"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O golpe de 64 e a ditadura militar 2: a luta armada

A verdade ainda que tardia (detalhe de painel instalado na Câmara), Elifas Andreato

"A guerrilha é uma arma do povo", disse Fidel Castro em outubro de 1967. Portanto, fazê-la sem o apoio da população "é caminhar em direção a um inevitável desastre". A guerrilha isolada afasta o povo da revolução. Esse distanciamento e a solidão ideológica levam às posições extremistas, anulando o potencial revolucionário.

[...]

A guerrilha brasileira foi "desautorizada" pelo PCB desde a viagem de Carlos Mariguela a Cuba [...] em agosto de 1967. O PCB enviou uma carta ao PC cubano, informando que Mariguela não o representava e podia ser expulso do partido por ir a Cuba sem a sua autorização. A resposta de Mariguela revela como certa militância combativa julgava a cúpula do PCB:

Uma direção pesada como é, com pouca ou nenhuma mobilidade, corroída pela ideologia burguesa, nada pode fazer pela revolução. Eu não posso continuar pertencendo a esta espécie de Academia de Letras, cuja única função consiste em se reunir. [...] Em minha condição de humanista, à qual jamais renunciarei, que não pode ser dada nem retirada pelo Comitê Central, pois o Partido Comunista e o marxismo-leninismo não têm donos e não são monopólios de ninguém, prosseguirei pelo caminho da luta armada, reafirmando minha atitude revolucionária e rompendo definitivamente com vocês.


De volta ao Brasil, Mariguela fundou a ALN. O Jornal do Brasil, de 5 de setembro de 1968, publicou a síntese de um longo artigo no qual Mariguela expunha a "estratégia global da guerrilha no Brasil". Não se tratava de uma visão sonhadora. Reconhecia que "os povos que lutam pela libertação jamais se preocupam com o tempo de duração de sua luta". Também não era muito realista, pois negava o foquismo, mas não sabia indicar outro caminho.

As ideias de Mariguela [...] refletiam a disposição das esquerdas armadas em geral: embora sem muita convicção teórica, havia uma certeza - era preciso lutar. Lutar para não se diluir na burocracia do PCB. Lutar para encontrar caminhos e, principalmente, como dizia o programa da ALN, derrubar a ditadura, acabar com o latifúndio, tomar o poder e formar um governo revolucionário.

A ALN se destacou  na guerrilha urbana, mas não foi o único grupo a combater nas cidades ou a tentar estabelecer uma teoria sobre a luta armada. Quase dois anos antes, em 1966, a AP realizava um congresso clandestino no Uruguai, aceitando a luta armada baseada na teoria do foco.

Grupos como a VPR, liderada pelo ex-capitão Carlos Lamarca, começaram a agir. Lamarca, aliás, tinha sido treinado na luta antiguerrilheira pelos norte-americanos, no Panamá. Ele lutou nas cidades e nos campos. No Vale do Ribeira, em São Paulo, rompeu um cerco de 10 mil soldados, fugindo espetacularmente depois de tomar um caminhão das forças de repressão. Já o MR-8 fez a sua estréia em 1969, sequestrando o embaixador dos Estados Unidos.

Participaram da luta armada 5 mil ou 6 mil homens, um contingente insignificante em relação à população brasileira, estimada em 100 milhões de habitantes, em 1970. Não houve, como pretendiam certo otimismo das esquerdas e o pânico do governo militar, uma "guerra civil".

O terrorismo marcou a atuação dos dois lados. O terrorismo do Estado apareceu como uma "defesa natural": uma vez que a censura à imprensa garantia o silêncio sobre a brutalidade "oficial", divulgou-se a ideia de que se combatia os fanáticos que "traíram" o Brasil. Já o terrorismo da esquerda foi mostrado com estardalhaço, sendo as suas vítimas exibidas como mártires inocentes que os comunistas imolavam, deixando órfãos e viúvas.

As esquerdas desgastaram-se muito nesse processo. Talvez por isso - ou por uma decisão tática decorrente da sua melhor organização fora das cidades - o PC do B tenha privilegiado a guerrilha no campo, sem abandonar a urbana. Surgiu, então, a principal guerrilha brasileira. Militantes do PC do B, alguns treinados na China, basearam-se no sul do Pará, dando origem à Guerrilha do Araguaia, às margens desse rio. Eles começaram a atuar na região a partir de 1967 e, em 1970, compunham um grupo de 69 guerrilheiros.

Enquanto a guerrilha na selva ia se fortalecendo, a urbana entrava em declínio. Em 1972, o PC do B tinha três "destacamentos" no Araguaia, cobrindo uma área de aproximadamente 7 mil quilômetros quadrados. Diante de tal êxito, o Exército preparou uma grande operação de "desmonte".

Para combater a Guerrilha do Araguaia, o Exército fez três campanhas, entre abril de 1972 e janeiro de 1973, empregando cerca de 10 mil homens. O número de soldados, o pesado armamento envolvido e a duração do conflito levaram muitos a pensar que se tratava uma guerra civil no Pará. Na verdade, havia o confronto entre pouco mais de sessenta guerrilheiros competentes contra uma força repressiva inepta.

Os guerrilheiros introduziram-se no sul do Pará como posseiros. [...]

Para cativar o povo, os guerrilheiros marxistas costumavam frequentar forrós e candomblés. Alguns se estabeleceram com precárias farmácias e ofereceram os seus "serviços médicos", inestimáveis na região, a quem precisasse. Também participaram das lutas contra os capangas dos latifundiários, afugentando os grileiros contratados para expulsar os posseiros.

Já as forças de repressão, facilmente identificáveis, chegaram torturando. Em Xambioá (GO), a partir de abril de 1972, soldados da Aeronáutica prenderam e torturaram posseiros - queriam "dicas" sobre os "terroristas". Na busca de informações e na "limpeza da área", invadiram casas e incendiaram roças e vendas. Houve casos de moradores espancados, amarrados e exibidos nas poucas aldeias, como exemplo aos que se negassem a cooperar.

Nem os padres escaparam da brutalidade. Existem inúmeros depoimentos sobre a ação militar na região. Cometiam-se atrocidades incompreensíveis para os posseiros [...]. As tropas federais não pouparam sequer os índios. Os suruís tiveram a sua aldeia "desmontada" e cortada por uma estrada para tráfego dos veículos militares; muitos deles foram forçados a servir de "guias" na selva.

O povo da floresta solidarizou-se com os guerrilheiros. Mas não se tratava de uma solidariedade revolucionária nem evitou o aniquilamento da guerrilha. O Exército, a Aeronáutica e as polícias federal e estaduais, ajudados pelos capangas das multinacionais e dos latifundiários, "aprenderam" a lutar. Usando metodicamente a violência, fizeram prevalecer a sua vantagem material. A proporção era de 145 soldados para cada guerrilheiro.

A repressão também recorreu ao apoio "internacional". [...] 

[...] 

A guerrilha foi vencida.

Em uma ditadura militar, orientada pela Doutrina de Segurança Nacional, levantar-se em armas contra o regime constitui um crime gravíssimo. Esperava-se que os guerrilheiros sobreviventes recebessem as mais duras penalizações. Mas isso não aconteceu.

Eles foram condenados a penas de cinco a sete anos de cadeia. Nenhum guerrilheiro respondeu pelos crimes que a Lei de Segurança Nacional punia severamente. A maioria das acusações limitou-se a "prática ilegal de militância política" ou "reorganização de partidos ilegais".

Por quê?

Porque o julgamento desses homens traria a público a Guerrilha do Araguaia. Ao governo Médici não interessava "despertar" a curiosidade interna, e principalmente, do Exterior sobre o combate. Para o governo, dentro do seu triunfalismo, a Guerrilha do Araguaia não aconteceu "oficialmente". Os sobreviventes foram "desqualificados" com penas leves; os mortos, ignorados: legalmente nunca existiram - os seus corpos despedaçados perderam-se na selva. Embora utilizando 10 mil soldados e os recursos logísticos dos latifundiários e das multinacionais, que incluíam até helicópteros, ainda hoje o Exército silencia sobre o assunto.

[...]

A violência da esquerda era consequência das dificuldades da luta armada. Por exemplo, ao se matar um guarda bancário em um dos inúmeros assaltos praticados no período: a morte de inocentes era um risco assumido, mas não desejado. As forças do Estado, porém, torturavam e matavam como norma. Exemplos claros foram a Oban e, mais tarde, o Esquadrão da Morte, criado e liderado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

O Esquadrão da Morte, organização à margem da lei e de brutalidade conhecida, recebeu a proteção de oficiais, políticos e até de juízes sintonizados com a ditadura. Entre 1967 e 1974, "executou" centenas de "inimigos do Estado". Seu objetivo era o extermínio da "escória" - subversivos e criminosos comuns -, dentro de um programa de "limpeza social" de inspiração claramente fascista.

O Estado usou todos os artifícios disponíveis para mascarar a sua brutalidade como um combate civilizado contra os inimigos da pátria. O cerco a Carlos Mariguela, em 1969, por exemplo, envolveu uma série de torturas e invasões de residências, culminando com o fuzilamento do líder comunista em uma rua de São Paulo. A televisão, controlada pela ditadura, noticiou a morte de Mariguela como um ato de defesa dos representantes da lei, que teriam sido atacados pelo guerrilheiro. [...]

[...]

A guerra suja ficou do lado oficial. Antes da derrubada de João Goulart, a direita já havia optado pelo célebre "os fins justificam os meios". Conspiração, corrupção, delação - valeu tudo. Os agentes provocadores foram usados com grande eficiência, destacando-se o cabo Anselmo, que liderou o motim dos marinheiros em 1964, colaborando para a desestabilização do governo. [...]

Os revolucionários de origem marxista não queriam um processo violento. Reagiram com violência quando foram atacados - era a única saída. No geral, os comunistas não reivindicavam a violência como meio de obter a vitória. Paradoxalmente, a justificativa ou o apelo à violência surgiram em setores católicos. O padre Lages, após ser torturado pela sua luta revolucionária contra a ditadura, afirmou em entrevista ao jornal France Observateur:

Faz muito tempo que nas escolas católicas ensina-se que o povo tem o direito de matar o tirano. E o grande tirano de nossos dias é o imperialismo, são os grupos econômicos norte-americanos e aqueles que fazem o jogo desses grupos. [...] Respeitamos Marx, porém consideramos que ele não é infalível e não podia haver previsto nossa situação. É impossível acabar com o imperialismo e com os grupos econômicos que fazem seu jogo sem recorrer à violência. A não-violência é uma ideia muito poética.

Mesmo assim, o padre Lages justifica a sua violência:

À violência estabelecida temos de responder com a violência das massas, com uma revolução socialista, totalmente brasileira, humana, se bem que violenta. Porque a violência já está presente. Está em todas as partes, ao nosso redor; na fome, na prostituição de meninas, na morte dos recém-nascidos, nestes crimes praticados pelo imperialismo.

Como se vê, há violência e violência. Mas o que os militares fizeram foi algo que transcendeu à natureza da própria violência - a violência do regime militar corrompeu e ultrajou a dignidade humana.

CHIAVENATO, Júlio José. O golpe de 64 e a ditadura militar. São Paulo: Moderna, 2006. p. 167-175.

Próximo post: O golpe de 64 e a ditadura militar 3: a repressão.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte IV)

O terrorismo internacional

Símbolo do Islã, Produtor 

O terrorismo internacional aumentava e cada ação bem-sucedida parecia inspirar outra. Era a arma preferida dos que estavam em desvantagem militarmente. Os terroristas se aproveitavam da sensação de contentamento e segurança em países poderosos e prósperos, onde, às vezes, instituições liberais davam cobertura a suas ações. A mídia involuntariamente se tornou aliada dos terroristas ao dar-lhes a publicidade que pediam: sem propaganda maciça, o terror não consegue espalhar-se rapidamente.

No final da década de 1940, o terrorismo havia sido usado de modo dramático pelos extremistas judeus em sua luta pelo controle da Palestina. Duas décadas mais tardem eram os extremistas palestinos que começavam a organizar ações terroristas. Em 22 de julho de 1968, em Roma, três palestinos armados subiram a bordo de um avião comercial israelense. No meio do trajeto para Telavive, ameaçaram explodir a aeronave. Cerca de 110 episódios parecidos aconteceram nos vinte anos seguintes, dos quais metade foi iniciada por palestinos, e um quarto, por iranianos e siques. Outra tática, a de esconder bombas nas bagagens dos passageiros, causou a queda de pelo menos 15 aviões.

Professores e pregadores muçulmanos militantes faziam o recrutamento dos terroristas. Na década de 1980, os escolhidos foram para o Afeganistão com a tarefa de ajudar na expulsão dos invasores soviéticos ateus. Quando a guerra do Afeganistão acabou, o ódio foi direcionado contra os norte-americanos cristãos, apoiadores de Israel e disseminadores de uma cultura materialista que seduzia os jovens muçulmanos.

Um desses recrutas era Osama Bin Laden, cidadão da Arábia Saudita - até seu passaporte ser confiscado. Uma das 57 crianças de uma rica família saudita que se ocupava do próspero negócio da construção civil, ele se ressentia dos elos entre seu país e os Estados Unidos. Adversário religioso da família real, considerava seus membros insuficientemente austeros, portanto desqualificados para a tarefa de portar as chaves de Meca. Foi um membro ativo no combate contra as tropas soviéticas no Afeganistão. Residiu por cinco anos no Sudão, outra nação propagadora da fé islâmica, antes de retornar, em 1996, ao Afeganistão, então nas mãos do Talibã. Lá, ajudou no ensino de jovens muçulmanos, tanto nativos quanto estrangeiros, em questões religiosas e nas práticas terroristas. Bin Laden combinava audácia e inventividade. Suas unidades terroristas foram vitoriosas no final da década de 1990, matando 19 soldados norte-americanos na Arábia Saudita, bombardeando duas embaixadas dos Estados Unidos na África Oriental  (cuasando 260 mortes) e matando marinheiros a bordo do navio de guerra USS Cole, próximo ao Iêmen.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, 19 passageiros incomuns se preparavam para embarcar em vários voos domésticos prestes a partir da costa leste dos Estados Unidos. Eram todos homens, e nenhum deles pareceria deslocado se estivesse no Oriente Médio. Quase todos tinham passagens de primeira classe ou de classe executiva, o que possivelmente os ajudaria quando fossem interrogados ou revistados por guardas e outros funcionários nos aeroportos de Boston, Washington e Newark. Um deles, ao ser abordado, quase não tinha noção do que lhe perguntavam, tão pequeno era seu conhecimento do inglês. Embora se comportasse de modo estranho e não possuísse as identificações adequadas, acabou obtendo permissão para juntar-se aos outros passageiros.

Os quatro aviões iriam voar até a Califórnia e por isso tinham o tanque cheio. O último decolou às 8h42, quase quarenta e cinco minutos depois do primeiro. Logo no início de cada voo, os 19 passageiros deixaram seus assentos e rapidamente começaram a fazer o que haviam planejado. Apunhalando os golpeando qualquer membro da tripulação que tentasse impedi-los, invadiram as cabines dos aviões e aqueles que tinham experiência em pilotar tomaram os controles à força. Seus colegas mais fortes, com a ajuda de sprays de pimenta e outras substâncias irritantes, mantiveram os passageiros afastados da parte frontal do avião. Todas as ações, planejadas nos mínimos detalhes, foram executadas com inteligência e determinação.

Um dos aviões que tinha saído de Boston, ao aproximar-se do centro de Nova York, rumou na direção das torres gêmeas do World Trade Center e despedaçou os pavimentos superiores da torre norte, provocando um incêndio. Todos os que estavam a bordo morreram. O acontecimento foi tão surpreendente que as primeiras notícias foram confusas ou atenuadas. Na Flórida, o presidente George W. Bush estava prestes a fazer uma visita a uma escola de ensino fundamental, quando recebeu uma mensagem dizendo que o arranha-céu havia sido atingido. Essa primeira informação identificava equivocadamente o avião como um pequeno bimotor.

Em Nova York, as equipes jornalísticas fotografavam a torre de 110 andares em chamas, quando, às 9h03, filmaram um avião atingindo a segunda torre. Este também havia sido sequestrado logo após a partida de Boston. As notícias foram transmitidas ao presidente, que então se encontrava em uma sala de aula lendo histórias para as crianças. Ele rapidamente se pôs a caminho do aeroporto, onde um voo de emergência esperava para levá-lo a Washington. A capital também corria perigo - era alvo de um avião que havia decolado de lá e mudado de direção. Às 9h37, essa terceira aeronave, após sobrevoar os arredores da Casa branca, colidiu contra o Pentágono.

Um quarto avião continuava a caminho de Washington, seguindo uma rota indireta. Seu alvo podia ser a Casa Branca ou o Capitólio. Um grupo de passageiros decidiu corajosamente invadir a cabine do piloto e tomar o controle, mas seu contra-ataque fez o piloto invasor perder o comando ou agir precipitadamente. O avião girou e mergulhou na direção de um campo desabitado na Pensilvânia.

Em menos de uma hora, três aviões haviam atingido edificações simbólicas em Washington e Nova York. O combustível agiu como explosivo e destruição causada pelo fogo foi imensa. Na torre norte do World Trade Center, centenas de pessoas acima do 92º andar morreram instantaneamente e outras centenas ficaram encurraladas, pois tanto os elevadores quanto as escadas estavam bloqueados. O edifício ficou em chamas em vários andares e a fumaça negra subia vagarosamente. A torre sul, a segunda a ser atingida, desmoronou às 9h59, matando todos os civis e as equipes de resgate no interior do prédio, além de pessoas nas ruas. A torre norte, tomada cada vez mais pelas chamas, resistiu por mais meia hora e também desabou. Durante um longo período, a quantidade de baixas pôde ser apenas presumida, até que finalmente se chegou ao número de 2.973 mortes.

Os 19 assassinos, que estavam entre os mortos, eram originários do Oriente Médio, principalmente da Arábia Saudita, antiga aliada dos Estados Unidos. Acreditavam ser servos do Islã. A nação que atacaram fora rotulada por seu líder como "a cabeça da serpente". Depois desse episódio, a serpente ficou mais agitada do que nunca.

Na história moderna, nenhuma grande nação havia sido atingida de modo tão devastador no próprio território durante um período de relativa paz. Os Estados Unidos nunca haviam perdido tantas vidas num ataque em solo norte-americano. O aspecto completamente teatral do episódio fez a conquista da Lua parecer um acontecimento quase sem importância. O fato de a investida contra a segunda torre ter sido vista ao vivo pela televisão em lugares tão distantes quanto a Suécia e a Nova Zelândia tornou o acontecimento ainda mais chocante e espantoso.

No mesmo ano, os militantes empreenderam outro ataque, contra um inimigo asiático inerte e envelhecido. Fora dos limites da pequena cidade de Bamiyan, a oeste de Cabul, a capital do Afeganistão, situava-se uma escarpa íngreme onde duas enormes estátuas haviam sido esculpidas, ao longo de muitos anos, em rocha maciça. Eram imagens de Buda, impressionantemente grandes - uma delas tinha a altura de um prédio de 15 andares. Situadas em uma velha rota comercial que cruzava a cordilheira de Hindukush e ligava a Índia à Ásia Central, as imagens serviam de conforto e inspiração, século após século, a uma interminável procissão de viajantes, muito tempo após a região ter sido ocupada pelos muçulmanos. Em 2001, membros do Talibã decidiram que as estátuas eram um sacrilégio, um insulto ao Islã, e destruíram suas faces e outras partes com canhões e foguetes.

No mesmo ano, os Budas gêmeos de uma estrada antiga e as torres gêmeas na capital financeira do mundo foram alvo da destruição empreendida pelas ações violentas daqueles que desejavam redenção. Mas só o que ofereciam, ao buscarem tal redenção, era ódio e violência.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 298-303.

sábado, 4 de maio de 2013

Jerusalém nas perspectivas judaica, islâmica e cristã


Praça do Templo olhando para o Mar Morto em Jerusalém. Tivadar Kosztka Csontváry



Para as Ciências Sociais, a religião é um produto da criação humana. Ela preenche o espaço do desconhecido, daquilo para o que o pensamento racional ainda não encontrou explicação. A religião também é responsável pela formação do pensamento, razão pela qual integra os pilares que criam normas de condutas e valores. Torna-se, assim, um aspecto cultural que muitas vezes pode aproximar ou distinguir um agrupamento humano do outro.

[...]

“A ideia humana de Deus tem uma história, já que sempre significou uma coisa ligeiramente diferente para cada grupo de pessoas que a usou em vários pontos do tempo. A ideia de Deus formada numa geração por um conjunto de seres humanos pode não ter sentido em outra. [...] Por conseguinte, a palavra Deus não contém uma ideia imutável. [...] Sempre que um conceito de Deus deixou de ter sentido ou importância, foi discretamente abandonado e substituído por uma nova teologia. Um fundamentalista negaria isso, pois o fundamentalista é anti-histórico: acredita que Abraão, Moisés e os profetas posteriores experimentaram todos seu deus exatamente da mesma maneira como as pessoas de hoje.” (ARMSTRONG, K. Uma história de Deus: quatro milênios do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 10.)

O Deus dos judeus, cristãos e islâmicos relaciona-se a essa questão pontuada por Karen Armstrong na citação acima. Essas três religiões monoteístas estão ligadas entre si pela crença dos primeiros profetas na fé monoteísta – Abraão e Moisés -, porém cada uma interpreta de forma diferente essa concepção de Deus.

O judaísmo. É a mais antiga das religiões monoteístas citadas. O judaísmo ultrapassa a esfera religiosa e também pode ser entendido como uma tradição cultural. Ser judeu significa ser descendente dos antigos profetas bíblicos Abraão e Moisés.

A crença judaica baseia-se nas escrituras da Bíblia hebraica, composta de cinco livros, entre eles, o Livro de Moisés e a Tora. Além de descrever a criação do mundo, esses escritos tratam da fundação de Israel e das leis divinas, ambas resultantes da aliança estabelecida entre Deus e Abraão e completada por Moisés através das Tábuas da Lei. Em troca da devoção e obediência às leis de Deus, os judeus contariam com a benção e a proteção divinas, sendo, por isso, considerados o povo escolhido. Essa aliança também promete um lar para os judeus na Terra Santa. Ao longo da história desse povo, esse lugar foi identificado como sendo Canaã, Israel e Palestina.

Na crença judaica acredita-se na existência de um messias, que significa “o ungido” e é interpretado como “Aquele que irá reunir o povo judeu, derrotar os seus inimigos e estabelecer o reino de Deus na Terra”.

O cristianismo. No século I nasceu Jesus, em Belém. Em torno desse nascimento, criou-se a esperança da chegada do salvador, do messias. Na Palestina, Jesus teria pregado que era o filho de Deus encarnado na forma humana: o Cristo enviado ao mundo terreno para expiar os pecados humanos e assegurar a salvação de todas as almas para o Reino de Deus, alcançando a vida eterna após o Juízo Final. Alcançariam o prometido os cristãos que seguissem os ensinamentos de Jesus Cristo contidos no livro sagrado dos cristãos, a Bíblia, e que obedecessem aos Dez Mandamentos de Deus, contidos nas Tábuas da Lei de Moisés.

O islamismo. Essa religião foi criada pelo profeta Maomé no século VII. Sabe-se que Maomé participou de inúmeras caravanas comerciais pelo Oriente Médio, o que lhe permitiu entrar em contato com as religiões judaica e cristã. Segundo a fé islâmica, por intermédio do anjo Gabriel, Alá (Deus) revelou-se a Maomé, a quem transmitiu os ensinamentos do Islã, que estão contidos no livro sagrado dos muçulmanos, o Corão. A Suna é um complemento do Corão, no qual se estabelecem os usos e costumes fundamentais nos preceitos de Maomé.

O Corão prega que a religião islâmica é a religião dos profetas hebreus: Abraão, Moisés e Jesus. Cada indivíduo deve adorar a Alá e viver conforme os seus mandamentos, ditados a Moisés. Obedecendo a esses princípios pode-se escapar do fogo do inferno e entrar no céu no dia do Juízo Final. O Islã seria a religião natural para todos os povos.

[...]

Jerusalém, capital de várias religiões e de guerras territoriais.

“Jerusalém [...] ainda é a cidade sagrada de três religiões: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para cada uma delas, Jerusalém era o palco de importantes acontecimentos que estabeleciam o vínculo entre deus e o homem – o primeiro dos quais foram os preparativos de Abraão para o sacrifício de seu filho Isaac num afloramento de rocha, agora oculto por uma cúpula dourada (referência à Cúpula da Rocha, mesquita de grande beleza construída em Jerusalém durante o Período Omíada).” [READ, P. P. Os templários. Rio de Janeiro: Imago, 2001. p. 17.]

Terra Prometida dos Judeus – Jerusalém é o lugar para o qual Abraão se mudou ao ser chamado por Deus. Lá viveram as primeiras tribos dos hebreus, até sobrevir uma grande fome, que os obrigou a tentar atravessar o deserto, quando foram escravizados pelos egípcios.

Depois de anos de cativeiro, os judeus organizaram uma fuga, com o objetivo de retornar à Terra Prometida por Deus a Abraão. Liderados pelo profeta Moisés, eles vagaram durante quarenta anos pelo deserto antes de chegarem a Canaã, atual região da Palestina, onde formaram o Reino de Israel, que foi desmembrado em 993 a.C., ano em que foi criado o Reino de Judá.

Durante o reinado de Davi, a cidade de Jerusalém foi conquistada e, no local onde Abraão teria aceitado imolar seu filho, planejou-se construir um templo para guardar a Arca da Aliança, que foi erigido no reinado de Salomão.

Os reinos de Israel e Judá sofreram sucessivas conquistas e invasões. No ano 70 d.C., a população judaica de Jerusalém foi dizimada pelos soldados liderados pelo imperador romano Tito, para pôr fim à resistência desse povo ao domínio de Roma. Os judeus que sobreviveram foram escravizados e impedidos de retornar à Palestina. [...]

Terra Santa dos cristãos – Jerusalém tornou-se emblemática para os cristãos. A cidade foi visitada por Jesus, que lá pregou suas ideias, realizou milagres, foi feito prisioneiro, julgado, crucificado e enterrado.

No século IV, com a conversão do imperador Constantino, os templos pagãos dos romanos foram transformados em igrejas. Perto do local onde Jesus teria sido crucificado e enterrado construiu-se a igreja do Santo Sepulcro.

Durante todo o período medieval, a Igreja católica difundiu o cristianismo entre a população romana e entre as tribos bárbaras. Jerusalém passou a ser encarada como o centro do mundo para os cristãos, a Terra Santa [...].

Local de peregrinação islâmica – No século VII, enquanto o cristianismo se expandia na Europa Ocidental, no Oriente Médio, a religião islâmica se formava. [...]

A proclamação da guerra santa islâmica levou à expansão dessa religião, que ganhou adeptos na África setentrional, Europa Ibérica, Oriente Médio e Império Bizantino. A cidade de Jerusalém foi dominada no ano 638, porém o califa Omar permitiu a permanência dos cristãos e judeus que ali viviam. Mediante o pagamento do imposto de proteção, eles continuaram a ter permissão para peregrinar por Jerusalém e a ter seu templo preservado. [...]

No século X, os turcos seldjúcidas, tribo nômade da Ásia Central, dominaram Bagdá; converteram-se ao islamismo e iniciaram uma campanha de anexação territorial em direção ao Império Bizantino e Oriente Médio. [...] O Império Bizantino, baluarte do cristianismo no Oriente, estava ameaçado. As rotas de peregrinação a Jerusalém foram proibidas aos cristãos pelos novos senhores de Jerusalém.

Jerusalém: um palco de conflito entre cristãos e islâmicos. No século XI, o papa Urbano II orientou os cristãos europeus a iniciar um movimento de caráter belicoso e religioso, que tinha entre seus objetivos libertar a Terra Santa – Jerusalém – dos “infiéis”. Iniciavam-se assim as expedições que ficaram conhecidas como Cruzadas.

No século XI, a Europa passava por um período de instabilidade social. O crescimento demográfico provocava o aumento de cavaleiros errantes pelas estradas. Isso facilitava a formação de grupos de saqueadores, que assaltavam nas estradas, principalmente nas rotas de peregrinação incentivadas pela Igreja católica. [...]

Nos anos que antecederam o discurso de Urbano II, a Europa viveu períodos de calamidades, enchentes, secas e epidemias. Nesse contexto, a visão apocalíptica do mundo ganhava espaço. A Terra Santa estava nas mãos de pagãos, a figura do anticristo tomava forma e o combate final estaria próximo. Assim, o discurso do papa conclamando os cristãos para uma “guerra justa” parecia fazer sentido para os cristãos entre os séculos XI e XIII.

Os esforços cristãos para libertar Jerusalém do domínio turco não se concretizaram. Durante mais de duzentos anos, legiões de cristãos foram enviados a Jerusalém e Constantinopla. No final, as duas cidades tornaram-se territórios do Império Otomano, situação que não se alterou até 1918.

Ao findar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), partes dos territórios pertencentes ao Império Otomano, que se aliaram aos alemães durante o conflito, foram concedidas à Inglaterra. A partir de 1923, a Palestina esteve sob mandado britânico.

Jerusalém: palco de conflito entre israelenses e palestinos. Desde o século XIX, crescia entre os judeus europeus uma corrente de pensamento propagada por Theodor Herzl, o sionismo, que tinha como objetivo a formação do Estado judeu na Palestina. Esse sonho foi alimentado por séculos de perseguições a que esse povo foi submetido no continente europeu.

Após a Segunda Guerra Mundial, os debates sobre o sionismo ganharam proporções mundiais, aumentando, inclusive, o número de países que apoiavam a criação de um Estado judeu na Palestina. Por outro lado, os conflitos territoriais entre árabes palestinos e judeus ganharam proporções cada vez mais belicistas, formando-se grupos paramilitares de ambos os lados.

Em 1947, após um ataque ao quartel-general dos ingleses na Palestina, a Inglaterra retirou-se da região e submeteu o caso à Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1948, parte da antiga Palestina foi transformada no Estado de Israel pela ONU. Quanto ao Estado árabe da Palestina, a área que fica na margem ocidental do rio Jordão foi anexada pela Jordânia e a faixa de Gaza pelo Egito. Desde então, Israel vem ocupando áreas de influência árabe, o que tem obrigado muitos palestinos a abandonar seu território, tornando-se refugiados.

A população árabe palestina, que habitava a região há séculos, viu-se cada vez mais destituída da posse das terras. Em 1967, enquanto os judeus ocupavam 92% do território, os palestinos ocupavam apenas 8%. A maioria dos palestinos foi confinada em campos de refugiados ou migrou para países árabes fronteiriços. Nesses campos, a consciência árabe vem se desenvolvendo junto a um sentimento religioso fundamentalista, que contribui para tornar a situação na região mais radical e conflitante.

Em 1964, com o apoio da comunidade árabe, foi criada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), financiada por um fundo nacional palestino que recebe contribuições dos governos árabes, e campos de treinamentos militares. Ao lado da luta política, de ambos os lados, desencadeava-se a luta armada, o terrorismo. Vários conflitos entre árabes e israelenses ocorreram nos anos que se seguiram: Guerra dos Seis Dias (1967), Guerra do Iom Kippur (1973) e Guerra do Líbano (1982).

Desde o Tratado de Camp David, celebrado em 1978, a intervenção norte-americana na questão palestino-israelense buscou estabelecer a paz na Palestina, através da assinatura de acordos políticos.

Até agora, esses acordos não conseguiram atender às pretensões territoriais dos povos envolvidos, principalmente no que se refere à faixa de Gaza e Jerusalém. [...]

No centro desses conflitos, acirrados por questões religiosas e culturais, encontra-se a cidade de Jerusalém, considerada patrimônio da humanidade por preservar a memória de diferentes povos que têm os seus passados unidos pela fé no Deus de Abraão. Os israelenses conservadores não aceitam a criação de uma Jerusalém árabe e muito menos a sua internacionalização. Por sua vez, facções extremistas palestinas, como o Hamas, se recusam a dividir o território palestino com os judeus.

Em 1993, o Acordo de Oslo, que pretendia estabelecer a paz entre israelenses e palestinos, definiu um plano para a retirada de tropas israelenses e a devolução de áreas ocupadas aos palestinos. No entanto, os conflitos e ataques terroristas voltaram a ocorrer. As posições extremadas acabaram sendo materializadas na situação em que se encontra hoje a Palestina, palco de uma guerra civil desde o levante da intifada, em 2000.

CATELLI JUNIOR, Roberto. Temas e linguagens da História: ferramentas para a sala de aula no ensino médio. São Paulo: Scipione, 2009. p. 190-192, 194-199.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

11 de setembro de 2001


Às 8h48 do dia 11de setembro de 2001, um boeing 767 da American Airlines foi jogado contra uma das torres de 110 andares do World Trade Center, em Nova Iorque. Começava o pior ataque terrorista já ocorrido na história dos Estado Unidos. Quinze minutos depois, um segundo avião sequestrado atingiu a segunda torre. Um terceiro caiu no interior do Pentágono, o Departamento de Defesa, localizado em Washington. E uma quarta aeronave caiu numa floresta de Pitsburgh, na Pensilvânia.

Esses quatro aviões de passageiros das empresas United Airlines e American Airlines serviram como "mísseis" para destruir prédios em pleno território norte-americano. Uma tragédia que fez desmoronar o mito da invulnerabilidade do país mais poderoso do mundo na atualidade.

Após os ataques terroristas, dezenas de prédios foram evacuados e o estado de emergência foi decretado nas principais cidades americanas.

Os aeroportos de Nova Iorque e Washington foram fechados e o tráfego ferroviário suspenso.

Os terroristas usaram facas e estiletes no sequestro dos aviões, mas as armas utilizadas na resposta americana contra o Afeganistão foram bem diferentes. Após rejeitarem a proposta do Talibã de julgar o saudita Osama Bin Laden, acusado de ser o mentor da tragédia, no Afeganistão, os Estados Unidos atacaram o país com os modernos aviões espiões e mísseis teleguiados.

Os alvos dos bombardeios foram bases e centros de comunicação militares do Talibã e campos da organização terrorista Al-Qaeda ("A Base", em árabe), comandada por Osama Bin Laden. Inglaterra, França, Alemanha e Austrália, entre outros países, anunciaram apoio militar aos EUA, enquanto a reação no mundo muçulmano variava do silêncio à hostilidade.

Em resposta, o grupo do regime extremista declarou uma Jihad, 'guerra santa', contra os Estados Unidos.

Após muitos ataques ao Afeganistão, o terrorista Bin Laden não foi encontrado. Nas regiões montanhosas de Tora Bora, todo o complexo de cavernas construído na década de 1980 foi vasculhado por mais de sete mil soldados estrangeiros. Após três meses de guerra, os talibãs perderam o poder que mantiveram por cinco anos. Os norte-americanos fizeram cerca de oito mil prisioneiros.

O mundo islâmico se divide entre amor e ódio em relação a Bin Laden. Com sua fortuna atual variando entre 270 e 300 milhões de dólares, o décimo sétimo dos 52 filhos do milionário saudita da construção civil, Mohammed Bin Laden, se uniu, aos 22 anos, aos muçulmanos do Afeganistão que lutavam contra a ocupação soviética na década de 1980. Bin Laden financiou o terror, mas também contribuiu para a construção de escolas, hospitais, estradas e até um aeroporto. Formou um exército de mercenários provenientes de várias regiões do Oriente Médio.

A partir de 1991, na Guerra do Golfo, o saudita direcionou seu ódio aos Estados Unidos. Ele se opunha à presença de tropas norte-americanas na Península Arábica, alegando se tratar de solo sagrado.

Mesmo se posicionando ao lado do Iraque, ainda tentou uma saída política, apresentando propostas que evitassem a "profanação" do solo árabe, mas ficou enfurecido ao saber que militares norte-americanos estavam a caminho. Terminada a guerra, sua ira aumentou mais ainda com a instalação de uma base militar permanente dos Estados Unidos na Arábia. [...] Os atentados terroristas contra os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, deixaram um saldo de mais de três mil mortos.

A economia mundial sentiu o impacto da tragédia diante da possibilidade de prejuízos gigantescos e da instabilidade na ordem política. As bolsas de valores despencaram e interromperam os negócios, amedrontados com o acontecido. [...] No cenário da nova ordem mundial, as guerras não são mais provocadas por ideologias, mas por conflitos religiosos, étnicos, territoriais e pelo controle de recursos naturais.

Os personagens não são mais os agentes do Estado, mas organizações cujas relações com governos são oblíquas, ambíguas e, às vezes, indecifráveis. Os homens que atingiram o WTC e o Pentágono eram soldados numa nova forma de guerra. Agora a guerra, como tantas outras coisas na era da globalização, saiu fora do controle governamental.

Os atentados trouxeram profundas mudanças no debate internacional, colocando em evidência temas como terrorismo, segurança, extremismo religioso e hegemonia internacional.

Para muitos analistas internacionais, após o dia 11 de setembro o mundo também se conscientizou da globalização da violência - nenhum lugar está isolado e ninguém é invulnerável: o mundo é um só.

AMARO, Fábio et al. O mundo hoje: História, Geografia e atualidades. Belo Horizonte: RHJ, 2002. p. 28-29.