"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 19 de março de 2015

A Europa depois de Roma

Guerreiros germânicos, Philipp Clüver

Na Europa, os séculos anteriores e posteriores à queda do império ocidental formaram um período tumultuado, à medida que onda após onda de invasores, eles próprios empurrados por outros ciclos de povos entrando na Europa pela Ásia, abria caminho através do continente procurando uma residência permanente.

Uma consequência da fragmentação do império ocidental, e do povoamento das regiões setentrionais pelos recém-chegados, foi o surgimento de novos idiomas. [...] o latim falado nos anos de decadência do império era reconhecivelmente a mesma língua. À medida que o império cedia terreno para uma variedade de chefetes independentes, a língua se libertava. [...] Ao longo dos oito ou nove séculos seguintes, eles se transformaram nas línguas românicas, como o italiano, o espanhol, o português, o francês e o romeno. [...] Mais ao norte, contudo, onde os invasores se viram em territórios esparsamente povoados, não houve pressão para adotar os hábitos de fala da população local e seus descendentes, separados por rios, mares e montanhas, gradualmente desenvolveram dialetos que mais tarde se tornariam o holandês, o alemão e o sueco.

Nas terras baixas da Bretanha, onde uma cultura romana floresceu por séculos, seria de se esperar que os recém-chegados adotassem p latim [...]. Mas isso não aconteceu. Eles mantiveram sua língua germânica, que acabaria se tornando o que conhecemos com inglês. [...].

Ambos os grupos linguísticos - o germânico e o latim - eram membros da família indo-europeia, que se originava de algum lugar nas regiões da estepe onde a Europa se encontra com a Ásia. A leste das terras ocupadas por povos falantes de germânico, os eslavos praticavam um terceiro grupo de dialetos indo-europeus, os predecessores do tcheco, servo-croata e russo. [...]

Uma sucessão de epidemias, que provavelmente incluía varíola, sarampo, gripe e peste, atacou as terras densamente povoadas em torno do Mediterrâneo do século II ao VII. Elas sem dúvida desempenharam um proeminente papel no enfraquecimento do império ocidental. Durante esses séculos, ondas de povoamento desembocaram nas regiões esparsamente povoadas ao norte. Como em toda parte, povoamento significava agricultura. [...] Esses povos contavam com o conhecimento acumulado das populações existentes no norte e dos povos civilizados do sul, e suas novas terras tinham solo fértil e chuva abundante. O clima frio favorecia trigo, cevada, aveia e centeio. Além disso, a chuva constante significava pasto vistoso, que significava vacas felizes. [...] À medida que derrubavam florestas e preparavam novas terras para cultivar, a produção de alimento cresceu e sua população aumentou ainda mais. [...]

[...]

A nova tecnologia mais importante foi o pesado arado de duas rodas, com uma lâmina de ferro que cortava a camada superior de grama e solo, uma relha de ferro e uma aiveca que abria a leira. Com ela era possível trabalhar o terreno mais duro. E, o mais importante, enterrava e matava as ervas daninhas. Ao criar leiras, formava canais para que a água da superfície fosse drenada. [...]

Mas as consequências da introdução do arado pesado foram muito além. Em solos pesados, ele requeria mais de oito bois, comparado com a simples parelha que até então fora suficiente. [...] esse novo arranjo significava que tarefas como semear, gradar e colher também necessitavam de uma organização cooperativa, o que só podia ser feito sob os auspícios de um conselho aldeão. [...] Ele introduziu entre as pessoas a ideia de que os costumes e as instituições não eram imutáveis; acostumou-se ao pensamento, e à prática, do autogoverno, e forneceu uma drástica ilustração da mudança tecnológica. [...]

O número de inovações importantes ocorridas na chamada Idade das Trevas europeia é grande [...]:

1. A implementação da rotação de culturas com três áreas em lugar da rotação precedente, com duas. [...]
2. A introdução do arreio em colar inventado na China, que tornou possível pela primeira vez aos cavalos da Europa puxar cargas pesadas. [...]
3. A introdução da ferradura e do balancim [...] que respectivamente protegia a pata do animal e possibilitava puxar grandes carros.

Mas não foi apenas na agricultura que esses séculos mostraram entusiasmo pela inovação. Em 1044, encontramos o primeiro moinho de marés de Veneza. O Domesday Book, levantamento feito sob as ordens de William I, rei da Inglaterra em 1086, revelou que havia 5 mil moinhos d'água só na Inglaterra. [...]

Enquanto a tecnologia transformava a vida das pessoas, mudanças ocorriam na estrutura social. Nas caóticas condições criadas com o fim da soberania romana e as ondas migratórias, as pessoas procuravam proteção para suas vidas e propriedades. Ao mesmo tempo, indivíduos ambiciosos tiravam vantagem dessas condições para aumentar sua riqueza e influência. A partir desse encontro do desejo por segurança com a avidez pelo poder, brotou gradualmente um novo quadro de composições sociais: a instituição conhecida como feudalismo. Em sua forma mais desenvolvida, consistiu em uma hierarquia de garantias e obrigações mútuas. No nível mais baixo estava o camponês, que tinha o direito de trabalhar, manter e legar sua terra em troca da obrigação de prestar serviço ao seu superior, que podia ser o senhor de uma propriedade ou o abade de um mosteiro. [...] O direito à proteção do camponês por parte de seu senhor criava uma obrigação recíproca sobre esse mesmo senhor de lhe assegurar proteção.

Enquanto o sistema do feudalismo tomava forma, uma batalha pelo poder de um tipo diferente tinha lugar: a luta pelo domínio entre a Igreja e o Estado. [...]

[...]

Os papas não estavam apenas engajados em uma luta contínua pela supremacia com os soberanos seculares do continente; viviam em conflito pela supremacia com a Igreja oriental baseada em Constantinopla [...]. O ano de 1054 testemunhou uma ruptura entre os dois, após prolongada disputa teológica. A partir daí, Roma ficou esperando por uma chance de subjugar a rival oriental.

Quarenta anos depois, a oportunidade se apresentou. Os seldjúcidas - um grupo de tribos turcas muçulmanas sunitas - haviam surgido antes vindos da Ásia e tomando controle da Pérsia (Irã), Mesopotâmia (Iraque) e Síria setentrional. Teoricamente, estavam sujeitos à soberania espiritual do califa de Bagdá, mas seu imperador, o sultão, era o efetivo soberano de toda a região. Após conquistar a Armênia, eles haviam se voltado para o império bizantino, e infligido uma sangrenta derrota sobre seus exércitos [...]. No ano seguinte, eles varreram a Palestina e a Jerusalém ocupada. Aí massacraram milhares de muçulmanos xiitas. Menos tolerantes que seus predecessores árabes, eles também fecharam a cidade para as peregrinações cristãs. Por volta de 1092, postaram-se às margens do Bósforo, em posição para atacar Constantinopla. [...]

O papa Urbano II, sabia aproveitar oportunidade quando surgia. [...] Havia outros benefícios de uma campanha militar contra os turcos. A crescente prosperidade e o aumento populacional na Europa ocidental e setentrional haviam criado uma classe de jovens inquietos de boa estirpe, com tempo de sobra, que precisavam de escape para a agressividade juvenil. Sua inquietação encontrara expressão em mesquinhas guerras e rusgas que se tornaram uma grave preocupação para as autoridades eclesiásticas. Se em vez disso pudessem ser persuadidos a combater os turcos, o povo que ficava para trás podia alimentar esperanças de uma existência mais pacífica. Isso funcionara com o islã, quatrocentos anos antes. A primeira onda de guerra santa sob a liderança Maomé fora parcialmente inspirada na necessidade de encontrar alívio para os instintos belicosos dos jovens membros tribais cujos feudos haviam tornado a vida do povo árabe miserável.

Para os jovens em questão, a oportunidade de matar com consciência limpa, e conquistar butins no processo, não precisou de grande promoção. E uma agora próspera cristandade ocidental dispunha dos recursos para montar o tipo de expedição que o papa tinha em mente.

Em 18 de novembro de 1095, Urbano convocou um conselho na cidade de Clermont, no sul da França. Em uma apinhada assembleia ao ar livre, proferiu um dos discursos mais graves da história europeia, Ele conclamou seu público a decretar uma trégua em suas disputas, a voltar as energias belicosas contra os turcos, a acorrer em auxílio de seus companheiros cristãos no leste e a reabrir a cidade santa de Jerusalém para as peregrinações cristãs. A reação ao seu discurso foi entusiástica. Quatrocentos anos após Maomé, a jihad - conflito sagrado - voltava a ser apregoada. Mas dessa vez os guerreiros marchavam ao som de um hino diferente.

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 139-146.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Panorama político-econômico e movimentos populares no Império

De 1850 em diante o Brasil passou a viver um processo de transformações no plano econômico que teve suas ligações no plano político. Foi nesse momento que o novo setor da classe dominante, mais progressista e responsável pelas transformações, iniciou a luta política na defesa de seus interesses.

A fase denominada de Segundo Reinado foi marcada justamente pela luta entre o grupo conservador e o grupo progressista afinado com o capitalismo. Dessa forma, ia-se travando o embate político em que o setor escravista, em decorrência do fim do tráfico negreiro, via crescer suas dificuldades de revigoramento em virtude da escassez de mão-de-obra, cujo preço de compra não cessou de aumentar.

[...] O aumento da demanda de escravo, advindo da expansão da lavoura, agiu também como fator de elevação do seu preço.

Em consequência, criou-se um problema para as regiões que se encontravam em decadência econômica, pois o trabalho escravo inibia possíveis correntes migratórias de trabalhadores assalariados para essas regiões. Além disso, o reduzido número de escravos não era capaz de satisfazer às necessidades econômicas dessas regiões. Em decorrência, houve uma liberação da mão-de-obra escrava através do tráfico interno, para regiões que se encontravam em desenvolvimento, bem como pela abolição, como foi o caso do Ceará, que libertou seus escravos em 1884.

Escravos numa fazenda de café, Marc Ferrez

A introdução da usina na produção de açúcar marcou a tentativa de recuperação da economia nordestina, que passou a ser dotada de um alto nível de produção em escala industrial. Porém, tal inovação logo foi esvaziada pelo capital internacional, que passou a controlar esse tipo de produção.

Na Região Amazônica, devido à produção de borracha, passava-se a utilizar o trabalho assalariado, pois a mão-de-obra escrava era incompatível com tal atividade. A principal característica da exploração do trabalhador nos seringais era a dependência excessiva em que ficava em relação ao patrão, visto que o grande proprietário era o dono de todos os instrumentos na extração do látex. A má remuneração que o trabalhador recebia levou-o a enorme dependência, pois a única possibilidade de conseguir o necessário para sua sobrevivência restringia-se ao pequeno mercado existente dentro dos limites onde trabalhava. [...]

O Império não se alinhava às transformações que se processavam no plano econômico. Tendo como principal base de sustentação política a classe de proprietários de escravos, viu crescer a oposição até mesmo entre seus mais próximos aliados, como aconteceu com a Questão Religiosa que colocou em choque setores da Igreja e o governo. Já a Questão Militar acabou levando o Clube Militar a afirmar que o Exército não mais se envolveria na procura de escravos fugidos.

[...] Em 1872 foi fundado o Partido Republicano Paulista [...]. O Império se enfraquecia sem o apoio inclusive da classe média, personificada nos militares, profissionais liberais, funcionários públicos e clérigos.

[...] Para agravar os problemas, o governo imperial contava ainda com dificuldades econômicas e de abastecimento interno, pois a produção brasileira priorizava o cultivo de produtos primários para exportação [...].

A burguesia comercial, que se encontrava composta em sua grande maioria por portugueses, era a grande beneficiada com tal situação econômica, já que o país não se limitava a comprar somente artigos supérfluos, mas, também, gêneros alimentícios. [...]

O quadro econômico do país foi uma sucessão de déficits orçamentários que perduraram até a década de 1880, gerando, em consequência, uma situação inflacionária. O aumento das emissões de moedas, aliado aos empréstimos externos, colocou as classes não proprietárias em posição cada vez mais delicada, pois a miséria se generalizava.

[...]

A proclamação da República foi o último golpe desferido contra o Império. Sem sombra de dúvida, significativas parcelas dos segmentos médios urbanos, cujo setor militar assumiu papel preponderante, incorporaram a ideologia republicana, favorecendo a desarticulação das bases de sustentação política do regime monárquico. [...]

[...]

Família pobre da Província do Ceará, Fotógrafo desconhecido

[...] lutas sociais violentas ocorreram, refletindo o descontentamento de grupos ou camadas sociais contra a opressão das classes dirigentes:

"Tudo era motivo para revolta e atos de violência. Nas principais cidades, de tempos em tempos, ocorriam motins populares. As decisões governamentais que não tinham apoio ou compreensão popular não eram acatadas. A população revoltava-se contra o registro civil dos nascimentos e óbitos, contra o censo geral da população do Império, contra a aplicação dos novos padrões de pesos e medidas etc. Não realizava simples passeatas de protestos, mas autênticas lutas com mortos e feridos. Além disso, desde a Praieira (1848-1850), havia uma animosidade latente entre grandes proprietários e trabalhadores rurais. A tudo isto somava-se a atuação da imprensa e dos políticos radicais, bem como a luta entre facções da elite, disputando o controle das funções públicas. A difícil situação da economia regional ocasionava o rompimento da precária paz entre as classes sociais, e entre estas e o Estado monárquico. As insurreições, conflitos e violência demonstravam a profundidade das contradições econômicas [...]." (MONTEIRO, Hamilton de Mattos. Nordeste Insurgente (1850-1890). São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 30. Coleção Tudo é História)

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al.]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 20-24.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Aspectos da economia urbana no Brasil Império

É notório que o desenvolvimento industrial na segunda metade do século XIX não correspondeu a nenhum surto de industrialização, até porque nesse momento o capital acumulado não era responsável pela criação de condições objetivas para a formação de uma burguesia industrial. Nesse período, o que ocorreu foram muito mais iniciativas individuais e isoladas que propriamente investimento em larga escala.

[...]

A década de 1880 já foi mais promissora para a indústria. Em 1885 contávamos com 13 fábricas têxteis empregando 1.670 operários e três fábricas de chapéus com 315 operários. Sem esquecer das sete empresas metalúrgicas, nesse mesmo ano, com cerca de 500 operários. Essas informações sobre a expansão da indústria na província de São Paulo, no entanto, servem para demonstrar quão frágil era a indústria brasileira e sua classe operária.

Uma fábrica em 1880, Marc Ferrez

As condições de vida da classe trabalhadora no meio urbano, em especial na cidade do Rio de Janeiro, eram muito ruins. Para as autoridades, o alto índice de mortalidade explicava-se pela insalubridade das moradias e dos locais de trabalho.

O Rio de Janeiro teve, na segunda metade do século XIX, um aumento de sua população sem que com isso fosse acompanhado, de forma planejada, a construção de habitações, o que ocasionou a superlotação em casas de cômodos, onde a circulação de ar se tornava deficitária. Esta situação, agravada pelas péssimas condições de alimentação, fragilizava ainda mais a saúde da classe trabalhadora, que se tornava vítima fácil de doenças, em sua maioria, fatais.

[...]

Uma questão a ser observada, por ter tido influência no agravamento do problema habitacional, foi a do elevado preço dos transportes no Brasil. Este transporte era constituído basicamente com o objetivo de carga e não de passageiros. Isto, quando ocorria, era para atender a uma elite. Dessa forma, a população que constituía a mão-de-obra barata para os capitalistas ficava impossibilitada de procurar os subúrbios, onde a moradia era de valor mais acessível. Esse fato levou a população a se concentrar mais próximo da região central da cidade do Rio de Janeiro para não precisar se locomover de grandes distâncias para o local de trabalho. Tal concentração agravava, assim, o problema habitacional urbano.

Entretanto, esse era um período de crescimento econômico principalmente na região cafeeira. Dessa forma, a circulação de capitais nessa região incentivou, igualmente, o desenvolvimento de outros setores, em especial o terciário. Nesse contexto, a capital do Império [...] foi grandemente beneficiada aumentando a oferta de serviços que proporcionavam maior conforto aos seus habitantes. Este foi o caso da instalação da linha de barcas, em 1870, ligando a Corte a Niterói, bem como a extensão, no mesmo ano, da linha de bonde até o Caju.

Companhias estrangeiras de transporte passaram a explorar os serviços, possibilitando, com isso, rápida oferta de linhas de bonde que buscavam integrar vários pontos distantes da cidade à vida urbana.

"O bonde de tração animal é o veículo que revoluciona os costumes da população. Sua presença altera os hábitos do fluminense: ele aproxima as famílias e permite a descoberta de locais distantes, afastados [...]. Sua exploração é bom negócio e algumas empresas estrangeiras a ele se dedicam. [...] O bonde, dizíamos, renova os costumes, traz mais conforto, facilita o convívio na rua e os encontros. Mas traz consigo, também, muitos dissabores. Desprovidos de segurança, provocam acidentes. [...]

[...] Nem por isso desaparecem de pronto os meios de transporte primitivos. Ainda se anunciam e ainda rodam a vitória, a caleça, o faeton (ou faetonte), o timon. O tílburi circula há alguns anos mediante sistema organizado. Seu uso vai perdurar até o alvorecer do século XX [...]". (RENAULT, Delso. O dia-a-dia no Rio de Janeiro: segundo os jornais, 1870-1889. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982)

A melhoria dos transportes trouxe, também, maior oferta de lazer. Confeitarias foram instaladas, tornando-se locais de encontro de intelectuais e boêmios. A Corte igualmente se beneficiou com o funcionamento de vários teatros [...].

Com as transformações que se processavam no plano material, comportamentos, ideias e valores começaram a se alterar de forma mais acentuada. Com a expansão da imprensa, na década de 1870, presencia-se o avanço ao questionamento da ordem econômica, fazendo circular ideias de liberdade econômica, de autonomia das regiões e de reforma administrativa.

A imprensa, nesse final de século, principalmente no eixo Rio-São Paulo, acompanhou as transformações vividas. [...] Entretanto, cabe ressaltar que o número de alfabetizados girava em torno de 16% da população [...].

[...]

Sinais de novos tempos apontavam que, de forma rápida, o país aumentava a sua renda. A economia de tipo colonial baseada na mão-de-obra escrava e na monocultura, ligada a interesses externos, viu sua renda mudar de mãos: da classe escravocrata para o incipiente setor capitalista que se desenvolvia.

Esse avanço econômico teve como consequência a maior divisão do trabalho no meio urbano.

[...]

A expansão da economia ligou-se ao acréscimo de capitais provenientes do fim do tráfico negreiro. Toda essa expansão foi também acompanhada de perto pelo crescimento das cidades [...]. Dessa forma, a criação de companhias de transporte, iluminação pública a gás, água etc. contou com grande participação do capital estrangeiro, que penetrava também no setor de bens de serviço.

[...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al.]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 15-19.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As migrações bárbaras

O encontro entre Átila e o Papa Leão I, Rafael Sanzio

Desde a República, os contatos entre as populações germânicas e o Mundo Romano são mencionados pelos escritores romanos. Esses contatos por vezes eram violentos: em fins do século II a.C., címbrios e teutões invadiram e pilharam a Itália até serem vencidos pelas legiões de Mário em Aix-en-Provence (102 a.C.) e Vercelli (101 a.C.); no século I a.C., o Imperador Augusto enviou expedições para subjugar a Germânia, mas a destruição das legiões de Varo (9 d.C.) resultou no abandono da política de conquistas além do Rio Reno. Os contatos, entretanto, em sua maioria foram pacíficos: Augusto, fundador do Principado, foi quem iniciou a prática de recrutar germanos para integrar as legiões romanas. Desde os Antonino, o recrutamento não era mais de indivíduos, mas de tribos inteiras, que eram alojadas dentro das fronteiras romanas na condição de federados.

À medida que o relacionamento entre o Mundo Germânico e o Mundo Romano se intensificou, modificações processaram-se nas duas sociedades.

Nos séculos IV e V, entretanto, povos inteiros, envolvendo milhares de indivíduos, entraram em massa no Império Romano, levando o pânico e a destruição aonde chegavam. A instalação dessas populações germânicas em territórios romanos acabou precipitando a desintegração do Império Romano: no Ocidente, a antiga unidade imperial fragmentou-se em Reinos independentes, dominados por aristocracias romano-germânicas.

A invasão dos bárbaros, Ulpiano Checa

Essa movimentação de povos germânicos é comumente denominada invasões bárbaras. Essa expressão não é correta, pois "estes movimentos de povos antes são migrações que verdadeiras invasões. Se não foram pacíficas, não se inspiraram na hostilidade que pressupõe o termo invasão [...]. Constituem parte de um conjunto amplo de deslocamentos de populações, que prosseguiram até o século XV e que afetaram não só a parte ocidental do Império Romano mas toda a Europa, a Ásia até a China, e a África do Norte." (GENICOT, L.; HOUSSIAU, P. Le Moyen Âge. Tournai: Casterman, 1959. p. 17.)

Que razões determinariam essa imigração em massa nos séculos IV e V? Entre outras, a busca de novas terras para cultivo e sobretudo para criação do gado, uma vez que a tendência ao resfriamento das frias estepes (tundra) da Europa Setentrional vinha acarretando um progressivo deslocamento de povos para a Europa Meridional. Não se pode deixar de considerar também que as riquezas existentes no Império Romano funcionaram como fator preponderante para os germanos atravessarem fronteiras desguarnecidas ou precariamente defendidas: o saque ainda era uma prática bastante usual entre eles.

É inegável, porém, que foi a chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental o fator preponderante para a grande movimentação de povos germânicos: o avanço dos hunos para o Ocidente levou os germanos a recuar, buscando segurança contra esses temíveis invasores.

Os hunos eram povos tártaro-mongóis e procediam de regiões asiáticas fronteiriças à China. Não se conhecem com exatidão as razões que as teriam levado a migrar para as planícies europeias. Bastante primitivos, levaram uma existência nômade, criando seus cavalos, vivendo em carroças e tendas. Eram exímios cavaleiros e arqueiros, e seguiam um chefe que lhes garantisse vitórias capazes de possibilitar pilhagens compensadoras.

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos, a fim de destruir aí todo o germe de barba [...] Não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece, carne esta que esquentam, por algum tempo, sobre o dorso de seu cavalo entre suas próprias pernas. Não possuem abrigo. Entre eles não se usam casas, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana. Passam a vida percorrendo as montanhas e as florestas, enrijados desde o berço contra o frio, a fome, a sede [...] A cavalo dia e noite [...] dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura." (Descrição dos hunos feita pelo historiador romano Amiano Marcelino (320-390). Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 151-152.)

A chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental provocou intensa movimentação de povos germânicos: ao se deslocarem, recuando diante dos hunos, empurravam-se uns aos outros, terminando por se espalharem pelo Império Romano.

Os primeiros a sofrer o impacto dos hunos foram os godos: incapazes de enfrentarem as velozes e ferozes hordas húnicas, os ostrogodos recuaram, obrigando os visigodos a atravessarem o Rio Danúbio (talvez em número de 200 mil) e a buscarem uma ilusória segurança no interior do Império Romano. Acolhidos como federados pelo Imperador Valente (376), a impossibilidade de alimentar tão numerosa massa humana logo transformou os visigodos em saqueadores, que, em seu avanço pelos Bálcãs, a tudo destruíam. A tentativa romana de submetê-los resultou em fragorosa derrota em Andrinopla, onde o próprio Imperador Valente foi morto (378). Era o sinal de novos tempos: a superioridade da cavalaria germânica sobre as tropas imperiais romanas.

Em fins do século IV, os visigodos, sob a chefia de Alarico, abandonaram a Trácia, onde novamente haviam se tornado federados, e recomeçaram suas andanças: pilharam os Bálcãs e se dirigiram para a Itália; tomaram e saquearam Roma (410), marcharam para o sul da Península, destruindo Cápua e Nola. A morte de Alarico paralisou-os momentaneamente.

O saque de Roma pelos vândalos, Heinrich Leutemann

Nesse meio tempo, os vândalos, suevos e alanos (406), aproveitando-se do desguarnecimento das fronteiras do Rio Reno - as legiões haviam sido deslocadas para a Itália a fim de lutarem contra os visigodos - entraram aos milhares pela Gália. Fugiam dos hunos, mas atrás de si deixavam o incêndio, a destruição. a morte... Prosseguiram até a Península Ibérica, onde foram reconhecidos como federados (411): os suevos e uma parte dos vândalos estabeleceram-se na Bética (a futura Andaluzia), enquanto os alanos ocuparam o Vale do Ebro, espalhando-se até a Lusitânia (o futuro Portugal).

"Os bárbaros arremetem pelas Espanhas. O flagelo da peste causa igualmente grande desordem. A tirania dos cobradores pilha as rendas e fortunas, escondidas nas cidades. A soldadesca as esgota. A fome campeia tão atroz que, sob o império dela, os homens devoram carne humana [...] Os animais, acostumados aos cadáveres dos que haviam perecido pela fome, pelo ferro, pela peste, matam mesmo os homens em plena força [...] Assim, os quatro flagelos do ferro, da fome, da peste, dos animais campeiam em toda a parte [...]" (Depoimento do cronista romano Idaco, que viveu no século V. Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 83-84.)

Aproveitando a brecha aberta e o caos reinante na Gália, novos invasores atravessaram o Rio Reno: os alamanos apoderaram-se da Alsácia, e os burgúndios ocuparam regiões entre Spira e Worms.

No mesmo ano, anglos, saxões e jutos assaltaram a Bretanha.

Mas a paz ainda não voltara à Gália, pois nova invasão ocorreu: os visigodos, agora chefiados por Ataulfo (410-415), abandonaram a arruinada Península Italiana e se lançaram sobre a Gália Narbonesa, onde se tornaram federados (413), o que não os impediu de ocupar a Aquitânia. O assassinato de Ataulfo, que chegara a reivindicar o cargo de Imperador, provocou novas mudanças:

- os visigodos receberam a incumbência de reconquistar a Península Ibérica;
- os vândalos, expulsos da região que ocupavam, passaram ao Norte da África, onde o Reino dos Vândalos foi organizado na época de Genserico (428-477);
- os alanos, submetidos aos visigodos, fixaram-se a noroeste da Península Ibérica;
- os suevos formaram seu Reino em terras da Galícia e atual Portugal;
- os visigodos, por sua vez, criaram seu Reino que englobava a Península Ibérica e a Aquitânia (na atual França).

Parecia, enfim, que a paz retornara ao Ocidente. A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha dos Campos Mauríacos, às vezes erradamente chamada de Campos Catalúnicos. Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea, composta de legiões romanas e contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos.


Apesar de vencidos, os hunos, sempre sob a chefia de Átila, o chamado "Flagelo de Deus", lançaram-se, no ano seguinte, sobre a Itália. Cidades foram saqueadas, sendo a destruição e a ruína a marca da passagem da horda huna no caminho para nova pilhagem de Roma. Atingidos pela fome e pela peste, os hunos renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península, recedendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram, voltando ao nomadismo pastoril.

Genserico saqueando Roma, Karl Briullov

Ao longo do século V, novos Reinos foram-se organizando em meio à deposição do último Imperador do Ocidente (476) e à chegada de novos invasores, como os ostrogodos que se estabeleceram na Itália, onde o Reino dos Ostrogodos foi organizado no governo de Teodorico.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 418-422.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Reforma e a Idade Moderna

Cena do filme "Lutero", dir. Eric Till (Alemanha, 2003)

À primeira vista, a Reforma parece ter renovado a ênfase medieval no outro mundo e invertido a tendência ao secularismo que se registrara na Renascença. Atraídos pela antiga doutrina estóica da vontade autônoma, os humanistas da Renascença haviam rompido com a rígida visão de Agostinho do pecado original - uma natureza humana corrupta e a incapacidade do indivíduo de alcançar a salvação mediante seus próprios esforços. Lutero e Calvino, no entanto, viam os seres humanos como essencialmente depravados e corruptos e rejeitavam por completo a noção de que os indivíduos pudessem fazer algo por sua própria salvação; tal afirmação da vontade humana, sustentavam eles, revelava uma perigosa presunção nos seres humanos.

Mas a Reforma contribuiu, em muitos aspectos importantes, para a formação da modernidade. Ao dividir a cristandade em católica e protestante, destruiu a unidade religiosa da Europa, a principal característica da Idade Média, e enfraqueceu a Igreja, principal instituição da sociedade medieval. Fortalecendo o poder dos monarcas às expensas dos órgãos religiosos, a Reforma estimulou o crescimento do Estado moderno, secular e centralizado. Os governantes protestantes repudiaram totalmente a pretensão do papa à autoridade temporal e estenderam seu poder sobre os protestantes recém-estabelecidos em seus países. Nas terras católicas, a Igreja, enfraquecida, relutava em desafiar os monarcas, cujo apoio ela agora necessitava mais do que nunca. Essa subordinação da autoridade clerical ao trono permitiu que os reis construíssem Estados centralizados fortes, um atributo da vida política do Ocidente moderno.

Embora a monarquia absoluta tenha sido o beneficiário imediato da Reforma, o protestantismo contribuiu indiretamente para o crescimento da liberdade política - outra característica do Ocidente moderno. Com certeza, nem Lutero nem Calvino defendiam a liberdade política. Para Lutero, um bom cristão era um súdito obediente. Assim, segundo ele, os súditos deviam obedecer às ordens de seus governantes. [...] Os calvinistas criaram em Genebra uma teocracia que regulava de perto a vida privada dos cidadãos, e Calvino condenava veementemente a resistência à autoridade política como iníqua. Sustentava que os governantes eram escolhidos por Deus e que a punição dos maus governantes cabia somente a Deus e não aos súditos.

Não obstante, a Reforma propiciou também uma base para se desafiar o poder dos monarcas. Alguns teóricos protestantes, sobretudo calvinistas, apoiavam a resistência às autoridades políticas cujos editos, na opinião deles, violassem a lei de Deus tal como expressa na Bíblia. A justificativa religiosa para a rebelião contra governos tirânicos estimulou nos calvinistas ingleses, ou puritanos. a resistência à monarquia no século XVII.

A Reforma promoveu a ideia da igualdade, que tem raízes na crença judaico-cristã de que as pessoas são todas criaturas de um único Deus. Em dois aspectos importantes, contudo, a sociedade medieval infringia o princípio da igualdade. Em primeiro lugar, o feudalismo reforçava as distinções hereditárias entre nobres e plebeus. A sociedade era hierárquica [...]. Em segundo, a Igreja medieval ensinava que somente os clérigos podiam ministrar os sacramentos, que era o meio pelo qual as pessoas podiam alcançar a salvação [...]; Lutero, por sua vez, afirmava que não havia distinção espiritual entre os leigos e o clero. Todos os crentes eram iguais em espírito [...].

A Reforma contribuiu também para a criação da ética individualista que caracteriza o mundo moderno. Uma vez que os protestantes, ao contrário dos católicos, não tinham nenhum intérprete oficial das Escrituras, ficava a cargo do indivíduo a terrível responsabilidade de interpretar a Bíblia de acordo com os ditames de sua consciência. Nenhuma igreja lhes fornecia segurança ou certeza, e nenhum clero interferia em sua relação com Deus. [...]

Para o protestante, a fé era pessoal e intrínseca. Essa nova ordem demandava uma relação pessoal entre cada indivíduo e Deus e chamava a atenção para as inerentes capacidades religiosas do indivíduo. Certos de que Deus os escolhera para a salvação, muitos protestantes desenvolveram a autoconfiança e segurança que distinguem o indivíduo moderno. [...] 

Ao ressaltar a consciência individual, a Reforma pode ter contribuído para o desenvolvimento do espírito capitalista, que fundamenta a economia moderna. [...] Os homens de negócio protestantes acreditavam  ter a obrigação religiosa de enriquecer, e sua fé lhes dava a autodisciplina necessária para isso. Convencidos de que a prosperidade era uma bênção de Deus e a pobreza sua maldição, os calvinistas tinham o estímulo espiritual para trabalhar com diligência e evitar a preguiça.

De acordo com a doutrina da predestinação de Calvino, Deus já determinava com antecipação quem seria salvo; nenhuma ação terrena poderia conduzir à salvação. [...] Com efeito, como argumentou Weber, o protestantismo, ao contrário do catolicismo, dava aprovação religiosa ao enriquecimento e ao modo de vida dos negociantes. [...]

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 244-246.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Colombo: um santo ou um demônio?

Colombo: um santo ou um demônio?

"O mundo não é tão grande como diz o povo".
(Cristóvão Colombo, em carta de 1503 aos Reis  Católicos)

O futuro Almirante da Espanha teve seu batizado no mar a serviço de um corsário francês, chamado René de Anjou, que combatia, entre outros, o próprio rei Fernando de Aragão. Este foi o mesmo que, a partir da união com Isabel, rainha da vizinha Castela, participou do processo de unificação da Espanha, o que não significou unidade nacional porque ambos os reinos continuaram sendo autônomos, unidos apenas na figura dos soberanos.


Um naufrágio levou Colombo para as costas de Portugal. Através da Escola de Sagres, aprendeu as últimas técnicas de cartografia, astronomia, a arte da navegação e da construção de navios. Utilizando a ciência em voga naquela época, misturada com profecias, citações bíblicas e frases de Aristóteles e dos santos da Igreja, montou a tese de que era possível alcançar a Índia viajando para o Oriente.


Como não foi levado a sério pelos cientistas de Portugal, que o acusavam de ser "mentalmente insano", nem pela Coroa lusitana interessada em atingir as Índias passando pelo lado sul da África, preferiu viajar para a Espanha onde teria a oportunidade única de conciliar o pensamento metafísico com o científico. Sem essa combinação da fé com a ciência não teríamos o descobrimento.


Durante os seis anos em que Colombo permaneceu na Espanha, passou a maior parte de seu tempo discutindo com os teólogos espanhóis, analisando os devaneios dos chamados padres da Igreja para tentar convencê-los, sem êxito, de que não existia nada nas Santas Escrituras contra sua tentativa de encontrar um novo caminho para o Oriente.


Fernando, ainda que sem saber que havia sido combatido por Colombo, não aceitava o envolvimento do Reino de Aragão nessa aventura, enquanto Isabel apostava nas ideias do genovês como forma de superar Portugal, contra a opinião dos teólogos da Corte. O resultado será que a América pertencerá a Castela, aos castelhanos, e não a Aragão.


Homem de transição da época medieval para o Renascimento europeu, Colombo dominava as melhores técnicas de navegação da época. Seu pensamento lógico-científico ficaria demonstrado na análise feita durante a travessia do Triângulo das Bermudas, na chegada ao mar do Caribe na América Central, quando deduziu que as oscilações bruscas da bússola, que teoricamente deveria estar apontando para o norte, devia-se ao fato de existirem na Terra diversos campos magnéticos, que atraíam sua agulha magnética.


Esse mesmo cientista tentava convencer os reis da Espanha a utilizar as riquezas de seu descobrimento para financiar a última cruzada, com a finalidade de resgatar a Terra Santa das mãos dos árabes. Colombo estava imbuído de um cristianismo medieval, numa época em que era impossível não acreditar em Deus ou duvidar da infalibilidade papal, independentemente de esse ser um santo ou um devasso.


Colombo, fanaticamente religioso, procurara desesperadamente o "paraíso terrenal" de Adão e Eva em terras americanas. Em seu diário de bordo, escreveu que finalmente o tinha achado na desembocadura do rio Orinoco, na Venezuela, mas negou-se a penetrar nessa espécie de céu sem uma permissão especial do próprio papa, que, para surpresa geral, concedeu-o posteriormente.


Como definir essas diversas facetas de Colombo? nosso almirante oscilava permanentemente entre três direções: efetuava uma interpretação puramente pragmática e eficaz do mundo exterior quando se tratava de assuntos de navegação; ao procurar explicar a natureza desconhecida e recém-descoberta do Novo Mundo utilizava-se de uma interpretação religiosa, colocada como finalidade última de todas as coisas - na Bíblia deveriam estar contidas todas as explicações daquilo que não conseguia entender; registrava detalhadamente, em seu diário, pássaros, plantas, as cores da América, num relato ecológico do estado da natureza na chagada dos espanhóis, natureza essa que desapareceria lentamente à medida que a colonização avançava.


Essa terceira faceta de Colombo, sua submissão absoluta à beleza da natureza, livre de interpretação, de toda utilidade ou função, é típica de uma mentalidade moderna. Mas seu comportamento diante dos índios era bem diferente.


Em seus argumentos privilegiava sua autoridade e não sua experiência. Ele pretendia saber de antemão o que viria a encontrar. A experiência concreta está colocada para ilustrar uma ideia que já possuía através das Santas Escrituras, ou da Ciência, que não a contradissesse, e não para ser investigada, questionada. Não se tratava, pois, de encontrar a verdade e sim de procurar confirmações para uma verdade que ele achava conhecer de antemão.


Colombo não se importava com os abusos sexuais ou a violência de seus homens com os índios, mas se preocupava muito quando se tratava de seu patrimônio. Durante sua administração não duvidara em mandar enforcar aqueles que se negavam a pagar sua parte no botim da conquista, fixado e concedido pelo contrato com os reis católicos em 10% das rendas conseguidas na exploração das Índias.


O acordo comercial também estabelecia outros 12% sobre os lucros das expedições que ele patrocinasse, concedendo-lhe o título de vice-rei e governador perpétuo das Índias. O desmando e as arbitrariedades de sua administração lhe valerão a prisão e o retorno para a Espanha, auto-acorrentado como protesto pessoal pelo descumprimento do contrato com os reis da Espanha.


Com a morte de Isabel, perdera sua proteção, seu prestígio, seus títulos e suas riquezas. Morreu solitário e pobre num mosteiro, obrigando seu filho a jurar que utilizaria as riquezas, que supunha seriam devolvidas pela Coroa da Espanha, para financiar a última cruzada contra os árabes. Triste fim para o Almirante.


PEREGALI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2011. p. 75-77.

sábado, 27 de agosto de 2011

O Oriente medieval: Bizâncio e Islã Βυζάντιο الإسلام

Os favoritos do Imperador Honório, John William Waterhouse

O triunfo do cristianismo e o estabelecimento de reinos germânicos em terras outrora romanas representaram uma nova fase na história ocidental: o fim do mundo antigo e o início da Idade Média, período que se estendeu por mil anos. No mundo antigo, o centro da civilização greco-romana estava no mar Mediterrâneo; o coração da civilização medieval transferiu-se para o norte, para as regiões da Europa que a civilização greco-romana mal havia penetrado. Durante a Idade Média desenvolveu-se na Europa uma civilização comum, que integrou elementos cristãos, greco-romanos e germânicos. O cristianismo estava no centro da civilização medieval; Roma era a capital espiritual, e o latim, a língua da vida intelectual, enquanto os costumes germânicos impregnavam as relações sociais e jurídicas. Na Alta Idade Média (500-1050), a nova civilização lutava para tomar forma; no período de 1050 a 1300, a civilização medieval atingiu seu apogeu.

Das ruínas do Império Romano surgiram três novas civilizações baseadas na religião: Bizâncio, o Islã e a cristandade latina (Europa central e ocidental).


Mehmed II entrando em Constantinopla, Fausto Zonaro

Βυζάντιο

* Bizâncio. Βυζάντιο Embora o Império Romano do Ocidente tivesse caído diante das tribos germânicas, as províncias do Oriente sobreviveram - por serem mais ricas, urbanizadas e populosas, e porque os invasores germânicos e hunos visavam principalmente o oeste. Nas regiões orientais tomou forma a civilização bizantina. Sua religião era cristã; a língua e a cultura, gregas; e a máquina administrativa, romana. A capital, Constantinopla, era uma cidade fortificada, cuja localização dificultava ataques por mar e terra.

Durante a Alta Idade Média, a civilização bizantina encontrava-se econômica e culturalmente muito mais adiantada que o Ocidente latino. Numa época em que poucos ocidentais (cristãos latinos) sabiam ler ou escrever, os eruditos bizantinos estudavam a literatura, filosofia, ciência e direito da Grécia e Roma antigas. Enquanto o comércio e a vida urbana haviam sofrido uma grande regressão no Ocidente, Constantinopla era uma cidade magnífica, com escolas, bibliotecas, praças abertas e mercados cheios.

Com o passar dos séculos, desenvolveram-se muitas diferenças entre a Igreja bizantina e a Igreja romana. O papa resistia às tentativas de domínio do imperador bizantino, e os bizantinos não queriam aceitar o papa como chefe de todos os cristãos. As duas igrejas discordavam em relação às cerimônias, dias santificados, adoração de imagens e direitos do clero. O rompimento final ocorreu em 1054. A Igreja cristã dividiu-se em Católica Romana, no Ocidente, e Ortodoxa Oriental (grega), no Oriente - divisão que perdura até hoje.

Afresco bizantino. Cena da comunhão. Artista desconhecido

Divergências políticas e culturais ampliaram a separação entre a cristandade latina e Bizâncio. No Império Bizantino, o grego era a língua da religião e da vida intelectual; na cristandade latina, predominava o latim. Os cristãos latinos recusavam-se a reconhecer os imperadores bizantinos como sucessores dos imperadores romanos. Os governantes bizantinos tinham poder absoluto e declaravam-se escolhidos por Deus para instituir a vontade divina na Terra. Como sucessores dos imperadores romanos, reivindicavam domínio sobre todas as regiões que haviam pertencido ao Império Romano.

Em seu apogeu, sob o governo do imperador Justiniano - que reinou de 527 a 565 -, o Império Bizantino incluía a Grécia, Ásia Menor, Itália, sul da Espanha e partes do Oriente Próximo, África do Norte e Balcãs. Ao longo dos séculos, os bizantinos sofreram ataques dos lombardos e visigodos germânicos, dos persas, árabes muçulmanos, turcos seldjúcidas e cristãos latinos. O golpe mortal sobre o império foi desferido pelos turcos otomanos, originários da Ásia central, que haviam adotado o islamismo como religião e iniciado a construção de um império. Eles avançaram sobre os bizantinos a partir da Ásia Menor e conquistaram grande parte dos Balcãs. Por volta do início do século XV, o Império Bizantino consistia apenas em dois pequenos territórios na Grécia e a cidade de Constantinopla. Em 1453, os turcos otomanos venceram as grandes muralhas de Constantinopla e saquearam a cidade. Depois de mais de dez séculos, o Império Bizantino chegava ao fim.

Em sua história de mil anos, Bizâncio deixou uma marca significativa na história do mundo. Primeiro, impediu que os árabes muçulmanos avançassem sobre a Europa ocidental. Se os árabes tivessem rompido as defesas bizantinas, grande parte da Europa poderia ter sido convertida à nova fé islâmica. Outro fato importante foi a codificação das leis da Roma antiga, durante o governo de Justiniano. Essa realização monumental, o Corpus Juris Civilis, preservou os princípios da razão e da justiça do direito romano. Os códigos jurídicos de hoje têm, em grande parte da Europa e da América Latina, raízes no direito romano preservado pelos juristas de Justiniano. Os bizantinos conservaram também a filosofia, ciência, matemática e literatura da Grécia antiga.

Os contatos com a civilização bizantina estimularam o conhecimento, tanto no mundo islâmico do leste, como na cristandade latina do oeste. Bizâncio também levou essa sua avançada civilização e o cristianismo ortodoxo aos povos eslavos do leste e sudeste da Europa, inclusive russos. Deu-lhes princípios legais, formas de arte e um  alfabeto (o cirílico) baseado no grego, permitindo que suas línguas passassem a ser escritas.

Conquista de Bagdá por Tamerlão, Ya'qub ibn Hasan, conhecido como Siraj al-Husaini

الإسلام 

* Islã. الإسلام A segunda civilização a emergir depois da queda de Roma baseava-se na nova e vigorosa religião do Islã, surgida no século VII entre os árabes da Arábia. Seu fundador foi Maomé (c. 570-632), um próspero mercador da cidade de Meca. Por volta de 40 anos de idade, Maomé acreditou ter sido visitado pelo anjo Gabriel, que lhe ordenou  "recitar no nome do Senhor". Transformado por essa visão, Maomé convenceu-se de que fora escolhido para servir como profeta. Embora a maioria dos árabes do deserto venerassem deuses tribais, nas cidades e nos centros comerciais grande parte da população tomara conhecimento do judaísmo e do cristianismo, e alguns árabes já aceitavam a ideia de um Deus único. Rejeitando as divindades das religiões tribais, Maomé ofereceu aos árabes uma nova fé monoteísta, o Islã, que significa "render-se a Alá (Deus)".


Construção do Forte de Kharnaq, Kamāl ud-Dīn Behzād

Os padrões islâmicos de moralidade e as normas que regulam a vida cotidiana são fixados pelo Alcorão, que os muçulmanos acreditam conter a palavra de Alá, tal como revelada a Maomé. Para os muçulmanos, sua religião é a conclusão e o aperfeiçoamento do judaísmo e do cristianismo. Consideram os antigos profetas hebreus como mensageiros de Deus e valorizam sua mensagem de compaixão e a igualdade dos seres humanos. Também reconhecem Jesus como um grande profeta, mas não o consideram divino. Para eles, Maomé foi o último e maior dos profetas, mas era totalmente humano. Cultuam apenas a Alá, o criador e soberano do céu e da terra: Deus único e todo-poderoso, misericordioso, compassivo e justo. De acordo com o Alcorão, no Dia do Juízo os incrédulos e os iníquos serão arrastados a um lugar terrível de "ventos abrasadores e água escaldante" e os "pecadores (...) comerão (...) fruto [amargo] (...) [e] beberão água fervente". Aos muçulmanos fiéis que vivem na virtude é prometido o paraíso, um jardim de prazeres carnais e deleites espirituais.

Em pouco mais de duas décadas, Maomé unificou as tribos árabes, envolvidas em constantes disputas, numa força poderosa dedicada a Alá e à difusão da fé islâmica. Após sua morte, em 632, Maomé foi sucedido por seu amigo e sogro Abu Bakr, que se tornou califa. Considerado como o defensor da fé, cujo poder derivava de Alá, o califa governava segundo a lei muçulmana, tal como definida no Alcorão. O Estado islâmico era uma teocracia, em que governo e religião eram inseparáveis [...]. Para os muçulmanos, Deus era a fonte de toda a autoridade legal e política, e o califa era seu representante na terra. A lei divina regulava todos os aspectos das relações humanas. [...] O islamismo era, portanto, mais que uma religião; constituía também um sistema de governo, sociedade e lei que, segundo acreditavam os muçulmanos, unia todos os seus adeptos numa única e abrangente comunidade. [...]


Três mulheres em pé, uma de joelhos tocando alaúde e um rapaz com pandeiro. Artista descnhecido

O Islã propiciou às tribos árabes unidade, disciplina e organização para vencerem suas guerras de conquista. Sob os quatro primeiros califas, que governaram de 632 a 661, os árabes rapidamente dominaram o Império Persa, tomaram algumas províncias de Bizâncio e invadiram a Europa. Os guerreiros muçulmanos acreditavam estar envolvidos numa guerra santa (jihad), cuja finalidade era propagar o islamismo aos infiéis, e aqueles que morressem nessa guerra tinham um lugar garantido no paraíso. Outra razão que contribuiu para a expansão foi desejo de fugir à aridez do deserto árabe e explorar as prósperas terras bizantinas e persas. No leste, o território islâmico estendeu-se até a Índia e as fronteiras da China; no oeste, incorporou a África do Norte e a maior parte da Espanha. [...]

Nos séculos VIII e IX, sob os califas abássidas, a civilização muçulmana entrou na sua idade de ouro. Ela sintetizou, criativamente, as tradições culturais árabe, bizantina, persa e indiana. Durante a Alta Idade Média, quando o conhecimento estava em decadência na Europa ocidental, os muçulmanos forjaram uma civilização superior. A ciência, a filosofia e a matemática muçulmanas basearam-se, em grande parte, nas realizações dos gregos antigos. Os árabes adquiriram o conhecimento grego através das civilizações persa e bizantina, mais antigas, que mantiveram vivo o legado helênico. Traduzindo as obras gregas para o árabe e comentando-as, os eruditos muçulmanos realizaram a grande tarefa histórica de preservar a herança filosófica e científica da Grécia antiga. O conhecimento grego, suplementado pelas contribuições originais dos intelectuais e cientistas muçulmanos, foi então transferido à Europa cristã.

O império árabe, estendendo-se desde a Espanha até a Índia, foi unificado por uma língua, uma fé e uma cultura comuns. [...]

No século XIII, os mongóis, liderados por Gengis Khan, devastaram as terras muçulmanas; no século XIV, dessa vez chefiados por Tamerlão, novamente atravessaram o território árabe pilhando e massacrando tudo o que encontravam pelo caminho. Após a morte de Tamerlão, em 1404, o império mongol desmoronou, abrindo caminho para os turcos otomanos.

O Império Otomano atingiu seu apogeu no século XVI, com a conquista do Egito, África do Norte, Síria e litoral da Arábia. Os otomanos desenvolveram um sistema de administração eficiente, mas não conseguiram restaurar o esplendor cultural, o comércio florescente e nem tampouco a prosperidade que o mundo muçulmano conhecera sob o governo dos califas abássidas de Bagdá.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 146-151.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O fim da Idade Média: florescimento do comércio, das cidades e da cultura

Comerciante de especiarias

Por volta do ano 1000 o mundo cristão, depois de atravessar muitos séculos de desordens e devastações, começou a conhecer certa estabilidade econômica, social e política. O impulso dado ao comércio e o renascer das cidades, como centros de economia e cultura, permitiram à Europa dos séculos XII e XIII atingir um grau cada vez mais elevado de prosperidade.

* Florescimento do comércio. Por longo tempo a terra representara a principal fonte de riqueza. As cidades haviam-se em parte esvaziado e nos feudos abrigara-se a maioria da população empobrecida, durante o longo período de invasões. Quando estas cessaram registrou-se na Europa um sensível aumento de população e os feudos não puderam mais oferecer trabalho e abrigo ao crescente número de habitantes. Além disso, o progresso nas técnicas agrícolas foi diminuindo a necessidade de braços para a lavoura das terras dos senhores feudais. O aumento populacional e o progresso agrícola levaram parte da população camponesa a deslocar-se dos feudos para as cidades.

- Progresso agrícola. Uma série de inovações técnicas permitiu facilitar as tarefas de plantio e de colheita, conduzindo a uma produção agrícola maior. O arado de madeira foi substituído pelo arado de ferro, a charrua, que revolvendo a terra em profundidade, preparou melhor o solo para a obtenção de colheitas fartas. O peitoral, tipo de atrelagem, aproveitando melhor a força do cavalo, facilitou a tração de arados e carretas, antes puxados a bois. A introdução da ferradura para cavalares e muares deu-lhes resistência e mobilidade maiores, permitindo transportes mais rápidos a longa distância. Apareceu na Europa quase simultaneamente com o estribo. A água passou a ser usada como força motriz para funcionamento de moinhos e de serras, antes movidos à mão, dispensando, assim, o emprego de mão-de-obra numerosa. Foi iniciada a cultura da aveia que, substituindo a cevada, melhorou consideravelmente, com seu alto valor nutritivo, a alimentação tanto humana como animal. Intensificou-se a cultura da vinha, tornando-se cada vez mais rendosa, e a criação de ovelhas foi aumentando à medida que um comércio crescente de tecidos de lã exigia qualidade sempre maior de matéria-prima.

Com o aumento populacional cresceu a demanda de produtos agrícolas, levando camponeses a deslocarem-se para outras regiões de terras ainda virgens, que foram desbravadas e cultivadas; derrubaram florestas, drenaram pântanos e conquistaram novas áreas ao mar, construindo diques de proteção.

- Desenvolvimento do artesanato e do comércio. O artesanato que durante muito tempo ficara reduzido, começou a ganhar importância quando elementos provenientes de zonas rurais procuraram novas condições de trabalho nas cidades, aí desenvolvendo  atividades artesanais das mais variadas. Para defender seus interesses os artesãos organizaram-se em ligas, grêmios ou corporações, segundo o ofício que exerciam, sob a proteção de um santo padroeiro. Os objetivos das corporações eram: 1. regulamentar a profissão, a fim de que somente o indivíduo habilitado pudesse exercê-la; 2. controlar a qualidade e o preço do produto, para defender o bom nome da classe e dificultar a concorrência; 3. amparar os artesãos necessitados; 4. dirigir o aprendizado da profissão.

O desenvolvimento do artesanato reativou o comércio; os vários artigos produzidos pelos artesãos começaram a ser vendidos por comerciantes que, a princípio, se deslocavam de aldeia em aldeia, de cidade em cidade (segundo metade do século X).

Assim o comércio foi-se restabelecendo, aumentando gradativamente; as rotas comerciais multiplicaram-se e estenderam-se. Em pontos de confluência dessas rotas localizaram-se, a partir do século XI, importantes feiras, centros de comércio dos mais variados artigos provenientes de países os mais diversos. Desempenharam papel de destaque as feiras da Champanha (França), onde se reuniam, periodicamente, comerciantes de toda a Europa.

Os comerciantes, assim como os artesãos, formaram associações corporativas, ou ligas, para a defesa de seus interesses e a expansão do comércio a vários países. As corporações de comerciantes tornaram-se muito poderosas por volta do século XIII, quando surgiu a mais famosa dessas associações, a Liga Hanseática (de Hansa = companhia), de comerciantes alemães, que chegou a congregar 80 cidades, chefiadas pelos portos de Lübeck, Bremen, Hamburgo e Colônia (no Reno).

As atividades comerciais, de importação e exportação de produtos, irradiaram-se, por mar e por terra, de três grandes regiões econômicas: Itália, Flandres, costas do Mar Báltico.

Portos italianos se enriqueceram comerciando com o Oriente. Veneza importava em larga escala especiarias (cravo, canela, noz-moscada, pimenta), compradas no Egito e na Síria às caravanas mercantes provenientes da Arábia, da Índia e da China. Transportava para a Europa carregamentos de produtos da terra como arroz, laranjas, damascos, figos, passas e produtos fabricados, tais como perfumes, medicamentos, substâncias corantes e tecidos (algodão, seda, gaze, musselina). Para o Oriente, exportava madeiras e armas. Gênova, depois do século XII, passou a exportar para o Oriente os tecidos de lã de Flandres e Florença, que no fim da Idade Média se haviam tornado comercialmente tão importantes quanto as especiarias.

Em Flandres, Bruges adquiriu, no século XIII, extraordinário destaque internacional, substituindo as feiras periódicas que haviam diminuído em virtude de se terem os comerciantes fixado nas cidades. Isso permitiu contato permanente entre comerciantes de vários países, que mantinham em Bruges grandes lojas, depósitos e armazéns. Além disso, era o principal porto de encontro dos navios mercantes do Mar do Norte e do Báltico.

Quando navios alemães, mais pesados, possibilitaram melhor transporte a grandes carregamentos, a Liga Hanseática passou a dirigir o comércio no norte da Europa, conquistando a mesma importância que tinham os portos italianos no Mediterrâneo.

Bruges continuou centro de ativo comércio para onde convergiam os navios da Liga Hanseática, trazendo trigo da Prússia; peles e mel da Rússia; madeira, alcatrão, peixes secos, arenques salgados das regiões escandinavas e levando lã da Inglaterra, sal e vinhos da França.

Não menos de 150 navios sobem o Zwin, dispersam-se pelos canais, e confundem-se, no crepúsculo, os telhados pontiagudos das casas, os campanários das igrejas, as asas abertas dos moinhos com a floresta entrelaçada de seus mastros. Do fundo de seus porões, marinheiros de todas as raças, do poente e do levante, ou dos frios e sombrios países do Norte descarregam numerosos fardos nos quais se encontram, lado a lado, a cera, o cobre, os couros de Marrocos, as especiarias do Egito, da Arábia e do Sudão, as tâmaras do deserto, os limões, as romãs e o azeite de Navarra e de Andaluzia, as peles da Rússia, os metais da Polônia, a cutelaria da Inglaterra, os vinhos das margens do Reno e os da França. (De uma crônica flamenga do século XV)

A quantidade de mercadorias transportadas pela Hansa foi igual ou mesmo maior do que a transportada no Mediterrâneo. No entanto, os capitais empregados e os lucros obtidos foram menores. Daí a grande influência financeira dos comerciantes italianos no fim da Idade Média.

O reflorescimento do comércio trouxe ampla circulação do dinheiro. Apareceram moedas cunhadas em metal precioso: em ouro, o florim (Florença), o ducado (Veneza), o escudo (França), o cruzado (Portugal); em prata, a libra esterlina (Inglaterra), adquirindo todos enorme prestígio nos mercados europeus.

Em conseqüência da importância crescente da moeda, nasceu, da classe dos comerciantes, a profissão de cambista. Os cambistas, além de fazerem o câmbio (= troca) do dinheiro, controlavam o peso e o teor em metal precioso das moedas. Como trabalhavam junto a um banco ou balcão de madeira, passaram também a ser chamados banqueiros. Os primeiros cambistas surgiram na Itália e logo banqueiros da cidade de Florença passaram a facilitar transações comerciais, introduzindo novo sistema de pagamento por meio de cheques e letras de câmbio, a aceitar depósito em dinheiro dos comerciantes ou fazer-lhes empréstimos.

As facilidades nas transações comerciais, os contatos múltiplos entre homens de negócio de vários países enriqueceram de modo extraordinário a classe dos comerciantes, permitindo-lhes tornarem-se uma potência financeira da qual até mesmo os reis chegaram a depender.

* Florescimento das cidades. A retomada da vida econômica, a concentração de atividades artesanais e bancárias nos núcleos urbanos deu enorme impulso às cidades, cuja vida, durante largo tempo, havia dependido exclusivamente da agricultura circunvizinha e de mercados locais que supriam as necessidades mais prementes de seus habitantes.

Além de garantir com suas muralhas proteção e segurança a um número sempre crescente de moradores, as cidades passaram a oferecer boa oportunidade de lucros a todas as classes: comerciantes, artesãos e camponeses das vizinhanças.

Com o aumento da população as cidades tiveram de ampliar-se. À volta do primeiro núcleo fortificado - onde se erguia a catedral, o palácio do bispo e, por vezes, o castelo do senhor de terras - surgiu novo núcleo, também cercado de muralhas, que se foi tornando mais importante do que o primitivo núcleo, à medida que nele se estabeleciam os prósperos artesãos e comerciantes. Os moradores desse segundo núcleo chamaram-se burgueses (da palavra alemã burg = fortificação), constituindo uma nova classe de homens livres, desvinculados do sistema feudal.

A liberdade tornara-se indispensável ao exercício de novas profissões; já no século XII o servo da gleba considerava-se livre depois de ter morado um ano e um dia em uma cidade. Tornou-se conhecida a frase alemã: "O ar da cidade torna o homem livre".

Todo aquele que vier à cidade tem permissão de aqui se estabelecer livremente e sem ser molestado. Quem tiver residido por um ano e um dia na cidade, sem que qualquer senhor tenha exigido sua volta, gozará, daí em diante, e com toda a segurança, de liberdade incontestável. (Dos Direitos da cidade de Friburgo, 1120)

Desde o início do desenvolvimento das cidades os burgueses buscaram instituir governos próprios, as comunas, e lutaram para conseguir os chamados foros ou forais ou cartas de franquia que lhes garantissem esse direito. A autonomia administrativa das comunas, consolidada no século XII, tinha como principal objetivo fortalecer o sistema defensivo da cidade. Era dever de cada morador contribuir de acordo com seus ganhos para a construção e conservação das muralhas da cidade; esse tributo ou imposto pago em benefício do bem comum substituiu o tributo arbitrário fixado pelo senhor feudal em benefício próprio. Os impostos destinavam-se também à construção de mercados, embarcadouros, pontes, igrejas paroquiais, a disciplinar o exercício do artesanato, a controlar o suprimento de gêneros.

Uma cidade, ao tornar-se independente, elegia um prefeito e um conselho de magistrados encarregados de recolher impostos e zelar pela manutenção da ordem e da segurança da comuna. O território de cada comuna tinha os mesmos privilégios que eram conferidos aos seus habitantes; era lugar de refúgio e liberdade; pátria, para os moradores de uma comuna, era a sua cidade e nenhuma pessoa de fora podia nela residir sem prévio consentimento da comuna.

A evolução das cidades rompeu a estrutura feudal, criando um clima propício ao florescimento cultural, ao aparecimento das nacionalidades, dos Estados modernos.

* Florescimento da cultura. Para atender ao crescimento da população e às exigências de uma sociedade ampla e diferenciada foi necessário reorganizar os centros de primeiros estudos (escolas paroquiais), bem como organizar centros de estudos mais adiantados, em conventos maiores. Estes centros de estudos adiantados adquiriram grande importância, estabeleceram regulamentos próprios, constituindo-se em comunidades, semelhantes às corporações de professores e estudantes, e dando origem às universidades, que foram para os burgueses importante fator de ascensão social. Em todas as universidades os estudos eram feitos exclusivamente em latim, facilitando assim aos estudantes de várias regiões seguirem cursos de sua preferência em uma ou outra universidade e aprimorando ao mesmo tempo a formação religiosa tão característica do mundo medieval.

A força da religião cristã e o papel da Igreja influenciaram de modo decisivo todos os setores da vida intelectual e artística. Com as universidades expandiu-se a vontade de saber e os estudiosos preocuparam-se em obter conhecimentos mais vastos, para isso traduzindo para o latim obras científicas e filosóficas de autores gregos e árabes.

No campo da filosofia mereceram grande atenção os escritos de Aristóteles; do confronto de seu pensamento lógico com os ensinamentos da Igreja surgiu a filosifia Escolástica, cujo maior representante foi São Tomás de Aquino. Em sua obra, Suma Teológica, São Tomás tentou resolver a controvérsia surgida entre fé e razão (filosofia aristotélica), declarando que ambas são dádivas de Deus: certas verdades são entendidas pela razão, outras percebidas através da fé.

No campo das ciências, traduções de obras árabes e gregas exerceram grande influência no mundo medieval: permitiram ampliar os estudos matemáticos adotando os algarismos árabes, a álgebra, a trigonometria, a geometria euclidiana; contribuíram para o progresso dos estudos biológicos e médicos.

A invenção da bússola, de outros instrumentos náuticos e do leme fixo das embarcações, o aperfeiçoamento dos guindastes para melhor serviço nos portos e a feitura de mapas de navegação mais precisos deram grande impulso à arte de navegar, abrindo caminho para as descobertas geográficas da Idade Moderna.

A influência da Igreja manifestou-se também em certas produções literárias redigidas em latim. Destacaram-se os autos sacros, peças em torno da vida de Cristo, da Virgem Maria e dos santos, representadas dentro das igrejas e, mais tarde, em adros, em praças de mercado, feiras, edifícios de corporações.

O latim clássico, porém, já não era acessível ao povo, que começara a desenvolver formas literárias em vulgar. Chamou-se vulgar à alteração sofrida pela língua latina em contato com os idiomas falados por diferentes povos em diferentes regiões. Do vulgar foram evoluindo, pouco a pouco, as várias línguas europeias. Nesses idiomas, em fase de evolução, foram escritas narrativas épicas rememorando feitos heróicos nas lutas contra os invasores. Destacam-se: no século VIII, o Beowulf (redigido em anglo-saxão, base do inglês); no século XI, a Canção de Rolando (em francês antigo); no século XII, a Canção dos Nibelungos (em alemão antigo). Vinculadas às cortes medievais, à vida aventurosa e errante dos cavaleiros desenvolveram-se a poesia e a prosa cavalheiresca bem como a poesia lírica, composta por trovadores e menestréis que, de castelo em castelo, cantavam a honra, a coragem, o dever, o amor, a dedicação do cavaleiro e a formosura, a meiguice, a fragilidade de sua dama. No século XIII surgiu Dante Alighieri, o primeiro grande poeta que resumiu a visão filosófica e o espírito religioso do mundo medieval, descrevendo em sua obra Comédia (mais tarde conhecida por Divina Comédia) uma viagem imaginária, simbólica, através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Os escritos de Dante, tanto os redigidos em latim quanto os redigidos no dialeto de lorença, serviram de inspiração a outros poetas e o dialeto florentino deu origem ao italiano.

Assim como a literatura, também a arquitetura, a escultura, a pintura atestam a poderosa inspiração da fé religiosa. A arquitetura foi caracterizada por dois estilos, o românico e o gótico. O estilo românico lembra certas dominantes dos edifícios de Roma antiga. Usou paredes espessas, colunas maciças, arcos redondos, desenvolvendo-se na horizontal. O estilo gótico, cujas principais características são altas colunas e arcos em ogiva, desenvolveu-se na vertical. Paredes menos espessas permitiram a abertura de amplas janelas ornamentadas por magníficos vitrais coloridos. As fachadas das catedrais góticas foram ricamente ornadas de esculturas. Dominando boa parte da Idade Média, o gótico difundiu-se por toda a Europa, marcando também a construção de palácios e edifícios públicos.

Ao lado da pintura, cuja expressão mais significativa é dada pelas obras dos artistas italianos Cimabue e Giotto, alinharam-se as artes menores representadas por esplêndidos trabalhos em esmalte, mármore, bronze, ourivesaria, e em tapeçaria usada para decorar as paredes dos palácios.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 155-163.