas e breviários de livros religiosos. A escrita foi aperfeiçoada: a caligrafia tornou-se mais clara e legível. Os manuscritos foram enfeitados com magníficas iluminuras (delicados trabalhos de ornamentação: letras adornadas e coloridas, desenhos de flores e folhagens, figuras, cenas).

"A época iniciada por Carlos Magno foi a primeira verdadeira época cultural depois da Antiguidade. É esta, realmente, uma era de cultura, quer pela atenção que dispensa ao cultivo do espírito e das artes nos seus mais diversos aspectos, como pelas obras respeitáveis que produz". (J. Bühler)

No meio da época de convulsões medievais, o longo reinado de Carlos Magno foi um parêntese de paz interna e segurança, de ordem e de progresso cultural. "Mas este progresso não foi, nem muito profundo, nem muito duradouro, porque depois de Carlos Magno novas invasões e guerras acabaram com a paz e a ordem que tinham estimulado esses adiantamentos".

[...]

Desmoronamento do Império. Poucos anos após a morte de Carlos Magno, o império fragmentou-se (tratado de Verdun, 843), em 3 reinos: Germânia, Lotaríngia (norte da Itália, Provença, Borgonha, futura Lorena e parte dos Países Baixos) e França.

Na Germânia, a dinastia carolíngia extinguiu-se em 911, com a ascensão ao trono do duque de Saxônia. Na França, extinguiu-se em 987, ao ser coroado Hugo Capeto (fundador de uma dinastia que governaria a França durante mais de 8 séculos).

Assim, pouco mais de um século após a morte de Carlos Magno, nada subsistia de sua obra política. Desfizera-se a unidade imperial; em seu lugar surgiram vários reinos, governados por dinastias locais. Ao desmembrar-se o Império Carolíngio, malograva a tentativa de unificar toda a Europa cristã do Ocidente sob a hegemonia de um único monarca. Essa tentativa, porém, seria renovada em séculos posteriores.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 244-250.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Formação dos reinos germânicos

Guerreiros. Tapeçaria de Bayeux (detalhe). Século XII

Vândalos
Estabeleceram-se (século V) na África do norte, fundando, na região da atual Tunísia, o primeiro reino germânico, tendo como capital Cartago. Durante cerca de um século dominaram o Mediterrâneo; no século VI sofreram ataques de tribos do Saara e acabaram sendo conquistados pelo Império Romano do Oriente ou bizantino.

Suevos
Entraram na Lusitânia (começo do século V) e escolheram Braga como capital. Só em fins do século VI (585) o reino suevo da Lusitânia foi vencido pelos visigodos.

Visigodos
Algumas tribos visigodas (godos do oeste) haviam ocupado (século IV) regiões dos Balcãs; outras ocuparam (século V) terras do sul da antiga Gália e grande parte da península Ibérica, tendo como capital Toulouse. Rechaçados mais tarde (século VI) da Gália pelos francos, fixaram-se no centro da Espanha, escolhendo Toledo como capital. Dois séculos depois da ocupação, as populações hispano-romanas e góticas, tinham-se fundido perfeitamente, pois os visigodos foram os que melhor se romanizaram. No século VII o reino visigótico foi centro de brilhante vida cultural, cujos representantes foram personalidades ilustres da Igreja e grandes artesãos-ourives. No século VIII (711) este reino caiu em poder dos árabes, os quais assimilaram em parte seu legado cultural.

Borguinhões
Ocuparam sucessivamente (a partir do século V) regiões perto do rio Reno e do lago de Genebra (na atual Suíça), tendo estendido seu domínio a terras do sul e do leste da França atual. Conheceram breve período de esplendor com sua capital, Worms, mas acabaram dominados pelos francos (século VI).

Alamanos
Aliados, de início, aos borguinhões de junto ao Reno, foram sendo gradativamente forçados pelos francos (a partir do século V) a recuar cada vez mais para leste. Estabeleceram-se ao norte da atual Suíça, em terras das atuais Alsácia e Lorena e em regiões da atual Alemanha.

Ostrogodos
Os godos de leste fixaram-se (século V) na Itália, escolhendo como capital Ravena. Sob o rei Teodorico a península conheceu um período de prosperidade e de esplendor cultural. Além disso, Teodorico conseguiu   controlar alguns dos reinos germânicos já existentes, graças a hábeis alianças matrimoniais entre membros de sua família e de outros reinantes. No século VI o reino ostrogodo foi conquistado pelo Império Bizantino.

Francos
A partir do século V conseguiram estender, pouco a pouco, seu domínio sobre a antiga Gália romana, expulsando os visigodos, fazendo retroceder os alamanos, vencendo os borguinhões. Conquistaram assim projeção que lhes permitiu lançar as bases do maior império da Idade Média, deslocando o eixo da civilização ocidental do Mediterrâneo para o centro-oeste da Europa.

Longobardos
Estabelecidos (século VI) no norte da Itália, seu reino, após período de projeção e esplendor, caiu em poder dos francos no século VIII.

Anglo-Saxões
Oriundos da Europa setentrional, desembarcaram (em meados do século V) na antiga Britânia (atual Inglaterra), abandonada pelos romanos por volta de 400. Obrigaram as antigas populações bretãs a refugiar-se nas atuais regiões de Gales (Inglaterra) e da Bretanha (França). No século IX seu território foi invadido pelos normandos.

Normandos ou Vikings
Grandes navegadores e ousados aventureiros de regiões das atuais Dinamarca, Suécia e Noruega, foram os últimos germanos a se deslocarem. Dominaram no século VII as regiões do mar Báltico, lançando-se, a seguir, à conquista de regiões das atuais Irlanda, Rússia (Varegues, século VIII), França (século IX); e a parte da atual Normandia (França), a Inglaterra; depois (século XI), regiões meridionais da Itália.


HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.).  História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 121-124.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Visões da História: os "bárbaros"

"A morte do gaulês". O artista é romano e sua escultura nos dá a impressão de um sofrimento muito maior pela derrota do que pelas perfurações de lança no tórax e braço. Que pretendeu o autor esculpindo o "bárbaro" desnudo e com a corda no pescoço?

"[...] Os tempos são tão confusos para nós! Pode-se pensar em escrever sob os golpes do inimigo, quando se vê serem devastados, diante de nós, cidades e campos, quando é preciso fugir através dos perigos do mar e que o próprio exílio não vos convoca ao abrigo de toda a apreensão? Diante de nossos olhos [...] os bárbaros incendeiam Reggio. O estreito braço do mar, que separa a Itália da Sicília, era nossa única proteção."
(Depoimento de Rufino, monge italiano [360-410]. In: COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955.)

"A morte do gaulês", Artista romano desconhecido

Texto 1 - Os greco-romanos chamavam de bárbaros os povos estranhos a sua cultura e a seu mundo. Dentre eles, os mais próximos eram os germanos, divididos em duas grandes famílias: a gótica (visigodos, ostrogodos, hérulos) e a teutônica (francos, anglos, vândalos, lombardos). Localizados nas fronteiras setentrionais do mundo romano, os germanos mantinham com ele contatos esporádicos. No século IV, com a crise do império, muitas tribos germânicas foram incorporadas ao exército para policiar as fronteiras romanas. No momento de recuo demográfico da população romana e de sua crescente cristianização, diminuiu a procura pela carreira militar, o que propiciou a germanização exército imperial.

A posterior ocupação dos territórios romanos pelos germanos foi, assim, apenas o resultado de uma evolução que os tornara a força viva do império. Portanto, por cerca de dois séculos houve uma penetração pacífica e apenas na primeira metade do século V aconteceram as verdadeiras invasões germânicas. Estas, na realidade, foram precipitadas pela pressão de um povo oriental, os hunos, que levaram os germanos em fuga a entrarem maciçamente em território romano.

Colocavam-se, desta forma, frente a frente duas civilizações que ao longo dos séculos seguintes iriam se fundindo para formar a Europa, a romana e a germânica. Socialmente, os germanos baseavam-se na família patriarcal e monogâmica e, politicamente, na tribo. Seu chefe era um rei eleito pela Assembleia dos Guerreiros, com a qual dividia as principais decisões. Economicamente, os germanos eram agricultores e pastores, com um artesanato pouco desenvolvido (com exceção da metalurgia) e trocas comerciais esporádicas.

A literatura e o direito eram transmitidos de forma oral de geração a geração; as artes principais eram a ourivesaria e os trabalhos  com outros metais. Os povos germanos eram politeístas, com deuses representativos de fenômenos naturais e sociais. Os principais deuses eram Thor, divindade da guerra, e Freya, da fecundidade.

Apesar de representarem apenas 5% da população total do Império Romano, em poucos anos os germanos ocuparam pontos nevrálgicos do Império. A cidade de Roma foi conquistada em 476 e o último imperador deposto. Quebrava-se a unidade de política anterior. Surgiam vários reinos germânicos, ponto de partida dos futuros países europeus. Começava a Idade Média. FRANCO JUNIOR, Hilário; ANDRADE FILHO, Ruy de Oliveira. Atlas: história geral. São Paulo: Scipione, 1993. 


"A morte do gaulês", Artista romano desconhecido

Texto 2 - Desde a época da unidade entre os helenos o termo “bárbaro” foi usado mais com o sentido de diferenciar os gregos dos demais povos. Tal conceito foi levado aos romanos, que o adotaram, agora, com relação ao seu mundo.

O significado tornou-se mais estranho quando o governo de Roma estendeu a cidadania romana aos homens livres das províncias, onde quer que elas se encontrassem.

Se para os gregos o sentido da palavra “bárbaro” refletia uma condição de inferioridade sob qualquer aspecto – físico, cultural, religioso -, para os romanos era mais de natureza política.

A denominação “bárbaro” atravessou os tempos, de modo que hoje é preciso cuidado para não cometermos o erro de generalização de conceitos sobre povos dos mais diversos estágios culturais.


O egoísmo com que os europeus estudaram o mundo, fazendo tudo girar em torno da Europa, levou muitos historiadores e autores de compêndios de História a apresentar como “bárbaros” apenas os povos da Europa além do Reno e do Danúbio, fronteiras naturais do Império Romano. Lembremos que o colossal Império foi assediado em todo o seu contorno, na Europa, Ásia e África.

Os motivos dessa pressão foram os mais diversificados, inclusive a consciência de uma civilização a preservar.

É um fato constatado em todos os tempos como os povos de menor poderio encaram a nação poderosa. Pode haver ou não opressão mais ou menos intensa, mas sempre há um sentimento de animosidade, produto talvez de uma inveja profunda.

O poderio romano foi fruto de muito esforço; mas os “bárbaros” não procuravam essas origens. Constatavam as diferenças no momento em que viviam e isso era tudo. Aquilo que fazia do romano o inimigo odiado era o que eles desejavam.

Outros sofriam o problema do crescimento demográfico. Hoje é sabido que há uma relação entre crescimento demográfico e crescimento cultural. O desenvolvimento cultural condiciona sempre novas formas de sobrevivência, permitindo o aumento demográfico. As concentrações, que vemos atualmente em certas áreas, não seriam possíveis em outros tempos.

Os povos que viviam da caça e agricultura rudimentar, com o frio do inverno os obrigando às migrações, não podiam assistir ao seu crescimento demográfico sem a procura de soluções ao nível de sua cultura – ocupar terras mais ao sul, onde as condições climáticas são mais favoráveis. Mas essas eram as terras dos romanos.

A diferença de costumes impressiona as mais simples. Os “bárbaros”, que tinham apenas estrutura familiar e algumas noções de convivência e cooperação grupal, não podiam ficar isentos à vida urbana do Império. Sabemos como as cidades exercem atração sobre os jovens da área rural afastada. O brilho da civilização romana foi um ímã atraindo em todas as fronteiras.

A vida rude, onde o vigor físico era grandemente valorizado, encontrava nas legiões romanas um forte atrativo.

O temperamento comercial, comum a todos os povos, via no mundo romano oportunidades inigualáveis. Participar daquele mercado era uma ambição tremenda.

Mas há uma força que acompanha a humanidade em todos os tempos. A ansiedade de progredir é muitas vezes cerceada pela situação de vida no grupo de origem. Desligar-se das tradições limitadoras e procurar construir nova vida em ambiente novo, onde nada do passado o retém, é uma força sempre atuante sobre muitos indivíduos. A grande cidade, onde cada um se perde na multidão, é o melhor lugar para os que desejam essa nova vida. Roma era o sonho acalentado por jovens em toda parte.

Quantos realizaram seus objetivos e quantos foram destruídos nos embates da vida não se pode saber. O fato permanente foi a mesclagem generalizada. Mesclagem física, mas sobretudo cultural. Se os “bárbaros” embruteceram o Império Romano a ponto de precipitar sua fragmentação e decadência, é fato também que a civilização romana, reforçada pelo cristianismo, condicionou o desenvolvimento de áreas que, por si, levariam ainda muito tempo para atingir os padrões culturais que conseguiram. GASMAN, Lydinéa e FONSECA, James B. Vieira da. História Geral 1 – Antiga e Medieval. Rio de Janeiro: MEC/FENAME, 1971.


"A morte do gaulês", Artista romano desconhecido

Texto 3 -  Mas a vinda massiva dos bárbaros para o Império Romano foi apenas o último episódio de antigas relações. Romanos e bárbaros trocavam produtos, faziam empréstimos recíprocos em suas línguas e em seus costumes. Os recém-chegados não eram muito numerosos, ainda que fossem os mais fortes e dominassem as populações há muito sedentárias.

A cultura das populações romanizadas não desapareceu e foi, no geral, adotada pelos imigrantes. O latim permaneceu a língua oficial, a do clérigo cristão e da maior parte da população. Com o tempo, os imigrantes também se identificaram com seus predecessores. Foi uma das sortes da Europa.

A 'pureza étnica' que se evoca atualmente, de forma escandalosa na ex-Iugoslávia - e que, aliás, não existe realmente, pois a mistura é a lei das sociedades humanas -, é, em geral, estéril e limitada  em suas aptidões. Ao contrário, os povos originários de misturas são em geral mais ricos e mais fecundos do ponto de vista da civilização e das instituições. A mescla dos homens é uma fonte de progresso.

Na Gália, por exemplo, a combinação dos dois primeiros povos, os gauleses, que se tornaram os galo-romanos, e os franco-germânicos instalados desde o século V, favoreceu o desenvolvimento da futura França". LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008.