"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Cronologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cronologia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de março de 2013

Os domingos, o sal e as escrituras


O mais antigo painel do Cristo: Saint Catherine's Monastery (Sinai), século VI.

A atual forma do cristianismo, as observâncias e os dias santos, aparecem aos poucos. O domingo, inicialmente, não era necessariamente o dia do Senhor. Os judeus haviam reverenciado o sábado como seu dia e, de início, os cristãos tendiam a reverenciar esse dia como o coração da semana. São Paulo começou a conferir ao domingo o dia de reverência, uma vez que era o dia da ressurreição de Cristo. Quando o imperador Constantino tornou-se cristão e fez com que o Império Romano entrasse em conformidade com sua nova fé, sua lei de 321 declarou o domingo como sendo o dia de adoração na cidade, mas, não, no interior. Lá, as vacas e cabras tinham de ser ordenhadas, a colheita feita e a terra arada, independente do dia.

A Páscoa logo tornou-se a época especial do calendário dos cristãos, mas sua data exata não foi escolhida facilmente. Ao longo das costas da Ásia Menor, o coração inicial da Cristandade, o dia de Páscoa não era primeiramente no domingo. Durante anos, os teólogos cristãos discutiram sobre o dia ideal em que a Páscoa deveria cair. Seu desacordo foi mais estridente em 387; naquele ano, na Gália, o Domingo de Páscoa foi celebrado em 18 de março. Na Itália, aconteceu exatamente um mês depois e, em Alexandria, foi ainda mais tarde, sendo celebrado em 25 de abril. No sétimo século, uma região da Inglaterra celebrava o Domingo de Ramos no mesmo dia em que outra parte celebrava a Páscoa. A unidade da Cristandade era frequentemente muito precária.

Muitos dos dias especiais do ano cristão vinham muito tarde. Durante três séculos, as primeiras igrejas ao redor das margens do Mediterrâneo não celebravam o nascimento de Cristo. Com o tempo, os cristãos, com bastante sensatez, aproveitaram da oportunidade dos festivais populares que tinham há muito tempo sido reservados para marcar o dia mais curto do ano no Hemisfério Norte. Assim, em Roma, o dia 17 de dezembro tinha sido celebrado como o dia pagão das festividades, conhecido como Saturnália, mas esse dia de regozijo acabou sendo tomado à força pelos cristãos e mudado para 25 de dezembro, quando foi proclamado ser o dia do nascimento de Cristo. Mesmo quando Roma decidiu de uma vez por todas celebrar o atual dia de Natal, os cristãos em Jerusalém aderiram, ao contrário, ao dia 6 de janeiro.

Como o dia do nascimento de Cristo, o dia especial reservado a Maria, a mãe de Cristo, demorou a achar um lugar no calendário cristão. Em 431, o Conselho de Éfeso deu a Maria um papel de honra; e o seu dia, 25 de março, cada vez mais tornou-se conhecido como o Dia da Anunciação. À medida que crescia o culto a Maria, um culto de menos vulto se desenvolveu em torno de sua própria mãe, Ana: e um dia chamado de "a concepção de Santa Ana" acabou sendo reverenciado na cidade italiana de Nápoles. Por centenas de anos, Maria recebeu mais veneração nas igrejas do oriente do que nas do Ocidente.

O cristianismo lentamente adaptou alguns de seus rituais vindos da vida cotidiana dos romanos. Por exemplo, quando um bebê romano chegava ao seu oitavo dia, alguns grãos de sal eram colocados em seus pequeninos lábios, na fé de que o sal afastaria os demônios que poderiam, do contrário, prejudicar a criança. Quando a igreja cristã, em seu início, batizava seus novos seguidores, ela benzia um bocado de sal e, imitando o costume romano, dava-o aos batizados. Isso era para manter o ensinamento de Jesus que, sabendo como os pobres desperdiçavam no uso do sal, escolheu o sal como símbolo para o que era precioso e raro. Quando foi às montanhas, disse a seus discípulos: "Vós sois o sal da terra".

Em muitos dos lugares em que grandes quantidades de cristãos se reuniam, eles se envolviam em debates animados entre si. Discutiam porque vinham de vários partes do Império Romano, discutiam porque Cristo às vezes falava em parábolas e não deixava muito claro seu significado para aqueles que ouviam sua mensagem em segunda mão, discutiam porque confiavam naqueles que, depois da morte de Cristo, escreveram seus ensinamentos e ofereceram visões conflitantes do mesmo sermão ou milagres. E, às vezes, os cristãos discutiam entre si porque cada um lia nas palavras de Cristo o que eles próprios queriam ler. Ainda assim, um sinal de unidade era inegável; os viajantes geralmente se sentiam em casa, pelo menos em espírito, quando entravam numa igreja cristã longe de casa.

Por pelo menos quatro séculos, o cristianismo era como um metal quente despejado de fornos em moldes de formatos variados. Às vezes, um forno quase explodia ou o fogo era apagado. Frequentemente, os fornos eram remodelados e, muitas vezes, eram ampliados. Os moldes eram mudados repetidas vezes, de forma que se os primeiros seguidores de Cristo tivessem voltado a viver novamente, não teriam reconhecido muito bem muitas das crenças e rituais da igreja que eles tinham ajudado a fundar. Teriam ficado mistificados por outro fato: o fim do mundo, tão iminente em seus olhos e um estímulo tão insistente em suas profundas crenças, ainda esperava no futuro.

Enquanto isso, a cidade de Roma estava deixando de ser o coração do vasto império. Os exércitos do império e sua procissão de generais famosos começaram a substituir as velhas instituições de Roma como centro do poder. Além disso, a cidade era sitiada muito longe em direção à extremidade ocidental de um império cuja verdadeira riqueza e equilíbrio da população ficava na extremidade oposta do Mar Mediterrâneo. Consequentemente, no ano 285, o império foi dividido, por facilidade administrativa, em dois: o Império do Ocidente, governado a partir de Milão, e o Império do Oriente, governado a partir da cidade de Nicomédia, localizada no Mar de Mármara, a cerca de 100 quilômetros a leste da atual cidade de Istambul, florescendo, em pouco tempo, com majestosos prédios.

Na história, muitos acontecimentos fundamentais são moldados por forças, movimentos e fatores escondidos, mas, ocasionalmente, uma pessoa quase sozinha muda a direção do mundo. Um menino que vivia na cidade de Nicomédia em seus anos de maior orgulho, quando batalhões de pedreiros praticamente se atropelavam, veio a ser um desses moldadores de grandes acontecimentos. Constantino era o filho de um oficial de exército que subiu de cargo rapidamente e tornou-se o imperador da metade ocidental do império. Quando o imperador Constantino foi morto em batalha em York, na Inglaterra, em 306, o filho, com um pouco mais de 20 anos, foi aclamado pelo exército como sucessor de seu pai. Constantino provou ser um grande general. Para a surpresa de muitos, ele era extremamente solidário com o cristianismo. Na França, seis anos depois, ele se converteu. Em suas campanhas militares, daí em diante, trazia consigo uma capela portátil que seus serventes podiam rapidamente instalar dentro de uma barraca, possibilitando, assim, que os serviços religiosos fossem realizados para ele e seus companheiros em questão de poucos minutos.

Constantino acreditava que o cristianismo era intrinsecamente adequado a ser seu aliado. Não desejava dominar o Estado, por já estar há muito tempo acostumado a um papel mais humilde. Com a tendência de ser internacionalista, não mostrava o fervoroso sinal nacionalista às vezes visível no judaísmo. Podia se encaixar perfeitamente num império multirracial. Por tratar todos de forma igual, o cristianismo parecia bastante adequado a um império que consistia de gregos, judeus, persas, eslavos, germanos, ibéricos, romanos, egípcios e muitos outros. Seu único defeito era que nem sempre demonstrava respeito ao imperador e sua pretensão à divindade; mas, uma vez que Constantino se tornou cristão, esse defeito foi automaticamente eliminado.

Na história do cristianismo, nenhum acontecimento sequer, desde a crucificação de seu fundador, foi tão influente quanto a mudança de atitude do jovem imperador Constantino no ano 312 d.C. Ele oferecia tolerância cívica aos cristãos, e restaurou propriedades que tinham sido confiscadas deles. Com sua mãe, começou a construir grandiosas igrejas, uma das quais tão distante quanto Jerusalém.

Até então, os cristãos provavelmente não constituíam mais do que um em cada 12 habitantes do vasto Império Romano, mas agora, de repente sentados numa posição privilegiada ao lado do imperador, seus adeptos rapidamente se multiplicaram. Pela primeira vez, havia mais pessoas dentro do império frequentando os cultos de adoração cristãos aos domingos do que as sinagogas aos sábados. Os residentes das cidades que um dia podem ter escarnecido dos cristãos achavam-se perguntando se, no novo clima religioso, eles poderiam ganhar promoção ou favores seculares se fossem vistos frequentando um local de adoração cristão.

Em comparação, as sinagogas, que às vezes tinham estado a favor dos governadores romanos, eram agora desprezados. Em menos de um século, os judeus perderam seu direito de casar-se com cristãos, a não ser que mudassem de religião, e perderam seu direito de servir ao exército. Não podiam tentar converter outras pessoas a sua religião; em vários lugares, as multidões destruíam sinagogas. Os padrinhos do cristianismo foram, na verdade, declarados ilegítimos. Na era anterior, alguns judeus em algumas cidades tinham tentado prejudicar os cristãos, voltando as autoridades romanas contra eles. Mas, agora a banda tocava do outro lado, e tocava mais alto e cada vez mais.

Constantino não era bem um cristão ortodoxo (ele colaborou para que seu filho fosse morto) mas não se desviou de sua crença de que Deus estava a seu lado. Havia só uma religião para seus olhos e aqueles que não aderissem a ela eram uma ameaça ao império. Tornou-se ainda mais fervoroso em sua fé.

Constantino morreu em 337 e foi enterrado na cidade ainda pequena de Constantinopla, que ele havia planejado. O auge de Roma havia nitidamente passado e havia perdido sua supremacia para essa nova cidade do Oriente.

[...]

BLAINEY,  Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 82-85.

sábado, 17 de março de 2012

O fenômeno 2012

Tempestades solares, inversão dos pólos magnéticos da Terra, erupção de um supervulcão, cataclismo planetário... Entenda como o mercado da catástrofe transformou uma data ritual maia em sinônimo de fim dos tempos

por Bruno Fiuza

Descoberta em 1790 na Cidade do México, a Pedra do Sol é uma representação da doutrina das Eras do Mundo que os astecas herdaram dos maias.

Assim como aconteceu por volta do ano 1000, a chegada do terceiro milênio foi acompanhada pela proliferação de profecias escatológicas. Agora, porém, os supostos presságios de cataclismo não vêm da tradição cristã, mas de uma antiga civilização que surgiu em meio às florestas tropicais da América Central e viveu seu período de apogeu entre os séculos II e IX: os maias.

Para esse povo, o ano de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125,36 anos de seu calendário. Segundo a tradição maia, ao fim de cada ciclo a humanidade entra em uma nova era [...].

O sistema de Conta Longa do calendário maia foi utilizado por séculos, até desaparecer após a decadência dos centros de poder do Período Clássico, no século IX. No entanto, cerca de mil anos mais tarde os boatos da existência de uma civilização perdida nas florestas do sul do México despertaram o interesse de exploradores modernos como o mexicano Antonio del Rio, o francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, o americano John Lloyd Stephens e o inglês Frederick Catherwood. Entre as décadas de 1820 e 1840 eles localizaram as primeiras ruínas de cidades maias e, com elas, os vestígios dos sistemas de escrita e de calendário dessa civilização.

Inspirado por essas descobertas, na década de 1880 o pesquisador inglês Alfred Maudslay fotografou os glifos gravados nas ruínas localizadas até então. Ao analisar essas imagens, o americano Joseph Goodman identificou o funcionamento do calendário maia. Na mesma época, o alemão Ernst Förstemann chegava a conclusões semelhantes ao estudar textos maias reunidos no Códice de Dresden.

Em 1905, Goodman apresentou um modelo de correlação entre as datas da Conta Longa do calendário maia e as do calendário gregoriano. Sua teoria foi complementada pelo antropólogo mexicano Martinez Hernández e pelo arqueólogo inglês J. Eric S. Thompson na década de 1920. O trabalho combinado dos três deu origem à fórmula usada atualmente para converter as datas da Conta Longa do calendário maia para o calendário gregoriano.

As analisar essas datas à luz da cosmologia maia, os pesquisadores chegaram a uma constatação para esse povo, a história do mundo se dividia em eras de 5.125,36 anos, e cada vez que um desses ciclos terminava nosso planeta passava por um período de intensa renovação, quando começava uma nova etapa para a humanidade.

Como a Longa Data do calendário maia era extremamente precisa e informava que a era atual havia começado em 11 de agosto de 3114 a.C., o arqueólogo americano Michael Coe calculou que o atual ciclo terminaria em 24 de dezembro de 2011. Coe publicou essa data final em seu livro Os maias, de 1966, mas pesquisas posteriores demonstraram que a conta estava errada. O equívoco foi corrigido nas edições seguintes da obra, e hoje a data mais aceita para o fim do ciclo é 21 de dezembro de 2012.

Até esse momento, o calendário maia era um assunto restrito a pesquisadores especializados, mas no início da década de 1970 ocorreu uma mudança que transformaria 2012 em um fenômeno de massas, como explica o pesquisador americano John Major Jenkins em seu livro 2012 - A história. Nessa época, dois escritores americanos viram nas traduções místicas dos povos ancestrais do México um antídoto para os males da civilização industrial moderna.

O primeiro foi Tony Sheaner, jornalista de Denver que no fim da década de 1960 largou tudo para viver no México. No início dos anos 1970 ele publicou dois livros em que relacionou a cosmologia e os ciclos de calendário utilizados pelos astecas para formular uma teoria segundo a qual a humanidade estaria vivendo os últimos momentos de um ciclo que terminaria em 1987. Nessa data que se batizou de Convergência Harmônica, o planeta passaria por um renascimento espiritual que marcaria o início de uma nova era.

O segundo foi Frank Waters, que em 1975 publicou um livro no qual estudou o significado místico da Conta Longa do calendário maia. Segundo Waters, os ciclos de 5.125,36 anos se baseariam em cálculos astronômicos e astrológicos e estariam ligados a uma doutrina de Eras do Mundo. Por ter sido o primeiro autor a tratar o fim de um ciclo do calendário maia como um marco de transformação espiritual, Jenkins afirma que Waters "pode ser considerado o homem que desencadeou o fenômeno 2012".

Inspirado por essas descobertas, o escritor americano José Arguelles organizou um grande evento para celebrar a Convergência Harmônica que Sheaner havia previsto para 1987. Nesse mesmo ano, Arguelles publicou um livro chamado O fator maia, no qual apresentou sua própria interpretação espiritual dos ciclos de Conta Longa. Segundo ele, 2012 seria uma nova Convergência Harmônica, que provocaria uma grande transformação espiritual na Terra.

Graças ao sucesso do livro e da Convergência Harmônica de 1987, Arguelles se tornou o líder de movimento que se propunha a adotar o calendário maia e viver de acordo com seus princípios. Em 1991, o escritor desenvolveu um sistema de contagem de tempo batizado de Dreamspell, que ele inicialmente apresentou como uma versão moderna do próprio calendário maia, mas que tinha diferenças importantes em relação à contagem de dias tradicional desse povo.

* A invenção da catástrofe. O movimento criado por Arguelles transformou o calendário maia em um fenômeno pop, mas ele mesmo não via 2012 como o fim do mundo. As teorias que associavam o fim do atual ciclo a cenários catastróficos ganharam força a partir da década de 1990.

Em 1995, o engenheiro e cientista Maurice Cotterell e o escritor Adrian Gilbert publicaram o livro As profecias maias, que apresenta a teoria desenvolvida por Cotterell segundo a qual os ciclos de Conta Longa do calendário maia estariam relacionados a ciclos de atividade solar. Segundo o cientista, o fim da era atual em 2012 coincidiria com um enorme aumento das explosões no interior do Sol, quando o astro envia nuvens de prótons e elétrons em direção à Terra que poderiam inverter os pólos magnéticos do planeta.

Cotterell não apresenta nenhuma evidência concreta tirada da cultura maia que respalde sua tese, mas o sucesso comercial de As profecias maias popularizou essas ideias. Algumas foram retomadas pelo escritor americano Lawrence Joseph no livro Apocalipse 2012, publicado em 2004. Joseph se baseia na teoria do pico da atividade solar em 2012 e acrescenta alguns elementos à fórmula: segundo ele, o fenômeno poderia ser acompanhado por megarrajadas de radiação com potencial para acabar com a vida em nosso mundo, provocar a inversão dos pólos magnéticos da Terra e aquecer o núcleo do planeta a tal ponto que um supervulcão localizado sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, entraria em erupção.

Por causa dessas teorias absurdas, sem nenhuma ligação com o antigo pensamento maia, o estudo do significado de 2012 para essa civilização foi praticamente descartado pelos pesquisadores acadêmicos. Muitos especialistas afirmam que os maias nunca fizeram nenhuma menção a 2012 e que tudo não passaria  de uma grande invenção moderna.

[...]

Bruno Fiuza. O fenômeno 2012. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 46, 48-49.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A História e o tempo

[...] o grande avanço alcançado hoje pela Humanidade resultou das descobertas e criações que o Homem acumulou no decorrer da sua existência, transmitindo às gerações seguintes conhecimentos e experiências e permitindo que a Humanidade chegasse ao grau de desenvolvimento que tem hoje.

Outra questão importante [...] é a forma como as sociedades estão hoje organizadas, seja no campo social e econômico, seja no campo político. Por que existem pessoas ricas e outras pobres? Por que algumas residem em mansões ou palácios e outras, em casebres ou barracos? Por que alguns só se divertem, enquanto a maioria só trabalha? Se lembrarmos que todos os homens - no início da História da Humanidade - eram iguais, o que explicaria essas enormes diferenças hoje? Em que momento e por que isso aconteceu?

A História é a Ciência que responde a essas questões. Ao reconstituir o passado da Humanidade - como surgiu o Homem, quais as suas descobertas e invenções, como conseguiu dominar a Natureza, como se relacionou e continua a relacionar-se com os outros homens -, a História nos permite analisar o desenvolvimento das sociedades humanas, através dos tempos, e sua projeção para o futuro.

A História não deve ser vista como uma simples sequência de fatos ou de atos de governantes, como Reis, Imperadores, Presidentes da República ou Generais; ela é feita por todos nós, homens comuns, vivendo em sociedade, cujos objetivos fundamentais são a produção e a satisfação pessoal.

Como a História consegue reconstituir o passado da Humanidade?

Como podemos saber da existência de sociedades que já desapareceram há tanto tempo?

Vamos supor que você queira conhecer o passado da sua família até a geração de seus avós ou bisavós. O que você faria para conseguir este conhecimento? Provavelmente, em primeiro lugar, entrevistaria as pessoas mais velhas para estabelecer uma sequência, no tempo, de todos os parentes até você; chamamos a isto árvore genealógica. Depois, seria necessário recorrer a velhos álbuns de fotografias, papéis de família, como certidões de nascimento, de casamento e de óbito, testamentos, contratos de venda... Como você pôde observar, seriam usados documentos escritos e orais.

O historiador procede de forma semelhante. Para reconstituir a História de uma sociedade, recorre a todo tipo de documentação, sinais, vestígios que consegue encontrar: documentos públicos, cartas particulares, monumentos, inscrições, pinturas, esculturas, templos, casas, utensílios domésticos, armas, túmulos, enfim, tudo aquilo que o Homem, em qualquer tempo e em qualquer lugar, usou, produziu ou, até mesmo, destruiu.

Para a História recente, o trabalho é aparentemente mais fácil, pois existem fotos, discos, filmes, livros, fitas de vídeo e uma infinidade de vestígios. Entretanto, se considerarmos a quantidade de habitantes do mundo, o número de países, a diversidade de culturas, as diferentes formas de organização das sociedades, veremos que o trabalho do historiador é imenso e bastante complexo.

Para facilitar o estudo da História das Sociedades, costumamos estabelecer uma sequência de acontecimentos no tempo - a Cronologia ou Datação.

Nas sociedades ocidentais cristãs, a data de nascimento de Jesus Cristo foi estabelecida como marco. Uma vez estabelecido o momento zero, os fatos históricos são datados em relação a ele, distinguindo-se o que se passou antes e o que ocorreu depois. Nos fatos anteriores, contamos no sentido inverso, indicando sempre a.C., ou seja, antes de Cristo. Os fatos posteriores são contados em ordem crescente, sem qualquer indicação [...].

Há sociedades que adotam uma cronologia diferente. Os muçulmanos usam como marco de seu calendário a Hégira, ou seja, a fuga de Maomé, seu maior profeta, da cidade santa de Meca, ocorrida, segundo o calendário cristão, em 16 de julho de 622. A sociedade judaica tem como marco inicial a criação do mundo [...].

Em História, usamos mais frequentemente três unidades de tempo: o ano, o século (cem anos) e o milênio (mil anos). Os anos são assinalados em algarismos arábicos e os séculos em algarismos romanos. Por exemplo: ano de 1995, século XX. Para identificar a que século pertence certo ano, basta aplicar uma regra prática: somar o número 1 à centena do ano. Vejamos a seguir:

Ano de 1995

19 + 1 = 20 [século XX]

Nos anos terminados em 00, o século corresponde à centena:

Ano de 1900

[século XIX]

A explicação para a regra é simples: do ano 1 ao 100, tivemos o século I, do ano 101 a 200, o século II, e assim por diante.

Para facilitar o estudo das sociedades, é comum dividir a História em grandes períodos, estabelecendo-se a escrita como marco. Assim, seriam consideradas pré-históricas todas as sociedades sem escrita. A História, por sua vez, seria dividida em quatro grandes etapas: a Antiguidade, que iria do aparecimento da escrita ao fim do Império Romano do ocidente (século V); a Idade Média, até o fim do Império Bizantino (1453); a Idade Moderna, até a Revolução Francesa (século XVIII), e a Idade Contemporânea, até os dias atuais.

Esta divisão, muito tradicional, merece críticas, já que considera pré-históricas sociedades de desenvolvimento e organização bastante diferentes, como as comunidades primitivas, que viveram no início da existência do Homem na Terra, e a sociedade inca, muito desenvolvida e de organização bastante complexa, mas que não usava a escrita.

Outra crítica é o fato de cada período ter como marco acontecimentos de importância apenas para as sociedades europeias e não para o conjunto da Humanidade, além de não levar em conta aspectos fundamentais, como a organização dessas sociedades para a produção.

[...]

[...] afirma a professora Vavy Pacheco Borges, em seu estudo O que é História:

"A função da História, desde o seu início, foi a de fornecer à sociedade uma explicação de suas origens. [...] A História se coloca, hoje em dia, cada vez mais próxima às outras áreas do conhecimento que estudam o Homem [...], procurando explicar a dimensão que o Homem teve e tem em sociedade. [...] A História procura, especificamente, ver as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. A transformação é a essência da História [...]. 

Musa lendo pergaminho (provavelmente Clio, a musa da História). Artista desconhecido. Beócia, c. 435-425 a.C.

[...] O tempo histórico, através do qual se analisam os acontecimentos, não corresponde ao tempo cronológico que vivemos e que é definido pelos relógios e calendários. No tempo histórico, podemos perceber mudanças que parecem rápidas, como, por exemplo, os acontecimentos cotidianos: um golpe de Estado que toma o poder e que seguimos nos jornais. Vemos também transformações lentas, como no campo dos valores morais: o machismo, por exemplo, é um valor que impera na maior parte das sociedades que a História estuda, a ponto de se dizer que a História que está escrita mostra um processo praticamente só conduzido pelos homens. No Ocidente [...] surge um questionamento mais constante deste valor milenar. Isto se dá, em grande parte, devido a uma participação maior da mulher no processo de produção: à medida que as mulheres saem da esfera exclusiva do lar e começam a refletir na realidade."

AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 10-13.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Anno Domini"

O Batismo de Cristo, de Andrea del Verrochio e Leonardo da Vinci

[...] eis que surge uma questão: quando se começou a contar os anos a partir do nascimento de Cristo? Muito tarde. Foi, de fato, o monge Dionísio o Pequeno, que viveu no século VI, quem se preocupou em estabelecer a data de nascimento do Redentor, fixada então em 25 de dezembro de 753 da fundação de Roma.

A fonte cronológica relativa ao nascimento de Cristo é uma passagem do Evangelho de Lucas (2, 1-2):

Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era governador da Síria. E todos iam se alistar, cada um em sua própria cidade. Também José sai da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, para a cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, sua esposa, que estava grávida.

Mateus (2, 1-2) acrescentou a estrela dos Magos à narrativa e, sobretudo, colocou o nascimento de Jesus no tempo do reino de Herodes, que Lucas (1, 5) também mencionava indiretamente.

Depois de muitos cálculos, Dionísio pensou que poderia estabelecer o ano preciso da morte de Herodes, mas enganou-se, pois o soberano morreu certamente no ano 4 a.C. É ainda mais difícil estabelecer o tempo exato do recenseamento de Quirino, que aconteceu, de qualquer forma, entre os anos 7 e 6 a.C.

O sistema de Dionísio foi adotado muito lentamente. Podemos dizer que só se difundiu realmente no século IX d.C. (no tempo de Carlos Magno). Hoje, os historiadores concordam em considerar que Cristo nasceu cinco ou seis anos antes do que dizem os cálculos do monge; portanto, o nosso milênio terminou antes que nos déssemos conta.

O 25 de dezembro transformou-se, então, no dia em que começava o ano. A Igreja acolheu esta data com alegria, pois o dia de Natal sobrepunha-se, assim, às celebrações do solstício de inverno e à festa de Mitra, deus da luz, que os antigos festejavam justamente no dia 25 de dezembro.

A datação do nascimento de Cristo impôs-se em todo o mundo, independentemente da religião praticada. Para os muçulmanos, o ano de 622, teoricamente o primeiro dia de sua era, foi substituído pela contagem à maneira ocidental.

Todos os nossos "quando?" são ligados, portanto, ao cálculo - errado - de um monge medieval.

FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média: óculos, livros, bancos, botões e outras inovações geniais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 50-51.