"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Jagunços? Fanáticos? Sertanejos?

Jagunços do Contestado. 
Foto: Claro Jansson

Em estudo clássico, Rui Faço mostrou a distinção entre fenômenos sociais que muitas vezes se confundem.

“No nível cultural de desenvolvimento em que se encontravam as populações rurais, mergulhadas no quase completo analfabetismo e no obscurantismo, a sua ideologia só podia ter um cunho religioso, místico, que se convencionou chamar de fanatismo. Sob essa denominação têm-se englobado os combatentes de Canudos ou do Contestado, do Padre Cícero ou do Beato Lourenço: fanáticos. Quer dizer, adeptos de uma seita ou misto de seitas, que não a religião dominante.

Só que a seita por eles abraçada, fortemente influenciada pela religião católica, que lhe dá o substrato, era a sua ideologia. Como toda ideologia, um conjunto de conceitos morais, religiosos, artísticos etc., que traduzem suas condições materiais de vida, seus interesse, seus anseios de libertação e seus próprios métodos de luta.” (FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1963. p. 47-48)

Não podemos, contudo, considerar que Canudos, Contestado e outros ajuntamentos menores de trabalhadores rurais sejam reduzidos apenas a conflitos de fundo religioso, a simples movimentos oriundos do fanatismo sertanejo, como afirmam Pedro Calmon, Pandiá Calógeras e outros autores presos a enfoques da História Oficial, eivados de preconceitos e de conceituações mitificadoras.

Tanto na Bahia como no Brasil Meridional, a concentração da propriedade nas mãos de poucos gerou – e ainda hoje o fenômeno se processa – uma grande massa de trabalhadores rurais desempregados. Eram antigos pequenos e médios proprietários, posseiros, agregados, rendeiros, vaqueiros sem perspectivas, ex-escravos. Marginalizados, esses grupos populacionais desenraizados, pobres e miseráveis, na sua maioria incluíam mestiços e negros.

Muitos migravam para outras regiões do Brasil. Viajavam sozinhos ou com suas famílias. As secas que ocorriam no Nordeste tornavam mais trágica a existência desses sertanejos, que acabaram sendo conhecidos como jagunços.

De acordo com mestre Aurélio Buarque de Holanda, a palavra jagunço é corruptela de zaguncho, arma de arremesso, espécie de lança, com ponta de ferro e haste de madeira. Com o tempo, o termo passou a ser usado para designar todo aquele que manejava aquela arma. Contudo, a expressão jagunço acabou variando no tempo e no espaço.

“Na região do médio São Francisco, em fins do século XIX, o jagunço era um homem temente à lei, que só pegava em armas, sob a responsabilidade do chefe.

Distinguia-se do bandido e do cangaceiro que ‘afrontavam e desprezavam a lei’.

Entretanto, na Bahia, em fins do século XIX, o termo era empregado na acepção de brigão, valentão ou capanga, que mais tarde se sobrepôs às demais.

Com a campanha de Canudos [...] o termo adquire uma dimensão nacional e um novo sentido: o do indivíduo que guerreava em defesa de um líder religioso carismático, recebendo em troca recompensa espiritual, um lugar no Reino do Céu.” (SILVA, B. [et alli]. Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1986. p. 646.)

O jagunço, Cândido Portinari

Não há dúvida de que existiram muitas semelhanças entre os movimentos de resistência sertaneja à exploração imposta pelos poderosos da República. As estruturas sociais, os costumes, as crenças, a religiosidade, com a esperança de uma vida em um paraíso terrestre, construído com a ajuda de forças divinas. Esse misticismo era reforçado pela crença, trazida pelos portugueses, no retorno de D. Sebastião, desaparecido na África da batalha de Alcácer Quibir. O sebastianismo não morrera em Portugal. Permanecera no imaginário popular. Teve continuidade no Brasil. Relatos diversos mencionam a convicção de que o Esperado D. Sebastião chegaria com muitas riquezas que seriam distribuídas entre os seus crentes. Os pobres, humildes, humilhados e explorados da sociedade.

Em Santa Catarina, porém, o sebastianismo substituiu D. Sebastião por S. Sebastião, anunciando o fim do mundo e recompensando seus crentes com a imortalidade e o bem-estar.

Além disso, no Nordeste, a luta sertaneja era contra os poderosos identificados com as oligarquias estaduais e o governo federal que havia suprimido a Monarquia, estabelecido a separação entre a Igreja e o Estado, imposto casamento civil e tributos que aumentavam a miserabilidade da população. No Contestado, a explosão popular foi dirigida também contra a presença espoliadora das empresas norte-americanas Southern Brazil Lamber and Colonization Co. e South Brazil Railway Co., cujo desenvolvimento implicava a ocupação de terras e a expulsão de centenas de sertanejos.

Conhecido como Sindicato Farquhar, porque pertencente ao empresário norte-americano Percival Farquhar, o poderoso truste South Brazil Railway Co. obtivera do governo federal extensas concessões de terras para construção de uma ferrovia ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul. Acontece que o traçado dessa ferrovia passava justamente pelo Contestado, região assim chamada porque disputada pelos estados do Paraná e de Santa Catarina, mais um diferencial em relação a Canudos.

Os jagunços do Contestado, como de outros movimentos sertanejos, curiosamente não detectados nos sertões da Bahia, dedicavam um culto quase religioso a Carlos Magno, antigo rei dos francos, que viveu em fins do século VIII e inícios do século IX. Muitos dos poucos que sabiam ler possuíam um livro relatando a versão romanceada da vida de Carlos Magno e seus lendários cavaleiros. As proezas de Rolando, Olivério e Reinaldo eram relatadas em conversas dos jagunços, reunidos ao pé da fogueira. Os analfabetos escutavam atentos a narrativa dos que sabiam ler. O imaginário popular vivia aquela época de um passado distante, pintado com as cores vivas de valores como a igualdade, a justiça e a lealdade ao rei.

Tanto os jagunços do Contestado como os de Canudos desenvolveram sentimentos saudosistas dos tempos da Monarquia. De uma época em que muitos haviam vivido. De uma época em que a Igreja estava ligado ao Estado. Com verdadeira idolatria considerava-se a Monarquia como coisa do céu. Não há dúvida de que essa idealização dos tempos passados foi influenciada no Contestado pelas histórias de Carlos Magno e seus Pares de França, cujos personagens romanceados constituíam exemplos de coragem, de devotamento a causas justas, de luta pela verdade e pela justiça.

Aspecto marcante nos dois movimentos foi o igualitarismo comunitário: nas comunidades criadas pelos jagunços, desenvolveu-se forte tradição de que os bens individuais possuídos anteriormente passavam a pertencer a todos. Havia mesmo um certo desprezo pelos bens materiais. Afinal, no Reino dos Céus, as riquezas terrenas nada significavam! Não era o que afirmavam as Sagradas Escrituras?

“A existência desse igualitarismo básico, de condição econômica e de etiqueta, não significava, porém, que reinasse a anarquia entre os irmãos e que entre eles não houvesse diferenças de posição social [...]. Reconheciam-se as relações anteriores de amizade, de compadrio e de família, desde que nenhuma destas se chocasse com os interesses da crença. Acima de tudo, colocavam-se os valores religiosos, políticos e sociais da causa.” (QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Messianismo e conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado, 1912-1916. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. p. 157.)

Não se pode esquecer que o milenarismo também estava presente no imaginário dos sertanejos de Canudos. A chegada de novo milênio se aproximava. E com ele viria o fim dos tempos, como anunciavam os textos do Apocalipse. Novos tempos começariam. Os bons, justos e humildes seriam levados ao Reino dos Céus!


AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 138-141.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

El Diablo es pobre

Pena - as tristezas de um homem velho, Théodore Géricault

En las ciudades de nuestro tiempo, immensas cárceles que encierram a los prisioneros del miedo, las fortalezas dicen  ser casas y las armaduras simulan ser trajes.

Estado de sitio. No se distraiga, no baje la guardia, no se confie. Los amos del mundo dan la voz de alarma. Ellos, que impunemente violan la naturaleza, secuestran países, roban salarios y assesinan gentios, nos advierten: cuidado. Los peligrosos acechan, agazapados en los suburbios miserables, mordiendo envidias, tragando rencores.

Los pobres: los pelagatos, los muertos de las guerras, los presos de las cárceres, los brazos disponibles, los brazos desechables.

El hambre, que mata callando, mata a los callados. Los expertos, los pobrólogos, habian por ellos, Nos cuentan en qué no trabajanm qué no comen, cuánto no pesan, cuánto no miden, qué no tienen, qué no piensan, qué no votan, en qué no creen.

Sólo nos falta saber por qué los pobres son pobres. ¿ Será porque su hambre nos alimenta y su desnudez nos viste?

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 116.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Rio de Janeiro no século XIX

Vista panorâmica do Rio de Janeiro em 1889. Fotografia de Marc Ferrez

Sede da administração colonial desde 1763 e do império a partir de 1822, o Rio de Janeiro concentrava a maior parte do aparato político-administrativo do Brasil. Ao mesmo tempo, devido a sua situação geográfica, era o principal porto de exportação de café - posição que, no final do século, perderia para a cidade paulista de Santos.

Essas duas condições fizeram do Rio de Janeiro a primeira cidade brasileira que se modernizou durante o século XIX. [...]

O crescimento urbano e o progresso econômico mudavam, também, a estrutura social da cidade. A atividade comercial criava uma camada burguesa e pequeno-burguesa independente da velha oligarquia rural e impulsionava a burocracia administrativa. Dessa forma, à sombra do desenvolvimento econômico, vicejava uma nova classe média, cujos hábitos e preferências seguiam os figurinos de Paris.

Para atender a toda essa clientela, surgiram confeitarias, teatros, livrarias e sofisticadas lojas de artigos estrangeiros. Carl von Koseritz, viajante alemão que esteve no Rio de Janeiro em 1883, admirava-se com o luxo e a variedade das mercadorias importadas que se podiam comprar no magazine Notre Dame de Paris, na rua do Ouvidor, "a maior casa de negócios do Brasil e talvez da América do Sul", conforme escreveu. Suas vitrinas, seu sistema de atendimento, assemelhavam-se às grandes lojas francesas [...] descritas por Emile Zola [...]. O francês, aliás, era a língua oficial dos caixeiros e, ao terminar cada compra, o cliente ouvia sempre um sorridente "Passez à la caisse, s'il vous plait" ("passe no caixa, por favor").

Os hábitos igualmente se modificavam. As damas da sociedade, vestidas no rigor da moda parisiense, já podiam passear livremente (embora não desacompanhadas) e frequentar casas de chá. Os homens, de cartola e casaca, discutiam política e arte pelas ruas. Tipos sociais descritos por dramaturgos e romancistas da época - o burocrata, o militar, o comerciante, o poeta, a governanta francesa, o senador, o estudante e tantos outros - eram a expressão dessa sociedade refinada.

Poucos literatos, no entanto, deram-se ao trabalho de sair desse círculo elegante para descrever o modo de vida do carioca comum. Em cinquenta anos, a cidade quase triplicara sua população, passando de menos de 200.000 habitantes, no início do reinado de D. Pedro II, para 522.000 em 1890. Essa explosão demográfica trazia uma enorme carga de desemprego, criminalidade e rebaixamento nas condições de vida, higiene e saúde.

Vendedora de miudezas, cerca de 1899. Fotografia de Marc Ferrez

Moradia era o grande tormento das camadas pobres, ainda mais que a área disponível sempre foi relativamente pequena, pois a cidade ocupa uma estreita faixa de terra plana. O crescimento ocorria no eixo norte-sul, ficando a zona norte para os pobres e a zona sul para os ricos. São Sebastião, Tijuca, Laranjeiras e Rio Comprido transformavam-se em bairros elegantes, onde a nascente burguesia e os novos proprietários rurais, ligados à cafeicultura, construíam palacetes de estilo neoclássico. As camadas pobres concentravam-se na chamada Cidade Nova, que se estendia do campo de Santana a São Cristóvão.

Com o crescimento da população e a especulação imobiliária, os terrenos tornaram-se cada vez mais caros. Só a 'classe média' tinha condições de pagar o aluguel de uma casa; os pobres eram obrigados a viver amontoados e habitações coletivas de madeira ou alvenaria: os cortiços, cujas condições de higiene eram tão precárias que já no começo do século XX o cronista Luís Edmundo os classificou de 'pestilenciais'. Descritas por Aluísio de Azevedo no romance O Cortiço, tais habitações eram alugadas, rendendo enormes lucros a seus proprietários. Estes últimos, aliás, nem sempre eram comerciantes portugueses, como o personagem João Romão, criado por Azevedo; entre eles havia, também aristocratas e homens da corte: o conde D'Eu (genro de D. Pedro II), por exemplo, era dono de um imenso cortiço, conhecido como Cabeça-de-Porco, onde moravam mais de 4.000 pessoas.

Para os que não podiam pagar nem mesmo o aluguel de uma habitação coletiva, só restava subir os morros e construir barracos de madeira, dando origem às favelas. As primeiras apareceram logo após a Guerra do Paraguai, quando muitos escravos alforriados começaram a retornar dos campos de batalha. Marginalizados e sem recursos, alguns até mutilados, esses 'ex-voluntários da Pátria' não encontravam emprego e iam morar como podiam.

Vendedor de rua no Rio de Janeiro, sem data. Fotografia de Marc Ferrez

O Rio de Janeiro era, assim, uma cidade heterogênea, com mansões e palacetes ao lado de bairros miseráveis. Na rua do Ouvidor podiam-se encontrar as últimas novidades de Paris, mas a febre amarela e a varíola periodicamente dizimavam a população pobre. Uma aristocracia culta e exigente povoava os salões e os espetáculos de ópera, enquanto o desemprego empurrava milhares de pessoas para uma vida incerta de pequenos trabalhos avulsos, quando não para o baixo meretrício e a malandragem. Nos palacetes de Laranjeiras falava-se francês, nas grandes noites de gala, quando personagens como o conde D'Eu contavam suas façanhas na Guerra do Paraguai. Não longe dali, no entanto, em cortiços como o Cabeça-de-Porco, a fome e a miséria faziam estragos na população.

SAGA - A Grande História do Brasil. São Paulo: Abril, 1981. V. 4. p. 128-129.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

"Classes perigosas" e polícia

Uma cena na União Westminster, (workhouse), 1878,  Sir Hubert von Herkomer

Uma sociedade que teme as classes subalternas, desconfia sobretudo dos pobres. Na Idade Média, a pobreza era considerada uma virtude; porém, desde o século XVII, começou-se a vê-la como um perigo social. Na maior parte dos países da Europa ocidental, produziu-se o que se chamou "a grande reclusão". Na França, encerraram-se os pobres hospitais gerais, onde rezavam e trabalhavam. Na Holanda, eram anunciados para alugar. Na Espanha, eram enviados forçadamente para remar ou trabalhar na marinha real, quando aptos (sendo que, para isso, não era necessário haver cometido outro delito além de ser pobre). Na Inglaterra, criou-se um sistema de leis dos pobres que se subordinavam à assistência da comunidade, que podia levar o pobre a uma workhouse ou "casa de trabalho", suja e triste, onde realizava tarefas irracionais e inúteis. O guarda da workhouse podia alugá-los a quem os quisesse, embolsando seu soldo em troca da manutenção, de maneira que só os que eram realmente inúteis ficavam internados. Na workhouse seria experimentado o tipo de controle disciplinar do trabalho próprio da fábrica, que seria sua filha direta. Em 1834, a nova lei dos pobres limitava a assistência aos velhos e aos inválidos, determinando que qualquer homem fisicamente apto devia ser obrigado a trabalhar na workhouse, onde as condições eram muito piores que as de trabalho de rua, com a intenção de que só fossem procuradas em caso de extrema necessidade. A trilogia das instituições "domesticadoras" da nova sociedade industrial britânica era integrada pela workhouse, pela fábrica e pelo cárcere, às quais se acrescentaria, mais tarde, a escola. 

Um grupo de crianças na Crumpsall Workhouse, 1895-1897

Na França, o sistema repressivo do Antigo Regime estava integrado pelos bôpitaux généraux, pelos dépots de mendicité e pelas prisões de mulheres. Os bôpitaux tinham uma função mista de prisão, hospital e asilo. Nos dois maiores de Paris, Bicetre para os homens e Salpetrière para as mulheres, havia ao mesmo tempo presos e sifilíticos, mesmo que os presos estivessem numa parte vigiada. Os dépots de mendicité acolhiam pobres e os tratavam mal. Uma mostra da função social que a repressão tinha na França - e uma prova de sua aceitação social - nos dão as "lettres de cachet", por meio das quais o rei, a pedido dos familiares, prendia um homem ou uma mulher de vida irregular no cárcere, com o fim de corrigi-lo, sem investigação preliminar ou julgamento. Anteriormente, acreditava-se que este era um sistema empregado exclusivamente pelas boas famílias, que enviavam os filhos desencaminhados à Bastilha - onde foi parar Sade, por exemplo: porém, verificou-se que inclusive os pobres costumavam utilizá-lo para prender os parentes doentes.

Enquanto os franceses começaram, com Napoleão, a organizar uma polícia encarregada da manutenção da ordem pública, os ingleses tentaram conservar o velho sistema repressivo, que era mais barato e parecia respeitar melhor a liberdade privada. O código sanguinário inglês de princípios do século XIX, com a multiplicação dos delitos que podiam ser castigados com a morte, seria a última tentativa de alternativa repressiva "liberal" e antiestatal.

Porém, desde meados do século XVII, ficava evidente que o Estado britânico era incapaz de conter os delinquentes. O contrabando, estimulado por taxas muito elevadas, era praticado com uma frota de 120 grandes embarcações (que levavam até 100 homens e 14 canhões) e de duzentas menores, com a colaboração de grupos de homens armados que asseguravam o desembarque, enquanto que os funcionários assistiam a tudo, impotentes. No século XVIII, Londres era uma cidade sem lei, onde florescia o crime e onde a captura de delinquentes se confiava aos "caçadores de ladrões" profissionais. Tão frequentes eram os roubos que Jonathan Wild montou um negócio em grande escala: assessorava os ladrões, tinha bandos inteiros a seu serviço, liberava da prisão e da execução quem ia ser condenado, fazendo-lhes o julgamento vendendo os produtos do roubo aos próprios roubados. "Aqui os roubados buscavam audiência do único que lhes podia prometer a restituição; aqui os ladrões se reuniam como trabalhadores numa fábrica para receber o pagamento pelo trabalho realizado". Começou a atuar em 1715; em 1717, promulgou-se uma lei que condenava à morte a quem se fizesse de intermediário entre as vítimas e os delinquentes, porém Wild continuou agindo até 1725, data em que foi condenado por haver cometido o erro de proteger um bandido. Nas cidades, havia, além disso, refúgios que permitiam manter-se fora do alcance da lei: quando, em 1723, suprimiu-se a prisão por dívidas menores de 50 libras, milhares de pessoas saíram do bairro de Londres onde haviam se refugiando e viram-se caravanas de carros, cavalos e gente a pé, como o êxodo de uma tribo de Israel.

Logo se percebia quais eram os riscos desta falta de controle da população urbana: em 1780, por motivo das revoltas de Gordon contra os católicos, Londres ficou durante duas semanas nas mãos dos assaltantes e saqueadores, até que se enviou o exército para estabelecer a ordem. Não é de admirar que, vencendo seus preconceitos "liberais", os ingleses começaram a criar um sistema policial "à francesa", semelhante aos que seriam criados em outros países da Europa depois de 1814, primeiramente com finalidades de política contra-revolucionária, porém, logo, dedicados a vigiar e combater o que a sociedade burguesa definira como as "classes perigosas", integradas principalmente pelos considerados marginais difíceis de integrar, de acordo com alguns estereótipos que pretendiam converter o delito num fato biológico, em criminosos natos, rostos repugnantes, vestimenta peculiar e, muito especialmente, este elemento sempre suspeitoso, por ser diferente, que é o estrangeiro.

FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: EDUSC, 2000. p. 285-288.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cultura popular e vida cotidiana na Europa moderna

O Renascimento, que marcou a cultura europeia da época moderna, impregnou-a de valores eruditos e elitistas.

Até por volta da segunda metade do século XX, a historiografia tradicional nem sequer levantava questões sobre a vida das pessoas comuns. Atualmente, porém, as questões envolvendo a vida, as ações, os sentimentos e as concepções de homens e mulheres comuns constituem um dos principais campos de estudos históricos, gerando novos temas, como a história dos oprimidos, excluídos, marginais e vencidos. Isso indica um tipo de avaliação qualitativa sobre o sentido histórico da expressão povo em oposição à história dos grandes homens, isto é, os vencedores, dominantes, opressores e heróis.

Essa nova abordagem requer, também, a utilização de novos tipos de documentos e/ou uma nova leitura dos documentos tradicionais. Nesse sentido, há dois tipos de fontes fundamentais: as obras de arte - literatura e artes visuais -, que em geral registram a vida das pessoas comuns, incluídas no conjunto da sociedade; e os documentos jurídicos e inquisitoriais, entre os quais se encontram processos contra os transgressores das normas vigentes, isto é, os oprimidos e marginalizados.


A leiteira, gravura de 1510 do artista holandês Lucas de Leyde.

* Homens e mulheres comuns. Os grandes (como os reis) eram poucos e quase todos aparentados. Podem, assim, ser conhecidos em suas individualidades. Já o povo, formado pelos mais diversos grupos e categorias sociais - que em muitos casos nem a mesma língua falavam, é mais facilmente conhecido por meio de tipos, componentes de uma multidão (camponeses, soldados, artesãos).

Dois setores fornecem alguns tipos mais significativos da cultura popular e do modo de vida de homens e mulheres comuns, na época moderna: o trabalho e a feitiçaria.

* Trabalho e cultura popular. O trabalho era o principal elemento de identificação da parte da população conhecida como povo. Na Europa moderna, 80 a 90% dessa categoria ainda era constituído por camponeses. Entretanto, a importância dos trabalhadores urbanos foi crescendo gradualmente.

Na época moderna, o campo e a cidade partilhavam de uma identidade popular comum, conferida por sua posição frente aos poderosos. Para estes, o trabalhador, do campo ou da cidade, seria o povo e, como tal, alguém a ser sobretudo controlado.

Embora partilhassem de uma identidade comum, camponeses e cidadãos (habitantes da cidade) hostilizavam-se. Ou melhor, os cidadãos desprezavam e discriminavam os camponeses.

- A vida nos campos. Entre os camponeses havia uma diversidade muito grande, conforme as regiões que habitavam e as atividades que desenvolviam. Os homens do campo eram agricultores, artesãos, pastores, mineiros. Entre eles havia muitas diferenças culturais e antagonismos.

Os agricultores estavam ainda muito marcados pelas estruturas feudais, algumas das quais persistiram durante toda a época moderna. Entre os pastores, porém, eram raros os servos da gleba; já os artesãos levavam vida itinerante, praticando seu ofício em diferentes aldeias.

Cada grupo desenvolvia culturas distintas e próprias. As canções, poesias, danças e outras manifestações populares revelam uma extraordinária diversidade de condições de vida e visões de mundo.

De modo geral, a cultura popular camponesa apresentava profundos vínculos com as tradições pagãs, notadamente nos aspectos religiosos. Muitos mitos e práticas rituais cristãs eram adaptações ou mesmo transposições de cultos e lendas referentes às antigas divindades e seres sobrenaturais. Por isso, no imaginário popular moderno, o espaço do campo era habitado por seres fantásticos (duendes, anões, gnomos, fadas, bruxas, magos e prestidigitadores de toda sorte) que interagiam e interferiam na vida dos seres humanos. Acreditava-se que percorriam os campos e as aldeias, às vezes auxiliando, mas quase sempre causando medo e prejuízos aos habitantes.

Esses seres eram considerados poderosos, podendo ser conjurados por meio de mágicas e sortilégios, tanto para fazer o bem quanto para provocar malefícios.

- O cotidiano nas cidades. Embora ainda vigorassem instituições e normas feudais na regulamentação dos ofícios e da prática do comércio, as atividades nas cidades eram cada vez mais desenvolvidas de acordo com as novas exigências capitalistas. O trabalho assalariado tornou-se predominante, e a produção manufatureira submeteu-se às necessidades do comércio, ficando mais sob o controle de quem vendia as mercadorias do que de quem as produzia.

A cultura popular nas cidades apresentava-se, mais do que no campo, extremamente diversificada. Apesar das modificações das formas de trabalho, os artesãos urbanos continuavam organizados em corporações ou guildas que, além de defender os interesses da categoria, eram responsáveis por manifestações culturais específicas.

As festas, a arte, a religião ensejavam os mais diferentes tipos de manifestações culturais da população urbana, cujos registros - alguns recolhidos bem posteriormente - compõem uma espécie de patrimônio constituído de poemas, canções, pinturas e peças de teatro que representam a modernidade tanto quanto as belas-artes clássicas do Renascimento.

* Feitiçaria e Inquisição. O crescimento da massa trabalhadora, do qual dependia o desenvolvimento econômico das nações modernas, e as mudanças em sua condição de vida eram ensejos para muitas situações de conturbação da ordem e conflitos, sobretudo quando havia carestia ou escassez dos gêneros de subsistência. Ou, no contexto das reformas religiosas, quando havia contestação às igrejas oficiais.

Nessas ocasiões, os trabalhadores eram tratados como transgressores, tanto da ordem social como da ortodoxia religiosa.

Dentre os diversos tipos de transgressores, os praticantes da feitiçaria - ou mais especificamente as feiticeiras - eram apontados como os principais perturbadores da ordem terrena e divina.

O desenvolvimento da modernidade tinha por fundamentos o humanismo e o uso da razão, do discernimento crítico. No entanto, isso não foi capaz de conter, e talvez tenha até estimulado, um dos mais violentos e irracionais processos de perseguição a pessoas cujo crime era ser diferente, estranho, isto é, pessoas consideradas o outro.

A instituição que chamou a si o encargo e o presumido direito de exercer o controle sobre o pensamento e a ação das pessoas, vigiando, coibindo e punindo os desvios e as contestações, foi a Inquisição.

As pessoas identificadas como hereges eram consideradas "perigosas e ameaçadoras" para as instituições e a sociedade organizada. Dois grupos foram os principais enquadrados nessas categorias: os cristãos-novos (judeus) e os praticantes de feitiçaria. Entre estes últimos, embora houvesse homens, a grande maioria era de mulheres. Herdeiras da misoginia medieval, também eram muito discriminadas na época moderna.

A perseguição inquisitorial aos judeus convertidos ao catolicismo foi típica, quase exclusiva, dos países da península Ibérica, estendendo-se às suas colônias na América. As feiticeiras foram caçadas em toda a Europa. O período compreendido entre o século XV e meados do século XVI foi marcado pela caça às bruxas.

Além da violência da execução, os processos inquisitoriais admitiam o uso da tortura como meio de obter a confissão das acusadas. Mesmo que escapasse da morte, a mulher não estava livre dos tormentos.

O tribunal religioso recebia as denúncias, interrogava e concluía pela culpa ou não dos acusados. Os considerados inocentes (raros) eram liberados, depois de pagas as custas do processo. Os condenados a cumprir penitência eram mantidos em prisão perpétua pela Igreja.

Os culpados de falta grave, os que não confessavam sua culpa e os reincidentes eram entregues ao poder laico, que, depois de um novo julgamento meramente formal, estabelecia e executava a sentença de morte. A condenação e a execução deviam ser assumidas pelo Estado, pois a Igreja, generosa e caridosa por definição, não podia sujar as mãos com o sangue dos cristãos.

* Expansão do mundo moderno e o outro. A modernidade europeia foi múltipla e diversificada. Foi uma época marcada pelas criações fulgurantes da arte renascentista e pela intolerância em relação ao outro - diferente e, por isso, inimigo -, reafirmada pela renovação religiosa. Nesse período a Europa expandiu suas fronteiras continentais pelo mundo, sem reconhecer limites, como afirmam os versos de Camões, em Os Lusíadas:

Por mares nunca dantes navegados
Nossos mundos ao mundo ião mostrando
E mais mundo houvera lá chegara.

Mas nos novos mundos havia outros povos, diferentes dos europeus. Para cada novo e estranho povo, tratado como o outro, o inimigo, não faltaram fogueiras... e outras penitências!

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 265-269.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Camponeses revoltados e pés descalços na Europa moderna

Revolta camponesa na Alemanha

Os filósofos e os intelectuais discutiam entre si acerca da ciência e da religião e trocavam cartas. Encontravam-se em reuniões, nas "academias", em salões burgueses de grandes damas parisienses ou nos palácios de certos príncipes europeus.

Mas, para uma grande maioria das pessoas, nada tinha mudado.

* Nas grandes cidades, os pobres e os mendigos contavam-se aos milhares. Um padre, Vicente de Paula, fez muito para lutar contra a pobreza.

Vicente de Paula era filho de um camponês das Landes. Capturado por piratas muçulmanos, foi vendido como escravo em Tunis. Conseguiu escapar e ocupar-se, por algum tempo, dos remadores de galeras. As galeras eram navios a remos utilizados no Mediterrâneo, cujos remadores eram prisioneiros ou condenados, por vezes, por um crime, outras por coisa nenhuma (Luís XV enviava os protestantes para as galeras).

Em seguida, Vicente procurou confortar os doentes pobres e as crianças abandonadas.

* Nos campos, os pobres eram ainda em maior número. A situação era diferente de acordo com cada país europeu.

Na Europa ocidental, a "servidão" tinha quase desaparecido, ou seja, o senhor já não tinha toda a espécie de direitos no que dizia respeito aos camponeses. Os nobres recebiam dinheiro pelas terras arrendadas ou uma parte das colheitas. Alguns camponeses tinham enriquecido - eram os "ricos da aldeia" - mas a maioria vivia na pobreza. Os "jornaleiros" sem terras alugavam a sua "força de trabalho" aos mais favorecidos ou iam para as cidades aumentar ainda mais o número dos infelizes.

Na Europa de Leste, a antiga Moscóvia tornara-se no século XVII numa Rússia poderosa com o czar Pedro o Grande a querer imitar os ocidentais. Os nobres possuíam vastas propriedades e eram, ao mesmo tempo, funcionários que executavam as ordens do czar. Os camponeses, na miséria, acabavam por ser reduzidos à servidão e não tinham o direito de abandonar a terra do senhor.

Entre o século XVI e o século XVIII, os camponeses mais miseráveis revoltaram-se um pouco por toda a Europa.

- Ao sul do Império Germânico, uma grande revolta, chamada Guerra dos Camponeses eclodiu em nome da Reforma de Lutero.

Os camponeses reclamavam a supressão de todos os impostos devidos à Igreja. Foram apoiados pelos artesãos das cidades, por soldados e por filhos de camponeses. Estas pessoas do campo queimavam e destruíam castelos e mosteiros. Os príncipes, sem saber o que fazer, cederam a princípio e depois fugiram, como o bispo de Estrasburgo. Mas Lutero, com receio das violências, acabou por dar razão aos príncipes. Os camponeses foram finalmente derrotados, os seus chefes torturados e condenados à morte, e os príncipes luteranos continuaram a ser poderosos e autoritários.

“Só há uma maneira desse 'povinho' fazer sua obrigação. É constrangendo-o pela lei e pela espada, prendendo-o em cadeias e gaiolas, da mesma forma como se faz com bestas selvagens... melhor a morte de todos os camponeses do que a morte dos príncipes... estrangulem os rebeldes como fariam com cães raivosos.." 
(Lutero, conclamando os príncipes alemães a reprimir a revolta camponesa)



Na Alsácia e na Lorena, províncias que nesse tempo faziam parte do Império, foram muitos os revoltosos.

- No reino de França, os camponeses revoltaram-se contra os impostos do rei. Distinguiam-se agora o clero, a nobreza e o "terceiro estado" (os burgueses e os camponeses). O clero e a nobreza eram as "ordens privilegiadas" e não pagavam impostos ao rei. Só o terceiro estado os pagava. Mas, muitas vezes, os habitantes das cidades eram dispensados pelo rei. O imposto caía sobretudo sobre os camponeses. Estes também deviam taxas e impostos à Igreja.

Devido às muitas guerras, o rei, para manter os seus exércitos, tinha cada vez mais necessidade de dinheiro. Homens ao serviço do rei, com o auxílio de "archeiros" (polícias armados), eram encarregados de colectar o imposto. Para mais, entre batalhas, os soldados residiam nas casas dos habitantes e não hesitavam em roubá-los.

Quando os camponeses já não podiam mais com a miséria, quando os impostos aumentavam muito, surgiam grandes revoltas. A sul do reino, mas também na Normandia, na Bretanha e na Flandres, estes "Farroupilhas", "Pés Descalços", "Bonés Vermelhos", "Lustucrus" e "Tamanqueiros" resolveram lutar.

Houve cerca de 500 revoltas na Aquitânia entre 1590 e 1715.

O sino da igreja da aldeia tocava a rebate e os homens punham-se ao caminho encorajados pelas mulheres. Por vezes, eram conduzidos pelo padre da paróquia, e outras eram protegidos por um pequeno senhor. Descalços ou de socos de madeira e com chapéus de abas muito largas, armados de paus e de forquilhas, estes homens juntavam-se aos revoltados das aldeias vizinhas. Saqueavam alguns castelos, pilhavam as caves em busca de bons vinhos e queimavam os papéis dos gabinetes de impostos.

Por vezes gritavam: "Viva o rei sem gabela!"

O rei continuava a ser para eles uma personagem sagrada, mas recusavam que os seus servidores interviessem na vida da sua aldeia e odiavam os "gabeludos", aqueles que recolhiam a gabela.

A revolta terminou mal, de maneira geral, e alguns rebeldes foram enforcados para servir de exemplo. Durante o reinado de Luís XIV, as tropas reais cercavam os camponeses e os prisioneiros eram massacrados ou enviados para as galeras. Luís XIV, que pretendia representar Deus na Terra, conseguiu dominar as revoltas.

No resto da Europa, em Portugal, na Escócia, em Espanha e no sul de Itália, numerosos grupos de camponeses se revoltaram. E na Rússia um chefe cossaco (um povo que permanecera nómada a sua da planície russa), Stenka Razine, encabeçou uma enorme multidão de camponeses revoltados. Esmagado pelas tropas do czar, foi condenado à morte e torturado. No século XVIII, um outro cossado, Pugatchev, fez com que se revoltassem milhares de camponeses ao fazer-se passar por um czar destronado. Prometeu a supressão dos impostos, da servidão e a distribuição de terras.

A czarina Catarina mobilizou vários exércitos para dominar essas revoltas, mas, depois destas, os problemas nunca mais acabaram completamente na vastidão dos campos da Rússia até as revoluções do século XX.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 204-209.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A escrita, uma invenção que separou os homens

O escriba sentado (detalhe)

A escrita apareceu cerca de 3300 a.C. com o registro e o controlo dos bens armazenados que se encontravam no templo da cidade de Uruk.

Escrever é produzir um conjunto de sinais, de figuras, que referenciam objectos e acontecimentos. É um modo de fixar uma palavra ou um acontecimento. Para nós a escrita é indispensável. E os textos antigos são testemunhos insubstituíveis que nos dão informação sobre o passado.

[...]

[A escrita: uma invenção reservada aos instruídos] A escrita constituiu uma novidade extraordinária, um utensílio formidável que alterou a maneira de pensar e de compreender o mundo, para aqueles que tiveram a oportunidade de a utilizar. Transformou as relações entre os homens e as trocas entre os vivos. E também a comunicação entre os vivos e os mortos, graças aos escritos, aos textos transmitidos pelo passado.

Durante alguns milhares de anos, ela foi apenas praticada por uma pequena minoria de gente "instruída", em alguns lugares excepcionais. A grande maioria dos homens e das mulheres viveu fora dessa grande aventura. Os seus sentimentos, as suas alegrias, terrores, sofrimentos e esperanças estão para sempre condenados ao silêncio das tumbas e da terra.

[Os excluídos da história escrita] A partir do momento em que a escrita foi inventada, uma nova diferença apareceu entre os homens. Houve aqueles de quem a história reteve o nome e no-lo transmitiu, personagens poderosas, artistas, escritores... E houve milhões de outros dos quais jamais conheceremos os nomes. São os anónimos, os "nunca mencionados". Estes fazem parte da História, mas a história escrita ignorou-os durante muito tempo. Historiadores, hoje em dia, buscam meios de recuperar os vestígios desses excluídos.

[Os sinais antigos da escrita: os pictogramas] Nos primeiros tempos, a escrita consistia em milhares de sinais sem relação com a língua falada. Os pictogramas são os desenhos simplificados de um objecto, de um ser vivo ou de uma acção. Os ideogramas representam ideias. Ainda são usados hoje na China e no Japão. Os do Egipto chamavam-se "hieroglifos". Havia assim especialistas da escrita, os escribas. Eram funcionários dedicados aos sacerdotes e ao rei e encarregavam-se da contabilidade. Também relatavam os grandes feitos dos reis, os seus combates e as suas vitórias. Estavam, desse modo, do lado dos privilegiados que dominavam os camponeses, os artesãos e os escravos.

[O alfabeto e os novos sinais: as letras] Progressiva e lentamente, a escrita, inventada no Médio Oriente, transformou-se: os sinais serviram para representar não os objectos mas os sons. A lista destes novos sinais, as letras, é o alfabeto.

Cerca de - 1380, os cananeus, baptizados "fenícios" pelos gregos, tinham criado pontos na costa do Mediterrâneo oriental. Como eram grandes mercadores e navegadores, procuraram uma escrita mais simples. O alfabeto fenício foi adoptado, com algumas modificações, pelos hebreus, pelos gregos, pelos etruscos em Itália e pelos árabes. Há quem pense que foi o alfabeto etrusco que inspirou o alfabeto latino cujas letras são ainda as nossas. Outros pensam que o alfabeto latino deriva diretamente do alfabeto grego.

Trata-se de uma simplificação formidável, porque os sons das línguas humanas são limitados pela forma da nossa língua e das nossas cordas vocais. O número de letras pôde assim ser reduzido para menos de uma trintena.

[Os primeiros especialistas da escrita: os escribas] Na Mesopotâmia, no Egipto ou na China, os escribas estavam ao serviço dos reis e do Estado. Depois da invenção do alfabeto, os "letrados", os que conheciam as letras, tornaram-se um pouco mais numerosos. Mas ignoravam e desprezavam, em geral, os "iletrados", camponeses, artesãos e escravos que os rodeavam. Eles não os viam como homens e mulheres semelhantes a si mesmos, mas como animais estranhos ou como objectos. Se falavam deles nos seus escritos, era sem verdadeiramente os compreenderem, sem nunca se tentarem pôr no lugar destes.

[Os iletrados: contadores de histórias e portadores de memórias] Deste modo a escrita agravou a divisão existente entre aqueles que tinham o privilégio de ler e de escrever, e todos os outros.

Não esqueçamos, no entanto, que os inventores da agricultura, da criação de gado e da cerâmica eram "iletrados"! Durante milhares de anos, e ainda hoje, camponeses e artesãos transmitiram oralmente através da palavra, as suas tradições e experiências. Entre os inumeráveis grupos humanos que permaneceram e ainda hoje permanecem fora da escrita, certas personagens têm uma memória notável. Os contadores de histórias falam dos seus antepassados e as suas narrativas e lendas são uma outra maneira de reencontrar o passado. Pelos gestos e pela boca dos que falam, o passado permanece vivo e transmite-se de geração em geração.

CITRON, Suzanne. A História dos Homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 45-50.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O cotidiano na Europa Medieval

Vida cotidiana: primavera. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

O baixo crescimento da população resultava do elevado número de mortes, pois a média de vida, na época, não ultrapassava os 40 anos de idade. Os historiadores calculam que, de cada 100 crianças nascidas vivas, 45 morriam ainda na infância. Era comum a morte de mulheres durante o parto e os homens jovens morriam nas guerras ou vítimas de doenças para as quais ainda não se conhecia uma cura.


Vida cotidiana: sopa. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

A fome vitimava principalmente os camponeses, mas a falta de higiene pessoal, de água tratada e de um sistema de esgoto, provocou surtos de epidemias que mataram milhares de pessoas.


Vida cotidiana: vômito. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Numa população supersticiosa, que interpretava todos os acontecimentos naturais como expressão da vontade divina, a doença era vista como punição pelos pecados. Para se livrar desses pecados, as pessoas faziam então penitências, compravam indulgências e procuravam viver de acordo com os mandamentos da Igreja.


Vida cotidiana: medicina. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

O matrimônio só se tornou um sacramento da Igreja a partir de 1349, que também tornou o casamento indissolúvel e proibiu a poligamia e o concubinato. Para a Igreja, a única finalidade do sexo era a procriação e, por isso, os cristãos deveriam regular a frequência e os limites do ato sexual.


Vida cotidiana: coito. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Casamentos assim, sem que os noivos sequer se conhecessem, acabavam abrindo espaço para grande número de relações extraconjugais, embora os padres ameaçassem os adúlteros com o "fogo do inferno". Por isso, a literatura medieval é tão fértil em romances proibidos, envolvendo quase sempre mulheres casadas e homens solteiros.


Vida cotidiana: insônia. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Nas famílias camponesas, todos trabalhavam muito. Além de cuidar das terras do senhor do feudo, homens, mulheres e crianças faziam a colheita, moíam os grãos e construíam pontes, estradas, estábulos e moinhos. Ao mesmo tempo, cultivavam seus lotes e cuidavam dos animais e dos trabalhos artesanais e domésticos.


Vida cotidiana: ordenha. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Os camponeses viviam em cabanas cobertas de palha, com o piso de terra batida e a área interna escura, úmida e enfumaçada. Em geral, as cabanas tinham apenas um cômodo, que servia para dormir e guardar alimentos e até animais. Os móveis, bastante rústicos, resumiam-se à mesa e bancos de madeira e aos colchões de palha.


Vida cotidiana: mobília. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

No almoço ou no jantar, comiam quase sempre pão escuro e uma sopa de vegetais, legumes e ossos. Carne, ovos e queijo, caros demais, só em ocasiões especiais. E em vários períodos houve a falta de alimentos e a fome se espalhou por muitas regiões da Europa, vitimando, é claro, os mais pobres.


Vida cotidiana: produzindo massa. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Na mesa dos nobres, entretanto, não faltava uma grande variedade de peixes e carnes, quase sempre secas e salgadas, para se conservar durante o inverno. No verão, para disfarçar o gosto ruim e o mau cheiro da carne estragada, a comida era cozida com especiarias e temperos fortes, raros e exóticos, que vinham do Oriente, custavam caro e eram difíceis de obter. O vinho era consumido em grande quantidade em quase todas as regiões, e os habitantes do norte da Europa também costumavam consumir cerveja.


Vida cotidiana: vinho. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

As moradias dos nobres também se modificaram bastante, ao longo do tempo. Até o século XII, seus castelos se resumiam a uma torre, onde habitava a família do senhor, e eram feitos de madeira. A partir de 1200, tornam-se comuns as construções de pedra e tijolos. A mobília também se sofisticou e os nobres passaram a usar tapeçaria e pratarias vindas do Oriente.


Vida cotidiana: sono. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

As roupas e os sapatos da época eram bastante volumosos e escondiam quase inteiramente o corpo, especialmente o da mulher. As mais jovens até chegavam a revelar o colo, mas a Igreja sempre desaprovou os decotes.


Vida cotidiana: cultivo de rosas. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

O vestuário básico das mulheres incluía roupa de baixo, saia ou vestido longo, avental e mantos, além de chapéus. Na época, cabelos presos identificavam a mulher casada, enquanto as solteiras usavam cabelos soltos.


Vida cotidiana: vestuário feminino. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Para os homens, o vestuário se compunha de meias longas, até a cintura, culotes, gibão, chapéus de diversos tamanhos e sapatos de pontas longas. Os tecidos variavam de acordo com a condição social dos cavaleiros, o clima, a ocasião e local e, nos dias de festa, por exemplo, usavam ricas vestimentas. E festa é o que não faltava, o ano inteiro, nas feiras e nas datas religiosas e profanas da Europa Medieval. Tanto nos castelos quanto nas vilas, aldeias e cidades, em tempos de fartura, tudo era motivo para comer, beber e dançar, com fantasias, máscaras, procissões, muita alegria e até com certos excessos.


Vida cotidiana: vestuário masculino. Miniatura do séc. XIV. Artista desconhecido

Os camponeses, apesar do sofrimento e da penúria, gostavam de festas, danças e músicas.


Vida cotidiana: diversão. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Os jogos e a bebida, bastante comuns nas tavernas de todas as cidades, atraíam os homens, que consumiam muito vinho, jogavam dados e se envolviam em brigas e confusões. Por isso, os padres amaldiçoavam as tavernas, apontadas como antros de perdição.


Vida cotidiana: luta. Miniatura medieval do séc. XIV. Artista desconhecido

Nas cidades, aglomeravam-se e conviviam todos os tipos de pessoas e profissões: ricos comerciantes, taberneiros, artesãos, padeiros, relojoeiros, joalheiros, mendigos, pregadores, menestréis, etc. E na periferia das cidades, bastante discriminados pela maioria da população, viviam outros grupos: judeus, muçulmanos, hereges, leprosos, homossexuais e prostitutas, que estiveram entre os mais perseguidos e reprimidos pela Inquisição, a partir do século XII.

ANASTÁSIA, Carla. Encontros com a História. Curitiba: Positivo, 2007.