"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Neocolonialismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Neocolonialismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A guerra dos Bôeres

Na história do Império Britânico, a Colônia do Cabo desempenhou um papel semelhante ao da Argélia no processo de expansão colonialista da França, caracterizado pela imposição do domínio europeu a populações nativas violentamente hostis ao “homem branco”. Por outro lado, da mesma forma que a França pretendia que suas colônias africanas formassem um bloco contínuo da Argélia até o vale do Níger, o objetivo da Inglaterra era formar um grande eixo desde o Egito até a Colônia do Cabo.


A Guerra dos Bôeres. Richard Caton Woodville

No fim do século XVIII, os ingleses haviam penetrado no sul da África, onde já estavam instalados os bôeres, colonos descendentes de holandeses que se tornaram inimigos dos ingleses a partir de 1795, quando foram obrigados a lhes ceder a Colônia do Cabo. Os conflitos que se sucederam entre os ingleses e os bôeres forçaram estes últimos a emigrar para as regiões do interior, onde haviam fundado em 1830 as repúblicas de Natal, do Transvaal e de Orange, depois de expulsarem as tribos bantu que viviam na região. Esse deslocamento em massa dos colonos bôeres ocorreu no período compreendido entre os anos de 1834 a 1839, e tornou-se conhecido como great trek (“grande imigração”).


Mulheres e crianças bôeres num campo de concentração britânico durante a Guerra dos Bôeres

Em 1843, a Inglaterra anexou a república de Natal às suas colônias e, em 1881, tentou fazer o mesmo com a do Transvaal. Desta vez, porém, encontrou forte resistência por parte dos bôeres, que se rebelaram e derrotaram as forças inglesas na batalha de Majuba Hill. Diante disso, o governo britânico preferiu ceder e reconhecer a autonomia das repúblicas bôeres.

As principais companhias mineradoras da África do Sul – a Beers e a Goldfields of South África – eram dirigidas pelo inglês Cecil Rhodes, que governou a Colônia do Cabo como primeiro-ministro de 1890 a 1895 e cujo grande projeto político era consolidar a dominação branca no sul da África a partir de uma aliança com os bôeres. Tal projeto, porém, fracassou em virtude da descoberta de ricas jazidas de ouro no Transvaal, que atraiu para a região capitais estrangeiros e milhares de imigrantes – os chamados uitlanders -, que eram, em sua maior parte, súditos britânicos.

Em pouco tempo o número desses estrangeiros superou por longa margem o dos bôeres, e isso fez com que o governo do Transvaal, chefiado por Paul Kruger, adotasse uma série de medidas preventivas no sentido de limitar os direitos dos imigrantes e, sobretudo, de resistir às crescentes pressões por parte de Cecil Rhodes e do governo da Colônia do Cabo. Conseguindo apoio externo, principalmente da Alemanha, os bôeres prepararam-se para a resistência, movimento ao qual se uniu a república de Orange. Em uma tentativa desesperada, Cecil Rhodes tentou promover uma rebelião dos uitlanders, mas não foi bem sucedido, o que representou o fim de sua carreira política.

Depois de resolver o problema do Sudão egípcio, o governo britânico, chefiado por Chamberlain, procurou negociar com os bôeres. As tentativas realizadas nesse sentido pelo alto-comissário da Colônia do Cabo – Lorde Alfred Milner – não tinham, entretanto, o resultado desejado. Em 9 de outubro de 1899, Paul Kruger exigiu a retirada das tropas inglesas das fronteiras bôeres, fato que equivalia a u a declaração de guerra. Teve início então o conflito, que durou três anos e terminou com a derrota dos bôeres. Esses assinaram com os ingleses o Tratado de Verceniging (31 de maio de 1902), o qual lhes assegurava, entre outras coisas, a futura autonomia administrativa para suas repúblicas, a abolição dos direitos políticos das tribos nativas a eles submetidas e o uso do holandês como língua oficial. Dirigida por Lorde Milner, a reconstrução da Colônia do Cabo – devastada durante a guerra – foi rapidamente realizada e, a partir de 1907, concedeu-se a prometida autonomia dos bôeres. Em 1910 foi fundada a União Sul-Africana (formada pela Colônia do Cabo e as repúblicas de Natal, Transvaal e Orange), com base em um acordo que favorecia os bôeres e continha os fundamentos do apartheid, política de segregação racial cujo princípio era a superioridade dos brancos.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 183-184. Volume 5.

NOTA: O texto "A guerra dos Bôeres" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A Guerra do Ópio

Desde o século XVIII os mercadores ocidentais dedicavam-se ao rendoso comércio de ópio com a China. O consumo dessa droga tornara-se tão generalizado no país, que ela vinha sendo utilizada como moeda no pagamento das exportações chinesas. Se tal substituição constituía uma excelente forma de favorecer a balança comercial dos países ocidentais, seus efeitos sobre a população chinesa eram, ao contrário, extremamente desastrosos. O uso do ópio afetava sobretudo as camadas mais pobres da população, sujeitas a um violento processo de desgaste moral e de debilitação orgânica. Em 1800, um edito imperial proibia a entrada de ópio no país, mas essa medida não impediu que os navios ocidentais continuassem a introduzir, clandestinamente, grandes quantidades da droga na China. A parcela mais significativa desse tráfico era realizada pela Inglaterra, por meio da Companhia das Índias, proprietária de extensas plantações de ópio na Índia.

Século XVIII (Royal Irish). Regimento de infantaria no assalto dos fortes de Amoy, 26 de agosto de 1841. Michael Angelo Hayes (artista) e James Henry Lynch (litografia).

Em 1839, o governo de Pequim enviou o emissário imperial Lin Tse-hsu a Cantão com a missão de pôr fim ao nefasto contrabando de ópio. Apoiado pelas tropas locais, esse funcionário confiscou o ópio que os comerciantes ocidentais transportavam em seus navios, apreendendo e queimando mais de 20.000 caixas de droga. Refugiando-se em Macau e, depois, em Hong-Kong, os comerciantes ocidentais protestaram energicamente contra a ação do governo chinês e anunciaram sua intenção de não retornar a Cantão enquanto o governo britânico não tomasse medidas que assegurassem tanto a sua proteção pessoal como a de seus bens. A Inglaterra não poderia desejar melhor oportunidade para concretizar tão almejada invasão da China; e, usando como pretexto a necessidade de garantir os comerciantes britânicos, desencadeou a chamada “guerra do ópio”.


Chineses fumando ópio. Arnold Wright

Em 1840, tropas inglesas, comandadas pelo coronel Henry Pottinger, desembarcaram na China e venceram facilmente a fraca resistência oferecida pelo seu exército, que não dispunha de armas modernas. Depois de tomarem Shangai, as forças invasoras prosseguiram sem maiores problemas até Nanquim, onde, em 29 de agosto de 1842, forçaram o governo imperial a assinar um tratado com a Inglaterra. Por esse acordo estabelecia-se a abertura de mais quatro portos chineses ao comércio internacional – Shangai, Amoi, Fuchow e Ning-po – além do de Cantão. Nesses portos, os ingleses poderiam instalar suas residências e representações consulares, tendo permissão também para negociar diretamente com os comerciantes chineses, o que abolia o monopólio comercial da Co Hong. Além disso, a Inglaterra adquiriu a ilha de Hong-Kong, sobre a qual passou a ter plena soberania.

Outros acordos, complementares ao tratado de Nanquim, impuseram aos chineses a criação de tribunais consulares nos Portos do Tratado (denominação dada aos novos postos que haviam sido abertos ao comércio com a Inglaterra), com competência para julgar, segundo as leis inglesas, todos os cidadãos britânicos acusados de crimes cometidos em território chinês. Reconhecia-se, assim, de fato, a extraterritorialidade dos centros comerciais ingleses na China, embora tal cláusula não estivesse contida explicitamente nos contratos.

Seguindo o caminho aberto pela Inglaterra, penetraram na China outras potências ocidentais, uma vez que o governo britânico não manifestara a intenção de garantir para si o monopólio do Celeste Império. Nesse sentido, o Lorde Robert Salisbury – político conservador inglês que, durante a segunda metade do século XIX, ocupou por várias vezes os cargos de ministro das Relações Exteriores e de primeiro-ministro – expressou com clareza a posição britânica em relação ao Extremo Oriente: “Na Ásia há lugar para todos”. Assim, não houve qualquer problema internacional quando, em 1844, emissários franceses e norte-americanos obtiveram do governo chinês tratados semelhantes ao de Nanquim.

O emissário francês obteve também do imperador um edito de tolerância em favor dos católicos, que dois anos depois foi estendido aos protestantes. Por esses tratados, os missionários ficavam proibidos de sair dos limites das cinco cidades portuárias abertas ao comércio com o Ocidente. Mas, aproveitando-se de sua condição de estrangeiros, que os punha a salvo da jurisdição chinesa, os missionários penetraram no interior do país. E, quando as autoridades chinesas os aprisionavam, eram conduzidos à mais próxima legação diplomática de um país ocidental, onde nunca sofriam qualquer punição porque não podiam ser considerados criminosos pelas leis de seus países. Dessa forma, os religiosos ficavam livres para retomar suas atividades no interior do país.

Quebrou-se assim o secular isolamento do Império Chinês que, incapaz de enfrentar a superioridade militar dos países ocidentais e de não aceitar suas imposições, teve de ceder até mesmo ante os que não recorreram à força. Tais acontecimentos refletiram-se em alguns setores do governo chinês, que passaram a propor, entre outras coisas, a assimilação da técnica militar das potências ocidentais, a fim de poder enfrentá-las em pé de igualdade, argumentando que a força era a única linguagem compreendida pelos europeus. Os defensores dessa teoria, que estavam em franca minoria nos meios governamentais, foram derrotados pelo conservadorismo dos membros da dinastia Manchu e dos mandarins. Presos à velha tradição de não manter contato com estrangeiros, esses elementos conservadores pretendiam controlar a penetração dos ocidentais fazendo-lhes algumas concessões e, ao mesmo tempo, manipulando-os por meio da mentira ou da astúcia, conforme a situação o exigisse. Tal estratégia, no entanto, revelou-se demasiadamente ingênua ante a firme determinação das potências ocidentais no sentido de intensificar a exploração do comércio com a China, sobretudo considerando-se que esta se apoiava no poder das armas.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 146-148. Volume V.

NOTA: O texto "A Guerra do Ópio" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Os condenados da Terra

Criança geopolítica assistindo ao nascimento do novo homem, Salvador Dali.

Nossos soldados no ultramar rechaçam o universalismo metropolitano, aplicam ao gênero humano o "numerus clausos"; uma vez que ninguém  pode sem crime espoliar seu semelhante, escravizá-lo ou matá-lo, eles dão por assente que o colonizado não é semelhante do homem. Nossa tropa de choque recebeu a missão de transformar essa certeza abstrata em realidade: a ordem é rebaixar os habitantes do território anexado ao nível do macaco superior para justificar que o colono os trate como bestas de carga. A violência colonial não tem somente o objetivo de garantir o respeito desses homens subjugados; procura desumanizá-los. Nada deve ser poupado para liquidar as suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir sua cultura sem lhes dar a nossa; é preciso embrutecê-los pela fadiga. Desnutridos, enfermos, se ainda resistem, o medo concluirá o trabalho: assentam-se os fuzis sobre o camponês; vêm civis que se instalam na terra e o obrigam a cultivá-la para eles. Se resiste, os soldados atiram, é um homem morto; se cede, degrada-se, não é mais um homem; a vergonha e o temor vão fender-lhe o caráter, desintegrar-lhe a personalidade. A coisa é conduzida a toque de caixa, por peritos: não é de hoje que datam os "serviços psicológicos". Nem a lavagem cerebral [...] E não afirmo que seja impossível converter um homem em animal; digo que não se chega a tanto sem o enfraquecer consideravelmente; as bordoadas não bastam, é necessário recorrer à desnutrição. É o tédio com a servidão. Quando domesticamos um membro da nossa espécie, diminuímos o seu rendimento e, por por pouco que lhe damos, um homem reduzido à condição de animal doméstico acaba por custar mais do que produz. Por esse motivo os colonos vêem-se obrigados a parar a domesticação no meio do caminho: o resultado, nem homem, nem animal, é o indígena. Derrotado, subalimentado, doente, amedrontado, mas só até certo ponto, tem ele, seja amarelo, negro ou branco, sempre os mesmos traços de caráter: é um preguiçoso, sonso e ladrão, que vive de nada e só reconhece a força.

Extraído do Prefácio de Jean-Paul Sartre à obra: FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 9-10.